Durante a primeira quinzena dediquei-me a apreender o modus vivendi da ACA: o espaço físico (Figura 3.1), os locais de trabalho de cada elemento e as tarefas mais óbvias de cada um, os momentos de pausa, as interacções e “razões” dessas interacções. Para além disto, durante p1 e p3 tentei familiarizar-me com o complexo sistema burocrático e relacional da actividade da ACA. Secretaria (e atendimento ao público) Corredor Gabinete de Lídia (e o “nosso”) Gabinete do Presidente Gabinete do Sec. Técnico do LG Hall de entrada WC Secretaria (e atendimento ao público) Corredor Gabinete de Lídia (e o “nosso”) Gabinete do Presidente Gabinete do Sec. Técnico do LG Hall de entrada WC
Figura 3.1 – Planta simplificada da associação e cooperativa M
Durante P1, logo nos primeiros dias, desenvolvi uma espécie de curiosidade pela “actividade” na secretaria, à qual “não tinha” acesso, apesar de se praticar uma política de porta (do gabinete e da secretaria) aberta. Esta curiosidade advinha da percepção de que lá ocorriam muitas interacções entre as pessoas que nela trabalham, um administrativo e um técnico superior da cooperativa, e entre estes e os elementos da brigada técnica (Ruivo e auxiliar técnico) e os criadores que se dirigiam à associação. Registei no meu caderno de campo que, mais para a frente, talvez no período P5, devia “passar” uma semana na secretaria, desde que isso fosse possível, não só para estudar as interacções referidas anteriormente, mas sobretudo para apreciar a forma como decorre o atendimento aos criadores que se dirigem pessoalmente à secretaria.
Depois dos dois primeiros dias ausentei-me por cerca de uma semana. Quando voltei, Lídia “pôs-me” ao corrente das curiosidades dos colegas acerca da minha presença na associação (Então o teu colega não veio?). Falaram da minha presença na associação a Puga (um dos entrevistados da primeira fase, com quem já havia combinado sair nas visitas de campo) e a outro técnico superior da cooperativa, ambos meus ex-formandos com quem,
por altura de um curso de formação profissional sobre associativismo, me envolvi em acesa discussão acerca dos processos de certificação. Lídia fez saber a Ruivo que eu gostaria de fazer umas saídas de campo com ele, facto que lhe criou alguma ansiedade.40 O dia seguinte trouxe uma oportunidade inesperada de passar um dia na secretaria, em companhia dos técnicos que lá trabalham e dos elementos da brigada de campo (incluindo Ruivo). Era dia do envio dos cerca de setecentos boletins a “Mirandesa”, tarefa extremamente morosa (dobrar, encartar e endereçar), na qual tive a oportunidade de participar (Precisam de ajuda? − Sim claro, pode colar as etiquetas!).
Como se trata de uma tarefa colectiva e repetitiva é fácil cruzar conversas e isso permitiu- me falar um bocadinho com todos os elementos. Da parte da tarde, aproveitando o bom ambiente, abordei pela primeira vez Ruivo acerca da minha vontade em o acompanhar nas visitas de campo, como forma de me “preparar” (o que no fundo é verdade) para acompanhar Puga. O pedido foi aceite com alguma ponta de constrangimento, mas com maior abertura que nos dias anteriores.
Dois dias depois pedi a Ruivo que me explicasse (através de uma simulação) os procedimentos (burocráticos) que efectua durante as visitas, pedido aceite de imediato. Durante a explicação mantive um registo oral de técnico para técnico, melhor dizendo de zootécnico para zootécnico, o que deixou Ruivo muito mais confiante, pois esta é a sua área natural. Para a terça-feira seguinte estava marcada a primeira saída de campo.
Continuando na senda de familiarização e aceitação, no início do período P3, sensivelmente um mês e meio depois da minha chegada, fui convidado para um acontecimento de relevância elevada na vida da associação e da cooperativa e de grande valor real e simbólico para os meus objectivos. Tal como se descreve no Capítulo 4 a pedido dos funcionários foi convocada uma reunião entre as direcções de ambas as organizações e todo o corpo de funcionários para acertar detalhes relativos à situação profissional destes últimos, assunto delicado, portanto. O esperado (pelo menos seria essa a minha expectativa) seria não ser convidado, porém, fui surpreendido com o convite para assistir à reunião. Entendi isto como o sinal inequívoco de aceitação e compreensão dos meus objectivos. Em conformidade, considerei concluída a fase de aceitação da minha presença na associação. Aliás, a forma exacta como o convite foi formulado é disso sintoma: Vai haver uma reunião geral, a pedido dos funcionários, para discutir assuntos profissionais, isto talvez interesse para o teu trabalho e, portanto, se quiseres, podes assistir e depois ficar para almoçar com a gente... Também nos interessa o olhar de alguém que vem de fora. Ou seja, alguém de fora que não é da casa, mas que é suficientemente de “dentro” para participar neste tipo de evento.
Esta atitude é também um acto de extrema generosidade e de enorme transparência, sinal que juntei a muitos outros no decurso desta fase da investigação, bem como da precedente (as entrevistas). Por outro lado, também interpretei este episódio como a confirmação da minha intuição inicial, da tal esperança “secreta”, de que a “discussão” do associativismo e de cooperativismo, assim como a construção da identidade profissional dos técnicos superiores das ACA, era desejada pelos seus principais actores.
40 Ruivo é licenciado em zootecnia e foi meu aluno, pelo que não se pode estranhar alguma ansiedade em
ser acompanhado por um ex-professor igualmente com formação de base em zootecnia. Tornou-se evidente que precisava de ganhar a confiança de Ruivo e sossegá-lo quanto às minhas intenções.