Esses locais e os sofrimentos que ali se encontram não são frios. Pode‐se ser esmagado entre dois rochedos, prensados em pedras, imobilizado no gelo, cozido em água fervente, queimado no fogo, ou ainda, quando alguém retalha um tronco, acreditar que se está cortando os membros. Pode‐se também sofrer identificando seu corpo com objetos utilitários, como, por exemplo, um pilão, uma vassoura, uma panela, uma porta, um pilar, uma lareira, uma corda. Citemos o caso do peixe que Lingje Repa viu no lago Yamdrok e aquela da rã que o siddha Thagtong Gyelpoo descobre no interior de uma pedra.
Quando a dakini Yeshe Tsogyal meditava em Yamdrok, um bönpo jogou uma moeda de ouro puro que se transformou num lago. Esse lago é o Lago Azul Turqueza, um dos quatro famosos lagos. Ele é tão grande, que para se sair de Lunggangchem, onde ele começa, e chegar até Zemagyaru, onde ele termina, são necessários vários dias de caminhada. Um dia o grande siddha Lingje Repa olhava o lago e colocou‐se a chorar dizendo: “Ai! Ai! Não abuse de oferendas, não abuse!” Como lhe foi solicitado uma
que abusou de oferendas, ele está sofrendo de forma atroz num inferno efêmero.” E quiseram vê‐lo. O siddha num passe de mágica secou o lago num instante. Havia ali, um grande peixe, tão grande que tocava toda a borda. Pululando de pequenas bestas que lhe roíam, ele se contorcia com dores intoleráveis. Alguém lhe perguntou se poderia haver um mal karma. “Tsangla Tanakchem (o Lama de Cabelos Negros) disse Lingje Repa”.
Este Lama cuja eficiência e bênçãos da palavra haviam sido extremamente poderosas e que, de um simples olhar, aliviava aqueles que maus espíritos importunavam, tornou‐se objeto de veneração nas quatro províncias de Ü e de Tsang, mas quando lhe aconteceu de fazer a transferência de consciência de um morto, ele trouxe, para cada phat, um grande número de cavalos e bois que haviam pertencido ao defunto...
Um dia, o siddha Thangtong Gyelpo fazia um exercício de canais de energia num rochedo que se partiu em dois. No interior, havia uma grande rã que abria sua boca negra em intervalos regulares. Inumeráveis pequenas bestas estavam agrupadas sobre ela e lhe roíam o corpo, infligindo assim sofrimentos insuportáveis. Desejou‐se saber a razão. Thangtong Gyelpo explicou que aquele que havia renascido era um sacrificador de animais.
Não contradizer engajamento e comportamento
Olhemos os Lamas atuais: cada vez que um benfeitor mata um carneiro grande e gordo, cozinha a garganta, os rins e o sangue e serve tudo sobre as costelas de um iaque ainda em tremores, nossos lamas levam seu xale sobre a cabeça e sugam essas entranhas como bebês (para fazer boa figura). Eles utilizam sua faca e cortam pedaços de carne em torno dos ossos e os comem de maneira displicente. Enfim, da boca escorre gordura, a cabeça entre a fumaça e coberta com uma bizarra barba ruiva que ele não apresentava antes, eles se vão com ânimo vivo. Mas numa vida futura, qual não será sua miséria quando, nos infernos efêmeros, deverão pagar com seu próprio corpo, a dívida por ter comido os corpos de outrem nesta vida.
Em outra ocasião, o grande abade de Ngor, Peldem Chökyong, que estava em Dege, colocou numerosos monges na borda do rio Flecha de Prata e lhes pediu para não deixar passar nada. À noite, eles viram um grande tronco de árvore que flutuava na água. Tendo pegado, eles o levaram ao abade dizendo que eles não viram nada além disto. “Corte‐o” disse‐lhes. Dessa maneira, eles encontraram no interior do tronco uma grande rã que um enxame de pequenas bestas estavam roendo. Depois do ritual de purificação, o abade declarou que aquele era o antigo tesoureiro de Dege, chamado Pogye.
Mesmo que, atualmente, eles sejam muito poderosos, os chefes e os alto‐ funcionários que vivem na comunidade deveriam agir de forma circunspecta, pensando nos infernos efêmeros.
Nos tempos do Bhagavan, o açougueiro de uma cidade fez o voto de não matar animais à noite. Assim ele renasceu num inferno efêmero. À noite, sua felicidade era extrema, ele vivia numa bela e agradável casa, cercado de quatro belas mulheres que lhe serviam bebida e comida bem como ofereciam outros prazeres. Mas de dia, as paredes se transformavam em ferro ardente e as quatro mulheres em terríveis cadelas
de não cometer adultério durante o dia, sofria à noite, ao contrário do açougueiro.
Discussões entre os monges
Havia um agradável monastério no qual viviam cerca de quinhentos monges. Quando tocava o sino para a refeição de meio‐dia, o monastério se transformava num prédio de ferro ardente e os monges golpeavam‐se com suas tigelas e xícaras, tornadas, assim, armas. Quando a hora da refeição passava, eles se separavam e tomavam os seus lugares. Ora, era o pleno efeito kármico das discussões que no tempo do Buda Kashyapa haviam opostos esses monges na hora da refeição.
Lição a se tirar da meditação sobre os infernos
Os oito infernos quentes, os oito infernos frios, os infernos efêmeros e os infernos vizinhos são denominados os dezoito domínios infernais. Estudemos bem: 1) seu número; 2) quanto tempo se vive lá; 3) quais são os sofrimentos que se passam lá; 4) as causas que determinam o renascimento; 5) pensemos com compaixão nos seres que lá se encontram e 6) esforcemo‐nos por colocar em serviço para que doravante nem nós mesmos, nem os outros, renasçamos nesses locais.
Escutar e compreender são insuficientes
Caso se contente em escutar e compreender sem viver uma experiência real, torna‐se um destes praticantes entediados que os seres sublimes criticam e os eruditos reprovam...
Havia, uma vez, um monge muito contente consigo mesmo por sua boa conduta que foi visitar o Mestre Shang Rimpoche. O Mestre lhe perguntou qual Dharma ele conhecia.
‐ ʺEu escutei imensamente os ensinamentosʺ.
‐ ʺEntão me diga: quais são as dezoito esferas infernais?ʺ
‐ ʺOra! Os oito infernos quentes, os oito infernos frios, o que totaliza dezesseis. E dezoito com os Karmapas de Capuz Vermelho e Negroʺ.
Não era por falta de respeito que ele contava os Karmapas nos infernos. Ele havia simplesmente esquecido as palavras “infernos efêmeros“ e “infernos vizinhos”. Como na época os Karmapas de chapéu negro e vermelho eram muito célebres, ele os incluiu por inadvertência em sua conta. Quando se chega lá, existe uma razão para se ter vergonha. Que dizer então da prática dos ensinamentos, se nós não conhecemos nem mesmo as palavras!
Distinguem‐se os:
A ] Pretas que vivem agrupados e B ] Os que se movem no espaço.* * *
A ] Os pretas que vivem agrupados:
Eles podem sofrer de taras: 1) Exteriores; 2) Interiores ou 3) Particulares.1) Os pretas cujos vícios são exteriores:
Esses pretas sofrem de uma fome e de uma sede extrema. Séculos e séculos se passaram sem que eles sequer ouçam a palavra água. Constantemente obcecados por alimento e bebida, eles procuram sem jamais encontrar.
Acontece‐lhes de, às vezes, ver um riacho de água clara que corre ao longe. Suas articulações são tão frágeis que elas não suportam o peso de seus ventres e a grandes custas eles se movimentam até que, completamente esgotados, chegam à borda do riacho. Mas seu sofrimento é grande e quando eles se dão conta, vêem que a água evaporou e não há ali nada além que cascalho.
Às vezes, são árvores frutíferas que eles vêem. Como na maneira precedente, eles se aproximam, mas uma vez que lá chegam, só encontram troncos ressecados. Algumas vezes, eles vêem alimentos, bebidas e riquezas excelentes em abundância, mas tudo é guardado por numerosos homens armados que os perseguem e os golpeiam violentamente.
No verão, mesmo a lua os queima; no inverno, mesmo o sol é glacial e esta sensação é para eles a causa de extremos tormentos.
Um dia em que Shrona foi à região dos pretas, sua avareza o afetou tanto que ele foi acometido de uma febre. Com a boca completamente seca, ele se dirigiu para a porta de um castelo de ferro onde havia um terrível personagem todo negro com os olhos vermelhos. “Onde há água?” perguntou Shrona. Com estas palavras, formou‐se em torno deles um grupo de pretas semelhantes com as bocas calcinadas que lhes suplicavam: “Grande Ser Perfeito, dê‐nos água!” ʺ_Eu não a encontrei, disse ele, vocês é que devem me fornecê‐la.ʺ ʺ_O que é que você está dizendo? exclamaram os pretas. Há doze anos que nós renascemos nesta região e nós nunca ouvimos, exceto hoje, a palavra água...ʺ
2) Os pretas cujos vícios são interiores:
Suas bocas não são maiores que um buraco de agulha. Mesmo que eles pudessem beber toda a água dos grandes oceanos, no tempo que ela penetra em suas gargantas, que são tão finas quanto a crina de cavalo, o calor de seu hálito a evaporaria. Se eles têm sucesso ao engolir, ainda que seja um pouco, seu estômago, que é tão grande quanto um país, não é preenchido. E se acontece de se satisfazerem, eles se
pernas finas como talos de ervas, não os pode suportar, o que os faz sofrer imensamente.