3 MÉTODO
4.2 GRUPO LACANIANO
4.2.3 Psicanalista
4.2.4.1 Formação e/na análise pessoal
Beatriz: Acho que claro, como todo mundo, a gente pensa, "tem que estar em constante formação, o psicanalista está em constante formação". Eu jamais penso que eu to pronta. To em formação, sempre, e, daí acho que tem que se implicar na formação, tem que ir, tem que, não dá pra, tem que estar sempre implicado, né, acho que isso precisa, a gente tem que estar implicado né, eu preciso estar implicada, senão não...
“Como todo mundo” Beatriz pensa que a formação é constante. A comunidade discursiva é convocada a sustentar sua afirmação de que o psicanalista jamais está pronto, é um constante inacabamento. O que gera uma exigência de implicação. Sem implicação não há formação psicanalítica.
Renee: Você acha que ela poderia ou pode ser diferente em algum aspecto?
Beatriz: Olha, eu já pensei nisso. Também acho que não. Acho que, eu, eu sou [inaudível] tá, eu acho que é o melhor jeito ainda, já pensei, não dá pra ter aula, não dá, também já pensei muito nisso, não dá, tem que ser, a formação também tem que ser por minha conta. E não adianta, "vou fazer um curso de psicanálise, eu vou fazer uma aula de psicanálise, eu vou fazer uma faculdade de psicanálise". Acho que tem que ter implicação minha. Acho que tem que ser assim mesmo.
Beatriz já pensou no modo como conduz sua formação, pois, como fica marcado em sua fala, a formação fica por sua conta, é ela quem a conduz. As outras possibilidades vislumbradas ganham um contorno de movimento desprovido de implicação e de apropriação por parte do psicanalista. Aulas, cursos e faculdades seriam processos em que não existe, ou, se existe, é em grau bastante reduzido, implicação do psicanalista. Além da implicação, o psicanalista vem marcado pela autonomia, sugerindo que, se os esquemas citados carecem de implicação, o esquema lacaniano do qual a entrevistada participa carece de restrições e constrangimentos. Nele o psicanalista reconhece-se principalmente como condutor implicado da/na formação, desconhecendo o discurso-dispositivo que lhe regula e ordena.
Beatriz “também” acha que não, que a formação não pode ser diferente.
Onde todos se reconhecem a relativização fica desconhecida: o implicar-se é unânime e o dispositivo de formação do qual Beatriz atualmente participa aparece como funcional e único nesse sentido, “tem que ser assim mesmo”. O processo está legitimado e sua seriedade reconhecida.
Enquanto Beatriz fazia esse relato acerca da formação, tomamos seu modelo por pressuposto. Sabíamos que se tratava de uma escola lacaniana e simplesmente (também) deixamos assim ser, sem maiores interrogações sobre como, afinal, se dá um processo de formação numa escola de tal orientação. De fato, de nossa parte, este é o modelo mais conhecido e, portanto, reconhecido.
Beatriz: Acho que não, né, não tem fim da formação. Mesmo com a questão do passe. [...] acho que não tem formação concluída, eu acho que ninguém pode garantir/ você pensa, se a psicanálise está sempre com essa visada da falta, se eu digo assim "agora eu tenho tudo", acabou né? Pra que fazer tanta formação pra chegar um dia e, né, e desaprender tudo, desconsiderar tudo aquilo.
A formação como um processo inconcluso e inconclusivo. “Conclusão”, aqui, é assemelhada a ter tudo, a saber tudo, e psicanálise está sempre com a “visada da falta”. Mais uma vez a falta funciona como pedra angular da psicanálise, e agora como mecanismo legitimador do processo de formação.
Não considerar a falta é desaprender tudo. Não é possível ter/saber tudo, mas é possível desaprender tudo caso se desconsidere a falta. A falta é tudo e tudo é falta. Se a falta funciona, por assim dizer, como um mecanismo impeditivo de uma totalização do saber e do processo de formação (num efeito de reconhecimento de uma parcialidade), ao mesmo tempo, ela funciona como totalidade dentro da qual a psicanálise e a formação devem ser concebidas, fora dessa unidade total não existe psicanálise, psicanalista nem formação (num efeito de desconhecimento da totalidade que a centralidade da falta opera). Esse conceito parece gerar um jogo bastante ambíguo de atribuições, reconhecimentos e desconhecimentos.
Renee: Eu digo concluir a formação no sentido de se autorizar como você falou, mencionou o passe né...
Beatriz: Ah tá! De se autorizar?! Eu acho que autorização passa por saber que, que não sabe tudo né, autorização por aí, né, mas não dizer assim, agora eu to pronto pra falar sobre um livro, agora eu posso ensinar os outros, não dá né, aí... E autorização tem haver com análise também né, autorização mais do que com o estudo é com a própria análise, vai junto. Com a minha análise [risos, inaudível].
Autorizar-se como psicanalista é justamente compreender e experienciar a falta, é saber que não sabe. Uma modalidade especifica de saber que, antes do estudo, se dá na análise pessoal. O saber que aponta para o não saber, não é da ordem do estudo intelectual primeiramente, é da ordem da análise pessoal. Ele é experimentado, não apenas compreendido. Não viabiliza “falar sobre um livro” ou
“ensinar os outros”, mas sim, faltar. É nesse saber singular que o psicanalista lacaniano assenta a psicanálise, sua formação e a si mesmo, e é a experiência desse/nesse saber que produz o psicanalista:
Ricardo: A formação é no divã, é no, na própria análise pessoal.
Larissa: Olha eu já tinha, né, uma impressão de que poderia ser diferente quando, é, esses anos que eu estive parada em função da família, me parecia assim que fosse até complicado retornar, se passaram uns 10 anos, e, e eu imaginava que era como uma faculdade assim, né, uns 5 anos, 6 anos que você estuda e daí era como se você já precisasse estar pronta e eu não estava pronta ainda. Hoje já mudou um pouco nesse sentido, que não é a questão do tempo cronológico, é algo que é, que é mesmo vivendo, que não tem como. Então não adianta eu querer que fosse diferente, isso tá, tá além dessa capacidade de estudar mentalmente, dessa forma.
Quando acreditava que alguns anos de dedicação a deixariam pronta, Larissa concebia a formação de modo diferente do que concebe hoje: não existe um tempo cronológico determinado, trata-se, antes, de um tempo vivido, e é somente essa vivência que forma um psicanalista. Não adianta querer que seja diferente.
Consideramos válido lembrar, a título de contraposição, que o modelo de formação da IPA vislumbra a possibilidade de se trabalhar com o tempo cronológico no processo de formação. E fazemos tal lembrete, somente para indicar que existem outras possibilidades (já bastante legitimadas, diga-se de passagem) se Larissa quisesse, como quis um dia, que sua formação fosse diferente. Mas não é assim que a entrevistada reconhece a si mesma e(m) seu processo de formação.