RECURSAIS
A teoria da perda de uma chance tem suas raízes na Europa, sobretudo na França,
como já exposto no primeiro capítulo deste trabalho, alcançando todo cenário jurídico
mundial a partir das decisões de seus tribunais.
No Brasil a nova teoria encontra sua primeira expressão na década de 90, em
virtude de julgados do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, expandindo-se
gradativamente pelo território nacional. Entretanto, não se percebe significativa aceitação
desta nova forma de reparação civil, ficando restrita a poucas decisões, nas quais, constata-se
especial confusão quanto à natureza jurídica da chance perdida, que resulta ora na recusa de
aceitação da teoria em comento e, em outras ocasiões, na utilização de critérios equivocados
para a fixação de uma indenização, não atingindo o ideal de reparação integral dos danos.
Neste norte, alhures apresentar-se-á a listagem dos acórdãos emanados pelos
tribunais brasileiros, em cuja pesquisa eletrônica, realizada até meados de maio do corrente
ano, utilizando-se das expressões “perda de uma chance” e “perda da chance”, procurou-se
identificar o número exato de acórdãos que mencionam a teoria da responsabilidade civil pela
perda de uma chance em cada pretório brasileiro.
Consigna-se, todavia, que não se pode assegurar ter localizado 100% das decisões,
admitindo-se eventual margem de erro do critério da pesquisa, além do não lançamento nos
bancos de dados eletrônicos pesquisados.
Vê-se o quadro demonstrativo do resultado da pesquisa:
TRIBUNAL
NÚMERO DE ACÓRDÃOS
Tribunal de Justiça do Estado do Acre
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado do Amapá
01
Tribunal de Justiça do Estado da Bahia
01
Tribunal de Justiça do Distrito Federal
02
Tribunal de Justiça do Estado de Goiás
01
Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais
29
Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso
do Sul
01
Tribunal de Justiça do Estado do Paraná
09
Tribunal de Justiça do Estado do Pernambuco
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado do Rio Grande do
Sul
147
Tribunal de Justiça do Estado de Santa Catarina
05
Tribunal de Justiça do Estado de Sergipe
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado de Tocantins
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado de Roraima
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado de Alagoas
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado do Ceará
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado de Espírito Santo
02
Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso
02
Tribunal de Justiça do Estado do Pará
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado da Paraíba
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro
29
Tribunal de Justiça do Estado de Rondônia
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo
25
Tribunal de Justiça do Estado do Piauí
Não houve localização
Tribunal de Justiça do Estado do Maranhão
Não houve localização
Superior Tribunal de Justiça
04
Quadro 1 – Quadro demonstrativo dos acórdãos que tratam da teoria da perda de
uma chance exarados pelos tribunais brasileiros e por suas respectivas turmas
recursais
Percebe-se que poucos tribunais brasileiros vêm analisando a teoria da perda de
uma chance, destacando-se certa concentração de acórdãos nos estados do Rio Grande do Sul,
Paraná, Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O Tribunal de Justiça Catarinense, por sua
vez, possui poucas decisões que fazem menção a teoria em comento, assemelhando-se a
outros pretórios.
Em outro vértice, não se identificou nenhuma decisão em alguns tribunais.
Tais números só vêm corroborar as menções feitas ao longo desta monografia, de
que a responsabilização civil pela oportunidade perdida constitui-se tema de discussão e
resistência de aplicação, provavelmente, pelas peculiaridades que lhe são inerentes,
especialmente por falta de sua compreensão.
Salienta-se, ainda, que a esmagadora maioria dos acórdãos, cujos dados para
pesquisa estão em anexo a este trabalho, refere-se a aplicação e reconhecimento da teoria da
perda de uma chance de forma equivocada, isto do ponto de vista do posicionamento clássico,
deixando de analisá-la sob o prisma de que a chance perdida é um dano autônomo e especial,
cuja digressão já se fez anteriormente à conclusão.
No mesmo norte, pelo quadro acima, tem-se, a princípio, a partir dos critérios de
pesquisa, a localização do total de 257 acórdãos em todo território brasileiro, com uma
população de 186.405.000 de habitantes
1, de onde surgem, certamente, inúmeras situações
enraizadas pela perda de uma chance, ora sem amparo judicial, ora sem submissão ao crivo do
judiciário.
Mas o número de demandas, pelo que se conclui, é infinitamente menor que os
fatos autorizadores, resultando, provavelmente, em vítimas desamparadas sofrendo os
prejuízos de um ato lesivo de alguém que lhe tira a chance de obter uma vantagem ou evitar
um prejuízo.
E, sendo assim, buscar-se-á no exame às decisões já prolatadas no Brasil, por
amostragem, destacar o entendimento conceitual da teoria e a natureza jurídica da perda da
chance, bem como o critério de indenização fixada em favor da vítima.
4.2 O RECONHECIMENTO DA RESPONSABILIDADE CIVIL PELA PERDA DE UMA
No documento
Aspectos destacados da teoria da responsabilidade civil pela perda de uma chance no direito brasileiro /
(páginas 58-61)