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Antes (28 e 29 de maio de 2013)

No documento hilamartinscamposfaria (páginas 117-120)

7 RESULTADOS E DISCUSSÃO

7.1 Grupo de Suporte

7.2.1 Camélia

7.2.1.1 Antes (28 e 29 de maio de 2013)

Na entrevista inicial, Camélia afirmou que o câncer e a quimioterapia a que se submetera foram os responsáveis pelo surgimento de outros adoecimentos, sendo citados por ela a diabetes, a osteoporose, problema no útero (endométrio) e na titreoide (mito):

Com a quimio, aí foi dando esses negócios... (28 maio 2013)

Também apresentou sua crença de que o câncer não tem cura:

Não tem cura e... quando mexe ele, ele progride. Eu não sei, é que todos, da minha família, que foi mexido... o negócio andou rápido. Quer dizer, eu não tinha nada no útero, agora eu tenho. Eu não tinha esse tal de... problema na tireoide, agora tem. A diabete. Osteoporose. Isso tudo foi depois do câncer. Aí eu acho, assim, que cada dia que eu vou num médico, pede um exame, já provoca outra coisa. Aí dá vontade de você largar, jogar tudo pro alto, entendeu? (29 maio 2013)

Camélia demonstrou revolta e medo da morte:

[...] revoltada que eu digo, assim: „poxa, eu queria ver a minha neta crescer, né?‟ Menininha tem um ano e dez meses”; “... eu tinha mania de celular. Não podia ver um, fazia troca daqui, troca dali, arrumava um jeito, pegava. Eu desfiz de tudo. Era minha paixão ... porque não ia caber no caixão. (29 maio 2013)

Aí isso lá vem na cabeça, foi o do seio que desceu. Eu já vou fazer a coletagem (curetagem) no sentido de tá com câncer, entendeu? (29 maio 2013)

Observa-se também a presença de angústia e sentimentos depressivos relacionados à notícia do diagnóstico:

Pra te dizer a verdade, na hora não me importei, não. Nem na primeira semana. Aí teve um dia que a casa caiu [risos]. Aí fui pra debaixo do chuveiro, chorei, chorei, mas também desabafei com ninguém, não. Aí chorei bastante, botei o rádio bem alto e comecei a chorar... eu estava tentando ser forte. Aí depois disso foi umas... várias vezes eu fui pra debaixo do chuveiro. Mas nunca na presença de ninguém. Agora, ultimamente que eu estou ficando nervosa, que eu estou falando que vou largar isso tudo pra lá. (29 maio 2013)

Observa-se aqui uma negação inicial do diagnóstico (“na hora não me importei

não”) e depois não podendo mostrar sua dor, tentando “parecer forte”, mas que acaba se

tornando insuportável (“ultimamente que eu estou ficando nervosa... vou largar isso tudo pra

lá”).

Camélia apresentou um misto de revolta e sentimentos depressivos, buscando, defensivamente, conforto nos casos que considera pior do que o seu, fato este também apontado por outras mulheres, tanto no grupo quanto nas entrevistas:

Ah, eu não sei explicar, tem hora que não acredito que Deus existe, tem hora que acredito demais [...] tem hora que eu olho pra trás e vejo coisa pior... aí, as lágrimas descem ... „poxa, estou chorando por causa de porcaria‟. Aí lá em casa tem aquela tevê [...] por assinatura. Aí eu vejo aqueles casos, assim, daqueles pessoas que têm aqueles tumor no rosto, aí eu fico falando „poxa, o meu não é nada. Conviver com aquele ali que é igual um monstro [...]‟. Aí na mesma hora que eu acho que não é nada, eu fico [...] assim [...] compadecida com a pessoa, depois eu penso „por que eu? O que que eu fiz pra ter esse monte de infarto?, pra ter agora câncer e agora vem esse útero que eu não sei o que que tem lá dentro?‟

(29 maio 2013)

Com relação à imagem corporal, Camélia não fez nenhuma menção à mama ou à falta dos cabelos, apenas ao fato de se sentir “mais gorda”. Contudo, no grupo, falou do incômodo com os “seios tortos” (disse que cada seio “dá seta para um lado”).

Sobre a sua sexualidade, manifestou um comprometimento, porém o atribuiu, principalmente, à violência, física e sexual, que sofrera do ex-marido, apesar de reconhecer uma influência do tratamento para o câncer:

Eu acho que eu não sinto prazer ... pode ser os tratamentos também, ajudou a piorar, mas [...] já vinha do passado ... que meu marido me batia pra [...] ter relação. (29 maio 2013)

Acerca da qualidade das relações social e familiar, Camélia fez referência ao que mudou em sua vida após a descoberta do câncer, podendo ser verificado um quadro de isolamento social:

Ah, eu fiquei, assim, mais... assim, pras pessoas eu continuei igual, ou melhor. Mas, pra mim, eu fiquei mais fechada ... eu fico mais, assim, no quarto, mexendo no [...] celular... entendeu? É... Não é igual antes, eu gostava de sair pra caramba. Agora não ligo mais pra isso. (29 maio 2013)

Contudo, manifestou sua vontade de fazer algumas atividades na UFJF, porque gosta e não por recomendação médica:

Eu vou começar a participar, na universidade, de dança, que eu gosto muito, caminhada, alongamento e hidroginástica. Que eu sempre gostei disso. (29 maio

2013)

Também disse ter amigos e se sentir bem em ambientes sociais:

Eu tenho amigos, amigos. Aonde eu vou, eu faço... no bairro onde eu morava, eu tenho amigos lá, de trinta anos... (29 maio 2013)

Apesar de preferir estar “Sozinha, no meu cantinho, ouvindo música e mexendo no celular” (29 maio 2013).

A relação com um dos filhos não era das mais satisfatórias:

Ah, é... bem, mas o meu filho mais velho tá me dando um pouco de... tristeza ... tá ficando egoísta. Eu não criei filho assim, não. Quer tudo pra si, entendeu? (28

maio 2013)

Sobre o seu sentimento de apoio familiar Camélia falou:

Ah, eu não sei, a gente não comenta muito, não, porque eu levei o... o negócio, assim... eu não levei muito a sério. Eu levei pelo lado, assim, mais... humorístico do negócio. Aí eu não senti muita diferença, não deu problema pra ninguém. (28

Neste discurso é possível perceber a presença da defesa maníaca, bastante recorrente em Camélia, também durante os encontros do grupo, buscando, dessa forma, proteger-se de todo o sofrimento decorrente do adoecimento.

Camélia não se sentiu apoiada pela família, além de ter rejeitado ajuda:

Não, não. Ninguém se... também não quero, também não quis... eu fiz tudo sozinha.

(28 maio 2013)

A paciente negou a sua expectativa de apoio, o que contradiz o seu desejo de ser “paparicada” manifesto no grupo, e com a queixa da falta de apoio dos filhos, do marido e do irmão mencionadas na entrevista após o grupo (relatada mais adiante).

Camélia negou a gravidade da doença, na tentativa de neutralizar o fantasma da herança familiar:

Família que todos têm câncer, aí o negócio já é natural ... aí, quer dizer... é igual eu falo, ele é meu, não é de ninguém, então que que adianta ficar incomodando os outros? (28 maio 2013)

Sobre o ambiente social afirmou sentir-se apoiada:

Quem mais, assim, assim, ficou apavorado, é colegas, amigos... isso que eu falei, não há motivo pra isso. Tive (apoio) [...] é, tudo ficaram, assim... interessando, conversando, essas coisas. Eu falei: „não precisa disso, gente. Eu não... eu não estou doente, assim, da cabeça. [risos] Isso é um câncer‟. Já tive quatro infarto, três parada cardíaca, três isquemia. Um câncer não é nada.

Percebe-se que, diante de tantas ameaças de morte (inclusive pela violência sofrida), precisa de grande defesa para não enlouquecer e não se deprimir:

[...] sei lá, eu procurei não levar... o negócio a fundo, entendeu? Eu sei que o negócio é grave, pô, aí. Eu não levei a fundo o negócio ... a gente fica deprimida, fica chorando, pensando no dia de amanhã... amanhã a Deus pertence, eu vivo o dia. (28 maio 2013)

No documento hilamartinscamposfaria (páginas 117-120)