Se, como apontado anteriormente, o ano de 1961 é visto como seu marco inicial, 1971 assinala “o início do fim de um primeiro ciclo da Nova Esquerda, marcado, se assim podemos sintetizá-lo, por concepções que supervalorizavam a capacidade de ação das vanguardas no quadro de um suposto impasse irreversível ao nível da dominação de classe” (Reis Filho e Sá, 2006, p.19). Haveria ainda a guerrilha do Araguaia, dirigida pelo PC do B em 1972, sendo sua derrocada parte do que Reis Filho identifica como fase de transição prolongada, que perduraria até 1973, a partir de quando estaria inaugurada uma nova etapa, “caracterizada pela busca de formas legais de luta e pela admissão da situação de defensiva em que se encontravam o movimento popular e as organizações e partidos de esquerda no Brasil”. Como resume Ridenti (2007, p.134), a derrota da experiência armada marcou os desdobramentos posteriores da história do marxismo no Brasil:
Talvez tenha sido a última expressão significativa do ciclo que se abriu com a fundação do Partido Comunista em 1922, fortemente marcado por concepções ditas de vanguarda da classe operária. As esquerdas tenderiam cada vez mais a valorizar as liberdades civis e democráticas, ainda que sem consenso sobre o que esta vem a ser. Ademais, tenderia a consolidar-se a ideia de que reformas e revoluções não se fazem sem sólido embasamento político e social, ancorado especialmente entre os trabalhadores e os despossuídos em geral.
Reis Filho vê em 1974 o ano de consolidação desta nova etapa, uma vez que ali se inicia a distensão “lenta, segura e gradual” proposta pela ditadura e também são realizadas eleições, o que consolidaria “uma nova conjuntura e um novo ciclo no interior da Nova Esquerda”. A “esquerda armada” dos anos 1960 passava a dar lugar, em meados da década de 1970, a uma “esquerda alternativa”, com os “sobreviventes” do período de combate fazendo uma revisão crítica da proposta de luta armada e buscando uma reinserção na luta política legal (Araújo, 2000, p.98).
Araújo elenca algumas características fundamentais desta “esquerda alternativa”: valorização do cotidiano, do indivíduo, das relações pessoais e da esfera do íntimo e do privado; a politização dos sentimentos e das emoções; a ênfase na democracia direta, participativa, sem intermediários; e a desconfiança das rígidas formas de organização e hierarquia. Segundo a autora, “nenhum desses pontos podia ter resolução possível dentro dos paradigmas gerais do marxismo que, até meados dos anos 1970, informaram teoricamente a esquerda”, restando aos nascentes movimentos de “minorias políticas”, enfatizando suas diferenças e especificidades, tanto a representação destas novas concepções quanto uma ruptura com elementos importantes da cultura marxista, uma vez que
os grupos e organizações dissidentes dos anos 1960 eram críticos em relação aos partidos comunistas e socialistas. Acusavam-nos de imobilismo, reformismo, cautela excessiva,
142 burocratização, stalinismo, etc. Mas ainda se mantinham dentro dos paradigmas gerais do
marxismo. Buscavam inspiração em outras fontes: Trotski, Rosa Luxemburgo, Gramsci, Mao. Eram críticos de Stalin, do comunismo soviético e, até mesmo, da tradição leninista. Mas procuravam suas referências dentro da cultura marxista. (Araújo, 2000, p.99)
Essa cultura marxista teria dado contornos gerais, teóricos e políticos, a praticamente toda atuação de grupos, partidos e movimentos de esquerda do início do século XX até meados dos anos 1970, quando Araújo identifica a emersão de “movimentos de um novo tipo” na cena política brasileira, naquilo que chama de “movimentos de diferença”. Este setor norteava-se por categorias diferentes, e algumas vezes até opostas, das principais bases do marxismo, mesmo que alguns destes tenham surgido, no início dos anos 1960, compartilhando esta cultura. Segundo a historiadora, a busca de uma identidade própria e a construção de uma “linguagem específica” acabaram promovendo uma ruptura, que representou a diversificação da “ampla cena de esquerda e de contestação” no Brasil, passando a ser mais marcante a existência de “uma nova perspectiva teórica que valorizava a diferença e a fragmentação”.
A partir dos anos 1970, os movimentos sociais teriam passado a desenvolver uma dinâmica cada vez mais específica, calcada em suas particularidades, e que buscava se afastar das formas de política vistas como tradicionais. Em comum com os grupos da década anterior, “o sentido forte de dissidência, de heterodoxia, a desconfiança das modalidades tradicionais de representação política (como partidos e sindicatos), a valorização da fala pessoal e da ação direta” (Araújo, 2000, p.112). No entanto, influenciados por exemplo pela teoria de “revolução molecular” de Felix Guattari ou pelas concepções de poder de Michel Foucault, estes “grupos identitários” teriam visões de mundo, valores e comportamentos próprios:
Recebendo como herança de 1968 a noção de um sujeito particular, específico, que falava de sua diferença, os anos 70 particularizaram ainda mais este sujeito e promovera a fragmentação da totalidade; fragmentando, inclusive, a consciência do sujeito histórico. Se antes, sujeitos particulares, engajados em lutas particulares, assim mesmo convergiam para uma luta geral, a partir de meados dos anos 1970, as lutas particulares adquiriram uma significação em sua própria especificidade, não convergindo mais, necessariamente, para um objetivo geral comum. Passaram a ter sentido em si próprias. (...) A ideia da transformação social ganhava um novo conteúdo: “focos” territoriais específicos. Assim, o sujeito universal da cultura marxista explodia em milhares de subjetividades. (Araújo, 2000, p.110)
Se na década anterior a esquerda brasileira havia se dividido e agrupado sobretudo entre as questões da crítica à concepção das etapas da revolução e da luta armada, nos 1970, principalmente a partir de 1974, os pontos que determinavam os diferentes alinhamentos entre partidos e organizações de esquerda teriam mudado na visão de Araújo (2000, p.120), que vê três formas em torno das quais se davam estes novos agrupamentos, cisões e tensões: uma questão estratégica, a dicotomia entre
143 reforma e revolução; uma questão tática, a luta pelas liberdades democráticas; e uma questão de filosofia política, “como encarar e se relacionar com os movimentos específicos, a fragmentação e a valorização da subjetividade”.
Polarizados entre a oposição entre “esquerda revolucionária” e “reformismo”, corte evidentemente diferenciado a partir do pertencimento do analista, e o nível de adesão à luta pelas liberdades democráticas, as organizações de esquerda durante a década de 1970 tiveram que encarar também o debate em relação aos movimentos de minorias políticas que surgiam ou ressurgiam no país e que quebravam “o monopólio da atuação contestadora e da condição de esquerda até então em mãos dos partidos e organizações comunistas” (ibidem, p.127).
Do ponto de vista da relação com as proposições trazidas pela “esquerda alternativa”, Araújo divide três eixos de posicionamentos. O primeiro incluiria “uma visão tradicional da ação política”, considerando que estes novos movimentos representavam uma divisão indesejada na esquerda, “introduzindo perturbadoras questões subjetivas e excessivamente específicas”. Estes grupos emergentes só seriam vistos como úteis na visão das organizações mais tradicionais se participassem das grandes políticas gerais, como a luta pela anistia ou contra a carestia. De modo geral, essa seria a posição do PCB, do PC do B e do MR-8.
Um segundo eixo seria portador de “uma visão menos tradicional da luta política, sensível à questão da diferença e que procurava se relacionar com a especificidade destes movimentos”, esforçando-se inclusive para não “aparelhá-los”, hegemonizá-los com fins outros que não suas lutas. Mas buscavam também trazê-los para o campo mais geral de luta contra a ditadura e em prol do socialismo. Seria essa a posição da APML e do MEP, por exemplo.
Por fim, Araújo identifica um terceiro grupo, composto pela “visão de muitos militantes desses movimentos, que enfatizavam a especificidade de suas questões e temiam a relação com partidos e organizações de esquerda”. Seu medo era que o contato com a esquerda organizada pudesse levar à diluição ou relação utilitária de seu potencial de mobilização, e mesmo que não recusassem participação em articulações mais amplas, “achavam necessário resguardar sua autonomia e preocupavam-se com a invasão de seus espaços”.
Viveu-se no interior da esquerda neste período um considerável espírito de inovação, resultado tanto da derrota da experiência armada quanto das influências do pensamento contracultural simbolizado principalmente pelo Maio de 1968 francês e pelo movimento hippie estadunidense. Como resume
144 MacRae (1990, p.20), estudioso e ativista do grupo homossexual Somos, de São Paulo, os (longos) anos de ditadura haviam promovido uma crise, “semeando a inquietação e a dúvida a respeito das concepções políticas tradicionais”. Discursos sobre povo e classe, suas dificuldades e suas lutas, não resolviam mais os anseios “nem daqueles que haviam recusado desde o início o conformismo bem remunerado do ‘milagre econômico’ e nem dos que se sentiram logrados quando este se desfez como uma bolha de sabão”:
Na busca de soluções para suas próprias contradições, estudantes e intelectuais voltavam suas preocupações para questões como o corpo, o erotismo, a subversão de valores e comportamentos. Foram buscar inspirações nos movimentos, já antigos, da contracultura da Inglaterra e dos EUA. E as discussões passaram a ser feitas em torno de assuntos como o uso de drogas, a psicanálise, o corpo, o rock, os circuitos alternativos, jornais underground, discos piratas, etc. Entre esses setores começava a se tornar cada vez mais nítido um desinteresse pela política como ela vinha sendo entendida até então. A teoria e a prática das esquerdas eram questionadas, sendo apontado seu conservadorismo cultural, refletido na sua dificuldade em inovar nas áreas das artes e dos costumes.
O marxismo aparecia estigmatizado como “caretice”32
e difundia-se, segundo MacRae, uma nova noção: não haveria revolução ou transformação social sem que ocorresse também revolução ou transformação individual. Paralelamente ao decréscimo na participação em atividades políticas tradicionais, aumentava-se também o uso “de drogas como a maconha e o LSD, refletindo essa nova tendência introspectiva” – sendo importante, na opinião do antropólogo, evitar a caracterização deste fenômeno como “simplesmente um abandono dos antigos ideais de contestação, pois, tanto quanto a participação política, o uso de drogas fazia parte de um papel desviante, sujeito de uma repressão severa, embora um pouco menos selvagem”. Ele cita Heloísa Buarque de Hollanda, que apontou em 1980:
A marginalidade é tomada não como saída alternativa, no sentido de ameaça ao sistema; ela é valorizada exatamente como opção de violência, em suas possibilidades de agressão e transgressão. A contestação é assumida conscientemente. O uso de tóxicos, a bissexualidade, o comportamento descolonizado, são vividos e sentidos como gestos perigosos, ilegais, e, portanto, assumidos como contestação de caráter político. (Hollanda apud MacRae, 1990, p.21)
Tanto negros como mulheres tinham já nos anos 1970 uma longa tradição de luta em busca dos direitos que sempre lhes foram negados. Porém, MacRae (ibidem, p.25) ressalta que no período
32 MacRae (1990, p.24) aponta a respeito das “críticas aos esquerdistas ortodoxos, cujo moralismo irritava muitos
jovens estudantes”: “Sob pretexto de evitar chocar algum hipotético simpatizante proletário, as lideranças muitas vezes se colocavam contra várias práticas bastante generalizadas entre a juventude. Nessa época, em que era bastante comum no corpo estudantil o relacionamento sexual descompromissado, eles frequentemente insistiam no casamento de seus companheiros de militância. A homossexualidade era perseguida de forma mais veemente ainda, levando à defecção de muitos militantes, alguns dos quais iriam, mais tarde, engrossar as fileiras do movimento homossexual. Também criticavam duramente o uso da maconha e qualquer outro tóxico e estigmatizavam o rock, o soul, o funk e outras influências estrangeiras como ‘alienantes’”.
145 pós-guerra e, sobretudo, depois do golpe de 1964 “essas campanhas se arrefeceram e suas lutas foram ignoradas, não só pela elite no poder, mas pelos próprios grupos oposicionistas”. Foi só com as transformações vividas na década de 1970 que negros e mulheres (re)articularam-se em movimentos próprios e específicos a fim de retomar suas antigas reivindicações e expressar novas demandas, no que foram posteriormente seguidos pelo nascente movimento homossexual:
Encontrando pouco respaldo entre os grupos políticos constituídos e até certa má vontade por parte de alguns esquerdistas, que achavam secundárias suas lutas, eles passaram a elaborar, com autonomia, novas teorias e novos esquemas de atuação. Devido aos aspectos em comum entre suas organizações, negros e mulheres se tornariam interlocutores e aliados privilegiados dos grupos de militância homossexual que, como eles, não viam no seu status minoritário motivo para o desmerecimento de suas reivindicações específicas, voltadas aos seus problemas imediatos.
A partir da segunda metade dos anos 1970, logo após o final do ciclo da luta armada, ganham força, organização e repercussão social os movimentos feminista, negro e homossexual. Em comum entre eles, em maior ou menor medida, não só o momento histórico e a crítica às esquerdas mais tradicionais, mas também uma série de preocupações e pressupostos como defesa do direito ao próprio corpo, do prazer (sobretudo nos casos feminista e homossexual) e da autonomia como valores importantes, problematização da distinção entre público e privado, combate à normatização, à estigmatização e ao preconceito e enfoque teórico e prático numa visão mais ampla do que a exclusiva oposição de classe.
Elementos estes que, se estariam presentes na conformação dos embriões do movimento antiproibicionista das drogas, como se verá adiante, dialogavam pouco ou nada com a demanda pelo fim da proibição das drogas (e pela livre experimentação psicotrópica), mesmo bebendo inegavelmente na fonte contracultural, que marcadamente valorizava estes aspectos. Somente no início dos anos 1980 é que este laço entre contracultura e movimentos anti-opressão seria retomado, exatamente no nascimento de organizações antiproibicionistas, defensoras primordialmente da legalização da maconha, que, dialeticamente, surgem exatamente a partir de influência dos movimentos feminista, negro e gay.
Embora existissem diversas discordâncias entre estes movimentos, surgiam naquele momento grupos “de cunho marcadamente libertário que adotam o rótulo genérico de ‘minorias’ e se contrapõem à política oposicionista tradicional, assentada no conceito central de luta de classes”, que, diferentemente das ideias de hierarquia e centralismo, propunha a noção de “comunidade dos iguais, onde uma opressão em comum é vista como obliterando todas as heterogeneidades de classe, idade, nível cultural, biografia, etc.”, resume MacRae (1990, p.241), que em outro momento
146 (ibidem, p.280) situa o movimento homossexual naquele período como inserido num contexto de surgimento de novas alternativas políticas. Os exemplos citados pelo antropólogo, posteriormente ele mesmo um membro ativo do antiproibicionismo das drogas, mostram como não estava no horizonte ainda a existência de um setor especificamente dedicado a discutir premissas libertárias a partir da defesa a não repressão da alteração de consciência. São citados: associações de trabalhadores independentes dos sindicatos tradicionais e dos partidos, ocupações de terrenos que se tornam movimentos, comunidades eclesiais de base, associações indígenas, negras e de mulheres, grupos feministas e comitês de direitos humanos.
Cabe ainda ressaltar que MacRae (1991, p.280) traz à baila o sociólogo alemão Tilman Evans, que chamava a atenção para a existência de aspectos comuns entre essas manifestações políticas alternativas, uma vez que nelas se encontraria sempre a intenção de experimentação de novas relações entre as esferas da vida, tradicionalmente cindidas entre públicas e privadas. Buscava-se tanto uma humanização da vida pública, que passaria a se pautar mais pelos valores exercidos no ambiente privado, quanto a valorização deste mesmo privado, reconhecido agora como instância política da maior importância. Interessante notar como justamente o elo principal de intersecção entre essas lutas, na visão de Evans, fosse algo de grande conexão com a discussão das drogas – que, como se discutirá, só começa a ser encarada por estes grupos a partir dos anos 2000.
Feminismo
Araújo (2000, p.43) vê dois elementos como centrais na promoção da transição entre “esquerda armada” e “esquerda alternativa”: o movimento ecológico e pacifista e o movimento feminista. Este último organiza-se de fato no Brasil a partir dos anos 1970, mesmo que desde o século XIX tenha se expressado ocasionalmente em diferentes formas (Pinto, 2003, p.9).
Influenciado pelo fervor contracultural do período, eclode nos 1960 e 1970 o feminismo europeu e estadunidense, em ambiente muito diferente do que vivia o Brasil: enquanto lá o clima era de “efervescência política, renovação de costumes e de radical renovação cultural”, aqui predominavam “ditadura militar, repressão e morte” (ibidem, p.43). Mesmo que a grande maioria de suas componentes estivesse engajada de alguma forma na resistência e na oposição à ditadura, havia aspectos considerados específicos das opressões sofridas pelas mulheres, o que representava também formas de luta e organização específicas.
147 As primeiras reuniões de grupos feministas aconteceram, segundo Pinto (ibidem, p. 46), no ano de 1972, no Rio de Janeiro e em São Paulo: eram grupos de reflexão inspirados nos norte-americanos, onde mulheres que já se conheciam começavam a debater sua condição específica, em ambiente ainda privado. Pinto estima em “dezenas, certamente, talvez centenas” o número de grupos como estes que surgiriam pelo país a partir de então e até meados dos 1980. Ao mesmo tempo, articulavam-se iniciativas similares entre exiladas políticas que viviam na Europa, como o Grupo Latino-Americano de Mulheres fundado em Paris, também em 1972, e o posterior Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris, que durou de 1975 a 1979.
Desde este momento, já se fazia presente o que Pinto (2003, p.55) define como a questão fundamental no que diz respeito ao feminismo brasileiro neste período de nascimento: a tensão entre o movimento visto como centrado na luta de classes ou visto como defensor prioritário de bandeiras libertárias com ênfase no corpo, na sexualidade e no prazer.
No entanto, 1975 é considerado o marco fundador do moderno feminismo brasileiro. Este ano havia sido definido pela ONU como Ano Internacional da Mulher, o que é visto por pesquisadoras como simbólico do novo status que o debate de gênero passava a ganhar globalmente. Eventos públicos e a criação de organizações como Centro de Desenvolvimento da Mulher Brasileira e o Movimento Feminino pela Anistia foram marcos importantes da data, além da criação do jornal Brasil Mulher, cuja primeira edição data de 9 de outubro. No ano seguinte seria lançado, em São Paulo, o jornal
Nós mulheres.
Além de se manifestarem nos dias 8 de março, as feministas passaram a promover uma série de eventos, como I Encontro da Mulher que Trabalha, em 1977, o I Congresso da Mulher Metalúrgica, no ano seguinte, e o I Congresso da Mulher Paulista, realizado em 1979. Além de aprovar em suas resoluções a defesa da anistia ampla, geral e irrestrita, este levou à criação do Movimento de Luta por Creche, bandeira que se transformaria em central dali em diante (Teles, 1999, p.103).
Sarti (2004) identifica na bibliografia sobre o tema a existência de “um consenso em torno da existência de duas tendências principais dentro da corrente feminista do movimento de mulheres nos anos 1970, que sintetizam o próprio movimento”. De um lado elaborações e atuações mais voltadas “para a atuação pública das mulheres”, enfatizando a organização política e com foco principalmente nas questões relativas ao trabalho, ao direito, à saúde e à redistribuição de poder entre os sexos. “Foi a corrente que posteriormente buscou influenciar as políticas públicas, utilizando os canais institucionais criados dentro do próprio Estado, no período da redemocratização
148 dos anos 1980”, aponta Sarti, que vê na outra vertente preocupação sobretudo com “o terreno fluido da subjetividade”, as relações interpessoais, o mundo privado. Este lado manifestou-se “principalmente através de grupos de estudos, de reflexão e de convivência”, segundo a pesquisadora.
Jornais Brasil Mulher e Nós Mulheres
Com o número zero tendo sido publicado em 9 de outubro de 1975, o jornal Brasil Mulher – “o primeiro jornal dirigido às mulheres e feito por mulheres” (Leite, 2003) – contabilizou 19 edições em sua existência, com a última delas datando de setembro de 1979. A análise desta publicação, e também do Nós Mulheres, fundado no ano seguinte33 e que totalizou oito edições, é representativa das prioridades das feministas brasileiras neste momento que era tanto de surgimento quanto de auge do movimento, e mostra como a temática das drogas não constituía uma preocupação relevante para elas.
Lembrando que o Brasil Mulher era constituído sobretudo por mulheres militantes do Partido Comunista do Brasil (PcdoB), da Ação Popular Marxista Leninista (APML) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8), Leite destaca que a publicação desde seu primeiro número “afirmava a especificidade da luta das mulheres pela sua emancipação, debatia um conjunto de questões teórico-práticas ligadas à explicação da dominação/exploração das mulheres e divulgava as teses sobre a superação da sociedade patriarcal”. Por outro lado, “posicionava-se sobre todos os