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Era uma vez a leitura

No documento 2006 - 2010 TEXTOS E HISTÓRIA (páginas 153-157)

Bem que poderia ser uma dessas histórias que desde tempos longínquos vem insistindo nos desejos que podem transformar a vida dos homens. Esta a que se refere o título vem de muito tempo atrás, como uma necessidade de todos e, de pouco tempo atrás, como ação de alguns que sabem o quanto ela pode transformar o país.

Lobato lembrara, longe de qualquer campanha educativa, que um país se faz com homens que leem livros. Isto antes de Mário de Andrade propor uma enciclopédia brasileira e uma rede de bibliotecas públicas como tarefas de um instituto nacional do livro para ajudar a mudar a cara do Brasil. Foi no século passado, antes que a Brasília dos sonhos de Dom Bosco tomasse corpo no Planalto Central. Quase sessenta anos depois, a Biblioteca Nacional no Rio de Janeiro, com Affonso Romano de Sant’Anna, alavancou a ideia de formar um tripé com livros, bibliotecas e leitura, muito além da trapobana, isto é, mais além da alfabetização que nos projetos da universalização da educação ficou restrita ao instrumental reconhecimento das letras.

Pela primeira vez se ouviu falar em política nacional de leitura que, além da implantação de acervos em espaços não tradicionais, da compra de livros para bibliotecas escolares, traduzisse o fomento à leitura em um esforço conjunto das esferas oficiais em articulação com a sociedade civil para formar leitores. Pela primeira vez, ao final do século XX, a atenção sobre o potencial da leitura foi posta na figura do leitor e estendida a múltiplas linguagens, em diferentes suportes: afinal, a narrativa que conta o mundo e a história dos homens, regis-trada sob gêneros distintos, não se dissemina senão através da recepção e in-terpretação de gerações que acolham, suplementem e entreguem renovado

à memória social, o acervo civilizatório de que são portadoras.

Palavras criam mundos, dizem todos os Gêneses, mas sua potência foi pas-sada dos deuses aos homens, de forma que todos devam ter sua voz e vez para materializar um Fiat a seu tempo e lugar: como não inventar a roda, se pensar e dizer forem entendidos apenas como decorar e repetir?

Eis que esperamos até o século XXI no Brasil para que educação e cultura, sob responsabilidade assumida pelo Estado, entendendo que só uma rede so-cial que articule escola, biblioteca, família e valorize a leitura como bem funda-mental, pode efetivamente contribuir para que haja índice de desenvolvimen-to humano compatível com o econômico que atingimos.

A construção de identidades e o avanço da qualidade de vida e experiência cidadã dependem da formação de sujeitos leitores que respondam não ape-nas a textos escritos, mas às textualidades diversas que constituem as práticas sociais, do morar, conviver, comer, fazer, imaginar. Quase um século é passado, mas “nunca antes na história deste país” tivemos a mobilização de amplas ca-madas sociais e de agentes tão diversos na promoção da literatura, do livro e da leitura, em moldes capazes de envolver esferas administrativas e represen-tação civil no compromisso de um plano de leitura, gerado com participação direta de leitores transformados em mediadores de leitura.

Avançamos com certeza, não sem o risco de retrocesso de que é feita a história política, na qual a demanda por continuidade e avanço é abalroada por interesses menores e vaidades pessoais. Consolidar o que finalmente se obteve com a efetiva capilarização do debate, com a inserção de diferentes atores no processo de pen-sar a leitura, inclusive a partir das práticas, deve ser a meta principal dos próximos anos e governos. Queremos uma política de Estado que seja capaz de apoiar, pro-ver, registrar e avaliar com a sociedade civil comprometida as ações transformado-ras que resultam do ato de ler, menos para consumir livros e mais para consumar o humano que clama pelo bem comum, sonhado livremente por cada um.

Chegados a este lugar, é necessário garantir recursos materiais, formar inin-terruptamente recursos humanos, respeitar as peculiaridades e diferenças das iniciativas, sem submetê-las a um padrão uniforme, visibilizar as mais relevan-tes, estimular as trocas através de redes, reconhecer o notório saber dos que são capazes de dialogar e promover reflexões sem deitar modelos, estimulan-do a criação segunestimulan-do os contextos e, sobretuestimulan-do, dar condições aos agentes de atuarem em seu espaço, de modo a abraçar o país.

Falta mais do que nunca uma análise do impacto da leitura – ou de sua falta mesmo – no custo Brasil de desenvolvimento. Quanto custa o Brasil que não

lê? Acidentes de trabalho, obras malfeitas, equívocos administrativos, desali-nhamento de ações, arquivamento indevido, ignorância dos processos, buro-cratização inútil e irrealista das práticas interinstitucionais.

Falta uma atenção decisiva ao modelo funcional criação de uma instância interministerial que congregue mais que a educação e a cultura, a saúde, a ha-bitação, o transporte, a comunicação, a fazenda, a assistência social na tarefa de gerar um país de leitores. Por isso, cabe às operações da cultura que não se re-gem por normas empresariais, como negócio no sentido vulgar do termo, sendo ela mesma a afirmação do ócio, criativo no sentido mais radicalmente possível, em que a contemplação estética possa de fato servir a uma revolução ética.

As conquistas do PNLL e seus desdobramentos na aliança do MinC (DLLL) e do MEC (SECAD), com todos os entraves que persistem, materializam contudo, uma nova esperança ao brasileiro leitor, que vê na leitura uma prática de dis-cernimento capaz de trazer condições de justiça às relações sociais violentas e desgastantes que ocupam os jornais e desestimulam as novas gerações. Abor-tar outra vez a gestação de uma sociedade leitora seria um ato de assumida irresponsabilidade, se não de ignorância da história.

O Brasil espera, outra vez, que seus representantes sejam dignos da con-fiança neles depositada.

Eliana Yunes

é professora na PUC-Rio, co coordenadora da Cátedra de Leitura da UNESCO, Doutora em letras e lingüística e pesquisadora do CNPq.

“Participar com o meu Projeto Leitura na Biblioteca na história do PNLL me trouxe imenso orgulho e satisfação. Demonstra o reconhecimento pelo trabalho em prol da leitura e da valorização do livro em nosso mu-nicípio. Apresentar minha experiência e partilhar das de outros partici-pantes contribuiu para a melhoria do meu projeto. Sua inserção no ca-dastro do PNLL trouxe credibilidade, visibilidade e fortalecimento à ação desenvolvida, propiciando a divulgação nas diversas mídias locais. “

Janir Gonçalves Leite – Idealizadora e responsável pelo projeto Projeto: Leitura na Biblioteca

E z E Q U I E L T H E O D O R O D A S I LVA

Da necessidade de somatória de energias para

No documento 2006 - 2010 TEXTOS E HISTÓRIA (páginas 153-157)