Embora cronologicamente não seja a legislação pertinente mais atual e nem seja mui extensa, contando com apenas nove artigos, o Decreto nº 7.962 de 15 de março de 2013 é, inquestionavelmente, de suma relevância para o ordenamento pátrio por, dispondo sobre a contratação no comércio eletrônico, garantir a proteção ao direito do consumidor nessa realidade cada vez mais relevante e deixar expressa um conjunto de regras de proteção aos hipossuficientes que carecem de proteção estatal.
59ROHR, Altieres. Hackers vazam quase 10 GB de dados do site de traição Ashley Madison. G1. Rio de Janeiro, p. 1- 1. 18 ago. 2015.
Estabelece a citada legislação expressamente em seu artigo 1º o direcionamento ao qual os demais artigos e incisos da presente legislação se encaminharão, dispondo sobre o comércio eletrônico, o E-commerce, determinando abranger (I) informações claras a respeito do produto, serviço e do fornecedor; (II) atendimento facilitado ao consumidor; e (III) respeito ao direito de arrependimento.
Alinhado ao primeiro objetivo elencado no artigo 1º, qual seja apresentar informações claras a respeito do produto, serviço e do fornecedor, o artigo 2º preceitua que “Os sítios eletrônicos ou demais meios eletrônicos utilizados para oferta ou conclusão de contrato de consumo devem disponibilizar, em local de destaque e de fácil visualização”60 seis obrigações em seis incisos: (a)
nome empresarial e número de inscrição do fornecedor, quando houver, no Cadastro Nacional de Pessoas Físicas ou no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas do Ministério da Fazenda, o que é de crucial importância para a identificação do possível polo passivo em ação de indenização movidas pelo consumidor; (b) endereço físico e eletrônico, e demais informações necessárias para sua localização e contato, o que é de crucial importância para a localização do possível polo passivo em ação de indenização movidas pelo consumidor; (c) características essenciais do produto ou do serviço, incluídos os riscos à saúde e à segurança dos consumidores, o que é de crucial importância para a conscientização de consumidores no intuito de evitar que sejam enganados com propagandas milagrosas; (d) discriminação, no preço, de quaisquer despesas adicionais ou acessórias, tais como as de entrega ou seguros, o que é de crucial importância para o planejamento do consumidor que deverá saber os termos do que pactua – como em qualquer contrato; (e) condições integrais da oferta, incluídas modalidades de pagamento, disponibilidade, forma e prazo da execução do serviço ou da entrega ou disponibilização do produto, o que alinha-se ao disposto no ponto anterior, no intuito de garantir que nada será imposto de modo oculto ao consumidor desatentos; e (f) informações claras e ostensivas a respeito de quaisquer restrições à fruição da oferta, sob pena de serem consideradas as cláusulas como “não escritas” por regra geral de direito civil.
Tal qual o artigo que o precede, está, o artigo 3º, alinhado ao primeiro objetivo elencado no artigo 1º, determinando que “Os sítios eletrônicos ou demais meios eletrônicos utilizados para ofertas de compras coletivas ou modalidades análogas de contratação deverão conter, além das informações previstas no art. 2º, as seguintes”61, (I) - quantidade mínima de consumidores para a
efetivação do contrato; (II) - prazo para utilização da oferta pelo consumidor; e (III) identificação
60BRASIL, Lei nº 7.962, de 15 de março de 2013. Regulamenta a Lei nº 8.078, de 11 de setembro de 1990, para dispor sobre a contratação no comércio eletrônico. Planalto.
do fornecedor responsável pelo sítio eletrônico e do fornecedor do produto ou serviço ofertado, nos termos dos incisos I e II do art. 2º.
Alinhado ao segundo objetivo elencado no artigo 1º, qual seja garantir atendimento facilitado ao consumidor, o artigo quarto busca especificamente tal facilitação afirmando que “Para garantir o atendimento facilitado ao consumidor no comércio eletrônico, o fornecedor deverá”62: (a)
apresentar sumário do contrato antes da contratação, com as informações necessárias ao pleno exercício do direito de escolha do consumidor, enfatizadas as cláusulas que limitem direitos; (b) fornecer ferramentas eficazes ao consumidor para identificação e correção imediata de erros ocorridos nas etapas anteriores à finalização da contratação; (c) confirmar imediatamente o recebimento da aceitação da oferta; (d) disponibilizar o contrato ao consumidor em meio que permita sua conservação e reprodução, imediatamente após a contratação; (e) manter serviço adequado e eficaz de atendimento em meio eletrônico, que possibilite ao consumidor a resolução de demandas referentes a informação, dúvida, reclamação, suspensão ou cancelamento do contrato; (f) confirmar imediatamente o recebimento das demandas do consumidor referidas no inciso, pelo mesmo meio empregado pelo consumidor; e (g) utilizar mecanismos de segurança eficazes para pagamento e para tratamento de dados do consumidor.
Alinhado ao terceiro objetivo elencado no artigo 1º, qual seja garantir o respeito ao direito de arrependimento, determina o artigo 5º que “O fornecedor deve informar, de forma clara e ostensiva, os meios adequados e eficazes para o exercício do direito de arrependimento pelo consumidor”63. Além do disposto no caput exposto, aduz, o dispositivo, em seus parágrafos a forma
pela qual a regra do caput deverá ser conduzida, determinando que (I) O consumidor poderá exercer seu direito de arrependimento pela mesma ferramenta utilizada para a contratação, sem prejuízo de outros meios disponibilizados; (II) O exercício do direito de arrependimento implica a rescisão dos contratos acessórios, sem qualquer ônus para o consumidor; (III) O exercício do direito de arrependimento será comunicado imediatamente pelo fornecedor à instituição financeira ou à administradora do cartão de crédito ou similar, para que a transação não seja lançada na fatura do consumidor; seja efetivado o estorno do valor, caso o lançamento na fatura já tenha sido realizado. Por fim, estabelece o parágrafo quarto que “O fornecedor deve enviar ao consumidor confirmação imediata do recebimento da manifestação de arrependimento”.
62BRASIL, Lei nº 7.962, de 15 de março de 2013. Op. cit.
Divergindo dos artigos anteriores que tinham três diretrizes, os artigos subsequentes ao artigo quinto possuem direções diferentes. Seus objetivos específicos são próprios, conforme será analisado. Iniciando os artigos com objetivos específicos próprios, temos o artigo 6º que aduz que “As contratações no comércio eletrônico deverão observar o cumprimento das condições da oferta, com a entrega dos produtos e serviços contratados, observados prazos, quantidade, qualidade e adequação”64. É importante afirmar que tal artigo alinha-se perfeitamente às obrigações gerais
geradas por um pactuante de um contrato conforme devidamente exposto na teoria geral dos contratos no presente trabalho. O presente dispositivo, portanto, apenas reforça tal obrigação no instante que a repete.
O artigo sétimo tem caráter mais repressivo, o que é importante no instante em que visa coibir possíveis infratores. Aduz tal dispositivo que “A inobservância das condutas descritas neste Decreto ensejará aplicação das sanções previstas no art. 56 da Lei nº 8.078, de 1990”, isto é, prevendo a aplicação das punições previstas no rol punitivo do Código de Defesa do Consumidor, que “serão aplicadas pela autoridade administrativa, no âmbito de sua atribuição, podendo ser aplicadas cumulativamente, inclusive por medida cautelar, antecedente ou incidente de procedimento administrativo”65, quais sejam
Desse modo, no artigo 7º encontramos enquanto punições possíveis:
I - multa;
II - apreensão do produto; III - inutilização do produto;
IV - cassação do registro do produto junto ao órgão competente; V - proibição de fabricação do produto;
VI - suspensão de fornecimento de produtos ou serviço; VII - suspensão temporária de atividade;
VIII - revogação de concessão ou permissão de uso;
IX - cassação de licença do estabelecimento ou de atividade;
X - interdição, total ou parcial, de estabelecimento, de obra ou de atividade; XI intervenção administrativa;
XII - imposição de contrapropaganda.66
É importante destacar que as punições previstas enquanto possíveis para o fornecedor de acordo com o rol do artigo 56 do Código de Defesa do Consumidor podem, por meio de uma interpretação extensiva, ser adaptáveis à realidade virtual, como o caso do inciso X, que dispõe a interdição total ou parcial de estabelecimento, de obra ou de atividade. Por se tratar de um mercado virtual, não necessariamente há um estabelecimento físico, não necessariamente há uma obra,
64BRASIL, Lei nº 7.962, de 15 de março de 2013. Op. cit.
65 BRASIL, Lei no 8.078, de 11 de setembro de 1990, Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Planalto.
devendo-se realizar uma leitura hermenêutica do dispositivo e compreender enquanto possível a retirada, mesmo que temporária, do sítio eletrônico da internet.
Por fim, temos os artigos 8º e 9º que estabelecem que formalidades legais, quais sejam, respectivamente, uma alteração na leitura do parágrafo único do artigo 10º do Decreto nº 5.903, de 20 de setembro de 2006, de modo a incluir o comércio eletrônico e a determinação para que o decreto ora analisado entraria em vigor sessenta dias após a data de sua publicação, que deu-se em 15 de março de 2013, sob a assinatura da ex-presidente Dilma Rousseff.
Devidamente analisada tal legislação, é importante compreender que, embora tenha importância, não é a legislação basilar para a defesa do consumidor. Tal papel de fundamento estrutural cabe, sem dúvidas, ao Código de Defesa do Consumidor, previsto e disposto pela Lei nº 8.078 de 11 de setembro de 1990, entretanto, o presente decreto possui inestimável importância por expressamente prever a competência legislativa do CDC por sobre o E-commerce. Compreender tal legislação é, portanto, importante para defesa do consumidor e a entrada para o estudo do Código de Defesa do Consumidor e sua aplicabilidade no comércio eletrônico.