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Apontamentos sobre consequências políticas, econômicas e

Se no capítulo anterior foi exposto o histórico do moderno e contemporâneo proibicionismo, cabe ainda esboçar algumas considerações que podem contribuir para a localização do objeto deste trabalho, para que depois este seja situado em relação à trajetória das esquerdas brasileiras. Se é importante entender as determinações sociais que engendraram e difundiram o ideário proibicionista, consolidando-o nas políticas globais sobre drogas, parece fundamental também considerar suas consequências políticas, econômicas e sociais.

O duplo enfoque repressivo

“Portugueses escravizaram e mataram nosso irmão Militares torturaram e não foram pra prisão Eu fumo minha erva e me chamam de ladrão! Os negros já fumavam erva antes da África deixar Mas os senhores proibiram por não querer nos libertar E os senhores de hoje em dia estão proibindo também Se o pobre começa a pensar Parece que incomoda alguém”

“A culpa é de quem?” – Planet Hemp

A política de interdição de produção e consumo de drogas como estratégia global é recente historicamente, e coincide com a “partilha moral entre drogas de uso ilícito e drogas de uso livre, tolerado ou controlado” (Vargas, 2008, p. 54). Há cerca de um século, praticamente nenhuma droga, de uso medicamentoso ou não, era sequer objeto de controle, quanto mais de criminalização, o que se deu “em conjunção com a invasão farmacêutica e com o crescimento da importância social das atividades biomédicas”. A partir de então, as políticas de repressão passam a conter um enfoque duplo: médico e jurídico.

A Proibição emerge como um recurso potente acionado no quadro maior das estratégias de governamentalidade. De um lado, milhares de usuários são localizados como anormais, situação que os torna excrescências morais e antígenos à segurança sanitária geral. De outro, os indivíduos responsáveis pelo gerenciamento da economia ilegal das drogas, se transformam em agentes do vício e da degradação pessoal e social. Consumidores e traficantes formam, desse modo, um par indissolúvel, ambos visados pelos aparatos de segurança e pela ojeriza social. (Rodrigues, 2004)

O Estado passa a ter como uma de suas premissas a garantia da saúde do conjunto da população, naquilo que Foucault (1982) definiu como o “imperativo da saúde: dever de cada um e objetivo geral”. O bem-estar físico da população passa a ser um dos objetivos essenciais do poder político,

65 inclusive no sentido de tornar a pobreza “útil”, aliviando seu “peso” para o resto da sociedade. Além de garantir a paz e empreender a guerra, de zelar pela manutenção da ordem e assegurar o enriquecimento, o poder estatal deve zelar pelo bem-estar físico, saúde e longevidade da população – agora o Estado pode, e deve, legislar sobre as “tecnologias de si”, que permitem aos indivíduos efetuarem “um certo número de operações em seus próprios corpos, almas, pensamentos, conduta e modo de ser, de modo a transformá-los com o objetivo de alcançar um certo estado de felicidade, pureza, sabedoria, perfeição ou imortalidade” (Foucault, 2004).

Carneiro (2008, p.66) reflete que se na antiguidade clássica a filosofia ocidental nasce a partir de um postulado de auto-conhecimento - o lema délfico "conhece-te a ti mesmo" - esta atitude torna-se posteriormente, na época alexandrina, "um princípio de gestão de si por meio de diversas técnicas que definiriam a noção de um 'cuidado de si', onde um modelo médico, de cuidados permanentes consigo, substitui o modelo pedagógico socrático anterior". Posteriormente, com o advento do cristianismo, caminha-se para uma "apropriação clerical dessas técnicas de matriz estóica", tornando-as públicas, por meio da confissão e da penitência, "e baseando-as totalmente no princípio da obediência a um outro (um mestre ou diretor de consciência), o que significou, portanto, a emergência de um modelo de renúncia de si como ideal ético e moral" (Ibidem). Do cuidado de si passa-se para o sacrifício de si.

"O modelo cristão da renúncia de si acompanhar-se-á de um modelo da saúde como salvação da alma, onde o uso de fármacos é condenado, no lugar dos quais, se prescreverá, além da confissão e da penitência, o uso de recursos pios: orações, relíquias, peregrinações, etc.", e o conhecimento de si passa a ser a obrigação de dizer a verdade sobre si não mais para si mesmo, mas para um outro, um confessor ou diretor.

A arte (technê) de conhecer a si deixa de ser a "meditação terapêutica" e passa a ser o combate contra si mesmo como ascese, abstinência e auto-vigilância. O cuidado de si torna-se, assim, o sacrifício de si. O próprio eu constitui-se, através da obediência, como uma submissão em que se conhecer é abdicar de si mesmo.

Mais do que a preservação, manutenção e conservação da força de trabalho, o que está em jogo são os efeitos econômico-políticos da acumulação dos homens (Foucault, 1982), é o controle das populações. “Os traços biológicos de uma população se tornam elementos pertinentes para uma gestão econômica e é necessário organizar em volta deles um dispositivo que assegure não apenas a sua sujeição mas o aumento constante de sua utilidade”, sintetiza o filósofo francês (Ibidem, p.198).

66 Concomitantemente com o crescimento do poder da medicina social, fortalece-se a concepção penal iluminista de uma nova estratégia que se “resume na criação da delinqüência enquanto ilegalidade isolada e fechada através do sistema carcerário” (Zaccone, 2007, p.67). Dá-se então um jogo de força, que conduz indivíduos ao poder ou à prisão de acordo com sua classe (Foucault, 2000): a justiça penal não se destina a punir todas as práticas ilegais, tão somente operando “um controle diferencial das ilegalidades, utilizando-se da polícia como auxiliar e da prisão como instrumento punitivo” (Zaccone, 2007, p.69). Para além de tutelar a integridade dos indivíduos, o sistema punitivo opera como reprodutor das relações de poder e de propriedade existentes.

Punir os pobres

“Amanhã ou depois se eu viro bicho Me chamam bandido, marginal, caso perdido

Fruto do seu próprio umbigo, Babilônia, Abra seus olhos para isso! Só depois de um injustificável encarceramento

Nos julgam, nos classificam, Encarceram e condenam E têm pronto nosso veredicto O nosso veredicto

É natural Código penal Previsto na lei do capital”.

“Abra seus olhos” - Aliança

Em artigo no qual comenta o livro O colapso da modernização, de Robert Kurz, Roberto Schwarz (1993) define a modernização como a utilização empresarial de trabalho abstrato, e aponta que ela "toca o seu limite e entra em colapso quando prospera até o ponto de perder a capacidade de ser uma perspectiva praticável para fatias crescentes da atividade econômica mundial derrubadas e expulsas pela competição, a que não têm como voltar". A análise desse processo é fundamental se queremos partir do entendimento do proibicionismo, e principalmente da "guerra às drogas", como instrumentos de contenção social de populações duplamente expulsas pela marcha do capitalismo global: expulsas de suas terras e também do próprio mercado de trabalho.

Schwarz prossegue apontando que, com o novo patamar das forças produtivas, nações que se haviam lançado à industrialização tardia perdem "as condições de coesão", tornando-se "sociedades pós-catastróficas", nas quais "o desmantelamento já ocorreu e a normalidade é um verniz".

Para estes países, a reprodução coerente no espaço da concorrência global deixou de ser um horizonte efetivo, e predomina a tendência à desagregação. Noutras palavras, a generalização do salariato e da cidadania está mais distante. Assim, o desenvolvimentismo liberou e arrancou as populações de seu enquadramento antigo, para as reenquadrar num esforço de industrialização nacional, que a certa altura, impossibilitado de prosseguir competindo, as abandona sem terem para onde voltar, na qualidade de sujeitos monetários sem dinheiro, ou de ex-proletários virtuais, agora disponíveis para a criminalidade e os

67 fanatismos nacionalistas ou religiosos. À parte a verossimilhança, estas caracterizações de

classe têm o mérito da historicidade: capital e trabalho determinam-se reciprocamente na sua feição contemporânea, distante daquela prevista nos manuais. Noutro pólo da sociedade segmentada está o conglomerado daqueles a quem a modernização, ou seja, a inserção no mercado global continua a reservar vantagens, a despeito da dificuldade de conviver com os excluídos.

Transformados em "sujeitos monetários" pelo desenvolvimento do capitalismo e pelo esforço de industrialização das economias tardias, amplos setores populacionais acabam ficando "pelo meio do caminho” neste processo e configurando-se nos "sujeitos monetários sem dinheiro" que Schwarz aguçadamente aponta. Nas palavras de Bauman (2005, p.53), são "os consumidores falhos": "pessoas carentes do dinheiro que lhes permitiria ampliar a capacidade do mercado consumidor, e que criam um novo tipo de demanda a que a indústria de consumo, orientada para o lucro, não pode responder nem 'colonizar' de maneira lucrativa". Para o sociólogo polonês, os consumidores são o principal ativo da sociedade de consumo, enquanto "os consumidores falhos são os seus passivos mais irritantes e custosos".

Forma-se assim uma "população excedente", "mais uma variedade de refugo humano6" (Ibidem), que para Bauman é constituída não por "alvos legítimos" excluídos da proteção da lei por ordem do soberano mas sim "baixas colaterais", não intencionais e não planejadas, do progresso econômico. Como pontua Schwarz,

basta adotar o prisma global para ver que os atuais desenvolvimentos da produtividade, com a sua integração superior e investimento, organização e ciência, trazem como contrapartida a desqualificação histórica das populações que não têm como os acompanhar. Governado pela forma mercantil, o progresso vem adquirindo destrutividade mais virulenta, agora manifestada nas desindustrializações da América Latina e do ex- bloco socialista, na desativação de economias africanas etc.

Para Mészáros (2006, p.31), o desenvolvimento capitalista atingiu uma fase em que o desemprego é sua característica dominante. Nessa nova configuração, o sistema capitalista constitui-se por "uma rede fechada de inter-relações e de indeterminações por meio da qual agora é impossível encontrar paliativos e soluções parciais ao desemprego em áreas limitadas", em contraste com o período desenvolvimentista do pós-guerra, em que ainda era possível a afirmação, por parte de políticos de países ricos, da possibilidade do pleno emprego.

6 "Quando se trata de projetar as formas do convívio humano, o refugo são os seres humanos. Alguns não se ajustam à forma projetada nem podem ser ajustados a ela, ou sua pureza é adulterada, e sua transparência, turva: os monstros e mutantes de Kafka, como o indefinível Odradek ou o cruzamento de gato com ovelha - singularidades, vilões, híbridos que desmascaram categorias supostamente inclusivas/ exclusivas. Nódoas numa paisagem sob outros aspectos elegante e serena. Seres inválidos, cuja ausência ou obliteração só poderia beneficiar a forma projetada, tornando-a mais uniforme, mais harmoniosa, mais segura e ao mesmo tempo mais em paz consigo mesma."(Bauman, 2005, p.42)

68 O pensador húngaro segue pontuando que, ironicamente, o desenvolvimento daquele que é "o mais dinâmico sistema produtivo da história" culmina por proporcionar "um número cada vez maior de seres humanos supérfluos para o seu mecanismo de produção, embora - de acordo com o caráter incorrigivelmente contraditório do sistema - estejam longe de ser supérfluos como consumidores".

Loic Wacquant (2008, p.93) vê como resultante destas transformações, postas em marcha pela mutação do trabalho assalariado e pela "reversão da balança de poder, tanto na relação entre as classes como na luta dos grupos pelo controle do emprego e do Estado", um processo amplo de reconfiguração também do papel do próprio Estado, empreendedor progressivo de políticas de "penalização da pobreza".

Neste contexto, associado pelo sociólogo francês ao advento do neoliberalismo, "o capital transnacional e as frações 'modernizadoras' da burguesia e de altos escalões do Estado, aliados sob a bandeira do neoliberalismo, ganharam poder e empreenderam uma vasta campanha visando à reconstituição da autoridade pública". Assim, desregulamentação social, trabalho assalariado precário e retorno "de um velho estilo de Estado punitivo" caminhariam de mãos dadas no sentido da consolidação deste cenário de contenção da pobreza através de estratégias repressoras. Ainda de acordo com Wacquant,

A "mão invisível" do mercado de trabalho precarizado conseguiu seu complemento institucional "no punho de ferro" do Estado, que tem sido empregado para controlar desordens geradas pela difusão da insegurança social. A regulação da classe operária pelo que Pierre Bordieu chama de a "mão esquerda" do Estado, simbolizada pelos sistemas públicos de educação, saúde, seguridade e habitação foi substituída - nos Estados Unidos - ou suplementada - na Europa ocidental - por regulações a partir de sua "mão direita", ou seja, a polícia, as cortes e o sistema prisional, que estão se tornando cada vez mais ativos e intrusivos nas zonas inferiores do espaço social.

Para Wacquant, a implementação da "ideologia neoliberal" resultou em três transformações - intimamente interligadas - na esfera do Estado: remoção do Estado econômico, desmantelamento do Estado social e fortalecimento do Estado penal, conformando um novo "governo da insegurança social", assentado por um lado no disciplinamento do mercado de trabalho desqualificado e desregulado, e, por outro, em um "aparato intrusivo e onipresente". "A mão invisível do mercado e o punho de ferro do Estado, combinando-se e contemplando-se, fazem as classes baixas aceitarem o trabalho assalariado dessocializado e a instabilidade social que ele traz em seu bojo", complementa o autor de Punir os pobres.

69 O recrudescimento do aparato punitivo estatal reflete-se claramente nas políticas de drogas, elemento importante no crescimento do encarceramento dos setores pobres das populações nacionais ao redor do planeta. Como lembra Foucault (1981), no processo posterior à Revolução Francesa a burguesia dispunha primordialmente de três elementos de controle da "plebe não proletarizada": exército, colônia e prisão. Com o fim das intervenções abertamente coloniais por parte dos países europeus e com o exército sendo opção apenas num número restrito de países, perdura hoje a prisão como elemento primordial neste tripé de contenção social.

Vendo o enorme aumento do encarceramento nos Estados Unidos entre os anos de 1975 e 1995, Wacquant (2007, p.222) ressalta que a quadriplicação da população carcerária neste país num período de vinte anos explica-se "não pela escalada da criminalidade violenta, mas sim pela extensão do recurso de aprisionamento de uma gama de delitos e crimes de rua que, até então, não acarretava, como condenação, a privação de liberdade".

A partir de meados da década de 1970, e mais ainda após 1983, ano em que o governo federal [dos Estados Unidos] declarou a "guerra às drogas", o encarceramento foi aplicado com uma frequência e uma severidade cada vez maiores ao conjunto dos contraventores, quer fossem eles criminosos profissionais ou infratores de ocasião, grandes bandidos ou pequenos ladrões, violentos ou não-violentos. A exceção foram os delitos e os crimes econômicos (...), objeto de uma "mansidão" que contrastava mais com o clima de severidade penal prevalecente por toda a parte.

Sem deixar de levar em conta as especificidades históricas e políticas da conjuntura estadunidense em questão, como por exemplo o interesse econômico explícito de empresas privadas de gestão penitenciária no aumento do encarceramento, interessa aqui notar a conexão direta entre a política de "guerra às drogas" e o aprisionamento em massa de setores específicos da população, num período que "vê os pequenos traficantes e os consumidores de drogas dos bairros pobres serem jogados na prisão aos milhares".

O sociólogo francês destaca ainda as mudanças estruturais na economia estadunidense como determinantes das políticas de encarceramento, explicitando quem são seus alvos quando aponta:

Reforçada pelo viés de classe e de casta do sistema policial e judiciário, a austeridade penal visa e atinge as categorias mais afetadas pela austeridade econômica e social que se instaurou em reação à "estagnação" dos anos 1970. Vale dizer que o aprisionamento em massa nos Estados Unidos não diz respeito tanto às "classes perigosas" quanto às classes precárias em seu conjunto. Reencontrando a missão que era sua em suas origens históricas, a instituição carcerária serve, doravante, como principal instrumento de gestão da miséria na América.

70 estadunidenses na década de 1990 era de um homem afro-americano, com menos de 35 anos, sem diploma de conclusão da educação secundária, condenado por um delito ou crime não violento em mais de sete entre cada dez casos. Posse ou tráfico de entorpecentes eram os índices que estavam no topo entre as infrações cometidas, com 29% de incidência, seguidos de roubo e receptação (19%) e arrombamento (15%). O número de condenados por crimes violentos aumentou 86% entre 1985 1995, enquanto os presos por violações da legislação sobre entorpecentes cresceu 478%. No caso das prisões federais estadunidenses, a participação dos condenados por este tipo de infrações era de 60% entre o total de condenados em 1995, sendo que os infratores da legislação sobre drogas correspondiam a 71% do crescimento da população detida nestes estabelecimentos.

Esta tendência de predominância de encarcerados condenados por crimes relativos a drogas ilícitas se repete em diversas partes do planeta. No Brasil, por exemplo, o número de presos por tráfico de drogas entre 2006 e 2010 aumentou 153%, chegando à cifra de 100.648 detidos em 2010, o que representa cerca de um quinto dos encarcerados brasileiros neste momento, cujo número total era de 496.251 pessoas. Os dados, fornecidos pelo Departamento Penitenciário Nacional – Ministério da Justiça do Brasil a uma reportagem do portal de Internet mexicano Terra7 colocam o país na terceira posição mundial em matéria de população carcerária, atrás apenas dos Estados Unidos (2.297.400) e da China (1.620.000).

No Brasil, dependência entre desigualdade e violência

“Vapor barato, um mero serviçal do narcotráfico Foi encontrado na ruína de uma escola em construção Aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína Tudo é menino e menina no olho da rua O asfalto, a ponte, o viaduto ganindo pra lua Nada continua”

“Fora da ordem” – Caetano Veloso

Analisando as mudanças ocorridas nas periferias brasileiras, em especial as paulistanas, Gabriel Feltran (2010) ajuda a esclarecer como, e em que contexto, este processo retratado por Wacquant reverbera no Brasil. Feltran lembra que o regime militar - no que se conhece como "milagre econômico" - atraiu milhões de imigrantes de todo o país para as periferias urbanas através do processo de "modernização e pleno emprego industrial daquele período". O perfil da população que ocupou essas periferias teria sido majoritariamente migrante e centrado na família extensa, cuja expectativa era “melhorar de vida” na cidade. A coesão social dessa população se ancorava nos

7 “Sobrepueblan las prisiones de Brasil”. Alberto Almendáriz. Terra México, 13 de agosto de 2011. Disponível em

71 valores católicos e no projeto de mobilidade social ascendente pelo trabalho industrial. A "promessa pública" era a de que "a modernização do país inscreveria essas 'classes trabalhadoras' na dinâmica salarial, e que a contrapartida social do assalariamento, o acesso a direitos sociais, geraria melhoria objetiva nas condições de vida das famílias".

Passadas mais de três décadas, esses parâmetros mudaram "substancialmente" de acordo com Feltran. Do ponto de vista político, estabelece-se um regime formalmente democrático e sob o prisma da dinâmica social o autor identifica um câmbio geracional que "demonstrou uma mudança expressiva nos pilares da vida social desses territórios": "Quem reside hoje nas fronteiras da cidade não é mais migrante, é 'paulistano'", e a organização de suas famílias, mais tipicamente urbanas, também respondeu à tendência de transformação intensa. No plano religioso, milhões de católicos transitaram à teologia neopentecostal, e "a capacidade de consumo, já não diretamente vinculada à renda pela expansão do crédito popular, aumentou muito mesmo nas favelas". Complementando o processo, "novas tecnologias de informação favoreceram a conexão dos moradores jovens das periferias a espaços de construção identitária renovados, e acesso a universos inimagináveis há alguns anos".

Feltran define como "pano de fundo" dessas transformações "o deslocamento no centro de gravitação do projeto operário", representado pelo trabalho industrial, radicalmente modificado pelo que se convencionou chamar de “reestruturação produtiva”. A longa citação se justifica pela definição precisa do quadro que conecta este panorama ao nosso objeto em questão, as drogas e seu comércio:

Crises severas do emprego, sobretudo nos anos 1990, e a estabilização do desemprego estrutural forçaram mudanças significativas do mercado de trabalho popular. Se em 1970 era fácil conseguir um emprego fabril, em 2010 esse emprego é escasso e exige alta escolaridade, além de especialização e flexibilidade; ainda assim, quem chega a ele em

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