Cap í tulo 4
Foto 52 Antigo prédio escolar na Propriedade Mingoti
Um dos produtores entrevistados citou que antes, ainda nos anos 1960, o estudo consistia num privilégio entre os moradores rurais. Segundo o produtor, o ‘normal’ era que a criança estudasse o primário para depois, já com 12 anos de idade, servir como mão-de-obra na lavoura. “Pelo menos o primário era importante”, completou o produtor. As salas eram mistas e o calendário escolar seguia os tempos de colheita e plantio da uva.
Foto: Elias Oliveira Noronha; Data: 05 de abril de 2007.
Em relação ao segundo aspecto: no Bairro Rural da Toca, 60,0% (12) do total de produtores rurais recebem algum tipo de recurso previdenciário. N o Bairro Rural da Roseira, o percentual de produtores que recebem recursos previdenciários apresenta-se
de forma mais expressiva, representando 64,5% (20) do total de produtores rurais
entrevistados. De certa forma, todos os produtores rurais disseram receber a previdência social rural por tempo de trabalho no campo, o que corrobora a idéia de produtores com idade superior a sessenta anos.
Quando perguntado se havia outra pessoa da família recebendo algum recurso previdenciário, a resposta foi a seguinte: no Bairro Rural da Toca apenas 30,0% (6) afirmaram receber algum tipo de recurso que, neste caso, corresponderia ao benefício recebido pelas esposas; no Bairro Rural da Roseira, por sua vez, 29,0% (9) dos produtores responderam existir outra pessoa da família recebendo via previdência social outro tipo de recurso. As pessoas que recebem algum outro tipo de recurso previdenciário compreendem o cônjuge, especialmente as viúvas que, após a morte do marido, recebem tanto aposentadoria quanto pensão.
Na próxima seção será feita uma análise do grupo familiar, o que revela a presença de famílias não extensas como no passado e a permanência de outras famílias, notadamente dos filhos, com o objetivo de apenas residir na propriedade rural.
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4.1.3 Perfil das famílias estudadas
O exercício de caracterizar o perfil da família estudada é de suma importância ao estudo da pluriatividade. Entende-se que a família, como uma instituição
social dinâmica, seja capaz de sofrer adaptações e, simultaneamente, desenvolver
estratégias individuais e também coletivas com vistas à reprodução social e econômica no campo.
Para Balsadi (2002), uma das modificações ocorridas no âmbito das ocupações rurais e, sobretudo, em relação à população que vive da agricultura no Estado de São Paulo foi a mudança na estrutura familiar. Para o autor, as famílias rurais deixam de ser nucleadas, passando a adotar outras estratégias de reprodução social, ou mesmo, de orientação de trabalho.
Com efeito, cada unidade produtiva familiar é singular, ou seja, é o grupo familiar que vai organizar de forma distinta e, sobretudo, específica, suas estratégias de sobrevivência e de permanência no campo, o que requer análises mais apuradas da realidade social dessa forma de produção em situações diversas. Assim, durante a realização da pesquisa de campo realizada nos Bairros Rurais da Roseira e da Toca cada unidade produtiva familiar foi considerada específica, conquanto as análises posteriores tenham identificado processos e dinâmicas gerais, tais como:
a) diminuição do número de pessoas na família;
b) diferença entre o número de pessoas que moram e que participam
diretamente do processo de trabalho na agricultura;
c) saída de membros da família para o exercício de atividades externas à
propriedade; e,
d) a permanência dos filhos casados na propriedade com o objetivo de
apenas residirem.
Dessa forma, tendo em vista as especificidades da produção agrícola familiar nos Bairros Rurais da Roseira e da Toca, cada elemento supracitado será mais bem
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analisado. Assim, para qualificar tais aspectos foi o rganizada inicialmente a tabela 22,
cujo objetivo é apresentar o número e a média de pessoas por família entrevistada.
Tabela 22: Número de pessoas por família
Bairro Rural da Toca Bairro Rural da Roseira
Número de pessoas Número /
famílias % Total / pessoas Número / famílias % Total / pessoas 2 7 35,0 14 11 35,5 22 3 7 35,0 21 8 25,8 24 4 2 10,0 8 8 25,8 32 5 3 15,0 15 4 12,9 20 6 1 5,0 6 - - - Total 20 100,0 64 31 100,0 98
Média de pessoas por família entrevistada 3.2 3.16
Fonte: Trabalho de Campo (Abril/Maio – 2007); Organizador: Elias Oliveira Noronha
A partir da tabela 22 fica evidente que existe o predomínio de famílias
com apenas duas pessoas, correspondendo, portanto, aos casais que permanecem na propriedade rural após a saída dos filhos. No Bairro Rural da Toca, o percentual de famílias com apenas duas pessoas equivale a 35,0% (7) do total de pesquisados. No Bairro Rural da Roseira, por sua vez, as famílias com apenas duas pessoas comparecem em 35,5% (11) do total de famílias. Igualmente as famílias com três pessoas comparecem em 35,5% (7) no Bairro Rural da Toca e em 25,8% (8) no Bairro Rural da Roseira.
Percebe-se também que as famílias com mais de três pessoas tendem a apresentar baixa expressividade, o que convalida a idéia de que os grupos familiares
tenham sofrido uma diminuição do número de pessoas em relação aos anos 1970 (Foto 53)
quando, segundo um produtor rural, era comum a existência de famílias extensas, uma vez que os filhos permaneciam mais tempo na propriedade. De acordo com o produtor rural, o tamanho da propriedade e os bons resultados da produção de uva tornavam possível a permanência dos filhos na atividade agropecuária mesmo após casados.
Ainda segundo esse produtor, atualmente, em decorrência dos limites do tamanho da propriedade e, sobretudo, pelos baixos resultados econômicos obtidos com a produção agropecuária – em particular a uva –, os filhos se casam e seguem vivendo na propriedade, conquanto não fiquem mais envolvidos com a atividade. Dessa forma,
174 salienta-se que a sucessão hereditária é um elemento importante na manutenção do patrimônio familiar, mas não determinante em relação à continuidade no desenvolvimento das atividades agropecuárias.
Foto 53: Família Mingotti – Bairro Rural