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D ] Os infernos efêmeros 

No documento Gampopa (páginas 184-188)

 

    Esses  locais  e  os  sofrimentos  que  ali  se  encontram  não  são  frios.  Pode‐se  ser  esmagado entre dois rochedos, prensados em pedras, imobilizado no gelo, cozido em  água  fervente,  queimado  no  fogo,  ou  ainda,  quando  alguém  retalha  um  tronco,  acreditar  que  se  está  cortando  os  membros.  Pode‐se  também  sofrer  identificando  seu  corpo com objetos utilitários, como, por exemplo, um pilão, uma vassoura, uma panela,  uma porta, um pilar, uma lareira, uma corda. Citemos o caso do peixe que Lingje Repa  viu  no  lago  Yamdrok  e  aquela  da  rã  que  o  siddha  Thagtong  Gyelpoo  descobre  no  interior de uma pedra. 

    Quando  a  dakini  Yeshe  Tsogyal  meditava  em  Yamdrok,  um  bönpo  jogou  uma  moeda de ouro puro que se transformou num lago. Esse lago é o Lago Azul Turqueza,  um  dos  quatro  famosos  lagos.  Ele  é  tão  grande,  que  para  se  sair  de  Lunggangchem,  onde ele começa, e chegar até Zemagyaru, onde ele termina, são necessários vários dias  de caminhada. Um dia o grande siddha Lingje Repa olhava o lago e colocou‐se a chorar  dizendo:  “Ai!  Ai!  Não  abuse  de  oferendas,  não  abuse!”  Como  lhe  foi  solicitado  uma 

que  abusou  de  oferendas,  ele  está  sofrendo  de  forma  atroz  num  inferno  efêmero.”  E  quiseram vê‐lo. O siddha num passe de mágica secou o lago num instante. Havia ali,  um grande peixe, tão grande que tocava toda a borda. Pululando de pequenas bestas  que  lhe  roíam,  ele  se  contorcia  com  dores  intoleráveis.  Alguém  lhe  perguntou  se  poderia haver um mal karma. “Tsangla Tanakchem (o Lama de Cabelos Negros) disse  Lingje Repa”. 

    Este  Lama  cuja  eficiência  e  bênçãos  da  palavra  haviam  sido  extremamente  poderosas  e  que,  de  um  simples  olhar,  aliviava  aqueles  que  maus  espíritos  importunavam, tornou‐se objeto de veneração nas quatro províncias de Ü e de Tsang,  mas  quando  lhe  aconteceu  de  fazer  a  transferência  de  consciência  de  um  morto,  ele  trouxe, para cada phat, um grande número de cavalos e bois que haviam pertencido ao  defunto... 

    Um  dia,  o  siddha  Thangtong  Gyelpo  fazia  um  exercício  de  canais  de  energia  num  rochedo  que  se  partiu  em  dois.  No  interior,  havia  uma  grande  rã  que  abria  sua  boca negra em intervalos regulares. Inumeráveis pequenas bestas estavam agrupadas  sobre  ela  e  lhe  roíam  o  corpo,  infligindo  assim  sofrimentos  insuportáveis.  Desejou‐se  saber  a  razão.  Thangtong  Gyelpo  explicou  que  aquele  que  havia  renascido  era  um  sacrificador de animais. 

 

Não contradizer engajamento e comportamento 

 

    Olhemos os Lamas atuais: cada vez que um benfeitor mata um carneiro grande  e  gordo,  cozinha  a  garganta,  os  rins  e  o  sangue  e  serve  tudo  sobre  as  costelas  de  um  iaque  ainda  em  tremores,  nossos  lamas  levam  seu  xale  sobre  a  cabeça  e  sugam  essas  entranhas como bebês (para fazer boa figura). Eles utilizam sua faca e cortam pedaços  de  carne  em  torno  dos  ossos  e  os  comem  de  maneira  displicente.  Enfim,  da  boca  escorre  gordura,  a  cabeça  entre  a  fumaça  e  coberta  com  uma  bizarra  barba  ruiva  que  ele não apresentava antes, eles se vão com ânimo vivo. Mas numa vida futura, qual não  será sua miséria quando, nos infernos efêmeros, deverão pagar com seu próprio corpo,  a dívida por ter comido os corpos de outrem nesta vida. 

    Em outra ocasião, o grande abade de Ngor, Peldem Chökyong, que estava em  Dege,  colocou  numerosos  monges  na  borda  do  rio  Flecha  de  Prata  e  lhes  pediu  para  não deixar passar nada. À noite, eles viram um grande tronco de árvore que flutuava  na  água.  Tendo  pegado,  eles  o  levaram  ao  abade  dizendo  que  eles  não  viram  nada  além disto. “Corte‐o” disse‐lhes. Dessa maneira, eles encontraram no interior do tronco  uma grande rã que um enxame de pequenas bestas estavam roendo. Depois do ritual  de purificação, o abade declarou que aquele era o antigo tesoureiro de Dege, chamado  Pogye. 

Mesmo  que,  atualmente,  eles  sejam  muito  poderosos,  os  chefes  e  os  alto‐ funcionários  que  vivem  na  comunidade  deveriam  agir  de  forma  circunspecta,  pensando nos infernos efêmeros. 

Nos tempos do Bhagavan, o açougueiro de uma cidade fez o voto de não matar  animais  à  noite.  Assim  ele  renasceu  num  inferno  efêmero.  À  noite,  sua  felicidade  era  extrema,  ele vivia numa bela e agradável casa, cercado de quatro belas mulheres que  lhe  serviam  bebida  e  comida  bem  como  ofereciam  outros  prazeres.  Mas  de  dia,  as  paredes se transformavam em ferro ardente e as quatro mulheres em terríveis cadelas 

de não cometer adultério durante o dia, sofria à noite, ao contrário do açougueiro. 

 

Discussões entre os monges 

 

    Havia  um  agradável  monastério  no  qual  viviam  cerca  de  quinhentos  monges.  Quando tocava o sino para a refeição de meio‐dia, o monastério se transformava num  prédio de ferro ardente e os monges golpeavam‐se com suas tigelas e xícaras, tornadas,  assim,  armas.  Quando  a  hora  da  refeição  passava,  eles  se  separavam  e  tomavam  os  seus  lugares.  Ora,  era  o  pleno  efeito  kármico  das  discussões  que  no  tempo  do  Buda  Kashyapa haviam opostos esses monges na hora da refeição. 

 

Lição a se tirar da meditação sobre os infernos 

 

    Os  oito  infernos  quentes,  os  oito  infernos  frios,  os  infernos  efêmeros  e  os  infernos vizinhos são denominados os dezoito domínios infernais. Estudemos bem: 1)  seu número; 2) quanto tempo se vive lá; 3) quais são os sofrimentos que se passam lá;  4)  as  causas  que  determinam  o  renascimento;  5)  pensemos  com  compaixão  nos  seres  que lá se encontram e 6) esforcemo‐nos por colocar em serviço para que doravante nem  nós mesmos, nem os outros, renasçamos nesses locais. 

 

Escutar e compreender são insuficientes 

 

    Caso  se  contente  em  escutar  e  compreender  sem  viver  uma  experiência  real,  torna‐se um destes praticantes entediados que os seres sublimes criticam e os eruditos  reprovam... 

    Havia,  uma  vez,  um  monge  muito  contente  consigo  mesmo  por  sua  boa  conduta  que  foi  visitar  o  Mestre  Shang  Rimpoche.  O  Mestre  lhe  perguntou  qual  Dharma ele conhecia. 

    ‐ ʺEu escutei imensamente os ensinamentosʺ. 

    ‐ ʺEntão me diga: quais são as dezoito esferas infernais?ʺ 

    ‐ ʺOra! Os oito infernos quentes, os oito infernos frios, o que totaliza dezesseis. E  dezoito com os Karmapas de Capuz Vermelho e Negroʺ. 

    Não  era  por  falta  de  respeito  que  ele  contava  os  Karmapas  nos  infernos.  Ele  havia simplesmente esquecido as palavras “infernos efêmeros“ e “infernos vizinhos”.  Como na época os Karmapas de chapéu negro e vermelho eram muito célebres, ele os  incluiu por inadvertência em sua conta. Quando se chega lá, existe uma razão para se  ter  vergonha.  Que  dizer  então  da  prática  dos  ensinamentos,  se  nós  não  conhecemos  nem mesmo as palavras!                   

 

 

 

   

Distinguem‐se os:  

    A ] Pretas que vivem agrupados e       B ] Os que se movem no espaço.   

* * *  

 

A ] Os pretas que vivem agrupados: 

      Eles podem sofrer de taras:         1) Exteriores;         2) Interiores ou         3) Particulares.   

 

 

1) Os pretas cujos vícios são exteriores: 

    Esses  pretas  sofrem  de  uma  fome  e  de uma sede extrema. Séculos e séculos se  passaram sem que eles sequer ouçam a palavra água. Constantemente obcecados por  alimento e bebida, eles procuram sem jamais encontrar. 

    Acontece‐lhes  de,  às  vezes,  ver  um  riacho  de  água  clara  que  corre  ao  longe.  Suas  articulações  são  tão  frágeis  que  elas  não  suportam  o  peso  de  seus  ventres  e  a  grandes  custas  eles  se  movimentam  até  que,  completamente  esgotados,  chegam  à  borda do riacho. Mas seu sofrimento é grande e quando eles se dão conta, vêem que a  água evaporou e não há ali nada além que cascalho. 

    Às  vezes,  são  árvores  frutíferas  que  eles  vêem.  Como  na  maneira  precedente,  eles se aproximam, mas uma vez que lá chegam, só encontram troncos ressecados.       Algumas  vezes,  eles  vêem  alimentos,  bebidas  e  riquezas  excelentes  em  abundância, mas tudo é guardado por numerosos homens armados que os perseguem  e os golpeiam violentamente.  

    No  verão,  mesmo  a  lua  os  queima;  no  inverno,  mesmo  o  sol  é  glacial  e  esta  sensação é para eles a causa de extremos tormentos. 

    Um dia em que Shrona foi à região dos pretas, sua avareza o afetou tanto que ele  foi  acometido  de  uma  febre.  Com  a  boca  completamente  seca,  ele  se  dirigiu  para  a  porta  de  um  castelo  de  ferro  onde  havia  um  terrível  personagem  todo  negro  com  os  olhos vermelhos. “Onde há água?” perguntou Shrona. Com estas palavras, formou‐se  em  torno  deles  um  grupo  de  pretas  semelhantes  com  as  bocas  calcinadas  que  lhes  suplicavam: “Grande Ser Perfeito, dê‐nos água!”      ʺ_Eu não a encontrei, disse ele, vocês é que devem me fornecê‐la.ʺ      ʺ_O que é que você está dizendo? exclamaram os pretas. Há doze anos que nós  renascemos nesta região e nós nunca ouvimos, exceto hoje, a palavra água...ʺ   

 

 

2) Os pretas cujos vícios são interiores: 

 

    Suas  bocas  não  são  maiores  que  um  buraco  de  agulha.  Mesmo  que  eles  pudessem beber toda a água dos grandes oceanos, no tempo que ela penetra em suas  gargantas, que são tão finas quanto a crina de cavalo, o calor de seu hálito a evaporaria.  Se  eles  têm  sucesso  ao  engolir,  ainda  que  seja  um  pouco,  seu  estômago,  que  é  tão  grande  quanto  um  país,  não  é  preenchido.  E  se  acontece  de  se  satisfazerem,  eles  se 

pernas  finas  como  talos  de  ervas,  não  os  pode  suportar,  o  que  os  faz  sofrer  imensamente. 

 

No documento Gampopa (páginas 184-188)