2. CONSIDERAÇÕES INICIAIS
5.3 APLICABILIDADE DA LIBERDADE SINDICAL NO BRASIL
Inicialmente, destaca-se que o presente subtítulo tratará de verificar há
uma efetiva aplicabilidade da liberdade sindical no atual sistema brasileiro, ou seja,
analisar-se-á o contra-senso liberdade sindical e unicidade sindical.
Destaca-se, primeiramente, que o Estado possuí, atualmente, suas
normas pertinentes a sindicalização baseadas no modelo corporativista/totalitarista,
adotado desde a década de 30, destarte, impossibilitando um regime pleno de
liberdade sindical.
162Faz-se necessário transcrever a exposição de José Francisco Siqueira
neto:
A liberdade sindical foi tratada pelo art. 8º da Constituição da República Federativa do Brasil (CRFB) de 1988, Capítulo II, Dos Direitos e Garantias Fundamentais, Capítulo II, Dos Direitos Sociais. Os dispositivos específicos, entretanto, comportam contradições inconciliáveis com a liberdade sindical consagrada no Direito Internacional, e por isso incapazes de gerar um sistema de relações de trabalho sequer harmônico. [...] 163
Gilberto Stürmer esclarece:
O princípio da liberdade (art. 5º, caput, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988) não é compatível com a unicidade sindical (art. 8º, inciso II, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988) e com qualquer tipo de contribuição sindical compulsória (art. 8º, caput, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988). À toda evidência, a regra de livre associação profissional e sindical (art. 8º, caput, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988), bem como a determinação de não intervenção do Estado na atividade sindical (art. 8º, inciso I, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988), são incompatíveis
162
FILHO, José Cláudio Monteiro de Brito. Direito sindical. São Paulo: LTr, 2000, p. 94.
163
NETO. José Francisco Siqueira. Liberdade sindical e representação dos trabalhadores nos
com a unicidade sindical e com qualquer tipo de contribuição compulsória. [...]
164
Importante ressaltar o posicionamento de Orlando Gomes e Elson
Gottschalk, no que concerne ao modelo brasileiro de sindicalização:
Por sua inspiração totalitarista, o modelo sindical brasileiro da CLT se pautou por submeter a organização e a atuação do nosso sindicato aos interesses do Poder Executivo, arranhando visivelmente alguns aspectos fundamentais da liberdade sindical. Basta citar, como exemplos, a adoção da unicidade sindical (art. 516), inibidora da ratificação da Convenção n. 87 da OIT pelo Brasil, e do imposto sindical, rebatizado, em 1967, como contribuição sindical (art. 548, a).
A constituição de 1988 procurou ajustar-se aos postulados da liberdade sindical com as normas estruturais do seu artigo 8º quando, por exemplo, proibiu a intervenção e a interferência do Estado na criação e administração do sindicato (inciso I). A verdade, porém, é que insistiu em algumas áreas de atrito insustentáveis, a exemplo a manutenção da unicidade sindical (inciso II) e da contribuição sindical (inciso IV), que criam uma situação de conflito entre o todo do texto constitucional e a regulamentação anterior da matéria na legislação ordinária (Título X da CLT). 165
Arnaldo Süssekind explica o que trata a Convenção n. 87 da OIT, por
conseguinte observa-se o motivo pelo qual o Brasil não a ratificou:
É óbvio que a Convenção não impõe a pluralidade sindical, mesmo porque o ideal, afirmado por estudiosos e sindicalistas, é a unicidade sindical. O que a Convenção exige é que o sistema legal dos países que a ratificaram faculte aos empregadores e trabalhadores, se o desejarem, a constituição de outro ou outros sindicatos da mesma categoria, empresa, profissão ou ofício na mesma base territorial do já existente. Neste sentido é uníssona e iterativa a jurisprudência dos órgãos de controle da OIT. 166
Corroborando o que se expôs, Arion Sayão Romita acrescenta:
O art. 5º, XVII, da Constituição de 5 de outubro de 1988 consagra a liberdade de associação: ‘é plena a liberdade de associação para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar’. A liberdade de sindicalização – manifestação da liberdade de associação – tem fins lícitos, logo, segundo o disposto no texto constitucional citado, deveria ser ‘plena’, vale dizer, deveria ser proclamada sem qualquer tipo de restrição. Todavia, a constituição brasileira em vigor,
164
STÜRMER, Gilberto. A liberdade sindical na Constituição da República Federativa do Brasil
de 1988 e sua relação com a Convenção 87 da Organização Internacional do Trabalho. Porto
Alegre: Livraria do Advogado Editora, 2007, p. 51.
165
GOMES, Orlando. ELSON, Gottschalk. Curso de direito do trabalho. Rio de Janeiro: Forense. 2003, p. 552.
166
SUSSEKIND, Arnaldo. Direito constitucional do trabalho. 3. ed. Rio de Janeiro: Renovar, 2004, p. 368-369.
dando péssimo exemplo de incoerência, restringe a liberdade sindical. Na verdade, a liberdade de associação constitui requisito que integra o conceito de Estado Democrático de Direito (CF, art. 1º). 167
Ainda que a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988
apresente garantias fundamentais ao trabalhador, bem como, excluindo qualquer
interferência do estado nos sindicatos, esta não pode ser considerada uma liberdade
sindical pura e efetiva, visto que, através da unicidade, há a imposição inflexível
daquilo que se sustenta durante todo o presente trabalho, por exemplo, a vedação
da criação de mais de um sindicato por categoria e a imposição da contribuição
sindical, exemplos estes que ferem a efetivação da liberdade sindical no Brasil.
Aprofunda-se o estudo com os ensinamentos de José Claudio Monteiro
de Brito Filho:
Se verificarmos a Constituição Federal, principalmente o artigo 8º, veremos que, ao lado das liberdades coletivas de associação e de administração, garantidas em regime de liberdade, foram mantidas restrições às liberdade coletivas de organização (unicidade sindica, base territorial mínima, sindicalização por categoria e sistema confederativo da organização sindical) e de exercício de funções ( representação exclusiva da categoria pelo sindicato, inclusive nas negociações coletivas e manutenção da competência normativa da Justiça do Trabalho), além de restringir a liberdade sindical individual, pelas restrições à liberdade coletiva retro. 168
Adriano Guedes Laimer explica:
Mesmo com a nova ordem constitucional instituída em 1988, a noção de liberdade contemplada pelo caput do art. 8º e seu inciso I foi praticamente desfigurada com as previsões dos incisos II e IV, bem como em decorrência do art. 114, que mantiveram a unicidade sindical, a sustentação econômica compulsória da estrutura e as bases corporativistas do sistema de relações de trabalho. 169
Vitor Manoel Castan acredita que a Constituição da República Federativa
do Brasil de 1988 proporcionou com maior efetividade a liberdade sindical, todavia,
concorda que não é plena, destarte, expondo o motivo pelo qual o Brasil não
ratificou a Convenção n. 87 da OIT, vejamos:
167
ROMITA, Arion Sayão. Direitos fundamentais nas relações de trabalho. 3. ed. São Paulo: LTr, 2009, p. 353.
168
FILHO, José Cláudio Monteiro de Brito. Direito sindical. São Paulo: LTr, 2000, p. 94-95.
169
[...] a Constituição de 1988 trouxe uma maior liberdade sindical, inclusive, afastando o Estado de interferir na atividade sindical (art. 8º, I). Entretanto essa liberdade não é plena, pois, com a contribuição compulsória, a unicidade sindical e a formação de grupos por categoria (incisos II e IV, do art. 8º) impedem a ratificação da convenção n. 87 da OIT, que dispõe sobre a liberdade sindical e a proteção do direito de sindicalização. 170
Neste sentido, Amauri Mascaro Nascimento ensina:
Avaliado sob o prisma legal, o sistema brasileiro não pode ser enquadrado entre os de plena liberdade sindical porque a lei não atende ao primeiro subprincípio da idéia de liberdade sindical, o direito de constituir, sem necessidade de prévia autorização do Estado, entidades sindicais, julgadas convenientes pelos próprios interessados, trabalhadores ou empresários, bem como o direito complementar de filiação, positivo ou negativo, nessas associações, entendendo-se como direito positivo o de ingressar e negativo o de sair da entidade livremente; assim, não há como compatibilizar o nosso sistema com a liberdade plena porque nele é proibido criar mais de um sindicato na mesma base territorial e categoria com a autonomia das entidades sindicais é comprometida com essa proibição. 171
E continua:
Segue-se também que o trabalhador não tem, diante da unicidade sindical imposta pela lei, liberdade de escolha de sindicatos porque o que lhe é garantido é apenas o direito de ingressar ou de se dissociar do sindicato, mas o sindicato perante o qual ele terá essa liberdade é apenas um, o único possível para ele, o sindicato da categoria
Nosso sistema de categorias a priori está abalado com a criação de diversos sindicatos que não têm uma categoria para enquadramento no quadro oficial, mesmo porque esse quadro se mostra totalmente desatualizado e não corresponde à realidade da situação sindical do País. Não obstante, o quadro de enquadramento sindical é outra limitação ao sistema de plena liberdade sindical. 172
Por fim, destacam-se as palavras de José Augusto Rodrigues Pinto, que
perfeitamente ilustra a ineficiência de aplicação da liberdade sindical em face da
unicidade sindical no Brasil:
170
CASTAN, Vitor Manoel. Abuso do direito sindical. São Paulo: LTr, 2008, p. 28.
171
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de direito sindical. 5. ed. São Paulo: LTr, 2008, p. 184.
172
NASCIMENTO, Amauri Mascaro. Compêndio de direito sindical. 5. ed. São Paulo: LTr, 2008, p. 184-185.
Entretanto, mesmo a partir da vigência da Constituição de 1988, que procurou a seu modo canhestro, introduzir em nosso ordenamento jurídico trabalhista a
liberdade sindical em todos os seus sentidos convergentes, há um choque
visível entre a liberdade sindical e a unicidade sindical, ainda remanescente, pois não deixa o trabalhador ou empresário senão a escolha de ser ou não sindicalizado, já que somente dentro do pluralismo sindical lhe será dado o ingresso na associação de sua preferência, entre várias que lhe se ofereçam.
173
Evidencia-se que, apesar da tentativa frustrada de aplicar a liberdade
sindical no Brasil, tal aplicabilidade não se tornou possível por razões evidentes, a
não ratificação da Convenção n. 87 da OIT que visa expressamente à liberdade
sindical e a adoção da unicidade sindical como sistema de sindicalização, mesmo a
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 garantindo a liberdade
sindical como direito fundamental, está não pode ser exercida efetivamente por estar
limitada a unicidade sindical.
173
PINTO, José Augusto Rodrigues. Direito sindical e coletivo do trabalho. 2. ed. São Paulo: LTr. 2008, p. 92.