• Nenhum resultado encontrado

3 MÉTODO

4.2 GRUPO LACANIANO

4.2.3 Psicanalista

4.2.4.2 Formação e mudanças pessoais

Renee: E você considera que a formação em psicanálise propicia mudanças pessoais para as pessoas que fazem essa formação?

Beatriz: Ai, a formação, que eu acho que a formação faz parte de um projeto, né, e eu acho que tem sempre, tem sempre essa coisa, tem sempre aquele, assim desde que eu penso nisso, tem aquele mito né, aquela pessoa que chega um pouco esculhambada, com muito problema, e que tem que passar por esse processo de, quase como um feiticeiro, que tem que, psicanálise sempre tem que ter modificado a pessoa para que ela se torne psicanalista, acho que isso é fundamental.

A mudança identificada aqui concerne à produção do próprio psicanalista, isto é, ao modo como alguém “esculhambado” e com muitos problemas torna-se psicanalista por meio de um projeto de formação. Um dia o psicanalista foi, então, uma pessoa “esculhambada”, com muitos problemas; esse “mito” veicula sua criação.

Os psicanalistas desconhecem qualquer mudança a ser feita, por eles, no processo de formação, mas reconhecem amplamente as mudanças que esse processo lhes provoca, não se reconhecendo fora dele.

Ricardo: [...] É, é eu entendo que a formação sim, com certeza né, é uma, é uma trans-formação. Então é, por exemplo, eu vejo assim que a criatura humana ela, com o passar dos tempos ela não é a mesma, de 10 anos atrás, de 5 anos atrás, então, é a, ela vai mudando, apesar de algumas fixações que tem, de neurose e tal, psicose e tal, né, que a pessoa trás né/ Mas assim, existe uma transformação e, a psicanálise, a formação também propicia, se a formação é isso que eu tô falando mesmo, que eu acho que é, que é, eu tenho certeza né, que a formação é a análise pessoal, a clínica e a teoria tal, muito, muito, muito.

A formação, ou ainda, a análise pessoal, transforma, assim como o “passar dos tempos”, apesar de a “criatura humana” ter suas fixações. A trans-formação é geral, ela se aplica a todos, analisandos ou não. Formação, análise pessoal e tempo entrelaçam-se na modificação do humano, indo até onde as fixações desta criatura lhe permitem ir. Existe, pois, um limite fixado para esta trans-formação, limite que, no discurso de Ricardo, já é conceitualmente estabelecido e previsto.

Renee: E, sabe me dizer que tipo de mudanças são essas?

Beatriz: Eu acho que tem que ser uma mudança pessoal, né, na sua vida assim, "ah eu mudei aqui, eu escolhi diferente", acho que depende, tem que ser, tem que ter tocado a pessoa em algum ponto, né, quando você chega sempre toca, tem que ter tocado a pessoa em algum ponto. [...] começando a fazer análise eu acho que eu pude assim, é assim, eu acho que eu tenho uma história muita clássica, assim, [risos], eu tenho uma mãe assim, sabe, que, né, que queria tudo por mim assim, tinha, tinha, tinha, tinha, tinha que fazer, eu acho que eu pude fazer algumas escolhas diferentes, assim, eu vejo a minha irmã, minha irmã que é muito mais moça do que eu, e ela tem feito algumas escolhas muito parecidas assim, com o que eu teria sido obrigada a fazer se, né, agora ela tem né, também fazendo análise, ela tem começado a poder se disvin/ né, se disv/ né, ter vida própria.

As mudanças advindas do/no processo de formação vinculam-se principalmente às escolhas. Mudar é escolher diferente, e ao fazer uma formação/análise Beatriz pôde se reconhecer escolhendo diferentemente.

Na cena relatada Beatriz tem suas possibilidades de escolha um tanto restringidas por sua mãe, a entrevistada não escolhia, “tinha que fazer” o que sua mãe queria por ela, assim como sua irmã, que se encontra em posição simétrica à sua, ou em vias de atingir tal simetria com a entrada em análise.

A formação-análise passa a significar “ter vida própria”, antes disso existia

“obrigação materna”, após, existe escolha. Essa é “uma história muito clássica”, possivelmente Beatriz a reconhece para além de si e de sua irmã.

Se anteriormente o referencial determinante da escolha era a mãe, agora quem exerce tal função é a análise. Ambos determinam as escolhas, com a diferença de que um deles assenta-se num elemento reconhecido como coercitivo, e o outro num procedimento reconhecido como libertador. O psicanalsita, entretanto, dá-se também num assujeitamento: à análise. A escolha é sempre condicionada.

Larissa: Eu vou falar a partir da minha experiência. É algo, então, é uma experiência libertadora, que abre muitos, muitas perspectivas, emancipa né, uma porção de preconceitos... E, de certa forma, nos desaliena um pouquinho, digo um pouquinho, porque, como eu te falei né, percebo assim que tem um caminho muito grande pela frente. Pra mim foi muito importante.

Outra ocasião em que a análise-formação é delineada como um caminho no qual pode-se avançar. Conforme este caminho é trilhado (pois ele já se estende

“pela frente”) o psicanalista desaliena-se, emancipa preconceitos, abre perspectivas e liberta-se. Mas tudo isso se dá nesse e por esse caminho, não fora dele. O psicanalista é aquele que se libertou e se desalienou em alguma medida e a psicanálise é, assim, uma libertação.

*

No discurso dos entrevistados a formação associa-se sobremaneira à análise pessoal. Se tratamos dos modos de subjetivação na formação em psicanálise, podemos, com base nesses extratos, afirmar que o psicanalista se reconhece subjetivando-se na própria análise. É ali que ele muda, é tocado, escolhe diferentemente, implica-se, liberta-se, desaliena-se, transforma-se e, assim, se faz psicanalista. A análise-formação apresenta-se como dispositivo privilegiado de produção do psicanalista, e em pleno reconhecimento por parte dos mesmos.

Entretanto, na unanimidade do sujeitamento a tal dispositivo, os psicanalistas desconhecem qualquer alteração a ser nele (e por meio dele) realizada. Trata-se, muito antes, de avançar cada vez mais em tal e por tal dispositivo, de maneira a conservá-lo por meio da retificação de si mesmo.

5 DISCUSSÃO

Quanto mais abstrata for a verdade que queres ensinar, mais tens que seduzir os sentimentos a seu favor.

F. W. Nietzsche

Daremos prosseguimento traçando um panorama comparativo dos resultados apresentados naquilo que cada “instituição psicanálise” nos/dos discursos dos entrevistados das diferentes escolas distinguem-se uma da outra (e, de quebra, iguala-se em si mesma), para, na seqüência, estabelecer algumas aproximações possíveis trazendo, assim, ao primeiro plano do debate as regularidades discursivas evidenciadas por nossas análises –, isso mantendo nosso objetivo central como princípio norteador desse panorama, qual seja, a investigação acerca dos modos de subjetivação na formação em psicanálise. Perguntamos, então: de que modo os representantes das escolas reconhecem-se e desconhecem-se como psicanalistas em seus discursos? Onde estes efeitos de reconhecimento/desconhecimento distanciam-se e aproximam-se?