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Esquerda armada (e disciplinada)

Para analisar formulações e entendimentos da esquerda brasileira a respeito das drogas, o presente trabalho toma como marco inicial o ano de 1961, tanto por ser a data da Convenção da ONU que marcou uma nova etapa na proibição de certas drogas quanto pelos anos 1960 representarem o começo de um novo ciclo na história do comércio de substâncias ilícitas em escala internacional, após aumento na demanda mundial por psicoativos e recrudescimento das estratégias proibicionistas catapultadas pelos Estados Unidos em âmbito internacional. Além disso, 1961 representou o início das cisões no interior do PCB (exatamente no momento em que a sigla deixa de significar Partido Comunista do Brasil e passa a representar Partido Comunista Brasileiro), sendo assim um momento representativo e fundamental na história da esquerda brasileira, com o chamado “Partidão” perdendo irremediavelmente o protagonismo que ocupara até então.

Segundo Jacob Gorender (1987, p.20), entre 1946 e 1964 “o PCB representou a principal força da esquerda de inspiração marxista” no Brasil:

Dispunha de quadros experientes e completamente dedicados ao trabalho partidário, sua radicação no movimento operário era sólida e muito mais importante do que a das outras correntes, contava com ramificações no meio camponês, tinha forte influência no movimento estudantil e nas campanhas antiimperialistas. Servia de referencial a todas as organizações de esquerda.

Fundado em 1922, sob influência da Revolução Russa de 191713, o Partido Comunista do Brasil aliou-se às estratégias da Internacional Comunista (Komintern) desde o início, “tendo como objetivo conquistar o poder pelo proletariado e lutar pela transformação política e econômica da sociedade capitalista em comunista e, como primeira grande tarefa, a construção do partido sobre uma firme base operária”, como aponta o texto das resoluções de seu XII Congresso. A organização tinha como tática a participação nos sindicatos, nas lutas operárias e em “ações de massa”, e foi considerada ilegal desde seu primeiro ano, tendo tido somente pequenos períodos de livre atuação.

Após definição tomada pela Internacional em 1935, durante seu 7º Congresso, no Brasil o partido formula sua defesa da estratégia de “Frente Única”, que abrangeria mais setores do que o operário

13 “A idéia de organizar um partido proletário perseguiu muitos militantes de vanguarda, desde a revolução russa, ainda

que não viessem a participar de eleições ou coisa parecida, a entrar no jogo político das classes dominantes, o que então significava verdadeiro opróbrio para a grande maioria da esquerda. Compreendiam a necessidade de congregar os revolucionários e coordenar os esforços, para outra investida contra o Estado burguês, e sentiam a insuficiência das entidades de massa, as uniões de resistência e federações operárias com vistas à consecução do objetivo: preparar a insurreição. A revolução russa, que – sabiam – um partido dirigira, rasgou os horizontes”. (Bandeira, Melo e Andrade; 1967, p.284)

100 no combate ao fascismo. Assim, em 1935 o PCB encampa a formação da Aliança Nacional Libertadora (ANL), que logo é tornada ilegal. Em novembro de 1935 a ANL, quase totalmente formada pelo PCB, tenta tomar de assalto o poder e fracassa, no que passaria a ser conhecido como “Intentona comunista”. Com essa derrota, começa uma desarticulação do partido, o que se agrava com o Estado Novo de Getúlio Vargas, iniciado em 1937. A perseguição aos comunistas foi dura, e o PCB só volta a articular-se em 1942.

Em agosto de 1943, Luiz Carlos Prestes, que antes de se tornar comunista comandara a Coluna Prestes, é escolhido Secretário Geral do partido, mesmo estando preso. Nesse momento, o governo Vargas iniciava um processo de redemocratização, e o PCB decide apoiá-lo. Em abril de 1945 o presidente Vargas decreta anistia aos presos políticos e, no mês seguinte, legaliza o partido. Derrubado o presidente, eleições gerais são convocadas. Iedo Fiúza, candidato dos comunistas à presidência, obtém 10% dos votos; Prestes é eleito senador, junto com outros 14 deputados do partido. Estes resultados credenciavam o PCB como terceira força eleitoral do país.

O partido seguia defendendo uma aliança com a burguesia para uma “revolução democrática”, só que a partir de agora o âmbito para concretizar essa transformação seria o parlamento, que convocaria, de forma pacífica, uma Assembléia Nacional Constituinte. Em 1947 a esperança na institucionalidade sofre um baque, uma vez que o partido volta a ser decretado ilegal, tendo seus parlamentares cassados em janeiro de 1948. A partir daí, os comunistas encampam a proposta de uma Frente Democrática de Libertação Nacional, inclusive com um braço operário armado, e obtém sucesso em algumas mobilizações, como na campanha “O Petróleo é nosso”, durante o segundo governo Vargas. A revolução continuava sendo projetada para ter duas etapas: uma “antiimperialista e antifeudal” e a seguinte sim socialista rumo ao comunismo. Segundo Leandro Konder (1980), de 1946 a 1952 o PCB passa de 200 mil militantes para apenas 20 mil.

Em 1956 acontece o XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, onde são denunciados alguns dos crimes cometidos por Stálin. Mesmo que tal evento tenha impactado fortemente os comunistas brasileiros, a estratégia da revolução por etapas e de aliança com a burguesia permanece intocada: nas palavras de Daniel Aarão Reis Filho (1989), “em nenhuma hipótese seria aconselhável romper a unidade com a burguesia nacional”.

Após a fracassada tentativa de golpe da direita em 1961, o PCB formula uma avaliação extremamente positiva do movimento social, segundo Reis Filho. Assim, o partido não encarava o peso determinante das divisões das classes dominantes, que teria se refletido “na divisão das Forças

101 Armadas”, e, sobretudo, não dava muita atenção ao fato de que o movimento antigolpista de 1961 “se viabilizara na defesa do regime e da legalidade”. Essa linha, de confiança na concretização das reivindicações populares através das “reformas de base” do governo de João Goulart, foi mantida até 1964, quando o golpe finalmente triunfou. O “Partidão” nunca mais seria como antes. A onda de cisões que começou com a fundação da Política Operária (Polop), em 1961, e do PC do B, em 1962, se acentuaria durante os anos da repressão por parte da ditadura militar, quando surgem, a partir do PCB, diversas pequenas organizações que optam pela luta armada para combater o regime e instaurar o socialismo.

Nova Esquerda: “reino do empirismo”

Em História das tendências no Brasil, Antonio Ozaí da Silva (1987, p.87) qualifica o período durante o governo parlamentarista de João Goulart como marco do nascimento de uma “nova esquerda”, articulada na esteira de uma “radicalização dos movimentos de massa que se aprofunda e se generaliza”. A mesma terminologia é empregada por Daniel Aarão Reis Filho na introdução ao compilado de documentos de organizações da luta armada brasileira que ele editou em conjunto com Jair Ferreira de Sá sob o título Imagens da Revolução, onde qualificam 1961 como “marco inicial da Nova Esquerda” (Reis Filho e Sá, 2006, p.19), a partir do qual estaria quebrado “o monopólio de representação política que pretendia o PCB desde 1922”.

Com a expressão “Nova Esquerda” pretendemos abranger as organizações e partidos políticos clandestinos que surgiram no país em oposição e como alternativa ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e que se propunham a dirigir as lutas sociais e políticas do povo brasileiro, encaminhando-as no sentido da liquidação da exploração social, da dominação do capital internacional e da construção de uma sociedade socialista. A expressão “nova” quer significar, neste contexto, “diferente”, e não deveria sugerir a impressão de que temos a intenção de caracterizar as forças políticas até então existentes como “velhas”, na acepção pejorativa do termo, ou seja, ultrapassadas. (Reis Filho e Sá, 2006, p.15)

Partindo da definição do auge do PCB sugerida por Gorender e apresentada acima, Maria Paula Nascimento Araújo (2000, p.74) traçou quatro fases no desenvolvimento do partido entre o fim da ditadura de Getúlio Vargas e o golpe militar de 1964, periodização que pode ser útil para a compreensão do desenvolvimento do partido e seus rachas. A primeira fase, entre 1945 e 1948, é marcada por um “contexto de inusitada legalidade”, na qual o partido obtém o êxito eleitoral já mencionado. Segundo Araújo, a “definição de sua linha política programática era, de certa forma, a mesma de 1935: realizar uma ‘revolução democrático-burguesa, antifeudal e antiimperialista’. O que mudava era a adoção de uma linha pacífica para a realização dessa tarefa – que se expressava

102 na proposta de ‘união nacional’”.

O período entre 1948 e 1954 teria início com a “privação de um debate aberto e amplo, a repressão e a clandestinidade”, o que resultaria na “radicalização da tática revolucionária que o PCB viveu nesse período”. No Programa do IV Congresso, de 1954, propunha-se a luta armada e a hegemonia da classe operária, mesmo que aliada a burguesia nacional em uma frente revolucionária. O segundo governo de Vargas era qualificado como de “traição nacional”, o que, segundo Gorender (1987, p.22) teria levado o partido a uma “situação desgastante e embaraçosa”.

Com o suicídio do presidente e a forte comoção popular, o partido muda “a linha de sua tática política, iniciando uma fase em que voltou a buscar uma inserção na sociedade. No ano seguinte engajou-se na campanha eleitoral e participou da candidatura de Juscelino Kubitscheck” (Araújo, 2000, p.76). Estaria iniciada a terceira fase, que duraria de 1954 a 1958 e que corresponderia a um período de “reaproximação da vida política brasileira, na qual o PCB buscou recuperar-se como partido de massas” (ibidem). No entanto, a fase seria marcada também por crise interna decorrente da divulgação do Relatório Kruschev, que denunciava os crimes de Stálin. Araújo resume:

A revisão da linha política que começara a se processar no final de 1954; a tentativa do partido de construir uma ação política legal, vinculada às massas; a autocrítica do stalinismo motivada no mundo inteiro pelo Relatório Kruschev começam a empurrar o PCB para uma autocrítica mais profunda de sua tática política. Havia, ainda, a necessidade de superar a tensão entre estratégia (etapa democrática) e tática (luta armada).

Em 1958 inicia-se a quarta etapa, que duraria até 1964, e que teria como marco inicial a Declaração de Março de 1958, documento que reafirmava a etapa democrático-burguesa, o caráter antiimperialista e antifeudal da revolução brasileira e a aliança com a burguesia nacional, mas defendia o caminho pacífico para a revolução e apontava a necessidade de uma luta por “reformas estruturais”. A partir de então o embate entre via pacífica versus luta armada e a respeito da tática de defesa das “reformas de base” definiria os rumos internos e as cisões que mudariam a história do PCB e da esquerda brasileira.

Segundo Marcelo Ridenti (2007, p.106), as esquerdas armadas brasileiras tiveram origem histórica nos principais partidos e movimentos de esquerda em atividade antes do golpe de 1964: Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido Comunista do Brasil (PC do B), Ação Popular (AP), Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (ORM-Polop), além dos movimentos nacionalistas ligados a setores de esquerda do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). “Do interior

103 dessas organizações matrizes, surgiram cerca de 20 grupos dissidentes que realizariam ações armadas – acusando seus antecessores de não se prepararem adequadamente para a revolução brasileira e de não terem sido capazes de resistir ao golpe” (ibidem).

Em A revolução faltou ao encontro, Reis Filho (1989) avalia que se “as lutas políticas no interior da esquerda comunista passaram quase desapercebidas socialmente” durante o período anterior ao golpe de 1964, “a surpresa da derrota, mais a surpresa que a derrota, foi uma experiência dolorosa e desagregadora”: “Instaurou-se o desencanto com a discussão e a organização política, privilegiou-se a ‘prática’, ou seja, atos e ações que tivessem efeitos imediatos. O empirismo condicionou a emergência de grupos e organizações auto-suficientes em âmbito regional ou mesmo municipal. Argumentavam que ‘a prática’ ensinaria o caminho”.

Em outro texto, Reis Filho (Reis Filho e Sá, 2006, p.20) caracteriza as organizações da Nova Esquerda como originárias de cinco troncos principais. O primeiro é formado pela ORM-Polop e por grupos que surgem sob sua inspiração ou derivados de cisões14. Da Ação Popular (AP) surge outro tronco, que inclui o Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PRT), e que se pulveriza com a conversão da organização em marxista-leninista, o que se consuma com a fundação da Ação Popular Marxista Leninista (AP-ML). Logo após, boa parte dos quadros da AP se integraria ao PC do B.

PC do B que por sua vez constitui o terceiro dos troncos, segundo Reis Filho. Daí são provenientes a Ala Vermelha do PC do B (PC do B – AV), de onde por sua vez origina-se o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e o Partido Comunista Revolucionário (PCR). Outras divergências no interior do PCB, posteriores a 1964, provocam o surgimento de um novo tronco, que Reis Filho subdivide em duas “seções: as Dissidências e a Corrente”. As Dissidências geraram várias organizações regionais15, e a Corrente daria origem ao Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e à Ação Libertadora Nacional (ALN), de Carlos Marighella, da qual surge o Movimento de Liberação Popular – Molipo. O último tronco registrado é representado pela

14 O autor cita: Comandos de Libertação Nacional (Colina), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Partido Operário

Comunista (POC), Organização de Combate Marxista-Leninista – Política Operária (OCML-PO), Fração Bolchevique.

15

Reis Filho registra “as mais significativas”: a Dissidência do Rio Grande do Sul se integraria à ORM-Polop para formar o POC; a de São Paulo ingressaria na ALN; a da Guanabara forma a Dissidência Comunista da Guanabara (DI-GB), que mais tarde assumiria o nome de Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8); a do Rio de Janeiro formaria o Movimento Revolucionário 8 de Outubro, liquidado pela repressão em 1969 e que teria seu nome retomado pela DI-GB.

104 corrente que reivindicaria o legado teórico do trotskismo, cuja expressão organizada é o Movimento Estudantil 1º de Maio, mais tarde convertido em Organização Comunista 1º de Maio16.

Segundo Reis Filho, a “extrema fragmentação” se explica tanto pela ofensiva do regime militar a partir de dezembro de 1968 quanto por determinações políticas, das quais ele destaca o impacto da derrota de 1964, a partir do qual se privilegia “a então chamada ‘prática’” e o “reino do empirismo”, o impacto das experiências internacionais17 de luta armada, sobretudo em Cuba e China, e o “choque de gerações nas organizações da Nova Esquerda”: com a derrota de 1964, carreiras políticas e projetos de vida foram interrompidos, e muitos dos que sobraram no país acabaram desistindo temporariamente da vida política. “Os que haviam começado em 1963, 1964, viram-se, subitamente, com responsabilidade de direção”, aponta (Reis Filho e Sá, 2006, p.23) concluindo: “Nas organizações e partidos da Nova Esquerda a média de idade beirava frequentemente os 20, 22 anos. Os que tinham 25 anos eram considerados veteranos”18

.

Ridenti (2007, p.107) também observa que a composição dos grupos armados era predominantemente jovem, e além disso masculina19:

A composição social de cada um dos grupos armados era relativamente diversificada no que tange a ocupação profissional, idade e sexo. No conjunto, predominaram os integrantes que poderiam ser classificados como de camadas sociais intelectualizadas, que compunham 57% do total de 1.112 processados pela Justiça Militar por ligação com organizações armadas urbanas, cujos militantes eram jovens na maioria (51,8% até 25 anos idade) e do sexo masculino (81,7%).

Reis Filho traz ainda outros elementos importantes, ao notar por exemplo que a luta armada e o emprego da violência eram vistos como inevitáveis, e a inspiração cubana e chinesa completava-se com a admiração pela resistência vietnamita: “Uma nação pequena, mas coesa, enfrentava vitoriosamente a grande potência mundial. Os fatos pareciam indicar que tudo era possível, desde

16 Para completar a sopa de letrinhas, o autor menciona ainda, além desses cinco troncos, “as experiências do

Movimento de Ação Revolucionária (MAR), formado por militantes provenientes do PCBR e do MNR e da Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR- Palmares) resultante da fusão de organizações, grupos e militantes provenientes da ORM-Polop, MNR, AP e PCB.

17 “Essa esquerda dissidente que surgiu no Brasil, ao longo dos anos 1960, seguia de perto algumas das tendências das

novas esquerdas internacionais: inclinação pela violência, radicalismo, culto da ação e do pragmatismo. Os mesmos ídolos, ativistas e pensadores que influenciavam um expressivo setor da juventude de esquerda em todo o mundo ocidental também eram referências importantes por aqui: Che Guevara, Mao, Ho Chi Mihn, Débray, Fanon. Seja na versão cubana ou chinesa, a luta armada era nessa época valorizada tanto aqui quanto em muitas partes da Europa e dos Estados Unidos. “ (Araújo, 2000, p.84)

18 “Se associarmos estes dados à atitude de negação das experiências passadas, provocada pelo horror à derrota de 1964,

teremos um quadro de rejeição violenta das tradições, ou seja, a eliminação de um dos principais fatores de coesão em qualquer estrutura política organizada.” (Reis Filho e Sá, 2006, .p23)

19 “Seria impossível deixar de mencionar o fato de que os intelectuais de classe média – homens e brancos –

representam a grande fonte de quadros dirigentes de todas as organizações e partidos clandestinos.” (Reis Filho e Sá, 2006, p.30)

105 que houvesse disposição de luta”. Mesmo que a Revolução Russa ainda fosse presente e reivindicada, passara a um “plano secundário” frente às experiências cubanas, chinesa e vietnamita, e Reis Filho (Reis Filho e Sá, 2006, p.27) observa que, significativamente, estas “tinham pouco a transmitir do ponto de vista da participação da classe operária na revolução”.

Por fim, e fundamental ao enfoque deste trabalho, a Nova Esquerda distinguia-se também pela afirmação de novos valores políticos, derivados da confiança na ação e na intervenção da vanguarda.

Na possibilidade de transformar a realidade social, inverter a correlação de forças, que deixavam de ser dados irretocáveis para se tornarem algo suscetível de modificação, de revolução. A ressurreição do quadro político profissional, dedicado 24 horas por 24 horas à revolução. O igualitarismo entre dirigentes e dirigidos, a atenuação das hierarquias. O espírito de sacrifício do Che Guevara, o ascetismo dos revolucionários chineses. E sobretudo a moral de “ofensiva” retilínea, não sujeita a recuos. A luta poderia ser longa, difícil, perigosa, mas o caminho estava traçado e os revolucionários deveriam preparar-se não mais para morrer heroicamente nas masmorras do poder, mas para matar em busca da vitória. (ibidem)

Disciplina militar e sacrifício militante

O desacordo com a linha política do PCB e o novo cenário de enfrentamento da ditadura acarretaram na conformação desta “Nova Esquerda”, fortemente marcada pela opção de atuação militar. Como apontado anteriormente, a nova conjuntura trouxe consigo novos valores, dentre os quais a disciplina militar, o ideal de sacrifício e a dedicação integral à ação política, subordinando, ou mesmo anulando, a vida pessoal frente à prática pretensamente revolucionária. Como resume documento, de março de 1971, da Ação Popular – Marxista Leninista, “sejam quais forem suas formas, todos os trabalhos e todas as lutas devem servir, direta ou indiretamente, para criar as condições políticas e militares para o desencadeamento vitorioso da guerra popular em nosso país” (Reis Filho e Sá, 2006, p.385).

O mesmo documento prossegue apontando que “os militantes da nova Ação Popular, que juram consagrar toda a sua vida à luta pelo comunismo, devem ser resolutos, não temer nenhum sacrifício e vencer todas as dificuldades para conquistar a vitória!” (idem, p.386). A Ação Popular – Marxista Leninista defendia ainda que todos seus organismos e militantes “perseverem no estilo proletário de trabalho duro e vida simples” (idem, p.372) e dizia que em uma sociedade comunista “todo povo terá uma cultura elevada, uma concepção científica da natureza e da história, elevadas qualidades morais comunistas e grande iniciativa e entusiasmo no trabalho” (ibidem, p.375).

106 A organização Colina foi ainda mais longe, ao defender, em documento de abril de 1968 intitulado

Concepção da luta armada, que “a guerrilha não é apenas o embrião do exército, mas do próprio

governo, da própria sociedade nova” (ibidem, p.194), apontando que em seu processo de desenvolvimento a luta armada “transforma as próprias relações sociais”. Compreendendo a tática de luta adotada como embrionária de novas formas de relações sociais, relações estas entendidas como desejáveis na formação de um novo horizonte social, a passagem indica como a forma organizativa eleita para aquele período trazia pouca diferenciação entre as condutas individuais dos militantes e as políticas das organizações, uma vez que as primeiras estavam determinadas e subordinadas às segundas.

Neste sentido, é importante ser avaliado o papel que a noção de sacrifício pessoal – ao estilo Guevara, como apontado anteriormente - tinha para os grupos da esquerda armada. Em texto de 1960, anterior portanto à fundação do PC do B, Maurício Grabois, futuro dirigente da organização, salientava como o ideal de sacrifício permeava o pensamento de esquerda naquele momento, ao ressaltar que “a negligência no trabalho ideológico e as posições oportunistas, resultantes da linha política, levam ao enfraquecimento do espírito de partido, à perda da combatividade, da capacidade de luta e de sacrifício dos militantes” (PC do Brasil, 2000, p.20).

Em relação ao ideal de sacrifício, há ainda outro aspecto, que Reis Filho (1989) define como o “complexo da dívida”: “a compreensão de que uma inferioridade medular marca o militante, em relação ao Partido”, fazendo-o sentir-se sempre em dívida com a organização em que atua. “A

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