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Aprender, compreender

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 80-95)

2. A BABEL: EXPERIÊNCIA E REPRESENTAÇÃO

2.2 Aprender, compreender

Em 1945 Levi, recém liberto, escreveu a uma amiga, ainda na época de sua longa viagem de regresso (depois descrita em A trégua): “Estou vestido que nem um maltrapilho,

chegarei talvez sem sapato, mas em troca aprendi alemão, um pouco de russo e de

polonês, e além disso a me virar em muitas situações.”213

A incrível discrepância entre o horror vivido e o tom irônico (característica peculiar de Levi) mostra bem o quanto o verbo “aprender” seja um dos principais para a sobrevivência. De fato esta idéia recorre com frequência em SQU.

As “muitas circunstâncias” às quais se refere a carta constituem, no Lager, o conjunto de

passos a serem dados para prosseguir no labirinto da vida no Campo. Aprender as línguas e o alemão coloca-se em primeiro lugar, mas ao longo das páginas de SQU, ficamos sabendo que era preciso assimilar uma série de outras noções essenciais: o funcionamento do Lager, sua topografia, onde encontrar coisas úteis, quais seriam as prioridades para sobreviver, como obter as informações certas antes dos outros, saber o valor dos objetos para troca, como proteger comida e sapato, como proteger-se das seleções, quando aparentar saúde ou doença, saber ler os sinais dos acontecimentos, conhecer a já

mencionada “macabra ciência dos números”, inventar e construir instrumentos, saber a

212

Ibid., p.151

quem perguntar e em quem confiar, quando ser egoísta (e sobreviver) e quando ser solidário (e fazer sobreviver a própria humanidade), e até perceber quando poupar energia no trabalho para evitar um colapso mesmo aceitando os consequentes golpes,

pois “ de pancadas em geral não se morre, mas de esgotamento sim ”214

Portanto, em caso de necessidade é importante saber o que sacrificar: o fôlego ou os

pensamentos, a comida ou as forças, o pão ou a generosidade (“nossa arte de economizar tudo, fôlego, movimentos, pensamentos até”)215

.

Este tipo de saber é um “entender como”, “entender quando”, “entender quem”, “entender quanto” dentro do labirinto do absurdo, das regras incompreensíveis, gratuitas e cruéis. No Lager “es gibt kein warum” (não existe nenhum porquê)216, assim responde um prisioneiro ao recém-chegado que faz perguntas.

Então, é uma compreensão que não se vale da pergunta “por que”, e sim de uma capacidade de observação e constatação dos fatos, embora inacreditáveis, e da rapidez de um espírito engenhoso de “se virar” no meio do naufrágio.

Para começar, há a substituição do nome pelo número e as regras de chamadas a serem

adquiridas: “Necessita de vários dias e muitos socos e bofetadas, até criarmos o hábito de

mostrar prontamente o número [...]; necessitamos de semanas e meses para acostumarmos-nos ao som do número em alemão.”217 O aprendizado do número 174.517 precisou atravessar a difícil pronúncia e a impossível memorização imediata, já que em

alemão corresponde a “hundert vier und siebzig fünfhundert siebzehn”.

No segundo capítulo, “No fundo”, a escrita apóia-se na repetição do verbo aprender

como um refrão que assinala o rápido processo de adaptação no inferno-Lager.

Aprendemos rapidamente que os hóspedes do Campo dividem-se em três categorias[...]

214 LEVI, p. 134. A importância deste último aprendizado é repetida em Os afogados e os sobreviventes,

p.115: “Os golpes, como disse noutra parte, geralmente não são mortais, ao contrário do colapso” .

215 Ibidem 216

Ibid., p.27, episódio já citado

Outras coisas aprendemos ainda, uns mais, outros menos rapidamente, conforme o temperamento de cada um. A responder: Jawohl! A não fazer perguntas, a fingir ter compreendido sempre. Aprendemos o valor dos alimentos [...]

Aprendemos que tudo serve: o pedaço de arame, para amarrar os sapatos; os trapos para envolver os pés; o papel, para forrar (embora proibido) o casaco contra o frio. Aprendemos que, por outro lado, tudo pode ser roubado; aliás, que é automaticamente roubado ao menor descuido. [...]

Já conhecemos em grande parte o regulamento do Campo que é absurdamente complicado.218

A “iniciação”219

da personagem narradora no universo concentracionário se dá através da adaptação aos “infindáveis e insensatos” rituais obrigatórios e do reconhecimento de um mundo revirado, de cabeça pra baixo, onde as normas habituais tanto de comportamento quanto de interpretação não funcionam. Assim como não pode servir nenhum esquema interpretativo, por mais que a mente organizadora do químico procure: “Frente a esse mundo infernal, minhas idéias se confundem: será mesmo necessário elaborar um sistema e observá-lo? Não será melhor compreender que não se possui sistema algum?”220

De qualquer modo, aos poucos, códigos mais complexos serão inevitavelmente assimilados por aqueles que sobreviverem. Já mencionamos a decodificação da composição numérica tatuada, onde, para quem souber ler, “o número revela tudo: a época da entrada no Campo, o comboio com o qual se chegou e, consequentemente, a nacionalidade.” 221 Assim, para não correr o risco de ser eliminado,“ [...] fazer-se reconhecer como doente exige por si só uma ampla bagagem de conhecimentos e

experiências”222

.

Os mais experientes, como dissemos, sabiam que era melhor poupar as energias e, eventualmente, ser espancado do que seguir sempre literalmente todas as ordens. Além de roubar, estratégias e truques são adotados para aliviar pesos ou evitar um esforço mortal.

218 Ibid., pp.31-2

219 Título do terceiro capítulo, acrescentado na edição Einaudi de 1958. 220 LEVI, p.40

221

Ibid. p. 26

O conto intitulado “Um discípulo”223 foca exatamente a temática do “aprender” nas circunstâncias acima descritas, entrelaçado ao tema da Babel e da comunicação, parecendo-nos, portanto, um conto paradigmático e significativo da produção de Levi. O episódio narrado acontece por ocasião da chegada em massa dos judeus húngaros, fato que em si – nos diz o autor – alterou a composição do Campo, já que o idioma húngaro subiu de repente na lista dos mais falados. O narrador recorda-se de um homem particularmente honesto e trabalhador que, recém-chegado e ainda forte, durante um transporte feito em dupla, obstinava-se em carregar vinte tijolos pesados enquanto Primo tenta lhe propor um truque para diminuí-los a dezessete. O húngaro Endre Szántós, apelidado Bandi, insiste em fazer bem o trabalho que foi pedido. Primo Levi, por sua vez, já estava no Campo há quatro meses. Apesar de ainda estar “digerindo”algumas descobertas, era tempo suficiente para possuir um estatuto de mestre; neste caso, a tarefa de explicar e sugerir truques úteis completa-se com a dedicação de Levi a este papel.

Fizemos juntos três viagens, durante as quais, com intervalos, tentei explicar-lhe que aquele lugar não era feito para pessoas gentis e tranquilas. Tentei convencê-lo de algumas das minhas descobertas recentes (na verdade, ainda mal digeridas): que, para sobreviver ali, era preciso se mexer, arranjar224 comida ilegal, evitar o trabalho, buscar amigos influentes, esconder-se, esconder os próprios pensamentos, roubar, mentir; que os que não faziam assim morriam logo; e que a santidade225 dele me parecia perigosa e fora do lugar.226

223 LEVI, P. Um discípulo. In ____ 71 contos de Primo Levi. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, pp.

352-355

224 Encontramos na edição brasileira dos contos, a mesma questão da tradução do verbo “organizar” de que

falaremos ainda nas pp. 116-118 deste trabalho, isto é a perda de uma expressão típica do jargão do lager.

Em italiano: “Tentai di convincerlo di alcune mie recenti scoperte (per verità non ancora bene digerite): che

laggiù, per cavarsela, bisognava darsi da fare, organizzare cibo illegale, scansare il lavoro, trovare amici influenti, nascondersi, nascondere il proprio pensiero, rubare, mentire” (LEVI, P. Tutti i racconti. Torino: Einaudi, 2005, p.603, o grifo é nosso)

225

Levi refere-se ironicamente à correspondência entre o sobrenome Szántós e o substantivo italiano

“santo”, correspondência que ele via como significativa, embora em húngaro significasse “camponês”.

226

O companheiro resiste e, com ironia e ternura, o autor comenta que não era um bom discípulo. Todavia, no fim, Bandi, respeitando a “sabedoria” de quem chegara antes, aceita que Primo coloque menos tijolos. Em seguida, conversam e descobrem outros detalhes biográficos. Bandi, com sua simpatia, integra-se aos poucos aos prisioneiros. Dois ou três meses se passam e Primo recebe uma carta de resposta da mãe. Duplo milagre: da carta enviada através do pedreiro Lorenzo a uma amiga na Itália - que sabia onde os Levi viviam escondidos - e da resposta que ultrapassa todos os riscos e perigos (a descoberta de tal ousadia podia custar a morte). Outro dia, ao trabalhar de novo com Bandi, Levi não resiste à tentação de compartilhar este tesouro que ardia em seu bolso:

“A carta do doce mundo me queimava no bolso; sabia que era prudente calar, mas não consegui.”227

Primo lê a carta, traduzindo-a em alemão; não se sabe o quanto Bandi entendeu. De fato, terminada a rápida leitura, o Húngaro saca do bolso um rabanete e o oferece ao companheiro italiano dizendo: “Aprendi. É pra você: é a primeira coisa que

roubei.”

Desta forma, o discípulo agradeceu o mestre. Muitos são os pontos interessantes.

A importância da comunicação apresenta-se num leque que vai da superação da Babel linguística recorrendo ao comum alemão, ao compartilhar palavras escritas em italiano através de uma tradução, até a comunicação e transmissão de códigos e estratégias de sobrevivência. A narrativa costura o laço entre estas diversas formas de comunicar, criando uma sequência em curva ascendente: contato linguístico apesar dos obstáculos, durante o trabalho; explicação de códigos éticos mais complexos (poupar energias,

“organizar” comida ilegal); tradução da carta íntima. No final, a resposta representada

por um rabanete roubado demonstra que o discípulo captou a mensagem sobre a necessidade de infringir as regras, mas também a vontade de trocar presentes num relacionamento humano.

Queremos ressaltar mais dois aspectos. A curiosidade de Levi-prisioneiro é acesa no momento do episódio assim como a memória a posteriori na hora da escrita, tentando relatar todos os detalhes interessantes desta personagem e lamentando que alguma coisa corresse o risco de ficar esquecida.

Na viagem de volta conversávamos, e logo aprendi muitas coisas simpáticas de Bandi. Hoje não seria capaz de repeti-las inteiramente: toda memória se apaga, e, no entanto, conservo as lembranças desse Bandi como coisas preciosas, sinto-me feliz por fixá-las no papel e gostaria que, por algum milagre não impossível, esta página o alcançasse no canto do mundo onde ele talvez ainda viva, e que ele a lesse e se reencontrasse nela.228

Além da sede de memória e de testemunho, outra motivação sustenta a narração: a esperança que o recado chegue, quase como uma mensagem numa garrafa, até o companheiro húngaro. A esperança da chegada de uma mensagem, porém é também tema do próprio conto, pois nele Levi segue narrando sua aventurosa troca de cartas com sua mãe (ato proibido e impensável para os judeus) e Bandi é quem ouve a leitura da carta milagrosamente recebida (graças a uma cadeia de pessoas amigas, inclusive o já citado Lorenzo).

Para ambos os aspectos acenados, o interesse por outro ser e a transmissão da mensagem, há um efeito repetido em dois planos diferentes, o do ato da escrita e o do evento narrado. Enfim, o conto, semelhante a uma parábola com seu apogeu final - a colocação em prática dos ensinamentos - revela o gosto pela anedota típico de Levi e sintetiza aqui o tema aprender/comunicar identificando nesta dupla ação aquele fio de Ariadne que pode conduzir através do labirinto-Auschwitz até uma possível saída.

Este tipo de conto constitui, segundo a definição do crítico italiano Alberto Cavaglion,

uma “fecundação à distância”229

de SQU, e à mesma categoria pertence “Auschwitz,

cidade tranquila”, onde volta o tema do aprender/compreender, da ignorância e do conhecimento. Aqui, a vontade de saber das vítimas se opõe à vontade de não enxergar

228 Ibid., p.353

229 Em seu ensaio “Il termitaio “ (O cupinzeiro”) (1991), Alberto Cavaglion sublinha como na obra ou

nas páginas avulsas do escritor ele “disseminou nos meandros de um conto de ficção científica , nas

dobras de um elzevir de terceira página, uma pedrinha de sua primeira obra prima.” Ao leitor cabe recompor este puzzle que se torna também uma viagem às avessas. Portanto o crítico mostra exemplos do que chama de “fecundação à distância” em vários livros, em A trégua assim como em alguns contos, onde há elementos, personagens ou micro-episódios que têm sua matriz no primeiro livro. (CAVAGLION, A. Il termitaio. In FERRERO (org.), Primo Levi: Un´antologia della critica , pp. 76-90)

de muitos cidadãos alemães. O incipit do conto aborda logo a presença paradoxal do sentimento de curiosidade:

Pode surpreender que no Lager um dos estados de ânimo mais frequentes fosse a curiosidade. No entanto nós estávamos, além de assustados, humilhados e desesperados, também curiosos: famintos de pão e também de compreender. O mundo em volta parecia ele mesmo revirado, portanto alguém devia tê-lo revirado e devia ser ele mesmo um revirado: um, mil, um milhão de seres anti-humanos, criados para torcer o que estava reto, para sujar o que estava limpo. 230 [trad. nossa]

Segundo Píer Vincenzo Mengaldo, um dos temas recorrentes entre as testemunhas é a

“curiosidade” percepida. Citando, além de Levi, os intelectuais Jorge Semprún, Victor

Frankl, Elle Lingens, Luciana Nissim e Evgenia Semionova Ginzburg, ele observa como o surgimento do sentimento de curiosidade em situações extremas de aprisionamento é por eles confirmado, seja porque nasce espontâneo, seja porque ajuda a sobreviver, seja porque é o que resta a fazer quando não se tem nada a perder.231

Como em SQU, na citação acima apresentada, volta o sujeito plural “nós”, solução narrativa que Levi adota para nos sugerir o quanto seus sentimentos e sua condição eram compartilhados por todos os prisioneiros, o quanto sua experiência particular se inseria na História coletiva, quanto suas próprias reações correspondiam a reações do ser humano preso numa grande e terrível “experiência biológica e social”232.

Como desdobramento temático do eixo observar/compreender, onde o narrador chega a destacar-se dos outros, desde as primeiras páginas de SQU a dialética ignorância- conhecimento prolifera gerando adjetivos e substantivos: ingênuos, ignorantes, iludidos, recém-chegados, “bobos inúteis e indefesos” que nada sabem do regulamento do Lager encontram-se contrapostos a quem sabe “a tempo”, os astutos, os veteranos233, os

230“Può stupire che in Lager uno degli stati d´animo più frequenti fosse la curiosità. Eppure eravamo, oltre

che spaventati, umiliati e disperati, anche curiosi: affamati di pane e anche di capire. Il mondo intorno a noi appariva capovolto, dunque qualcuno doveva averlo capovolto, e perciò essere un capovolto lui stesso: uno,

mille, un milione di esseri antiumani, creati per torcere quello che era diritto, per sporcare il pulito.” (LEVI,

Auschwitz, città tranquilla. In Tutti i racconti, p.821)

231 MENGALDO, La vendetta è il racconto, p. 104 232

LEVI, p. 88

poliglotas ou até, mais especificamente os poloneses que sempre sabiam das notícias antes dos outros.

Ao chegar a Auschwitz, a lucidez do narrador se opõe à necessidade de um engenheiro (casualmente com o mesmo sobrenome) de iludir-se:

E as nossas mulheres? O engenheiro Levi pergunta se acho que elas também estão na mesma situação que nós, neste instante, e onde será que estão, e se poderemos revê-las. Respondo que sim, porque ele é casado e tem uma filhinha; claro que tornaremos a vê-las. Eu, porém, já tenho a impressão de que tudo isto é apenas um enorme aparato para caçoar de nós e rebaixar-nos; é claro que vão nos matar, só um louco poderia cair no conto, pensar que continuará vivendo, mas eu não, não caí, entendi que em breve tudo estará acabado [...] 234

E logo antes da viagem nos trens blindados: “Só uns poucos ingênuos e iludidos ainda teimaram em esperar. Nós já conversáramos com os fugitivos poloneses e croatas;

sabíamos, portanto, o que significava partir.”235

A distinção entre o eu-narrador sagaz e desconfiado e os outros facilmente enganados é repetida poucas páginas depois; um prisioneiro húngaro falando italiano surge para

explicar as próximas etapas da entrada no Lager e conta coisas “estranhas e loucas” como

o fato de que aos domingos há jogos de futebol e concertos, e quem é bom de boxe pode tornar-se cozinheiro: “talvez seja meio louco: no Campo, a gente enlouquece.[...]. Alguns sentem-se mais sossegados; eu não [...] não quero acreditar nada do que disse.”236 Um último exemplo que queremos apresentar, entre outros que compõem a dualidade ingênuos/espertos, encontra-se na diferença entre os já citados “grandes números” e

“pequenos números”, indicando respectivamente os prisioneiros chegados mais

recentemente e os mais experientes que enxergam os novos com irritação e desprezo. Depois de um ano de Lager o narrador que traz o número 174.517 pertence aos

“pequenos números”. 234 LEVI, p. 22 235 Ibid., p.13 236 Ibid., p. 24

Quem deixa que o vejam comendo alimentos “organizados”, conseguidos por fora, é julgado

severamente: isso é grave falta de tato e reserva, além de evidente tolice. Seria igualmente tolo e indiscreto perguntar: - Quem te deu isso? Onde é que o achaste? Como é que te arranjaste? – Só os

“números grandes”, bobos, inúteis e indefesos, que nada sabem das regras do Campo, podem fazer

perguntas dessas, às quais nem se responde, ou se responde: Verschwinde, Mench!, Hau´ab, Uciekaj, Schiess´in den Wind, Va chier – ou seja, com uma das muitíssimas frases sinônimas de “Dê o fora!”, das quais é rica a gíria do Campo. 237

No capítulo “Os submersos e os salvos” o autor traz vários exemplos de tipologias

humanas e de características que permitiram sobreviver, independentemente de valores éticos: muitas vezes trata-se de capacidade de “se virar”, de cinismo, demência, força física, individualismo, mas às vezes também de inteligência e determinação, ou habilidades comunicativas e linguísticas. São-nos apresentadas também personalidades admiráveis que conseguem sobreviver sem perder a alma. É o caso de seu melhor amigo Alberto, que demonstra capacidades de adaptação excepcionais tendo entendido, antes de todos, a realidade do campo sem perder-se em recriminações e auto-piedade. Mas a alta qualidade humana revela-se na conservação de sua dignidade:

Ajudam-no sua inteligência e sua intuição; raciocina e acerta; às vezes não raciocina, e acerta também. Percebe tudo num instante; fala apenas um pouco de francês, mas compreende o que lhe dizem alemães e poloneses. Responde em italiano e, com gestos, se faz compreender e se torna

simpático a todos. Luta pela vida, mas é amigo de todos. “Sabe” quem subornar, quem evitar, quem

poderá mover-se à compaixão, a quem se deve resistir. Apesar de tudo, ele não mudou, e é por isso que, ainda hoje, a sua cara lembrança continua tão perto de mim. Sempre vi nele, e ainda vejo o símbolo raro do homem forte e bom, contra o qual nada podem as armas da noite. 238

A sobrevivência é nutrida também pelo encontro, pela amizade, pela solidariedade. A relação humana protege a vontade de não sucumbir. O autor nos apresenta diversos amigos, tanto em SQU quanto em A trégua. Além disso, nos deparamos no conto acima

237

Ibid., p.122. Aqui i verbo “organizzare” é traduzido literalmente.

238 Ibid., p. 57. Alberto desapareceu numa das “marchas da morte”, em janeiro de 1945, quando os alemães

em fuga dos campos, ameaçados pela avançada russa, levaram a maioria dos prisioneiros, provavelmente para eliminar provas e testemunhos. Primo Levi, nesta ocasião, salvou-se por estar internado na enfermaria e, portanto, por conseguir sobreviver até a chegada do Exército Soviético.

citado “Um discípulo”, com uma ação impensável para os judeus de Auschwitz: Levi conseguiu enviar uma carta para casa e receber uma resposta. Este fato que, se descoberto, ter-lhe-ia causado a morte, foi possível, como mencionado, graças ao encontro excepcional, com Lorenzo. O operário italiano não judeu e deportado junto com alguns trabalhadores italianos de uma fábrica situada na França, pertencia a outra “casta”

na hierarquia dos campos e vivia numa condição mais “privilegiada”. Ao encontrar-se na

área comum da fábrica da Buna, forneceu a Primo e Alberto rações suplementares de comida durante seis meses apesar dos riscos.

Em suma, na Babel de códigos e comportamentos, neste “circo” (como o chamou Ruth

Kluger) absurdo e cruel, a acrobacia que mantinha “humano” e ao mesmo tempo vivo consistia em desistir dos códigos éticos apenas o suficiente, cultivar relações humanas o quanto possível, correr riscos em prol da própria incolumidade física ou psíquica na justa medida.

Em Levi a curiosidade que sustenta a observação toma a forma de um olhar

“antropológico”: capacidade de entender o indivíduo inserido num sistema de crueldade,

habilidade de descrever brevemente e com precisão paisagens, personagens e características individuais e nacionais, perspicácia, lucidez. Estas, assim como a ironia, serão características também do Levi escritor, ou seja, as mesmas que permitiram ao prisioneiro comunicar-se, “se virar” e sobreviver no campo nazista são as que formarão o

No documento – PósGraduação em Letras Neolatinas (páginas 80-95)