2. A BABEL: EXPERIÊNCIA E REPRESENTAÇÃO
2.3 Comunicar
Aprender, compreender, então. E comunicar. Contar, falar, comunicar, testemunhar, dizer a experiência é um ato de reapropriação da identidade, assim como testemunhar, nas
palavras de Shoshana Felman “é, precisamente, engajar-se no processo de reencontrar seu nome próprio, sua assinatura.” 257
O mesmo acontece com Ulisses na corte dos Feácios. O herói grego, depois de comer, conta e, finalmente, revela seu nome; só quando completa a narração, os Feácios oferecem-lhe os meios para voltar à pátria. Pietro Citati focaliza o instante em que a recuperação do nome coincide com o início da narração:
Quando começa sua narração, Ulisses esquece as lágrimas, as incertezas [...] Ele sai da obscuridade, onde naufragara. Reencontra o próprio nome escondido: “Sou Odisseu, filho de Laerte”. Possui de novo uma pátria [...] volta a ser o que era: o homem que segue todas as direções, com a mente múltipla.258
.
Contar então é requisito para voltar, e voltar é requisito para contar.
256“Clausner me mostra o fundo da sua gamela. Lá onde os outros gravam seu número, onde Alberto e eu
gravamos o nosso nome, Clausner escreveu: Ne pas chercher à comprendre, não tentar compreender.” (LEVI, p.105). No original o francês não é traduzido.
257
FELMAN, Shoshana. Educação e crise, op.cit., p. 64
A comparação com o herói da Odisséia reaparece inevitavelmente, com outros contornos,
pois Ulisses constitui o que Franco Baldasso chama de um dos dois “numes tutelares” de
Levi, junto com Coleridge 259.
A figura do navegador itacense está presente no livro de Levi, num capítulo intitulado “O
canto de Ulisses”, onde o prisioneiro tenta traduzir para o francês os versos de Dante. Um
verdadeiro ato de resistência cultural e de apego às próprias raízes dentro do inferno do Campo - imagem especular do inferno dantesco em cujas chamas é preso Ulisses. De fato, a comunicação humana já se revela por si só um ato de resistência em oposição ao projeto nazista de aniquilação e a tradução um antídoto à Babel do Campo.
O episódio começa quando o prisioneiro Levi caminha em direção às cozinhas com o companheiro alsaciano Jean, apelidado Pikolo260, encarregado do transporte da comida e que, naquele dia, escolhe Primo como parceiro. É uma ocasião de diálogo, já que na ida eles caminham leves com os recipientes vazios. Enquanto conversam sobre suas casas e suas mães, o amigo francês tenta alongar o percurso para ganhar mais tempo. Em seguida, expressa uma persistente vontade de aprender italiano. Levi, então, propõe não desperdiçar a oportunidade. Eis que lhe surge na memória o “canto de Ulisses”, o canto XXVI° da Comédia de Dante Alighieri, aprendido na escola. “Quem sabe como e por que”, mas não há tempo para escolher e o importante é não perder o precioso tempo. 261 Assistimos, então, ao duplo esforço de lembrar os versos decorados nos anos de colégio e de tentar traduzi-los para o francês.
259 BALDASSO, Franco. Il cerchio di gesso. Primo Levi narratore e testimone. Bologna: Pendragon,
2007, p. 34
260 Jean Samuel (1910-2010) sobreviveu, manteve contato com Primo Levi, mas se manteve em silêncio até
1981 quando foi convidado a gravar seu testemunho com Levi. A partir disso, se disponibilizou para entrevistas e debates e, quando percebeu que a memória poderia diminuir, escreveu um livro autobiográfico
intitulado “Il m´appelait Pikolo” (2007), (referindo-se ao apelido usado no Lager por Primo Levi), onde é
publicada também uma correspondência entre ele e Levi. Sobre o apelido “Pikolo”, Samuel e Jean-Marc Dreyfus, que assina o Posfácio, revelam que se tratou de uma denominação dada por Levi e a substituição
do duplo “c” de “piccolo” (em italiano, pequeno) pela letra “k” também foi determinada pela vontade do escritor “de encontrar para ela [a palavra] o lugar que lhe era devido na torre de Babel, também linguística,
de Auschwitz: a invenção da palavra, portanto fora do vocabulário imposto pelo sistema, constitui uma vitória da humanidade [...] ” (Posfácio de Jean-Marc Dreyfus. In SAMUEL, Jean. Mi chiamava Pikolo, pp.200-201, tradução nossa da ed. italiana)
Além disso, o italiano Primo se propõe a explicá-lo e comentá-lo. Enquanto faz isso, tropeça em lacunas, sendo a memória falha, mas é levado pela pressa de chegar ao núcleo do canto. “Estou com pressa, com uma pressa danada. Cuidado Pikolo, abre os ouvidos e a mente, eu preciso que compreendas: “Considerate la vostra semenza/ Fatti non foste a
viver come bruti,/ Ma per seguir virtute e conoscenza”. 262
Levi-Ulisses torna seu colega mais “agudo”263 e o convida a refletir e, ao fazê-lo, ele mesmo encontra significados escondidos, respostas iluminadoras. “É como se eu também ouvisse isso pela primeira vez: como um toque de alvorada (...) Por um momento, esqueci
quem sou e onde estou”. 264
Observamos que o esquecimento refere-se ao contexto do campo, mas esquecer que se é um Häftling listrado e raspado equivale a recordar quem se é de verdade. Assim, o condenado não desiste do poema, apesar das falhas da memória, e tenta até explicá-lo e comentá-lo, encontrando significados escondidos, respostas iluminadoras, hipóteses críticas novas. Nesta frenética aula de literatura italiana, esforço de rememoração, de tradução e de interpretação, Levi se aproxima da pátria, da língua-mãe, da relação literatura-vida, da lembrança de si, e, por isto, o que está em jogo vale o máximo sacrifício. Ele pagaria um preço altíssimo para conseguir ligar um verso com outro, lembrar as palavras que os costuram, reconstruir a inteira sequência poética: “Eu
renunciaria à minha ração de sopa para poder ligar “non ne avevo alcuna” com os versos finais.”265
Entretanto a memória é traiçoeira, fragmentada, insuficiente e a tradução “um desastre”.
Porém, por momentos, o prisioneiro ilumina-se frente a significados desvendados pela própria realidade do Campo, relâmpagos ou iluminações profanas como diria Benjamin:
262“Relembrai vossa origem, vossa essência;/vós não fostes criados para bichos,/ e sim para o valor e a
experiência ”. (LEVI, p.116). Em tradução de Dante por Vasco Graça Moura: “E que a vossa semente agora vença:/ não fostes feitos a viver quais brutos,/ mas a seguir virtude e conhecença”, op.cit., vv. 118-
120, p.241
263 LEVI, p116, usa-se “agudo” referindo-se no verso 121 do mesmo Canto. Em Graça Moura: “E os
companheiros meus fiz tão argutos”. De qualquer modo observamos o paralelismo: ao mesmo tempo, Primo Levi está fazendo perspicaz, atento, ciente seu colega francês.
264
LEVI, p.116
“algo grandioso que acabo de ver, agora mesmo, na intuição de um instante, talvez o
porquê do nosso destino, do nosso estar aqui, hoje...”266
Levi sabia estar correndo risco de vida ao realizar um ato preciso de cultura e de comunicação humana, o que era exatamente negado pelos nazistas, sendo o campo de concentração a negação de qualquer diálogo dos prisioneiros com o mundo, com suas raízes, com seus paises de origem, com sua identidade humana. Mas ele daria a sopa (isto é, a garantia de vida daquele dia) para conseguir lembrar o canto todo, ligar um verso ao outro.
Mas é tarde, os amigos estão chegando à meta, chegaram. A experiência fecha-se como um despertar brusco, quando ressoam as palavras estrangeiras e cotidianas: “Kraut und
Ruben” (Couve e nabo). Então a realidade do Lager volta a submergir os dois
companheiros e o capítulo conclui-se com o verso final do Canto XXVI que corresponde ao fim do Ulisses náufrago, outra imagem que exerce sua especularidade: “Infin che „l
mar fu sopra noi rinchiuso. “(Até que o mar fechou-se sobre nós).
É interessante observar a sequência que mistura lirismo e cotidiano, metáfora poética e realidade crua, urgência e impossibilidade, grandiosidade e falta de esperança. Vale a pena citar inteiramente o trecho final:
Seguro Pikolo, é absolutamente necessário e urgente que escute (...) antes que seja tarde demais: amanhã, ou ele ou eu podemos estar mortos ou não rever nunca mais, devo falar-lhe, explicar-lhe o que era a Idade Média, esse anacronismo tão humano e necessário e no entanto inesperado, e algo mais, algo grandioso que acabo de ver, agora mesmo, na intuição de um instante, talvez o porquê do nosso destino, do nosso estar aqui hoje...
Já estamos na fila da sopa, no meio da multidão sórdida e esfarrapada dos carregadores de sopa dos outros Kommandos. Os recém-chegados aglomeram-se atrás de nós. – Kraut und Rüben?- Kraut und Rüben. – Anuncia-se oficialmente que a sopa, hoje, é de couves e nabos: - Choux et navets – Kaposzta és répak267.
“Infin che ´l mar fu sopra noi rinchiuso.” (Até que o mar fechou-se sobre nós). 268
266 Ibidem
267“Couves e nabos” repetido em outras línguas da Babel, aqui alemão, francês e húngaro. 268 LEVI, p.117
Observe-se como a sensação do leitor é de estar submerso entre línguas estrangeiras, na Babel até o verso final que evoca o fechamento do mar sobre os marinheiros. A escolha do canto surge, portanto espontânea, mas não casual: o Ulisses de Dante é uma figura mítica especial, diferente do herói homérico, pois encontra seu fim entre as ondas do mar. O terrível naufrágio final, como vimos, evoca o estado próximo à morte dos prisioneiros. Mas, além disso, o espírito de Ulisses impõe-se à memória de Levi pela atitude de curiosidade e desejo de compreensão, de aventura e superação dos horizontes do saber humano, própria ao herói (e própria de Dante que, por sua vez, se espelha em Ulisses). Rastier observa que no campo, evidentemente, as colunas de Hércules são em forma de arame farpado269. Esta sede de “virtude e conhecimento” acaba por afogar o herói no abismo, mas apesar do final trágico dado por Dante e apesar de ser posto por ele no Inferno, Ulisses permanece o herói “humano” que detém as armas do conhecimento seja para vencer as dificuldades, seja para nutrir a curiosidade das “coisas humanas”. A estrutura da narração do episódio o Canto de Ulisses adere à fragmentação da memória: assistimos ao funcionamento das recordações assim como surgem, num discurso interrupto e retomado, quase um soluço, apressado e ansioso, cheio de urgente necessidade comunicativa. Não tem importância se a sequência das lembranças aconteceu exatamente da maneira narrada (Levi poderia até ter remanejado o texto ou não lembrar com precisão de todas as passagens e o texto teria o mesmo valor). Trata-se, nas palavras
de Andrea Lombardi, “de uma verdadeira mimese do trabalho literário, pois inclui uma
operação de memória, a releitura e interpretação do texto literário de Dante e um aceno
ao problema crucial da testemunha.”270
A narração possui uma força, uma eficácia que supera a questão da adesão total ao real e traz em primeiro plano o significado literário do texto. Pode-se propor uma leitura
segundo a qual “O canto de Ulisses” constitui de fato o momento em que o fio
269 RASTIER, Ulisse ad Auschwitz, p. 30. 270
LOMBARDI, Andrea. Curso de Pós-graduação “Visões da literatura a partir de Walter Benjamin: Memória, trauma, testemunho”, ministrado em conjunto com Susana Kampff Lages da UFF e Rosana Kohl Bines da PUC-Rio, local: PUC-Rio, aula do dia 4/11/2010, relatório disponível: https://groups.google.com/group/benjaminvisoes/browse_thread/thread/2547c04b9799df81?hl=pt# . Vide também “Ulisses entre Dante e Primo Levi”, texto apresentado na conferência de abertura da VIIª Semana da Língua e Cultura Italiana, 22/10/2007 no auditório E3 da Faculdade de Letras-UFRJ
emaranhado se desembaralha, quase o centro do percurso labiríntico, onde se condensa, de um lado, a relação com a Babel - onde a tradução é o ato que visa quebrar a incomunicabilidade babélica -, e, de outro, a relação com a própria língua, que se revela um forte elo com a própria identidade e conforto que aquece o condenado e o leva mais adiante no árduo e tortuoso caminho da sobrevivência física e psíquica.
O Ulisses de Dante é particularmente próximo a Levi, pois ele é um náufrago submerso pelo mar e, ao mesmo tempo, é “quem quer saber, quem narra”. Deste modo a literatura vincula-se à arte de narrar desde os tempos de Homero. Segundo Pietro Citati “o mundo sobre o qual Ulisses reina como um soberano onipotente é o da narração. [...] Ninguém tem uma memória tão infindável [...] Assim ele tornou-se o símbolo da arte de contar.”271 Lombardi identifica no herói grego a testemunha integral capaz de contar sua própria morte:
há, na conclusão do canto de Dante e do capítulo de Levi um episódio de grande importância, à luz da problemática da literatura de testemunho [...] Ele é, antecipadamente, uma testemunha integral, no sentido que Levi a define em Afogados e Sobreviventes [...] De fato, Ulisses, embora personagem de ficção reinterpretado por Dante Alighieri, é a única testemunha a conseguir a descrição de sua própría morte. Ele resolve a aporia apontada por Giorgio Agamben em Quel che resta d´Auschwitz, ele é ao mesmo tempo tertius (enquanto narrador do episódio) e superstes. É ele a testemunha integral. 272
A imagem da chama onde se encontra Ulisses, parecida a uma língua de fogo, reforça a ligação com a linguagem, já presente em Dante (mas que não podemos aprofundar aqui).273
271
CITATI, La mente colorata, p. 162
272 LOMBARDI, Andrea. Texto apresentado na conferência de abertura da VIIª Semana da Língua e
Cultura Italiana, 22/10/2007 no auditório E3 da Faculdade de Letras-UFRJ
273 A este propósito, Anne Neuschäfer cita o comentário de Karl Heinz Stierle, segundo o qual “para Dante
a essência humana manifesta-se na língua” (STIERLE apud NEUCHÄFER, Anne. Primo Levi in Germania. In VV.AA. [org. de Giovanni Tesio]. La manutenzione della memoria. Diffusione e conoscenza di Primo Levi nei paesi europei. Congresso de Torino, 9-10-11 de outubro 2003. Torino : Centro studi Piemontesi, 2003, p.191)
Observamos um acontecimento similar à narração de Hurbinek. O testemunho de Levi aproxima-se da integralidade através do texto escrito e da alquimia da palavra: em Hurbinek, como quisemos propor, a própria linguagem fala da catástrofe (hurbn) e supera a eventual impossibilidade e parcialidade testemunhal do sobrevivente; com Ulisses, uma superação se dá através do texto literário de Dante.
O escritor, então, é um tipo específico de testemunha. François Rastier afirma que a testemunha é o sobrevivente que não desiste da palavra 274. Poderíamos acrescentar que o escritor é a testemunha que cria seu discurso através da literatura e que é superado por este mesmo discurso.
Ao longo da narração, Primo Levi acena frequentemente para referências metafóricas, mitológicas ou literárias, sejam estas bíblicas, gregas, dantescas ou ligadas a outros
clássicos. De fato a cultura se torna algo vivo já no campo: “se simples trapos de palavras
valem (...) uma porção de sopa – e isto em Auschwitz quer dizer “sangue”, vida -, então a
literatura tem ainda uma esperança na história.”275
Levi explicita a importância da cultura em vários momentos, inclusive no capítulo “O
intelectual em Auschwitz” do ensaio Os afogados e os sobreviventes, dedicado a Jean Améry, do qual discorda. Hans Mayer – verdadeiro nome de Améry – expressa sua convicção segundo a qual a cultura e o hábito ao raciocínio representariam um empecilho em situações onde era urgente desenvolver estratégias de adaptação concretas e emocionais, principalmente em Aushwitz. Em seu Jenseits von Schuld und Sühne 276, relata a solidão do homem erudito, condensada num episódio específico: uma noite, no inverno, marchando de volta, com os outros prisioneiros, exausto, Hans-Jean avista uma bandeira com os versos de Hölderlin escritos:“Die Mauern stehn sprachlos und kalt, im Winde klirren die Fahnen” (Frios e mudos os muros erguem-se, ao vento as bandeiras tilintam). Começa a murmurá-los, repete-os em voz alta, escuta o som das palavras em busca das referências emocionais ligadas a esta poesia, mas nada acontece:
274
RASTIER, Ulisse ad Auschwitz, p.23
275 BOITANI Piero, L‟ ombra di Ulisse. Bologna: Il Mulino, 1992, p. 188, tradução nossa.
276 Utilizamos a edição italiana: AMÉRY, Jean. Intellettuale ad Auschwitz. Milano: Bollati, Boringhieri,
a poesia não transcendia mais a realidade. Estava ali, e já nada mais era do que asserção concreta: isto e aquilo, e o Kapo grita links e a sopa estava líquida e ao vento as bandeiras tilintam. Talvez o sentimento hölderliano contido no húmus psíquico se manifestaria se houvesse um companheiro num estado de ânimo parecido com o meu, ao qual poderia citar a estrofe. O problema mais grave era que este bom companheiro não existia, não existia na fileira do Kommando, não existia nem todo Campo. E se por acaso fosse possível encontrá-lo em algum lugar, provavelmente estaria, por causa do isolamento, tão alheio espiritualmente a ponto de não reagir ”277.[trad. nossa]
O intelectual “cético-humanista”, como se auto-define Améry, que não podia encontrar
conforto nem na fé religiosa nem na fé política, perdia suas referências intelectuais, psíquicas e simbólicas sem substituí-las por nenhuma outra defesa.
O sentimento de Levi revela-se oposto. Em relação à tentativa de tradução de Dante, afirma a posteriori:
A mim a cultura foi útil; nem sempre, às vezes por vias subterrâneas e imprevistas, mas me serviu e talvez salvou [...] Eu realmente teria dado pão e sopa, ou seja, sangue, para salvar do nada aquelas recordações, que hoje, com o apoio seguro do papel impresso, posso reavivar quando quero e de modo gratuito, e que por isso parecem valer pouco. Lá, naquele momento, valiam muito. Permitiam- me restabelecer uma ligação com o passado, salvando-o do esquecimento e fortalecendo minha identidade.278
Era, pelo contrário, “uma maneira de reencontrar a mim mesmo”279. Tratava-se de uma fome outra que tinha que ser igualmente satisfeita. Daí, a disponibilidade de dar o pão em troca de um verso.
A afirmação não concerne uma atitude estetizante, e sim uma necessidade autêntica de sair das fronteiras apertadas, do arame farpado em volta da identidade, uma identidade imposta de Häftling numerado; uma necessidade de retomar a palavra, a própria, na própria língua. E a resistência parece mais radical quando a escolha recai sobre a palavra
277 Ibid., p.37-38 278
LEVI, Os afogados e os sobreviventes, p.118-119
originária do italiano do século XIV (pois o idioma italiano nasceu exatamente com Dante), e sobre um dos personagens que, pela primeira vez na literatura ocidental, conta suas aventuras e testemunha a morte de seus companheiros: Ulisses. Citati frisa que “o mundo sobre o qual Ulisses reina como um soberano onipotente é o reino do contar. [...] ninguém tem uma memória tão interminável [...]. Assim, Ulisses tornou-se o símbolo da arte de narrar”. 280
Ulisses, então, como paradigma de quem sabe e de quem conta sobre si. “Na corte dos
Feácios nasce a narração autobiográfica: Ulisses é o progenitor de uma cadeia de
testemunhas de si mesmo. ”281
No campo de extermínio, a palavra se faz ação: primeiro como aprendizado de idiomas, depois comunicando, tecendo relações, e por fim ligando-se à literatura.
Levi, consciente do valor de resistência política e pessoal (a única verdadeira resistência possível contra os nazistas é, de fato, sobreviver282) faz tudo para lembrar dos versos principais e mais significativos, os que ressoam dentro e que pulsam como vivos no contexto brutalizante do campo.
Alon Altaras observa:
Ele não lembra todos os versos do canto, mas apenas os que possuem um valor universal. Cada leitor que ler o canto de Dante e este capítulo de É isto um homem? poderá constatar como a memória de Levi concentra-se apenas naqueles mais gerais sobre o saber e sobre a cultura. [...] No horrível contexto do Lager, o famoso terceto do qual Levi bem lembra assume um significado especial e este modo de fazer cultura nos campos de concentração torna-se uma forma eficaz de resistência. 283 [trad. nossa]
280
CITATI Pietro, La mente colorata, p. 162, tradução nossa.
281 Ibidem
282Robert Antelme escreveu: “Il ne faut pas mourir, c´est ici l´objetif véritable de la bataille. Parce que
chaque mort est une vistoire du SS.” (L´espèce humaine, p. 71)
283
ALTARAS Alon. Primo Levi: lingua madre, lingua del nemico. Extraído do livro homônimo em preparação, http://www.personaedanno.it/cms/data/articoli/005743.aspx 16\12\2009, último acesso 1/06/2012
E mais: a própria língua, diferente da dos opressores, é o último refúgio possível, lá onde se é privado de tudo, da casa, dos afetos, das escolhas, da vida, do nome, das raízes em todas suas formas.
Repercorrer as palavras do grande poeta exilado é chamar à mente a língua-mãe, a terra natal, sua cidade, Turim. As fronteiras da minha língua são as fronteiras do meu mundo, dizia Wittgenstein. Na rememoração de Levi há um exercício da afirmação do filósofo austríaco.
Os nazistas dedicavam um esforço enorme para separar os presos judeus fora do mundo e da cultura humana, e, contra isso, Primo Levi, tradutor de Dante em francês, faz um ato de resistência e de batalha.284 [trad.nossa]
Então, convocando de novo a imagem do labirinto, se os prisioneiros só podiam seguir dia após dia, sem ilusões, concentrando forças, eles também precisavam encontrar seu fio