Os mestres que devemos rejeitar
3) Aprender com o Mestre
A fase final, emulação da realização e ações do mestre, consiste em examinar cuidadosamente a maneira como ele se comporta e fazer exatamente como ele faz. Como se costuma dizer, “Toda ação é uma imitação; age melhor aquele que melhor o imita”. Poderia se dizer que a prática do Dharma é imitar os Budas e Bodhisattvas do passado. Como o discípulo está aprendendo a ser como o seu mestre, ele necessitará assimilar verdadeiramente a realização deste e o modo de portar‐se. Uma vez que o discípulo aprende a ser como seu mestre, ele deve impregnar‐se de seus pensamentos e atos.
Assim como o tsa‐tsa reproduz fielmente todos os padrões esculpidos pelo molde, do mesmo modo o discípulo deve se assegurar que ele ou ela adquira qualidades idênticas, ou pelo menos muito próximas das qualidades do mestre.
Qualquer um que, em primeiro lugar, examine seu mestre cuidadosamente, então o siga, e finalmente emule sua realização e ações, sempre estará na via autêntica, venha o que vier. “No começo, examine o mestre cuidadosamente; No meio, siga‐o atentivamente; No fim, emule habilmente sua realização e ação. Um discípulo que assim faz está no caminho autêntico.”
Uma vez tendo encontrado um amigo de bem com todas as qualidades necessárias, siga‐o sem qualquer preocupação com a vida – assim como o Bodhisattva Sadaprarudita (Sempre Em Lágrimas) seguiu o Bodhisattva Dharmodgata (Dharma Sublime), o grande pândita Naropa seguiu o supremo Tilopa, e Jetsum Milarepa seguiu Marpa de Lhodrak.
Primeiramente, aqui está o relato de como o Bodhisattva Sadaprarudita se tornou discípulo de Dharmodgata. Sadaprarudita estava procurando pelo Prajnaparamita, os ensinamentos da sabedoria transcendente.
Um dia, sua procura o levou a uma solitária terra devastada, onde ele ouviu uma voz vinda dos céus dizendo, “Filho afortunado, vá para o leste e ouvirá o Prajnaparamita. Vá sem se importar com cansaço, sono ou letargia, calor ou frio, ou se é dia ou noite. Não olhe nem para a direita nem para a esquerda. Em seguida receberá o Prajnaparamita contido nos livros de um monge que personifica e ensina o Dharma. Neste momento, filho fortunado, siga e apegue‐se àquele que lhe ensina o Prajnaparamita, considere‐o seu mestre e venere seu Dharma. Mesmo se o ver desfrutando dos prazeres dos sentidos, compreenda que Bodhisattvas são realizados, e nunca perdem sua fé.”
Ao ouvir essas palavras, Sadaprarudita pôs se a caminho para o leste. Não havia andado muito quando constatou ter esquecido de perguntar que distância deveria percorrer – e não tinha qualquer idéia de como encontrar seu mestre do Prajnaparamita. Chorando e lamentando‐se, ele se comprometeu a ignorar cansaço, fome, sede e sono, dia ou noite até ter recebido os ensinamentos. Ele estava determinado, como uma mãe que perdeu seu único filho. Ele estava obstinado com uma única questão: quando ouviria o Prajnaparamita?
Naquele momento, a imagem de um Tathagata surgiu atrás dele e louvou a sua busca pelo Dharma. “A quinhentas léguas daqui,”o Tathagata complementou, “há uma cidade chamada Cidade das Brisas Perfumadas. Ela é feita de sete preciosas substâncias. É circundada por quinhentos parques e possui todas as perfeitas qualidades. No centro daquela cidade, no cruzamento de quatro caminhos, está a morada do Bodhisattva Dharmodgata. Ela também é feita por sete preciosas substâncias, e tem circunferência de uma légua. Lá, nos jardins e em outros lugares de deleite, vive o Bodhisattva, o grande ser Dharmodgata, com seu séqüito. Em companhia de sessenta e oito mil mulheres ele desfruta dos prazeres dos cinco sentidos, sobre os quais possui pleno domínio, com felicidade, fazendo tudo o que gosta. Durante o passado, presente e futuro, ele ensina o Prajnaparamita àqueles que lá estão reunidos. Vá até ele, e você poderá dele ouvir os ensinamentos”.
Sadaprarudita não podia, agora, em nada pensar a não ser no que tinha acabado de ouvir. Da posição exata onde ele estava podia ouvir o Bodhisattva Dharmodgata ensinando o Prajnaparamita. Ele experimentou numerosos estados de concentração mental. Ele percebeu os diferentes mundos das dez direções do universo, e viu inumeráveis Budas ensinando o Prajnaparamita. Eles entoaram cantos de louvores à Dharmodgata antes de desaparecerem. Plenos de alegria e devoção pelo Bodhisattva Dharmodgata, Sadaprarudita refletiu sobre como ele poderia chegar à sua presença.
“Sou pobre,” pensou. “Não tenho nada com que possa honrá‐lo, nem roupas ou jóias, nem perfumes ou grinaldas, nem outros objetos para prestar reverência ao amigo espiritual. Assim venderei a carne do meu próprio corpo e, com o dinheiro recebido, honrarei o Bodhisattva Dharmodgata. Através do samsara sem fim, vendi a própria carne inumeráveis vezes; um infinito número de vezes, também, fui cortado em pedaços e destruído nos infernos onde meus próprios desejos me conduziram – mas
Quem quer comprar um homem?”
Mas espíritos do mal, invejosos por Sadaprarudita se submeter a tais provações por interesse no Dharma, tornou todos surdos a suas palavras. Sadaprarudita, não encontrando ninguém com interesse em comprá‐lo, foi a um canto e sentou‐se em lamento, lágrimas verteram dos seus olhos. Indra, rei dos deuses, então decidiu testar sua determinação. Tomando a forma de um jovem brâmane, apareceu diante de Sadaprarudita e disse, “Eu não necessito de um homem inteiro. Eu preciso somente de um pouco de gordura humana e tutano para uma oferenda. Se puder me vender eu o pagarei”. Enlevado, Sadaprarudita tomou uma faca afiada e cortou seu braço direito até jorrar sangue. Então cortou toda a carne de sua coxa direita, e, quando preparava para esmagar os ossos contra uma parede, a filha de um rico mercador o viu do andar superior da sua casa e rapidamente correu em sua direção.
“Nobre, por que está infligindo dor em si mesmo?” Perguntou. Ele explicou que desejava vender sua carne para fazer uma oferenda ao Bodhisattva Dharmodgata. Quando a jovem o perguntou que benefício seria alcançado com tal homenagem, Sadaprarudita respondeu, “Ele me ensinará os meios hábeis dos Bodhisattvas e o Prajnaparamita. Então, se eu praticá‐los, alcançarei a onisciência, possuindo as numerosas qualidades de um Buda e poderei compartilhar o precioso Dharma com todos os seres”.
“Isso é certamente verdadeiro”, disse a jovem, “que cada uma das qualidades merece uma oferenda de tantos corpos quanto os grãos de areia do Ganges. Mas por favor, não se corte desta maneira! Eu lhe darei o que for necessário para que honre o Bodhisattva Dharmodgata e irei com você para vê‐lo, criarei o mérito que me capacitará a atingir as mesmas qualidades também”.
Quando ela terminou de falar, Indra reassumiu sua própria forma e disse a Sadaprarudita, “Eu sou Indra, Rei dos Deuses. Vim para testar sua determinação. Eu te darei o que você quiser; basta pedir.”
“Conceda‐me as qualidades não usurpáveis dos Budas!” Sadaprarudita respondeu.
“Isso eu não posso te conceder,”disse Indra. “Tal coisa não está nos limites do meu domínio.”
“Neste caso, não há necessidade de se preocupar em recompor o meu corpo,” disse Sadaprarudita. “Invocarei as preces da verdade”. Pelas preces das predições dos Budas que nunca retornam ao samsara, pela verdade da minha suprema e inabalável determinação, e pela verdade das minhas palavras, possa meu corpo reassumir seu estado original !”
Com estas palavras, seu corpo voltou a ser exatamente como antes. E Indra desapareceu.
Sadaprarudita foi com a filha do mercador até a casa de seus pais e lá lhes contou sua história. Eles forneceram a ele numerosos bens materiais que seriam necessários para sua oferenda. Assim, ele, juntamente com a filha do mercador e seus pais, acompanhados por quinhentas criadas e todo seu cortejo, rumaram em carruagens na direção leste, e chegaram na Cidade das Brisas Perfumadas. Lá ele viu o Bodhisattva Dharmodgata pregando o Dharma a milhares de pessoas. Essa visão o preencheu com a felicidade que o monge experiencia quando imerso em absorção
Dharmodgata.
Naquela ocasião Dharmodgata havia construído um templo para o Prajnaparamita. Era feito por sete materiais preciosos, decorado com sândalo vermelho e coberto com detalhes em pérolas. Em cada uma das quatro direções estavam posicionadas pedras preciosas como lâmpadas e incensórios de prata dos quais flutuavam oferendas perfumadas de incenso de madeira de aloé negro. No centro do templo estavam quatro cofres adornados com jóias contendo os volumes do Prajnaparamita, feitos de ouro e escrito com tinta de lápis‐lazúli.
Ao ver deuses e homens fazendo oferendas, Sadaprarudita fez indagações e então, acompanhado pela filha, o mercador e quinhentas servas, rendeu homenagens à Prajnaparamita.
Eles, então, se aproximaram de Dharmodgata, que estava dando um ensinamento para seus discípulos e honraram‐no com todas suas oferendas. A filha do mercador e suas servas fizeram os votos de Bodhisatva. Sadaprarudita perguntou de onde haviam vindo e para onde tinham ido os Budas que ele tinha visto. Dharmodgata respondeu recitando o capítulo que ensina que os Budas nem vêm nem vão. Ele saiu de seu assento e foi para os seus próprios aposentos, onde permaneceu no mesmo estado contínuo de concentração por sete anos.
Ao longo de todo este período, Sadaprarudita, a filha do mercador e as quinhentas servas renunciaram tanto ao sentar quanto e ao deitar, permanecendo permanentemente de pé. Estando imóveis ou caminhando, suas mentes só pensavam no momento em que Dharmodgata sairia de sua concentração e ensinaria novamente o Dharma.
Quando aqueles sete anos estavam quase no fim, Sadaprarudita ouviu os deuses anunciando que em sete dias o Bodhisattva Dharmodgata sairia do seu estado de concentração e começaria a ensinar novamente. Sadaprarudita, a filha do mercador e as quinhentas servas varreram todo o local, num raio de quinhentas milhas, onde Dharmodgata iria ensinar. Quando ele começou a respingar água no chão para assentar o pó, Mara e espíritos malévolos fizeram toda a água desaparecer. Assim Sadaprarudita cortou sua veia e respingou seu próprio sangue no chão, e a filha do mercador e suas quinhentas servas fizeram o mesmo. Indra, rei dos deuses, transformou seu sangue em madeira de sândalo vermelho dos reinos celestiais.
Finalmente, o Bodhisattva Dharmodgata chegou e sentou no trono de leão que Sadaprarudita e os outros tinham tão perfeitamente preparado. Ele expôs o Prajnaparamita. Sadaprarudita experienciou seis milhões de estados diferentes de concentração e teve a visão de um infinito número de Budas – uma visão que nunca mais saiu dele, mesmo em seus sonhos. É dito que ele agora reside na presença do Buda perfeito chamado Aquele que Proclama o Dharma com Voz Melodiosa Inexaurível.