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3 MÉTODO

4.1 GRUPO DA IPA

4.1.1 Psicanálise

4.1.1.1 Aprendizado e (auto)conhecimento

Ao o início da entrevista Vilma deixa clara sua preocupação em ajudar o entrevistador:

Vilma: Que bom que você já contou com a ajuda de outras pessoas do [nome da instituição à qual é vinculada] também, né.

Renee: Já, já entrevistei.

A entrevistada tece, desde a abertura da entrevista por essa expectativa em prestar um auxílio e ao longo de toda a conversação, comentários acerca do caráter

“pedagógico”, como nomeamos, da psicanálise:

Vilma: [...] E a gente sempre que aprende, né, que a psicanálise dá esse recurso, porque o que ela oferece é a gente abrir a mente, e o contato com o outro é uma forma, uma forma de conhecimento também/ tem que ser terapêutica também, ninguém vai para o psicanalista só pra se conhecer, vai também pra se sentir melhor, né.

[...] Aprender com a experiência, poder pensar sobre ela. Então você teve uma conduta que podia ter tido de outro jeito, faz uma supervisão, você vê como é que você lidou com aquela situação, e daí você estuda aquilo, e numa próxima situação você já vai fazer diferente, você já é uma outra pessoa, você já tem aquele recurso, e a psicanálise nos dá essa condição. Porque a tendência que a gente tem normalmente é de ir repetindo as coisas, a gente repete, né.

Renee: E, você mencionou que tem interesse pela psicanálise desde a adolescência, mas ao mesmo tempo você falou também que pensava na pedagogia, na neurologia, né. Eu te pergunto assim...

Vilma: Neurologia e?

Renee: Pedagogia não! Na pediatria!

Selecionamos alguns extratos para ilustrar uma temática recorrente no discurso da entrevistada. Ante a compulsão à repetição, a psicanálise oferece possibilidade de mudança por meio do exercício do pensamento, dos estudos e supervisões. Pensa-se, conhece-se, abre-se a mente, etc. O que Vilma parece ter aprendido é que com a psicanálise pode-se aprender. E, tomando o lapso pedagogia/pediatria no contexto da cena discursiva, pode-se dizer que foi isso que

ela tenta ensinar e que, de alguma forma, o entrevistador apre(e)nde. A partir daí podemos delinear lugares de fala: o entrevistador está em posição de quem busca um aprendizado, enquanto a entrevistada preocupava-se em se e em como poderia ajudá-lo/ensiná-lo. Assim, quando pontua o “erro pedagógico” do entrevistador, Vilma, em ato, o ajuda/ensina aquilo que ela aprendeu com e sobre a psicanálise: “o contato com o outro é uma forma, uma forma de conhecimento”. O pesquisador pôde, no/pelo contato com a entrevistada, conhecer seu lapso e “abrir a mente” – denunciando o aprendizado e o auxílio por ele acatados. O psicanalista é alguém que ensina no/pelo “contato com o outro”.

Mas o conhecimento não se esgota em si mesmo, ele vem a título de uma função terapêutica: não basta saber se não houver um “se sentir melhor”. Daí, decorremos um mal-estar, por assim dizer, subjacente ao processo de conhecimento. O conhecimento é um meio para atingir-se um fim, qual seja, o advento de um bem-estar onde existia algo diferente dele. Esse “saber-instrumentador” também pode ser verificado nas falas dos outros entrevistados:

Helena: [...] eu acho que todos nós quando escolhemos psicologia é por que a gente quer, a gente tá procurando, na verdade, na verdade, a gente tá procurando o autoconhecimento, né, a gente tá procurando primeiro resolver os problemas da gente, né, e eu acho que quando eu comecei a fazer análise eu vi que o caminho era por aí, entendeu, que você, através da psicanálise, começa a se conhecer de fato. Começa, né, porque não termina nunca [risos]. Mas você consegue se conhecer um pouco através, né, através de muitos anos de psicanálise a gente consegue se conhecer um pouco.

Dando destaque ao tema em questão, isto é, à psicanálise com uma forma de aprendizado/conhecimento, tem-se a associação do conhecimento à resolução de problemas pessoais. Problemas motivam o autoconhecimento, que por sua vez, resolve os primeiros.

A análise pessoal e a psicanálise aparecem como ponto de partida para o autoconhecimento. A partir deles é que se começa a “se conhecer de fato”; antes, existe uma procura em meio a problemas, um desconhecimento, após, um início de conhecimento infindável. A psicanálise é um caminho sem fim, e portando desconhecido, que acena com uma promessa de conhecimento.

Helena atribui seu entendimento acerca da psicanálise a todos aqueles que escolhem pela psicologia, ao entrevistador, inclusive (“todo nós quando escolhemos psicologia”). O que se coaduna perfeitamente com a posição de pesquisador por ele ali ocupada, trata-se de alguém em busca de um conhecimento da/na psicanálise.

Mario: [...] meu aprendizado de vida vai se refletir na minha clínica e vice-versa, porque, como eu te falei, cada vez que eu to convivendo com uma pessoa durante um tempo eu to aprendendo com ela, estamos aprendendo juntos. Então eu penso que tanto a medicina como a atividade da psicanálise, [...] você tem a vantagem que você tá, você tá sempre aprendendo, né, você tá sempre aprendendo. Agora, você tá aprendendo com o sofrimento, você tá sempre diante de alguém que tá, que tem um sofrimento, né, senão ele não estaria dentro de um consultório de um analista, né, então é uma tarefa que é difícil pra ambos. Eu penso, pelo que eu aprendi na vida, que sempre que a gente enfrenta uma tarefa que é difícil ela também pode ser, pode nos trazer, é, experiência, aprendizado, sabedoria, né, é assim que eu vejo.

Assim como a medicina e a vida, a psicanálise ensina. Mas não somente, pois do mesmo modo que Vilma, Mario concebe que o aprendizado se dá numa relação. Ainda mais: Mario aprendeu “na vida” que tarefas difíceis trazem experiência, aprendizado e sabedoria, e aprendeu que com a psicanálise e a medicina, não se aprende simplesmente, mas aprende-se com o sofrimento. Seja na vida, na medicina ou na psicanálise, o elemento constante para o aprendizado é o sofrimento/dificuldade.

O aprendizado funciona como parâmetro para todas as relações descritas: é aprendendo com o sofrimento que o psicanalista faz psicanálise e vice-versa; é na postura de aprendizado que o paciente busca e realiza uma análise – aprendizado que encerra, então, a expectativa de uma solução para o sofrimento; assim como, aprende-se nos enfrentamentos da vida. A centralidade atribuída ao aprendizado é total: quer por, no discurso de Mario, incluir a psicanálise e ir além dela, quer por ser um elemento que nosso discurso identifica e privilegia nas falas de todos os entrevistados deste grupo. Na e pela psicanálise aprende-se e conhece-se.

Se Vilma trouxe para a cena da entrevista expectativas de ajudar/ensinar, podemos dizer que Mario trouxe expectativas que o colocaram na posição inversa, ou seja, de aprendizado. Ao final da entrevista menciona:

Mario: Se você quiser me trazer depois que você concluir sua tese, eu não sei se pode mostrar.

Renee: A dissertação? Não há nenhum tipo de restrição a princípio com isso. É um documento público.

Mario: Eu tenho interesse, se você tiver interesse, quiser depois me trazer pra gente ver o que que você concluiu. Ou se você tiver também indicação de alguém que esteja fazendo alguma coisa parecida com a tua, que possa ser útil pra gente.

Mario mostra, na própria entrevista, que sua vida é um constante aprendizado. O psicanalista em busca de conhecimento ganha vida no calor da cena solicitando ao entrevistador um saber útil, que possa trazer a si e a sua comunidade discursiva “experiência, aprendizado, sabedoria”. Uma produção de saber é acionada no convívio imediato com o outro (“cada vez que eu to convivendo com uma pessoa durante um tempo eu to aprendendo com ela, estamos aprendendo juntos”), de modo que, na contrapartida desta relação, pudemos aprender que a psicanálise configurada por todos os entrevistados deste grupo toma a forma de um processo de (auto)conhecimento/aprendizado cuja principal função é sanar um sofrimento/problema. A psicanálise, portanto, como uma espécie de terapêutica do/pelo saber; o psicanalista como um sofrente (em busca de um conhecimento capaz de auxiliá-lo) que assim aprende a se reconhecer no/pelo próprio discurso que o produz e nas relações que trava vida afora.