Defendendo a importância dos mecanismos de consulta e participação da sociedade no debate e na definição das políticas públicas, o presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Prof. Muniz Sodré, abriu a primeira reunião da Câmara Setorial do Livro e Leitura, doravante chamada de CSLL, e deu posse às instituições e aos representantes regionais que são membros desse colegiado. Convidados para integrar a mesa, também se pronunciaram no mesmo senti-do os presidentes da Câmara Brasileira senti-do Livro (CBL), Oswalsenti-do Siciliano, e senti-do Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), Paulo Rocco, e da União Brasi-leira de Escritores (UBE), Levy Bucalem Ferrari, e, ainda, o secretário nacional de Políticas Culturais do Ministério da Cultura, Sérgio Sá Leitão, representando na ocasião o Ministro de Estado da Cultura, Gilberto Gil. Em seguida, o coordena-dor do Plano Nacional do Livro e Leitura, Galeno Amorim, fez uma explanação sobre o processo que levou à constituição da CSLL, destacando que foram re-alizados sete encontros preparatórios e seis videoconferências nas macro-regi-ões do País, além de cerca de uma centena de encontros, debates, seminários e outras formas de participação, inclusive pela Internet, com a participação de cerca de 50 mil profissionais e especialistas dessa área no País.
Nos dois dias da reunião, coordenada por Galeno Amorim e por Elmer C. Barbosa, Coordenador Geral do Livro e da Leitura da FBN, e secretariada por mim, Maria das Graças Monteiro Castro, foram apresentadas em plenário as propostas de texto para os documentos Diretrizes Básicas da Política Nacional do Livro (2006-2022) e Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL) e, ainda, uma
minuta para o decreto de regulamentação da Lei 10.753, de 30 de outubro de 2003, que instituiu a Política Nacional do Livro. A proposta de regulamentação será encaminhada, pela Fundação Biblioteca Nacional, ao Ministério da Cultura, para que sejam tomadas as providências necessárias, inclusive consultando ou-tros ministérios signatários da referida Lei, para que seja feita a regulamentação. Após leitura, análise e apresentação de pedidos de destaque para discus-são de determinados pontos pelo plenário, o que de fato ocorreu, foram pro-postas modificações nos textos dos referidos documentos, cujo conteúdo final está anexado à presente ata.
Foi encaminhada a proposta, acatada, de se incluir, sempre que possível, o termo Literatura ao se referir aos setores abrangidos pela Política Nacional do Livro. Também foi proposta a uniformização dos termos empregados para referir-se aos diferentes órgãos e instâncias dessa política setorial, ao que foi esclarecido, pelo próprio plenário, que a expressão Política Nacional do Livro foi criada por lei federal e, portanto, só poderia ser modificada por lei.
Também foi proposto que se fizesse a revisão do conceito de leitura, am-pliando-o para além da leitura do código da escrita silábica. A recomenda-ção acatada é no sentido de não condicionar a norecomenda-ção de leitura apenas como processo de decifrar caracteres, mas entender a leitura como um processo de produção de sentidos; um diálogo entre “leituras” do mundo; como meio de decifrar ou interpretar o sentido de...; a leitura como perscrutar e, evidente-mente, a leitura do texto. Entende-se que toda “leitura” é direcionada, ou afe-tada por condicionamentos culturais mais amplos. Destacou-se a Leitura e a Escrita como:
• práticas sociais e culturais.
• instrumentos decisivos para que as pessoas possam desenvolver plena-mente seu potencial humano
• fundamentais para fortalecer a capacidade de expressão da diversidade cultural dos povos, favorecendo todo tipo de intercâmbio cultural
• requisitos indispensáveis para alcançar níveis educativos mais altos • elementos fundamentais para a construção de sociedades democráticas,
baseadas na diversidade, pluralidade e no exercício da cidadania • como necessárias para o desenvolvimento social e econômico
• Como um direito de todos; uma condição para poder exercer seus direitos fundamentais e para viver uma vida mais digna, na construção de uma sociedade mais justa
Foi criticada a concepção mecanicista da leitura, que pretende reduzir o ato de ler a uma mera reprodução do que está no texto; esse entendimento tem sido um dos mais graves obstáculos para o desenvolvimento da leitura e da escrita. A leitura é um ato criativo da construção dos sentidos realizado pelos leitores, a partir de um texto criado pelo autor.
Ao reafirmar a centralidade da palavra escrita, se reconhece também a va-lidade de outros códigos e linguagens, tal como as leituras dos objetos e das diferentes expressões culturais; as tradições orais, as mais diferentes línguas e as novas textualidades que surgem com as tecnologias digitais.
• A leitura e a escrita são duas fases diferentes, mas inseparáveis de um mes-mo fenômeno e buscam contribuir para superar a dicotomia que habitu-almente tem existido nos projetos de promoção da leitura entre escrita e leitura.
• A leitura e a escrita devem ser consideradas como uma prioridade nas po-líticas públicas de educação e cultura dos governos em todos seus níveis de administração. A consolidação de políticas e programas de fomento à leitura deve ser pensada, a longo prazo, e ter um caráter permanente. • A política pública do livro, leitura e bibliotecas deve ter como ponto de
partida o conhecimento e a valorização do vasto repertório de debates, estudos, pesquisas, contribuições diversas e as experiências sobre as for-mas mais efetivas de promover o livro, a leitura e de formar leitores que existem nos âmbitos municipal, estadual e nacional, implementados tan-to pelo Poder Público como pelas organizações da sociedade civil.
• A política para o livro e a leitura deve considerar também as questões de fomento do setor editorial e livreiro, de forma a criar condições para que a produção dos livros necessários aconteça de forma cada vez mais eficaz, barateando os custos de produção e distribuição, eliminando gargalos e debilidades de forma a se ter livros em quantidade necessária e a preços compatíveis com a capacidade de consumo da população.
• Com a finalidade de fortalecer a capacidade institucional e de conseguir um maior aproveitamento das experiências e dos recursos disponíveis, essa política deve promover a gestão de programas intersetoriais e bus-cará articular os esforços do setor público, da sociedade civil, das empre-sas privadas e a cooperação de organismos internacionais, a quem cabe a gestão e a responsabilidade por seus projetos próprios.
Foi, ainda, recomendado incluir um item definindo biblioteca como: • Centro de expressão de cultura, educação e lazer permanente por meio
do fomento à criação, fruição, mediação, circulação e difusão de bens cul-turais;
• Biblioteca como ambiente físico de prestação de serviços de informação e de educação continuada e não depósito para mero armazenamento de livros e outros materiais.
Também foi enfatizada a necessidade da Política Nacional do Livro ser cons-tituída por um conjunto de ações, projetos e programas que podem ser agru-pados a partir de quatro eixos principais, e estes divididos em linhas de ação, que tanto devem constar das diretrizes básicas dessa Política quanto do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL), que é a materialização dessa visão estratégi-ca. São eles:
1. Democratização do Acesso
1.1 Implantação de novas bibliotecas
1.2 Fortalecimento da rede atual de bibliotecas 1.3 Conquista de novos espaços de leitura 1.4 Distribuição de livros gratuitos
1.5 Melhoria do acesso ao livro e outras formas de leitura 1.6 Novas Tecnologias
2. Fomento à Leitura e Formação 2.1 Ações de Estados e Municípios 2.2 Projetos de leitura
2.3 Estudos e apoio à pesquisa
2.4 Prêmios e reconhecimento às práticas de leitura 2.5 Sistemas de Informação
2.6 Formação e de mediadores de leitura 3. Valorização da Leitura e Comunicação
3.1 Ações para criar consciência sobre o valor social da leitura 3.2 Ações para converter a leitura em política de Estado 3.3 Publicações e Mídias
4. Apoio à Economia do Livro
4.1 Apoio à cadeia produtiva do livro
4.2 Apoio à distribuição e circulação de bens 4.3 Apoio à cadeia criativa do livro
Também devem fazer parte do Plano Nacional do Livro e Leitura um Calen-dário Anual de Eventos e Atividades e, ainda, o Prêmio Vivaleitura, com o obje-tivo de identificar, reconhecer e valorizar as práticas de leitura, sem necessaria-mente a preocupação de estimular a competição entre as diversas iniciativas e como forma, ainda, de estimular a diversidade e a riqueza cultural do Pais em duas diferentes regiões.
Como recomendações para a instituição e/ou articulação de iniciativas por meio de parcerias que deverão integrar o PNLL, foi destacada a necessidade de:
a) Transformar as bibliotecas públicas em unidades orçamentárias; b) Garantir a estruturação de um quadro de pessoal mínimo e especializado,
para as bibliotecas públicas, o que garantirá o funcionamento destes órgãos; c) Acesso ao meio digital;
d) Inclusão do portal eletrônico de informações da Capes (periódicos di-gitais) para as bibliotecas públicas (cabeça de rede) do Sistema Nacio-nal de Bibliotecas Públicas;
e) Pensar o fomento à leitura e formação de mediadores de leitura, con-siderando as diversidades regionais brasileiras;
f ) Utilizar das novas mídias como meio de promoção da leitura;
g) Considerar a formação de mediadores observando os processos de formação continuada para professores e bibliotecários; o fortalecimen-to de programas que, hisfortalecimen-toricamente, atuaram e, ainda atuam, na for-mação de mediadores, como o PROLER; e, ainda, promover cursos de formação específicos na área de literatura infantis para professores do ensino fundamental;
h) Dotar de recursos e editais específicos para contemplar a área de leitu-ra e formação;
i) Retomar o Programa Nacional de Leitura (Proler), considerando a quan-tidade dos Comitês existentes e a diversidade das ações que se farão necessárias;
j) Apoiar também a pesquisa acadêmica independente;
k) Fortalecer linhas de pesquisa na área da leitura, livro, literatura e bibliote-cas devidamente financiados (junto às instituições como CAPES e Cnpq); l) Incluir o setor privado, por meio da responsabilidade social, na criação
de espaços de leitura nas empresas, como forma de fortalecimento de outros espaços de promoção da leitura;
m) Estruturar um sistema de informações com dados referentes aos pro-gramas, projetos e ações de leitura existentes no Brasil;
n) Promover ações que incentivem a criação da lei do livro nas esferas estaduais e municipais;
o) Incluir da mídia radiofônica como veículo de divulgação e valorização do livro, leitura, literatura e biblioteca;
p) Buscar estender a desoneração fiscal à indústria gráfica, primeiro elo da cadeia produtiva do livro;
q) Apoiar a publicação acadêmica;
r) Criar fóruns específicos para discutir Questão dos direitos autorais, Co-pyright restritivo e não restritivo, Pirataria, Distribuição via sedex mais barato para os livros, Regulamentação dos direitos autorais em outros formatos/suportes em meio digital, ou informacionais;
s) Incluir ilustradores nas ações com autores.
Ainda com relação ao Plano Nacional do Livro e Leitura, foi apresentada e acatada a proposta de estrutura de gestão e administração do PNLL, que, inclusive, deve constar do Decreto Presidencial e de portaria interministerial (MEC e MinC), com a seguinte composição:
a) Conselho Diretivo constituído por representantes do Ministério da Cul-tura (Fundação Biblioteca Nacional), Ministério da Educação, de um or-ganismo internacional de cooperação e assistência na área de Educa-ção e Cultura, e, ainda, de um representante da sociedade civil indicado pelo Ministro de Estado da Cultura e outro pelo Ministro de Estado da Educação, tendo por finalidade definir as metas e estratégias do Pla-no Nacional do Livro e Leitura (PNLL) para cada triênio e assegurar sua adequação aos objetivos estabelecidos pela Política Nacional do Livro. O Conselho Diretivo terá um presidente e um secretário-geral, funções que serão exercidas, alternadamente, pelos Ministros de Estado da Cul-tura e da Educação.
b) Comitê Executivo, composto pelos representantes dos órgãos governa-mentais e entidades com projetos, programas e outras ações no PNLL. O Comitê Executivo é um órgão de assessoria do Conselho Diretivo, cuja coordenação deverá ser feita, quando criada, pela instituição a ser criada pelo governo federal, conforme compromisso assumido reiteradas vezes
pelo Ministro de Estado da Cultura, Gilberto Gil, para coordenar a execu-ção da Política Nacional do Livro. Esta instituiexecu-ção, cujo formato e atribui-ção devem ser debatidas e analisadas por esta Câmara, deverá respon-der pela coordenação e gestão executiva do Plano Nacional e do Livro e Leitura (os estudos elaborados até agora examinaram as seguintes alter-nativas: Instituto Nacional do Livro e Leitura Secretaria Nacional do Livro e Leitura – administração direta –, Fundação Nacional do Livro e Leitura – administração indireta – ou Serviço Social Autônomo de Promoção da Leitura - Pró-Leitura). O Comitê Executivo designará a equipe técnica en-carregada da gestão do PNLL, que deverá ocupar-se prioritariamente das tarefas de coordenação, planejamento, articulação e controle. Devem ser iniciadas as articulações para a instituição dos Planos Estaduais do Livro e Leitura (PNLL) e dos Planos Municipais do Livro e Leitura (PMLL), a quem caberá a criação dos respectivos comitês estaduais e municipais.
Também foi proposto, e acatado, que deverá ser criado pela Câmara Seto-rial do Livro e Leitura (CSLL) um GT (Grupo de Trabalho) para acompanhar, mo-nitorar e fiscalizar a execução do Plano Nacional do Livro e Leitura (PNLL). Este GT deverá elaborar e apresentar relatório anual para ser analisado e debatido pelo plenário da referida Câmara.
No encerramento da reunião, foi apresentada uma proposta, a ser analisada por ocasião da avaliação dos trabalhos da CSLL a ser feita em 2006, que seja es-tudada a possibilidade de participação na câmara da representação dos editores de periódicos, bem como do fundo privado de fomento da leitura a ser criado.
O presidente da FBN deu posse ao primeiro Grupo de Trabalho (GT) da CSLL, denominado GT de Leitura Acessível, integrado pelo Ministério da Cultu-ra, Fundação Biblioteca Nacional, Instituto Benjamin Constant/MEC, Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República/CORDE, SERPRO/Ministério da Fazenda, CBL, Snel, Abrelivros, Libre, ABEU, Fundação Dorina Nowil; Instituto Laramara e dois representantes dos usuários deficientes visuais, a serem convi-dados. Referido GT deverá se reunir, independente dos trabalhos regulares da CSLL, ter como pauta inicial a regulamentação da Lei do Livro no que diz res-peito ao livro digital e o desenvolvimento do protótipo para livro digital acessí-vel no padrão Daisy no Brasil. A Fundação Biblioteca Nacional deverá designar, entre seus membros, um coordenador, que será o responsável pela convoca-ção, pauta e relatoria dos trabalhos, para apresentação no plenário da CSLL.