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1.2. O Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao

1.2.2. Após a assinatura do TRIPS: Doha, Acordo de 30 de agosto e TRIPS Plus

Após a assinatura do TRIPS em 1994, os principais atos/ações em relação ao tema propriedade intelectual e que se relacionam ao TRIPS foram: a Declaração de Doha, o Acordo de 30 de agosto e os acordos bilaterais (conhecidos por TRIPS Plus).

A Declaração de Doha, assinada na reunião ministerial realizada na capital do Qatar em novembro de 2001, trata das questões do uso das flexibilidades do TRIPS em relação às questões de saúde pública e de acesso a medicamentos, considerando que os interesses comerciais privados não devem se sobrepor às questões de saúde pública, ou seja, o direito a vida e a saúde devem estar acima dos interesses comerciais dos países.

Segundo a Declaração, a definição das prioridades de saúde pública é de livre escolha dos países e eles não podem sofrer retaliações referente às medidas tomadas internamente para proteção a saúde pública. Além disso, reforçou o uso da licença compulsória como uma das flexibilidades do TRIPS e importante instrumento de acesso a medicamentos por parte dos países em desenvolvimento e abriu espaço para outras medidas que garantam o acesso da população à saúde e aos medicamentos. A Declaração também ampliou o prazo dos países com baixo nível de desenvolvimento aderirem ao TRIPS passando-o para 2016.

Derivado da Declaração de Doha, o Acordo de 30 de agosto de 2003, assinado pelos países membros da OMC, regula o uso das regras de importação/exportação dos produtos sob

20 Os outros dos acordos são o Gatt e o Gats, referente ao comércio de mercadorias e de serviços, respectivamente.

licença compulsória para países sem capacidade de produção de medicamentos. Apesar da Declaração de Doha reforçar o uso da licença compulsória como instrumento de acesso a medicamentos, o TRIPS afirma que os medicamentos produzidos sob esta licença devem se destinar exclusivamente ao mercado interno, não sendo permitido a sua exportação. Dessa forma a licença compulsória não atenderia a maioria dos países em desenvolvimento e ao total dos países de baixo nível de desenvolvimento, já que estes países não dispõem de indústria locais de medicamentos e, portanto, não têm capacidade produtiva para produzir os produtos licenciados.

O Acordo de 30 de agosto veio para flexibilizar o uso da licença compulsória de modo que os países menos desenvolvidos, sem capacidade de produção própria, pudessem ter acesso a medicamentos através da importação de medicamentos patenteados através do uso de licença compulsória21. Esse Acordo permitiu que qualquer país membro possa importar produtos farmacêuticos na vigência de licenças compulsórias duplas. Para tal, certas condições devem ser seguidas - uso de boa-fé, com o fim de tratar de problemas de saúde pública e não para objetivos de políticas industriais ou comerciais. Conforme a decisão, todos os países membros da OMC se qualificam para importar22. Os países que tiverem a referida estrutura produtiva, podem exportar esses genéricos para atender às necessidades de outras populações no âmbito da adoção de uma licença compulsória dupla. A decisão abrange produtos patenteados ou produtos fabricados por meio de processos patenteados do setor farmacêutico, inclusive os princípios ativos e kits para diagnóstico.

O processo consiste em que tanto o país importador quanto o exportador decretem o licenciamento compulsório do produto e que a produção do medicamento licenciado no pais exportador seja limitada à demanda do país menos desenvolvido que emitiu a licença e destinada exclusivamente a esse país que deve para isso atender as condições especificadas no Acordo. Essas exigências geram problemas de custos de transação e de deseconomias de escala23.

Apesar do Acordo de 30 de agosto permitir a importação de medicamentos genéricos a partir do licenciamento compulsório duplo em países sem capacidade de produção, como explicado

21 Às vezes é chamado de questão do ―parágrafo 6‖ porque ela encontra-se neste parágrafo da Declaração de Doha.

22 Porém os 23 países desenvolvidos relacionados na decisão anunciaram voluntariamente que não utilizarão o sistema para importar. Já Hong Kong, Israel, Coréia do Sul, Kuwait, Macau, México, Qatar, Cingapura, Taiwan, Turquia e Emirados Árabes Unidos se comprometeram a só utilizar desse instrumento para emergências ou situações de extrema urgência.

23 Para maiores detalhes sobre o processo de licenciamento compulsório em países sem capacidade produtiva ver Chaves e Oliveira (2007) e Bermudez et al. (2004).

acima, este é um processo complexo e difícil de ser aplicado na prática. E apesar de permitido ainda não foi aplicado na prática por nenhum país sem capacidade produtiva.

Os acordos bilaterais ou tratados de livre comércio (TLC) são acordos assinados, no geral, entre os Estados Unidos e os países em desenvolvimento24. Nesses acordos os Estados Unidos adotam cláusulas mais restritivas que as exigidas pelo TRIPS, significando um endurecimento das regras de propriedade intelectual, por isso ficaram conhecidas como TRIPS Plus. Nessas cláusulas os países em desenvolvimento abrem mão ou restringem o uso de muitas das flexibilidades previstas no TRIPS em troca de vantagens comerciais, tais como regimes preferenciais de importação – abrindo caminho para o cobiçado mercado norte-americano, fim de pressões comerciais e maior atração de investimentos diretos externos advindos da maior proteção oferecida à propriedade intelectual. As principais cláusulas restritivas desses acordos são a extensão do prazo das patentes, a restrição ao uso da licença compulsória, o linkage entre os dados de registro e patente.

Alguns dos países e blocos econômicos que já assinaram acordos bilaterais com os Estados Unidos foram: Austrália, Colômbia, Chile, Cingapura, Peru, Panamá, México, Marrocos, Israel, Jordânia, CAFTA25 e o NAFTA. Ao assinarem esses acordos os países restringem o seu acesso à medicamentos. As limitações ao uso das flexibilidades do TRIPS ampliam os direitos de PI acima do proposto originalmente no TRIPS e conseqüentemente reduzem a concorrência dentro dos seus mercados, ficando restritos aos medicamentos de marca (pertencente ao detentor da patente) e eliminando alternativas de compra. Ao garantir mercado para os produtos americanos, reduz-se a concorrência e permiti-se que as empresas farmacêuticas pratiquem preços mais elevados nos medicamentos, encarecendo os tratamentos e obrigando os países a disporem de mais recursos financeiros para atenderem os seus sistemas de saúde pública, o que coloca em risco a sua sustentabilidade.

Apesar de quase sempre as negociações com os EUA serem desequilibradas, as diferenças entre os acordos assinados variam conforme a capacidade de barganha entre as partes, assim países menos desenvolvidos, com economias menos diversificadas e tecnologicamente atrasados tendem a aceitar cláusulas mais restritivas do que países mais desenvolvidos e com economias mais diversificadas. Por exemplo, o Marrocos, em 2004, aceitou cláusulas muito mais restritivas que a Tailândia viria aceitar dois anos depois (Krikorian, 2008). O risco de retaliação econômica cruzada e a dependência de ajuda econômica norte-americana acabam

24 Os Estados Unidos possuem também acordos bilaterais de livre comércio com Israel e com a Austrália que não são considerados países em desenvolvimento.

25 Acordo de Livre Comércio da América Central que engloba: Costa Rica, El Salvador, Guatemala, Honduras, Nicarágua e República Dominicana.

elevando o poder de negociação dos Estados Unidos, como é o caso de Colômbia, Israel e Jordânia.