Aonde aquilo tudo iria dar ninguém ao certo imaginava. Só se sabia que, ao menos daquela vez, precisava ser diferente. Já não dava mais para sair pelo país afora – ainda que com boa vontade e um afiado discurso sobre a importância da leitura na sociedade – para mobilizar e iludir militantes da causa para, no fim, tudo voltar ao que era antes, à estaca zero.
Se fosse assim, certamente levaria um bom tempo para reunir todo aquele po-varéu de novo. E o único jeito de não frustrar aquela gente de boa vontade seria atuar no sentido de transformar todo o esforço despendido em políticas públicas – pois estas, ao contrário das ações pontuais, permanecem, têm vida longa e real poder para transformar a sociedade e a vida das pessoas.
Coisas assim foi o que eu mais ouvi, em 2004, ao percorrer o país atrás de apoio e gente disposta a ajudar a organizar no Brasil, no ano seguinte, um ano inteiro dedicado todo à leitura. Como sempre, as pessoas estavam dispostas a colaborar. Por toda parte, pelo país afora, bibliotecas, escolas, autores, organizações não go-vernamentais, editores, livreiros, prefeituras, governos e, sobretudo, uma legião de ativistas voluntários já faziam, normalmente, projetos, programas e ações isoladas para fomentar a leitura. E, quase sempre, sem qualquer tipo de ajuda financeira do Estado ou mesmo reconhecimento.
Não custaria nada, portanto, segundo elas, se juntar a um grande esforço na-cional, ainda mais a partir de uma convocação do governo brasileiro e organismos internacionais como a Unesco e a Organização dos Estados Ibero-americanos (OEI) para a Educação, a Ciência e a Cultura. A oportunidade, por sinal, caíra do céu. Para ser mais exato, dos céus de Santa Cruz de la Sierra, cidade boliviana onde, um ano antes, chefes de Estado de 21 países aprovaram, em uma reunião de Cúpula, que
2005 seria dedicado a celebrar o Ano Ibero-americano da Leitura, uma maneira astuciosa para fazer com que os países da região se interessassem mais pelo tema.
O povo do livro, como era de se esperar, topou na hora. Universidades, gover-nos estaduais, prefeituras, associações de empresários do livro, jornais, revistas e televisões e, em especial, muitas instituições do terceiro setor, que não possuíam qualquer interesse comercial no assunto. Logo apareceria gente de toda parte e sotaques, que atendia prontamente a convocação por triunvirato constituído pela Presidência da República, Ministério da Cultura e Ministério da Educação.
Mas sempre com a recomendação na ponta da língua:
— Tudo bem, mas de nada adiantará se disso tudo não restar algo consistente que, depois, se torne política pública – era o que, então, mais se repetia, em tom de quase advertência.
Ao final, os parceiros contabilizaram algo como 100 mil projetos, programas e ações em geral para chamar a atenção, ao longo do ano, do papel social da leitura. Mais: para que, de fato, as pessoas lessem – ao menos naquele ano... Mas, ao mes-mo tempo em que se arregimentavam pessoas físicas e jurídicas de norte a sul para inscrever suas ações, fossem de natureza pública ou privada, no calendário do Ano Ibero-americano da Leitura (Ilimita, em espanhol, e por aqui rebatizado como Vivaleitura) se buscava também debater e constituir estratégias, diretrizes e as linhas de onde surgiria, algum tempo depois, o Plano Nacional do Livro e Leitura, esse destemido e ousado PNLL, de quem tanto se ouviria falar nos anos seguintes.
Já a forma de constituir institucionalmente o Vivaleitura – um Conselho Diretivo e um comitê executivo, com representantes do governo, setor privado e terceiro se-tor – sinalizaria para formato mais apropriado para compor, em seguida, o comando do PNLL. Depois de esperar 500 anos para ter seu primeiro Plano Nacional do Livro e Leitura, nada mais justo do que o Brasil inovar, dando, assim, uma contribuição verdadeira para a história das políticas públicas do livro e leitura na América Latina.
O resto já se sabe. O PNLL não é, de fato, nenhuma panaceia para todos os ma-les. Mas, seguramente, é um indicativo claro de como um país, seus estados e mu-nicípios devem enfrentar os desafios nesta área e para onde caminhar – que rumo seguir e qual o papel de cada um nesta grandiosa tarefa para fazer do Brasil uma nação de cidadãos leitores? Não por outra razão, diversos países vizinhos – muitos dos quais com tradição superior à nossa em práticas de leitura – têm vindo, des-de então, conhecer essa experiência pioneira e inovadora que representa o PNLL, que é a primeira grande demonstração, no governo Lula, de o quanto as parcerias público-privadas podem dar certo.
outros falarão, e de forma muito mais apropriada, nesta obra. Como o fato de o Brasil ter saído de um déficit de 1.300 cidades sem bibliotecas, segundo o IBGE, em 2003, para praticamente zerá-lo em fins de 2010. Ou que o índice nacional de leitura saltou de 1,8 livro por habitante/ano (entre leitores com mais de 15 anos) para o atual 4,7 livros por habitante/ano (entre leitores acima de 5 anos).
Na verdade, o impacto dessa política pública ainda está por ser medido e ana-lisado – e, quando isso ocorrer, certamente surpreenderá ainda mais. Como exem-plo, basta lembrar que só o Prêmio Vivaleitura – criado em 2006, justamente para identificar, reconhecer e incluir no âmbito do PNLL o conjunto desse esforço na-cional por mais leitores – já soma mais de 10 mil projetos e programas da melhor qualidade catalogados nesse período.
Isso, decididamente, não é pouco!
Cuido, portanto, de aproveitar este espaço para fazer alguns breves registros sobre um momento que, muito mais do que abrigar e gestar o nascimento do PNLL, certamente entrará para a história como a década mais importante para a causa da leitura no Brasil. Logicamente não como a melhor, já que há muito que fa-zer pela frente. Mas, não há dúvidas, esta será conhecida como a mais significativa, justamente por ter dado início à grande virada do país nessa área. E, em especial, por ter começado a estruturar políticas e as condições necessárias para se gerar mais leitores e leituras entre nós.
Nesse sentido, merece destaque especial o competente trabalho técnico de-senvolvido pelo Centro Regional de Fomento ao Livro na América Latina e no Cari-be (Cerlalc), organismo da Unesco com incrível capacidade de formulação. Os bra-sileiros tiveram o mérito, é certo, de destrinchar aquilo tudo e materializar sonhos e desejos na forma de um plano concreto. Mas muito se deve ao trabalho inicial da equipe dirigida por Adelaida Niet, e a expertise de especialistas como Luiz Bernar-do Peña e Luiz FernanBernar-do Sarmiento.
No governo brasileiro, houve muita gente que apostou desde o início, como é o caso dos Ministros Gilberto Gil (Cultura) e Tarso Genro e Fernando Haddad (Educa-ção). Algumas figuras no governo foram fundamentais para a concretização de tudo isso – primeiro, do Vivaleitura; depois, do PNLL. Como é muito provável que ninguém vá se lembrar disso no futuro (até porque algumas delas foram tão eficientes quanto discretas em sua atuação), tomo a liberdade de registrar aqui a lembrança.
Uma dessas pessoas é o escritor Frei Betto, então assessor especial do presiden-te da República. Outro é o então Ministro da Fazenda, Antônio Palocci. Ambos fo-ram os responsáveis por fazer o tema chegar ao gabinete do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e fazê-lo se interessar pelo assunto, o que conferiu apoio irrestrito de
várias áreas do governo. Isso valeu tanto para as comemorações do Ano Ibero--americano da Leitura – lançado pelo próprio Lula no Palácio do Planalto – como para a criação do PNLL.
Palocci, ainda, faria, em 2004, a desoneração fiscal do livro, o que ajudou a pas-sar a certeza de que a questão do livro e da leitura chegara finalmente ao poder central (afinal, bastaram precisos 42 dias para ela ocorrer, incluindo a aprovação de leis na Câmara e no Senado e duas audiências com o presidente e seus principais Ministros). Isso, naturalmente, fez crescer o apoio de diversos setores da sociedade e da imprensa, algo tão fundamental quanto a disposição para o trabalho para conseguir construir um Plano bem-sucedido.
No âmbito do MEC, sempre me lembro de o quanto o então chefe de gabine-te, Ronaldo Teixeira, foi importante. Na verdade, tornou-se o grande fiador para a reaproximação a aliança que se deu entre os dois ministérios com maiores respon-sabilidades na administração federal para uma boa política do livro e leitura e, com isso, para que o próprio PNLL vingasse: Cultura e Educação.
Por lá, servidores da mais alta qualidade (como Carlos Alberto Xavier, Jeanete Beauchamp e André Lázaro, entre tantos outros) foram imprescindíveis para que isso ocorresse. Nos organismos internacionais, Daniel González e Rosália Guedes, pela OEI, e Jorge Werthein e Jurema Machado, pela Unesco, também igualmente decisivos. Werthein, por exemplo, foi comigo à direção da Rede Globo pedir que seus programas televisivos passassem a incluir os livros nas telenovelas, minissé-ries, telejornais etc. – e não é que deu certo?!
Do outro lado da Esplanada, no Ministério da Cultura, me senti, no primeiro mo-mento, com carta branca do então presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Correa do Lago, e do então secretário-executivo do MinC, Juca Ferreira, para colocar de pé tanto o Vivaleitura quanto o PNLL. Essa liberdade de movimentação, naquele instante em que a área do livro e leitura praticamente inexistia no MinC, foi decisiva.
E houve, naturalmente, muitos encontros, reuniões e debates – ao todo, foram 97, que reuniram 40 mil lideranças do povo do livro em todas as regiões do Brasil. Delas, pude ouvir críticas, propostas, sugestões, advertências e, sobretudo, palavras de incentivo. Houve discussões sobre o Plano que reuniram milhares de pessoas; ou-tras, foram transmitidas simultaneamente por redes fechadas de televisão e internet. A mais significativa de todas elas, contudo, foi uma bem pequena, que juntou não mais do que uma dúzia de animados ativistas da causa da leitura. No entanto, estava carregada de forte simbolismo, pois daria o pontapé inicial aos preparativos do Ano da Leitura no Brasil, que teve uma série de desdobramentos, inclusive seu sucedâneo, o PNLL.
Com o apoio logístico de velho computador 386 emprestado por um dos presentes, o grupo se reuniu numa manhã de primavera no velho casarão onde funcionava a Representação do MEC em São Paulo. Além de Ronaldo e Xavier, do MEC, fazia parte daquele modestíssimo exército de Brancaleone algumas pessoas ligadas ao negócio do livro no Brasil: Alfredo Weizflog, Wander Soares, Felipe Lin-doso, Lúcia Jurema e José Castilho Marques Neto. Algum tempo depois se junta-ria à esquálida estrutura de voluntários, já na condição de técnicos integrados ao projeto, Luis Eduardo Mendes, Carlo Carrenho, Mirtes Morais, Fábio Diegues, Célia Fernandes e Luciana do Vale, entre outros.
Mas isso já é história. E, felizmente, uma boa história, que logo arregimentaria uma infinidade de tantos outros coautores – sem contar aqueles muitos outros ain-da que, também felizmente, estão por vir, para melhorar, requalificar e enraizar, mais e mais, o PNLL no coração dos estados, cidades e da própria sociedade brasileira.
Esta é, com toda certeza, uma daquelas histórias predestinadas a ter final feliz. É certo que com muita luta, muito esforço e muito trabalho. E, sobretudo, com esperança. E, por isso mesmo, com final feliz!
Galeno Amorim
é jornalista e escritor, é diretor do Observatório do Livro e da Leitura. Presidiu o Conselho Diretivo do Ano Ibero-americano da Leitura/Vivaleitura no Brasil, liderou a equipe que criou o Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e, entre 2004 e 2006, esteve à frente de diversos projetos do livro e leitura no Ministério da Cultura e na Fundação Biblioteca Nacional.
Nós, Bruno Resende Ramos e Edir de Oliveira Barbosa, co-idealizadores do Projeto de Inclusão Literária Nova Coletânea e participantes do Eixo da Economia do Livro, entendemos como de extrema importância o tra-balho realizado nos últimos 4 anos pelo Plano Nacional do Livro e Lei-tura (PNLL), dado o seu grande engajamento em favor do tema LIVRO e LEITURA no país.
A Nova Coletânea de modo especial agradece a projeção de seus traba-lhos e o reconhecimento de sua importância devido à sua integração ao PNLL; para nós uma referência de trabalho em favor do Brasil.
Bruno Resende Ramos
Inclusão Literária – Leitura e Cidadania Eixo 1 – Democratização do acesso