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Aprender com o Mestre 

No documento Gampopa (páginas 110-114)

Os mestres que devemos rejeitar 

3)  Aprender com o Mestre 

 

  A  fase  final,  emulação  da  realização  e  ações  do  mestre,  consiste  em  examinar  cuidadosamente  a  maneira  como  ele  se  comporta  e  fazer  exatamente  como  ele  faz.  Como se costuma dizer, “Toda ação é uma imitação; age melhor aquele que melhor o  imita”. Poderia se dizer que a prática do Dharma é imitar os Budas e Bodhisattvas do  passado.  Como  o  discípulo  está  aprendendo  a  ser  como  o  seu  mestre,  ele  necessitará  assimilar  verdadeiramente  a  realização  deste  e  o  modo  de  portar‐se.  Uma  vez  que  o  discípulo aprende a ser como seu mestre, ele deve impregnar‐se de seus pensamentos e  atos. 

Assim  como  o  tsa‐tsa  reproduz  fielmente  todos  os  padrões  esculpidos  pelo  molde,  do  mesmo  modo  o  discípulo  deve  se  assegurar  que  ele  ou  ela  adquira  qualidades idênticas, ou pelo menos muito próximas das qualidades do mestre. 

  Qualquer  um  que,  em  primeiro  lugar,  examine  seu  mestre  cuidadosamente,  então o siga, e finalmente emule sua realização e ações, sempre estará na via autêntica,  venha o que vier.         “No começo, examine o mestre cuidadosamente;      No meio, siga‐o atentivamente;      No fim, emule habilmente sua realização e ação.      Um discípulo que assim faz está no caminho autêntico.”   

Uma  vez  tendo  encontrado  um  amigo  de  bem  com  todas  as  qualidades  necessárias, siga‐o sem qualquer preocupação com a vida – assim como o Bodhisattva  Sadaprarudita  (Sempre  Em  Lágrimas)  seguiu  o  Bodhisattva  Dharmodgata  (Dharma  Sublime),  o  grande  pândita  Naropa  seguiu  o  supremo  Tilopa,  e  Jetsum  Milarepa  seguiu Marpa de Lhodrak. 

 

   

  Primeiramente,  aqui  está  o  relato  de  como  o  Bodhisattva  Sadaprarudita  se  tornou  discípulo  de  Dharmodgata.  Sadaprarudita  estava  procurando  pelo  Prajnaparamita, os ensinamentos da sabedoria transcendente. 

  Um  dia,  sua  procura  o  levou  a  uma  solitária  terra  devastada,  onde  ele  ouviu  uma  voz  vinda  dos  céus  dizendo,  “Filho  afortunado,  vá  para  o  leste  e  ouvirá  o  Prajnaparamita. Vá sem se importar com cansaço, sono ou letargia, calor ou frio, ou se  é dia ou noite. Não olhe nem para a direita nem para a esquerda. Em seguida receberá  o Prajnaparamita contido nos livros de um monge que personifica e ensina o Dharma.  Neste  momento,  filho  fortunado,  siga  e  apegue‐se  àquele  que  lhe  ensina  o  Prajnaparamita,  considere‐o  seu  mestre  e  venere  seu  Dharma.  Mesmo  se  o  ver  desfrutando dos prazeres dos sentidos, compreenda que Bodhisattvas são realizados, e  nunca perdem sua fé.”  

  Ao  ouvir  essas  palavras,  Sadaprarudita  pôs  se  a  caminho  para  o  leste.  Não  havia  andado  muito  quando  constatou  ter  esquecido  de  perguntar  que  distância  deveria  percorrer  –  e  não  tinha  qualquer  idéia  de  como  encontrar  seu  mestre  do  Prajnaparamita.  Chorando  e  lamentando‐se,  ele  se  comprometeu  a  ignorar  cansaço,  fome,  sede  e  sono,  dia  ou  noite  até  ter  recebido  os  ensinamentos.  Ele  estava  determinado,  como  uma  mãe  que  perdeu  seu  único  filho.  Ele  estava  obstinado  com  uma única questão: quando ouviria o Prajnaparamita? 

  Naquele momento, a imagem de um Tathagata surgiu atrás dele e louvou a sua  busca pelo Dharma. “A quinhentas léguas daqui,”o Tathagata complementou, “há uma  cidade  chamada  Cidade  das  Brisas  Perfumadas.  Ela  é  feita  de  sete  preciosas  substâncias.  É  circundada  por  quinhentos  parques  e  possui  todas  as  perfeitas  qualidades.  No  centro  daquela  cidade,  no  cruzamento  de  quatro  caminhos,  está  a  morada  do  Bodhisattva  Dharmodgata.  Ela  também  é  feita  por  sete  preciosas  substâncias, e tem circunferência de uma légua. Lá, nos jardins e em outros lugares de  deleite,  vive  o  Bodhisattva,  o  grande  ser  Dharmodgata,  com  seu  séqüito.  Em  companhia  de  sessenta  e  oito  mil  mulheres  ele  desfruta  dos  prazeres  dos  cinco  sentidos,  sobre  os  quais  possui  pleno  domínio,  com  felicidade,  fazendo  tudo  o  que  gosta. Durante o passado, presente e futuro, ele ensina o Prajnaparamita àqueles que lá  estão reunidos. Vá até ele, e você poderá dele ouvir os ensinamentos”. 

  Sadaprarudita  não  podia,  agora,  em  nada  pensar  a  não  ser  no  que  tinha  acabado  de  ouvir.  Da  posição  exata  onde  ele  estava  podia  ouvir  o  Bodhisattva  Dharmodgata  ensinando  o  Prajnaparamita.  Ele  experimentou  numerosos  estados  de  concentração mental. Ele percebeu os diferentes mundos das dez direções do universo,  e  viu  inumeráveis  Budas  ensinando  o  Prajnaparamita.  Eles  entoaram  cantos  de  louvores  à  Dharmodgata  antes  de  desaparecerem.  Plenos  de  alegria  e  devoção  pelo  Bodhisattva Dharmodgata, Sadaprarudita refletiu sobre como ele poderia chegar à sua  presença. 

  “Sou pobre,” pensou. “Não tenho nada com que possa honrá‐lo, nem roupas ou  jóias, nem perfumes ou grinaldas, nem outros objetos para prestar reverência ao amigo  espiritual.  Assim  venderei  a  carne  do  meu  próprio  corpo  e,  com  o  dinheiro  recebido,  honrarei  o  Bodhisattva  Dharmodgata.  Através  do  samsara  sem  fim,  vendi  a  própria  carne  inumeráveis  vezes;  um  infinito  número  de  vezes,  também,  fui  cortado  em  pedaços  e  destruído  nos  infernos  onde  meus  próprios  desejos  me  conduziram  –  mas 

Quem quer comprar um homem?” 

  Mas espíritos do mal, invejosos por Sadaprarudita se submeter a tais provações  por  interesse  no  Dharma,  tornou  todos  surdos  a  suas  palavras.  Sadaprarudita,  não  encontrando  ninguém  com  interesse  em  comprá‐lo,  foi  a  um  canto  e  sentou‐se  em  lamento, lágrimas verteram dos seus olhos.    Indra, rei dos deuses, então decidiu testar sua determinação. Tomando a forma  de um jovem brâmane, apareceu diante de Sadaprarudita e disse, “Eu não necessito de  um homem inteiro. Eu preciso somente de um pouco de gordura humana e tutano para  uma oferenda. Se puder me vender eu o pagarei”.     Enlevado, Sadaprarudita tomou uma faca afiada e cortou seu braço direito até  jorrar sangue. Então cortou toda a carne de sua coxa direita, e, quando preparava para  esmagar  os  ossos  contra  uma  parede,  a  filha  de  um  rico  mercador  o  viu  do  andar  superior da sua casa e rapidamente correu em sua direção. 

  “Nobre, por que está infligindo dor em si mesmo?” Perguntou. Ele explicou que  desejava vender sua carne para fazer uma oferenda ao Bodhisattva Dharmodgata.    Quando  a  jovem  o  perguntou  que  benefício  seria  alcançado  com  tal  homenagem,  Sadaprarudita  respondeu,  “Ele  me  ensinará  os  meios  hábeis  dos  Bodhisattvas  e  o  Prajnaparamita.  Então,  se  eu  praticá‐los,  alcançarei  a  onisciência,  possuindo  as  numerosas  qualidades  de  um  Buda  e  poderei  compartilhar  o  precioso  Dharma com todos os seres”.  

  “Isso  é  certamente  verdadeiro”,  disse  a  jovem,  “que  cada  uma  das  qualidades  merece  uma  oferenda  de  tantos  corpos  quanto  os  grãos  de  areia  do Ganges. Mas por  favor, não se corte desta maneira! Eu lhe darei o que for necessário para que honre o  Bodhisattva  Dharmodgata  e  irei  com  você  para  vê‐lo,  criarei  o  mérito  que  me  capacitará a atingir as mesmas qualidades também”.  

  Quando  ela  terminou  de  falar,  Indra  reassumiu  sua  própria  forma  e  disse  a  Sadaprarudita, “Eu sou Indra, Rei dos Deuses. Vim para testar sua determinação. Eu te  darei o que você quiser; basta pedir.” 

  “Conceda‐me  as  qualidades  não  usurpáveis  dos  Budas!”  Sadaprarudita  respondeu. 

  “Isso eu não posso te conceder,”disse Indra. “Tal coisa não está nos limites do  meu domínio.” 

  “Neste  caso,  não há necessidade de se preocupar em recompor o meu corpo,”  disse Sadaprarudita. “Invocarei as preces da verdade”. Pelas preces das predições dos  Budas que nunca retornam ao samsara, pela verdade da minha suprema e inabalável  determinação,  e  pela  verdade  das  minhas  palavras,  possa  meu  corpo  reassumir  seu  estado original !”  

  Com  estas  palavras,  seu  corpo  voltou  a  ser  exatamente  como  antes.  E  Indra  desapareceu. 

  Sadaprarudita  foi  com  a  filha  do  mercador  até  a  casa  de  seus  pais  e  lá  lhes  contou  sua  história.  Eles  forneceram  a  ele  numerosos  bens  materiais  que  seriam  necessários para sua oferenda. Assim, ele, juntamente com a filha do mercador e seus  pais,  acompanhados  por  quinhentas  criadas  e  todo  seu  cortejo,  rumaram  em  carruagens na direção leste, e chegaram na Cidade das Brisas Perfumadas. Lá ele viu o  Bodhisattva  Dharmodgata  pregando  o  Dharma  a  milhares  de  pessoas.  Essa  visão  o  preencheu  com  a  felicidade  que  o  monge  experiencia  quando  imerso  em  absorção 

Dharmodgata. 

  Naquela  ocasião  Dharmodgata  havia  construído  um  templo  para  o  Prajnaparamita. Era feito por sete materiais preciosos, decorado com sândalo vermelho  e  coberto  com  detalhes  em  pérolas.  Em  cada  uma  das  quatro  direções  estavam  posicionadas  pedras  preciosas  como  lâmpadas  e  incensórios  de  prata  dos  quais  flutuavam oferendas perfumadas de incenso de madeira de aloé negro. No centro do  templo  estavam  quatro  cofres  adornados  com  jóias  contendo  os  volumes  do  Prajnaparamita, feitos de ouro e escrito com tinta de lápis‐lazúli.  

  Ao  ver  deuses  e  homens  fazendo  oferendas,  Sadaprarudita  fez  indagações  e  então, acompanhado pela filha, o mercador e quinhentas servas, rendeu homenagens à  Prajnaparamita. 

 

Eles,  então,  se  aproximaram  de  Dharmodgata,  que  estava  dando  um  ensinamento para seus discípulos e honraram‐no com todas suas oferendas. A filha do  mercador  e  suas  servas  fizeram  os  votos  de  Bodhisatva.  Sadaprarudita  perguntou  de  onde haviam vindo e para onde tinham ido os Budas que ele tinha visto. Dharmodgata  respondeu recitando o capítulo que ensina que os Budas nem vêm nem vão. Ele saiu de  seu assento e foi para os seus próprios aposentos, onde permaneceu no mesmo estado  contínuo de concentração por sete anos. 

Ao  longo  de  todo  este  período,  Sadaprarudita,  a  filha  do  mercador  e  as  quinhentas servas renunciaram tanto ao sentar quanto e ao deitar, permanecendo  permanentemente  de  pé.  Estando  imóveis  ou  caminhando,  suas  mentes  só  pensavam  no  momento  em  que  Dharmodgata  sairia  de  sua  concentração  e  ensinaria novamente o Dharma. 

Quando  aqueles  sete  anos  estavam  quase  no  fim,  Sadaprarudita  ouviu  os  deuses  anunciando  que  em  sete  dias  o  Bodhisattva  Dharmodgata  sairia  do  seu  estado  de  concentração  e  começaria  a  ensinar  novamente.  Sadaprarudita,  a  filha  do  mercador  e  as  quinhentas  servas  varreram  todo  o  local,  num  raio  de  quinhentas  milhas,  onde  Dharmodgata  iria  ensinar.  Quando  ele  começou  a  respingar  água  no  chão  para  assentar  o  pó,  Mara  e  espíritos  malévolos  fizeram  toda  a  água  desaparecer.  Assim  Sadaprarudita  cortou  sua  veia  e  respingou  seu  próprio sangue no chão, e a filha do mercador e suas quinhentas servas fizeram o  mesmo.  Indra,  rei  dos  deuses,  transformou  seu  sangue  em  madeira  de  sândalo  vermelho dos reinos celestiais. 

Finalmente, o Bodhisattva Dharmodgata chegou e sentou no trono de leão  que  Sadaprarudita  e  os  outros  tinham  tão  perfeitamente  preparado.  Ele  expôs  o  Prajnaparamita. Sadaprarudita experienciou seis milhões de estados diferentes de  concentração  e  teve  a  visão  de  um  infinito  número  de  Budas  –  uma  visão  que  nunca  mais  saiu  dele,  mesmo  em  seus  sonhos.  É  dito  que  ele  agora  reside  na  presença  do  Buda  perfeito  chamado  Aquele  que  Proclama  o  Dharma  com  Voz  Melodiosa Inexaurível.               

No documento Gampopa (páginas 110-114)