2 DELINEAMENTO TEORICO E CONCEITUAL DA INVESTIGAÇÃO
2.3 APONTAMENTOS SOBRE CAMPESINATO E CAMPESINATO NEGRO
Nosso propósito nessa sessão é apresentar alguns debates acerca da categoria campesinato e mais especificamente acerca do campesinato negro identificado na literatura especializada como a origem das atuais populações remanescentes de quilombolas. As reflexões apresentadas na sequência fundamentam-se nos pressupostos da pesquisa bibliográfica.
A categoria campesinato, notabiliza-se na bibliografia especializada, como profundamente polissêmica podendo constituir-se com diferentes conteúdos e representações, tanto positivas quanto negativas, o que está diretamente atrelado aos processos sócio-econômicos experienciados nos diferentes contextos em que a mesma é utilizada, decorrendo daí aquilo que a bibliografia denomina de ‘capacidade adaptativa camponesa nas diferentes formas econômicas dominantes’, de tal forma a podermos referir da coexistência de campesinatos em formações sócio econômicas diversas.
Mesmo diante dessa plêiade de possibilidades interpretativas decorrentes da diversidade do contexto e das condições sócio históricas constituintes desses campesinatos, não é possível obliterar a existência de um conjunto de características comuns, o que demanda a compreensão mais ampla de códigos culturais, dinâmicas políticas, econômicas e sociais nas quais os camponeses produzem, se reproduzem e que guardam verossimilhança mesmo em contextos bastante diversos.
As pesquisas consolidadas, bem como os debates viabilizados por essas intervenções, possibilitam a sistematização de dois pressupostos importantes para o entendimento do campesinato na America Latina, quais sejam:
a)desnaturalizar a categoria de campesinato e agricultura familiar, e
b)cotejar as diferentes definições e conteúdos com realidades empíricas conhecidas da grande maioria da população e invizibilizadas no discurso hegemônico.
A efetivação, tanto de um quanto de outro pressuposto, demanda, além da valorização da questão agrária em suas diferentes abordagens, a aceitação de um conjunto de especificidades que configura o rural, mesmo diante de um processo aparentemente inexorável de urbanização acentuada.
Nesse sentido ratificamos leituras e discussões consolidadas no campo das agrárias que enfatizam o rural como uma categoria analítica descritiva e explicativa válida para compreender alguns processos sociais.
Dentre as leituras importantes para enfatizar essa temática destacaríamos a produção de Shanin13, que permite a sistematização de um conjunto de pressupostos marcadamente subsidiado nas proposições de A. Chayanov14, que no início do século XX, num contexto absolutamente desfavorável, enfatizava que os camponeses, em razão de serem orientados por outra lógica que não a do lucro, teriam condições de viabilizar a reprodução social da família mesmo diante da complexificação e dinamização do modo de produção capitalista.
Outro texto que pode auxiliar a compreensão do tema apresentado é de Almeida (2007), que apresenta um conjunto de Narrativas Agrárias acerca da morte do campesinato, destacando abordagens constantes em estudos literários e técnicos nos quais o campesinato foi tratado utilizando prismas culturais, sociológicos ou econômicos. O artigo que indicamos destaca a existência de um mosaico de possibilidades, calcadas na empiria, para que possamos atribuir significado a denominada racionalidade ou ethos camponês.
13 É um sociólogo britânico que foi de professor de sociologia na Universidade de Manchester tendo
se notabilizado pelos estudos pioneiros do campesinato russo no Ocidente. Indicamos a leitura da obra SHANIN, T - “A definição de camponês”, Estudos CEBRAP, n.26, São Paulo, 1980.
14 Agrônomo e Economista agrário soviético e estudioso da sociologia rural e defensor do agrarismo e
das cooperativas, foi contemporâneo da revolução russa. Recomendo para leitura o livro “Teoria das Cooperativas Camponesas”, de Alexander Chayanov, Porto Alegre: Editora UFRGS, 2017.
O autor afirma que mesmo diante de uma infinidade de camponeses que nem de longe permitem uma análise mais generalizante, abordagem esta denominada pelo autor de um ‘constructo analítico urbano’, é sim possível identificarmos, em diferentes temporalidades e territorialidades, questões identificadas como recorrentes. Mesmo o acentuado desenvolvimento tecnológico do tempo presente, não tem sido capaz de provocar o desaparecimento e/ou homogeneização desses grupos sociais.
Por fim, com o propósito de disponibilizar aos leitores um aprofundamento dos apontamentos feitos anteriormente, referimos o texto de Delma Neves (ano) que ratifica a ideia da polissemia do conceito de camponeses e agricultores familiares, destacando uma abordagem pouco difundida nas ciências humanas, qual seja a agricultura familiar enquanto abordagem sócio profissional, viés muito usual em estudos jurídicos que primam pela categoria normativa que regulamenta a agricultura familiar (Lei nº. 11.326, de 24 de julho de 2006), pensada também como uma grande ‘arca de Noé’, denominação textual da autora.
Um último bloco de leituras que auxiliam nesse processo são os textos de Wanderley (1995) e Carneiro (2012). A primeira uma obra consagrada nos estudos agrários e a segunda enfatizando uma abordagem marcadamente culturalista e antropológica do “ethos camponês”, retomando questões sobre a importância da unidade familiar para o entendimento do campesinato, bem como das possíveis estratégias que serão acionadas em um esforço de garantir essa unidade, enfatizando a temática da pluriatividade.
Nos estudos de Salamoni, a mesma chama a atenção acerca dessa diversidade afirmando que:
Partindo da diversidade espacial como a característica principal do agro brasileiro, temos ao longo da história, o rural organizado distintamente em contextos regionais, assim atrelando culturas à áreas específicas. Constatam-se, também, a diversificação em contextos sociais e econômicos, criando tipos específicos de agricultores e agriculturas. (RIBEIRO; SALAMONI, 2011, p.198)
Feitas essas considerações e a título de encerramento, julgamos necessário destacar a importância de uma percepção multifacetada para tratar da agricultura familiar camponesa, exatamente pela infinidade de situações e contextos que estão
presentes nesse cenário, que não pode ser tratado tão somente privilegiando a dimensão econômica ou produtiva, fenômeno corrente na atualidade.
Uma aproximação mais efetiva com a temática demandará articulações que possam capturar dimensões materiais, mas também simbólicas, afetivas, culturais, etc., fazendo necessário que o analista consiga viabilizar a “descolonialidade” de seu olhar, enfatizando o exercício efetivo da alteridade, o que efetivamente não é uma coisa nada simples!