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Evidências de comprometimento da sexualidade

No documento hilamartinscamposfaria (páginas 87-91)

7 RESULTADOS E DISCUSSÃO

7.1 Grupo de Suporte

7.1.1 Indicadores de análise individual

7.1.1.3 Evidências de comprometimento da sexualidade

É curioso observar que o comprometimento da sexualidade aparece mais pela perda do cabelo do que pela perda ou deformidade da mama. Estrelícia afirmou que “não fará

amor” (58 anos / 3a sessão) enquanto seu cabelo não voltasse a crescer, apesar de ter sido retirado um quadrante da mama. Tulipa, mesmo sendo separada e não tendo um companheiro, disse:

Eu acho que se eu tivesse marido seria difícil. Para falar a verdade, nem tanto pela mama, é pelo cabelo. Eu teria mais dificuldade de ter que tirar o lenço para dormir do que a mama, talvez por causa da minha idade, já é outra relação assim, eu fiquei casada 27 anos... é outra intimidade, mas eu acho que a mama não pesou muito não, pesou o cabelo. (Tulipa, 63 anos / 8a sessão)

É notório que a falta do cabelo causou muito mais sofrimento à Tulipa do que a perda da mama. Talvez pelo fator idade, já que com uma idade mais avançada a mama passa a receber menos investimento sexual, e também por ela ter a mama reconstruída. Tulipa explicou:

Se eu tiver um relacionamento sexual hoje em dia... não é como jovem, entendeu, que tem sedução. Já é mais carinho mesmo, já é mais intimidade, não é com esse foco (da sedução), quer dizer, eu acho que eu não vou precisar de colocar uma camisolinha transparente e curta, eu acho que é por isso que para mim não tem problema nenhum, nem de mostrar, nem vou ter problema nenhum de trocar de roupa na frente de um homem, não vou ter, mas o cabelo! (Tulipa, 63 anos / 8a

sessão)

Já Magnólia falou de uma grande frustração por não ter se casado e nem ter sido mãe, além de ser virgem, mas nem por isso deixou de manifestar sua sexualidade:

[...] tenho uma paixão por isso... eu sempre tive vontade de casar e ser mãe.

(Magnólia, 76 anos / 6ª sessão)

Para ela, a beleza dos seios é relacionada ao matrimônio:

Meu sobrinho falou comigo assim: “tia Magnólia, você tem os seios lindos, não sei por que a senhora não casou”. (Magnólia, 76 anos / 8a

sessão)

Os seios são muito valorizados por Magnólia, assim como tudo aquilo que representa a mulher, o feminino – marido, filhos, roupas e acessórios (constantemente faz elogios ou comentários a este respeito). Talvez por não ter correspondido ao que a sociedade contemporânea espera de uma mulher, como casar e ter filhos, busca constantemente tudo aquilo que identifica o feminino na tentativa de se reafirmar nesse lugar. Para Magnólia, a mama “é a parte que mais destaca na mulher, porque é logo em cima, né?” (Chora) (Magnólia, 76 anos / 8a sessão).

Em alguns casos é possível observar que não houve nenhum prejuízo da sexualidade, independente das sequelas físicas apresentadas. Rosa afirmou que se sentiu normal durante e após o tratamento: “meu companheiro é muito companheiro” (60 anos / 8a

na mesma sessão, que o seu cabelo não caiu todo e, como sua cirurgia foi conservadora, a mama não foi danificada, assim:

[...] não me senti constrangida e nem ele me cobrou nada, não deixou transparecer nada também, em relação à sexualidade, não me senti diminuída nem constrangida e ele não passou isso para mim, nessa parte graças a Deus eu estou bem. (Rosa, 60

anos / 8a sessão)

Nesse caso, o não comprometimento da sexualidade parece estar mais relacionado à vida conjugal harmoniosa e a um suporte familiar/social satisfatório do que com a preservação da mama íntegra, sem danos provocados pelos tratamentos e com o cabelo que não caiu por completo. Isso se confirma pelo discurso de Hortência, que perdeu todo o cabelo e aguardava para realizar a mastectomia total. A mulher falou de como se sentia na relação com o seu corpo e com o marido:

Para mim é normal, eu não sinto que ele mudou em nada, não sei se é para agradar, mas eu acho que não. Meu marido é simples. (Hortência, 48 anos / 9a

sessão)

A falta de apoio do companheiro e a fragilidade do relacionamento também interferem na maneira como a mulher lida com a sua sexualidade. Estrelícia colocou uma diferença entre ter marido e ter namorado, demonstrando insegurança na relação amorosa. Ela entende a condição de seu relacionamento como frouxo, pouco estável e vulnerável. A consequência é um distanciamento na vida sexual do casal e um sentimento de raiva do “namorido”, como denominou a relação que tem com o seu companheiro:

Só vai me olhar quando eu estiver boa, pode me encarar? Vai me encarar, do contrário, se quiser arrumar outra, pode, pode ir embora. (Estrelícia, 58 anos / 9a

sessão)

Ao mesmo tempo, é possível observar que o desejo sexual não deixou de existir:

Eu, se mexer, pega fogo... eu não deixo o (nome) encostar em mim enquanto eu não estiver boa, mas se mexer tem. (Estrelícia, 58 anos)

Camélia foi a participante que trouxe de maneira mais marcante e intensa as suas experiências sexuais, por ter sofrido muitos anos de abuso sexual, físico, moral e psicológico.

Somado à violência, o adoecimento por câncer de mama veio a intensificar as suas dificuldades no âmbito da sexualidade:

[...] não tiro a parte de cima (da blusa), só isso. Na frente do meu marido, não (ênfase). Igual eu te disse, ele é novo e eu já estou com a validade bem vencida, o cara já está com uma mulher com a validade vencida, cheia de problema, câncer e tudo e ainda faltando pedaço. (Camélia, 56 anos / 8a sessão)

O fragmento grifado retrata que existem muitos fatores que a colocam em desvantagem em relação ao companheiro, destacando o câncer e a falta de uma parte da mama. O seu relato chegou a chocar e a “deprimir” o grupo em diversos momentos:

Sou mais macho do que tudo... eu só dou prazer, eu não tenho prazer... para mim tanto faz, eu sou apenas uma máquina... para mim tanto faz se ele chega e usa, abusa e tchau. (Camélia, 56 anos / 10a sessão)

Camélia desvalorizou a si e a seu corpo, colocando-se no lugar de objeto de prazer. Em contrapartida o grupo não fazia julgamentos a este respeito, não recriminava o comportamento e a maneira de pensar de Camélia, ao contrário, procurava ajudá-la: “Você

tem carne, tem vida.” (Estrelícia, 58 anos); “Não é ele que está te rejeitando, é você que está se rejeitando” (Rosa, 60 anos).

Camélia mostrou que apesar do comprometimento da sua sexualidade se dever, sobretudo, à experiência de violência, o adoecimento por câncer de mama veio a contribuir para o agravamento do quadro:

Até antigamente eu achei que eu era doente, não tinha libido, não tinha caldinho (fazendo referência à lubrificação vaginal )... acho que eu nasci meio macho, por causa do efeito do outro (agressor). Aí quando eu conheci esse (atual companheiro) eu me tornei outra pessoa, aí quando veio essa porcaria (o câncer) acabou tudo. (Camélia, 56 anos)

Apesar de Camélia manter um discurso de autodesvalorização, iniciou-se um processo de elaboração que se evidencia pela forte emoção suscitada durante as intervenções do grupo e a posterior compreensão dos motivos que a levaram às suas dificuldades de relacionar-se com homens. Nas relações anteriores, com o pai e depois com o ex-marido, ela estava sempre no lugar de “resto”, não podendo sair deste lugar com o atual companheiro (repetição).

Ele já me pegou sendo homem. Por que eu criei quatro filhos sozinha e um marido, apanhei pacaramba, tive que colocar tudo dentro de casa. Aí quer dizer, eu me tornei mais masculina. Aí outro dia ele me chamou de sapatão. (Camélia, 56 anos)

A representação que Camélia tem dos homens é negativa, mas ao mesmo tempo de um ser fálico e poderoso. Assim, ao dizer que o marido a conheceu “sendo homem”, estava se referindo ao fato de ter suportado muitas dificuldades (o que só seria possível ao homem que, na sua concepção, é forte e poderoso). Já o comprometimento da sexualidade, explicitado através da fala do marido quando a nomeia de “sapatão”, devido ao fato de Camélia não sentir prazer durante a relação sexual, refere-se às marcas do trauma vivenciado na violência sexual que sofrera do ex-marido. Portanto, para Camélia, os significantes “mulher” e “homem” têm significados muito peculiares. O primeiro representa uma posição de subjulgo, de passividade e de objeto, contrapondo-se ao segundo que representa poder e força. Dessa forma, na tentativa de sair da posição de inferioridade, que tanto a fez sofrer, nomeia-se como “macho”, buscando superação de um lugar que a coloca em desvantagem na relação com o outro. Observa-se, pois, que os discursos “sou mais macho do que tudo”, “acho que nasci meio

macho” não se referem a um homossexualismo e sim a uma posição de estar no mundo.

No documento hilamartinscamposfaria (páginas 87-91)