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Urbanização difusa: aspectos teóricos

No documento ELIAS OLIVEIRA NORONHA (páginas 100-103)

Cap í tulo 3

3.1 Urbanização difusa: aspectos teóricos

O objetivo dessa seção é analisar alguns aspectos do processo de urbanização contemporânea no Município de Jundiaí. Parte-se da premissa de que o processo atual de urbanização tem conformado uma realidade espacial mais complexa.

Além disso, pressupõe-se que a realidade espacial na qual o Município de Jundiaí está

situada – contexto regional altamente urbanizado e industrializado – encontra-se muito próxima aos processos ocorridos no âmbito da urbanização difusa ou reticular tomada como referência por Dematteis (1998) e difundido por Sposito (2004b) em pesquisa realizada sobre os centros urbanos paulistas.

Entende-s e q u e a urbanização difusa ou reticular, m a r c a d a

especialmente pela dispersão das manchas urbanas, não se homogeneíza pelo território, sendo possível situá-la em contextos espaciais em que a dinâmica urbana tem se apresentado de forma predominante, mesmo que não de maneira exclusiva. Em resumo, o processo de urbanização difusa pode ser compreendido a partir da dispersão das formas urbanas e, de acordo com Whitacker (2006), a partir da fragmentação territorial da cidade. Para este autor, o processo de urbanização deve ser apreendido a partir de uma perspectiva histórica, uma vez que a cidade é resultado de uma sociedade que, de forma contraditória e desigual, a reproduz e dela se apropria.

100 Tais aspectos, característicos da cidade atual, cada vez mais diversa e dispersa, estão intimamente associados ao surgimento de novas centralidades decorrentes dos novos equipamentos de consumo e dos novos espaços de habitação e também das novas práticas socioespaciais de segmentação (WHITACKER, 2006). Para o autor, a criação dessa ‘nova cidade’ pode ser associada às distintas conformações assumidas pelo capitalismo, resultando na combinação e sobreposição de lógicas pretéritas e atuais.

Para analisar a relação rural/urbano a partir das formas espaciais no contexto de urbanização difusa será feita, inicialmente, uma discussão teórica sobre a relação cidades/urbanização e, posteriormente, uma análise do processo de produção do espaço urbano e suas implicações aos espaços rurais: um confronto entre duas lógicas. De um lado, a lógica urbana, cada vez mais intensa e, de outro, a lógica rural, cada vez mais diversa e, portanto, complexa (SOUZA, 2005).

3.1.1 Urbanização e cidades: pontos para reflexão

Para Sposito (2004b; 2006a), a urbanização pode ser analisada como um processo multifacetado no qual denota-se uma pluralidade de acepções e leituras, a saber: a) transformação material de espaços não-urbanos em urbanos; b) aumento relativo da população vivendo nas cidades; e, c) análise e apreensão paisagística das formas e funções

urbanas33. Para a referida autora: a urbanização somente pode ser compreendida tendo

como pano de fundo uma dimensão histórica, constituindo-se num processo complexo. Assim sendo, a urbanização une, de forma dialética, o tempo e o espaço em suas diferentes escalas (SPOSITO, 2004b; 2006b).

Para Whitacker (2006), a cidade deve ser entendida como o processo de cristalização da urbanização. Já para Sposito (2004b) a cidade é entendida, ao mesmo tempo, como um conceito e uma realidade material expressa na forma urbana e carregada de um conteúdo singular, desempenhando, por sua vez, múltiplos papéis e funções na história. Souza (2005), por sua vez, compreende a cidade como uma entidade sócio-espacial complexa.

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Para Sposito (2004b), a urbanização pode ser considerada como uma das principais marcas do século XX, sendo possível, de um lado, perceber a intensidade deste processo em decorrência da proporção de pessoas vivendo nos espaços urbanos e, de outro, do aumento do número e tamanho das cidades.

101 Dessa forma, a cidade, como uma dimensão geográfica da realidade – visível e materializada – somente pode ser entendida a partir de sua complexidade, exigindo, portanto, a compreensão e articulação ao contexto geográfico no qual está inserida e, com a organização do campo. Pela mesma lógica, entende-se que o campo, como uma realidade materializada e socialmente construída, deve ser compreendido a partir de suas relações com a cidade e, portanto, no âmbito de seu recorte espacial de estudo.

Outro aspecto fundamental para tal análise encontra-se no processo de produção do espaço urbano. Mas afinal, se a cidade é a materialização do processo de urbanização, o que seria o urbano? Ao buscar refletir sobre essa indagação, é pertinente, antes de tudo, dizer que o urbano somente pode ser compreendido em sua articulação com o rural: duas faces de uma mesma moeda; dois pares dialéticos.

Para Whitacker (2006), o urbano é o resultado da articulação dialética de formas e funções: um ‘modo de vida’, uma expressão dotada de historicidade. Nessa perspectiva, poder-se-ia afirmar que, na atualidade, o urbano desenvolve-se no rural e o

rural no urbano. Em parte, essa problemática decorre das novas formas assumidas pela

cidade – descontinuidade territorial –, criando, assim, o urbano muito além das cidades – cultura urbana, num sentido lefebvriano –, mesmo que não corresponda num processo de urbanização do rural no sentido preconizado por Graziano da Silva (1999).

Tem-se, portanto, uma difícil empreitada. Isso porque, falar em rural e em urbano e, especialmente, das relações cada vez mais intensas entre o campo e a cidade na contemporaneidade, é tecer análises, cujo ponto de partida seja o uso corrente de expressões complexas, que podem assumir distintos olhares, mas também julgamentos equivocados.

Longe de apresentar argumentos sobre a complexidade que envolve o uso dos conceitos de campo, cidade, rural e de urbano, entende-se que, hoje, além de serem conceitos e realidades, expressam relações interdependentes. Não há como fazer uma análise comparando as divergências e similaridades entre campo e cidade sem mencionar os elementos que os relacionam. O deslocamento a trabalho de pessoas que residem no campo em direção à cidade é um exemplo didático. O encurtamento das distâncias percorridas e a acessibilidade permitem o deslocamento com mais intensidade.

102 Assim, descrever o processo de produção do espaço urbano é, nessa perspectiva, apreender suas implicações aos espaços rurais. Do mesmo modo, torna-se imprescindível, ao realizar uma análise da expansão territorial urbana, considerar o processo a partir de uma perspectiva histórica e não apenas no âmbito das formas, uma vez que tal fenômeno redefine o espaço geográfico, tendo como pano de fundo: a atuação de diferentes práticas e representações; a mediação das relações de produção (confrontos de classes sociais); e, a instituição da propriedade privada da terra (SPOSITO, 2006b).

No documento ELIAS OLIVEIRA NORONHA (páginas 100-103)