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IDEIAS CLARAS E OBSCURAS SOBRE A INCERTEZA

3 O PRINCÍPIO DA INCERTEZA

3.2 IDEIAS CLARAS E OBSCURAS SOBRE A INCERTEZA

O objetivo que me orienta nesse momento da escrita é o de compreender o sentido do princípio da incerteza para, num momento seguinte (capítulo IV), pensar em suas possíveis implicações na dimensão do conhecimento e da educação escolar. De maneira mais específica, procuro investigar o significado que Morin atribui ao princípio da incerteza quando o situa como um buraco-negro e uma lacuna existente no âmbito do conhecimento, entendido em suas múltiplas áreas, principalmente na científica, filosófica e educacional.

Para isso, considero necessário analisar algumas pistas ou caminhos que apontam para a gênese, a natureza e as consequências da incerteza. O ser humano tem dificuldade de compreender a incerteza inerente no conjunto dos fenômenos naturais, científicos, sociais, políticos, culturais... que compõem a sua existência; e, por não entender, prefere ignorá-la ou negá-la. Com isso, deixa de refletir acerca de elementos importantes que constituem o

11 A expressão “revolução copernicana” costuma ser usada no sentido da ocorrência de uma mudança mais

significativa ou radical no modo de se conceber ou compreender algo. Ela está fundamentada no astrônomo Nicolau Copérnico (1473-1543), responsável por formular a teoria heliocêntrica - a teoria de que os planetas giram em torno do Sol - para substituir o modelo antigo, baseado em Aristóteles e Ptolomeu, em que a Terra ocuparia o centro do universo (geocentrismo). Essa perspectiva geocêntrica resistiu até por volta do final da Idade Média, sendo defendida fortemente pela Igreja Católica da época, que via nela maior coerência em relação aos seus dogmas e interesses.

movimento da vida do universo e do conhecimento, preferindo ficar com chavões tradicionais que, muitas vezes, vêm de encontro ao contexto atual.

A humanidade precisa repensar e reformar o pensamento, buscando novos modelos de produção do conhecimento que levem em conta as incertezas resultantes das variações e emergências do contexto. As perspectivas paradigmáticas da complexidade se assentam sobre leis, princípios e categorias das novas ciências com aplicação a toda realidade. Essa compreensão complexa do mundo produz profundas consequências para o campo epistemológico e, por decorrência, para todo o processo de educação escolar. Traz consigo, portanto, o potencial para reformar nossas mentes em relação à aprendizagem e à produção de conhecimentos.

No entanto, convém que fique bem entendido que o fato de incorporar a incerteza a fim de compreender o sujeito, o conhecimento e o mundo não representa a unidimensionalização desse princípio, ou então, a exclusão da certeza. Também não corresponde a uma tentativa de acabar com a incerteza presente na realidade, através da apresentação de explicações claras às problemáticas ou realidades percebidas. Diferente disso, Morin propõe pensarmos com a incerteza, como um elemento indissociável da vida em suas inúmeras manifestações. Acolher o incerto significa aceitar o desafio paradoxal de conceber a imbricação entre certeza e incerteza, afirmação e contradição, previsível e imprevisível, ordem e desordem; enfim, instiga a ver as possibilidades de aproximação entre as várias realidades separadas, disjuntadas, isoladas e fragmentadas, mas que, no paradigma complexo, podem ser religadas.

Nesse sentido, trago, como primeira citação deste capítulo, uma passagem da obra O

Método, vol. 1, que considero genial para introduzirmos nosso diálogo com Morin:

Nós só podemos começar ignorantes, incertos, confusos. Mas trata-se de uma nova consciência da ignorância, da incerteza, da confusão. Tomamos consciência não da ignorância humana em geral, mas da ignorância escondida, enterrada, quase que nuclear no coração do nosso saber reputado como o mais certo, o saber científico. Agora nós sabemos que este saber é pouco conhecido, pouco conhecedor, ignorante de seu próprio desconhecido e de seu conhecido. A incerteza torna-se socorro: a dúvida sobre a dúvida dá à dúvida uma dimensão nova, a da reflexão; a dúvida através da qual o sujeito se interroga sobre as condições de emergência e de existência de seu próprio pensamento constitui, a partir de agora, um pensamento potencialmente relativista, relacionista e autoconhecedor. Enfim, a aceitação da confusão pode se tornar um meio de resistir à simplificação mutiladora. Se no início não dispomos de um método, pelo menos podemos dispor do antimétodo, pelo qual ignorância, incerteza, confusão tornam-se virtudes (2005a, p. 29).

A partir do exposto acima, trago algumas inquietações e perguntas que podem contribuir na fomentação da investigação acerca da complexidade, em particular, do princípio da incerteza. Como o conceito de incerteza é abordado por outros autores contemporâneos, dentro de uma perspectiva científico-epistemológica da complexidade? Qual a concepção de Morin a respeito desse princípio? E ainda, já se encaminhando para o último capítulo, de que modo o princípio da incerteza se faz presente no contexto do conhecimento escolar e quais suas possíveis implicações no campo pedagógico?

Ao iniciar esse percurso que, por sinal, irá exigir muito trabalho, destaco algumas ideias gerais. Primeiramente, é importante considerar a possibilidade de a incerteza do conhecimento estar no âmago da questão epistemológica. Ou seja, desde os tempos mais remotos o ser humano se pergunta pelo ato de conhecer, pela forma como se processa o conhecimento, pelo grau de certeza e de objetividade, enfim, pelas potencialidades e limites do conhecimento. Sem entrar em pormenores, lembro aqui a tradição filosófica, que há aproximadamente 27 séculos tem colocado o conhecimento como uma de suas principais temáticas e/ou problemáticas a serem pensadas.

Um importante filósofo antigo que contribuiu e contribui com a possibilidade de considerarmos o caráter incerto do conhecimento foi o grego Sócrates (470-399 a.C.). Embora não estivesse preocupado com a questão da incerteza propriamente dita, ainda mais na perspectiva que hoje se tem desenvolvido em torno desse princípio, o pensador deu um forte destaque à dúvida e à interrogação, como instigantes faculdades do pensamento. Exemplo disso é a proposta de conhecimento elaborada pelo autor, conhecida como o “método socrático”.

Pautado nesse método, Sócrates tinha como objetivo fazer com que seus interlocutores conhecessem mais a fundo aquilo que acreditavam saber. Para isso, o primeiro passo era se dar conta da sua própria ignorância, ou seja, saber que nada ou pouco sabiam. Lembremos aqui da famosa frase pronunciada pelo pensador: “Só sei que nada sei”. A partir do reconhecimento da própria ignorância, a pessoa daria um passo significativo na construção de um conhecimento mais aprofundado e fundamentado, mais próximo da verdade, que era o objetivo maior. Sendo assim, o filósofo transforma a ignorância em uma virtude, no sentido exposto acima.

O método socrático está organizado em dois momentos ou partes, denominadas de “ironia” e “maiêutica‟. A ironia, que na perspectiva socrática não assume o sentido habitual

da palavra, ou seja, algo do tipo satírico ou expressão de um desejo de difamação, provoca a pessoa a sair de seu estado de ignorância em relação ao seu conhecimento ou a aquilo que acha conhecer. Portanto, quer lapidar as suas opiniões, colocando-as à prova da reflexão. A ironia socrática, pautada no diálogo interrogativo, reconduz as pseudocertezas a um pensar diferente, mais apurado, em oposição a conceitos e compreensões fechadas, a tudo que pretende congelar a existência, encerrando-a nos limites muito estreitos do pensamento objetivo. Uma vez interrogadas as pseudoverdades, é necessário um novo conhecimento. Está aí a segunda parte do método, a maiêutica. Neste estágio, Sócrates quer(ia) ajudar as pessoas a “parirem suas próprias ideias”, dar a luz a novas ideias, constituindo um pensar diferente, um novo modo de conhecer.

Morin, na epígrafe do capítulo V: Enfrentar as incertezas, do livro Os Sete Saberes

necessários à Educação do Futuro (2001), cita Eurípedes, pensador grego do século V a.C.:

“Os deuses criam-nos muitas surpresas: o esperado não se cumpre, e ao inesperado um deus abre o caminho” (p. 79). Para o francês, ainda não estamos prontos para o inesperado. Portanto, a mensagem do poeta grego não foi incorporada por nós, contemporâneos do século XXI. Porém, ressalta que estamos num período propício “para compreender a incerteza irremediável da história humana” (Idem).

Na tentativa de compreender a incerteza, convém ficarmos atentos para não rompermos radicalmente com o passado e com tudo aquilo que a humanidade já produziu e vem produzindo. Toda crítica feita à tradição precisa estar ciente de que, no fundo, é herdeira da tradição. Quando falamos, por exemplo, em pós-modernidade, referimo-nos também à modernidade. Fica, pois, o recado a aqueles indivíduos pós-modernos adeptos de teorias anarquistas do conhecimento que destroem e relativizam qualquer tentativa de aproximação do real. A dificuldade (para não dizer impossibilidade) de chegarmos a verdades perenes, eternas, plenas e imutáveis não nos impede de pretender buscá-las ou, ao menos, de chegar a outro tipo de entendimento acerca do conceito de verdade, que sabe não ser o único e que está ciente de sua transitoriedade ou biodegradabilidade.

Se, por um lado, a tradição não pode ser esquecida e muito menos ignorada, por outro, é complicado, hoje em dia, continuar apostando nossos esforços em concepções unívocas de mundo, em metanarrativas e em visões totalizantes. Afinal, as certezas não parecem ser mais tão certas e inabaláveis. À medida que as interrogações vão aumentando e conquistando

território, nossas teorias passam a ser constantemente questionadas, obrigando-nos a permanecer vigilantes e abertos a outras possibilidades.

Acerca das precauções que devemos ter em relação à compreensão da incerteza, Morin adverte: “[...] a realidade não é facilmente legível. As ideias e teorias não refletem, mas traduzem a realidade [...]. Nossa realidade não é outra senão nossa ideia da realidade” (2001, p. 85). Portanto, todas as teorias, religiões, ideologias..., embora elaboradas com base no real, não são reflexos dele, mas traduções. Por isso, apresentam concepções bem diferentes muitas vezes. Como saber se estão certas ou erradas, se são mais ou menos fiéis a aquilo que estão observando e conhecendo? Em suma, cada tradução ou interpretação feita vem sempre acompanhada pela incerteza.