3 O PRINCÍPIO DA INCERTEZA
3.5 APRENDENDO A PENSAR O COMPLEXO DE MANEIRA COMPLEXA: EM
Saber que as coisas são complexas é importante. Porém, aprender a lidar com a complexidade complexamente é ainda mais. Do contrário, pouco ajudaria pautar-se em categorias simplificadoras para conceber o complexo. Possivelmente, o máximo que conseguiríamos seria uma leitura simples alternativa. Por isso, Morin insiste na necessidade de pensar uma epistemologia da complexidade, disposta a conhecer o próprio conhecimento e pensar o pensamento.
Para tanto, alguns aspectos precisam ser considerados, a fim de evitar qualquer tipo de reducionismo. Lembremos aqui dos princípios organizadores da complexidade; eles certamente entram em jogo nessa nova perspectiva. Convém frisar, principalmente, a necessidade de uma postura “humilde”, ou seja, de reconhecimento da ignorância humana em relação a uma infinidade de questões relacionadas à realidade. Como vão dizer Morin e Le Moigne (2000), não há “tronos”, lugares privilegiados que permitiram ter o controle dos saberes. “Os princípios da epistemologia complexa são complexos: não existe um trono, não
existem dois tronos; não existe absolutamente nenhum trono. Existem instâncias que permitem controlar o conhecimento; cada uma delas é necessária e cada uma delas é insuficiente” (MORIN; LE MOIGNE, 2000, p. 62).
Notamos, pois, que a incerteza acompanha cada etapa do processo de conhecer. Ela está implícita nas diferentes análises, observações e interpretações que são realizadas pelo sujeito conhecedor, mesmo que de maneira oculta às vezes. “Desse modo, existe um princípio de incerteza no exame de cada instância constitutiva do conhecimento” (MORIN; LE MOIGNE, 2000, p. 69). Os autores reforçam essa ideia afirmando que interligar ou religar as dimensões disjuntadas, bem como criar o circuito, fazendo a comunicação entre as instâncias separadas é uma problemática epistemológica.
Como podemos caracterizar, então, uma epistemologia complexa? Ela está relacionada ao modo científico de busca do conhecimento disposto a aceitar o princípio da incerteza em meio às descobertas e às verdades. Trata-se em considerar paralelamente a possibilidade do saber e do não-saber, o conhecido e o desconhecido, o certo e o incerto. Por mais específica, particular, contextualizada, histórica e corroborável que se apresente uma teoria, resta um fundo de verdade. Cada parte constitutiva do conhecimento contém o germe da incerteza. O problema que sustenta o exercício epistemológico complexo é buscar a comunicação entre essas instâncias, formando o circuito, o complexus.
Fortin, ao interpretar Morin, afirma que este concebe a epistemologia complexa como
uma epistemologia que comporta a sua própria reflexividade, isto é, conhece ela mesma os seus limites e as suas insuficiências (incertezas). É uma epistemologia aberta que se deve organizar e regenerar sem descanso bebendo permanentemente naquilo que a limita (as condições do conhecimento) (2005, p. 149) [grifo do autor]. Morin complementa trazendo outros elementos ou pressupostos que não podem ficar de fora de um exercício epistemológico que pretenda pensar o complexus. Escreve o francês que “a própria ideia de complexidade comporta nela a impossibilidade de unificar, a impossibilidade de acabamento, uma parte de incerteza, uma parte de irresolubilidade e o reconhecimento do frente-a-frente final com o indizível” (2003c, p. 139). Não há como passar por cima desses condicionantes. Aliás, o fato de percebê-los e respeitá-los já se apresenta como um procedimento aconselhável. Trata-se de uma questão de coerência com o pensamento complexo.
Não seria esse um caminho para empreendermos nossa relação com a complexidade? Estaria aí uma chave para nossa itinerância em uma epistemologia complexa? Ao invés de
eliminarmos a incerteza, o caminho seria aprender a trabalhar e brincar com ela? Ao invés do combate à desordem e à eventualidade, partir para a dança dialógica entre ordem e desordem, entre previsão e eventualidade? No lugar do “simples ao complexo”, o simples no complexo e vice-versa? Enfim, no lugar de Dogmas e Verdades, teorias e verdades que sabem não ser eternas?
Acreditamos que, dessa forma, entendermos melhor o poder e a fraqueza do conhecimento, e que aquilo que o potencializa pode também enfraquecê-lo e até adoecê-lo. Saberemos, quem sabe, que nosso poder cognitivo não elimina a chance de errarmos; que nós, “criaturas divinas”, somos humanos. Portanto, convém-nos “conceber que aquilo que permite o conhecimento é ao mesmo tempo aquilo que o limita. Impomos ao mundo categorias que nos permitem captar o universo dos fenômenos. Assim, conhecemos as realidades, mas nada pode pretender conhecer A Realidade com „A‟ e „R‟” (MORIN; LE MOIGNE, 2000, p. 64).
Como alivia acreditar nisso; como alivia pensar assim. É muito bom poder investigar sem ter que chegar a melhor teoria do mundo. Tão bom quanto poder entrar na sala de aula sem aquele compromisso avassalador de ter respostas para tudo, e pior, na ponta da língua, “engatilhadas”. Não menos tranquilizante é escrever essas palavras ciente de que são apenas palavras, talvez até mal-escritas, mas escritas; possivelmente com erros, mas não por isso impedidas de constarem nessas páginas, distantes da Verdade, porém, pensadas e escolhidas livremente.
Em suma, é muito bom descobrir que
não existem mais privilégios, tronos ou soberanias epistemológicas. Os resultados das ciências do cérebro, do espírito, das ciências sociais, da história das ideias, etc., devem retroagir ao estudo dos princípios que determinam tais resultados. A questão não é que cada um perca a sua competência, mas que cada um a desenvolva o suficiente para articulá-la a outras competências, que, ligadas em cadeia, formariam um círculo completo e dinâmico, o anel do conhecimento do conhecimento. Eis a problemática da epistemologia complexa e não a chave mestra da complexidade, cuja característica, infelizmente, é não fornecer a chave mestra (MORIN; LE MOIGNE, 2000, p. 69).
Portanto, a epistemologia complexa não é uma instância soberana, que dá ao epistemólogo uma cadeira cativa, sob posse da qual ele controlaria de maneira irredutível e irremediável todo o saber. Seria isso a “desbabelização da ciência", onde a torre que sustenta aquele cuja pretensão é o monopólio do saber parece balançar e começar a ruir? Restariam
ainda certezas certas e/ou certas certezas? E as incertezas não seriam também incertas? Que verdades nos são possíveis mesmo em meio a esse grande cenário permeado pelo incerto?
Juntamente com essas e tantas outras questões, encaminho-me para o quarto e último capítulo deste trabalho, onde estarei pensando a relação e implicação entre incerteza, complexidade e educação escolar. Como as certezas e incertezas que acompanham nossa vida podem nos ajudar a vivermos melhor, a organizarmos uma educação escolar conduzida e comprometida com a complexidade? Junto a isso, há espaço para as disciplinas em uma escola que visa o pensamento complexo?