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APRENDIZAGEM MÓVEL: MOBILIDADE, UBIQUIDADE E MULTIPLICIDADE

A complexidade que envolve o conceito de aprendizagem móvel no contexto da cultura digital tem sido evidenciada por diversos autores. (BACHMAIR; PACHLER, 2015; PACHLER, 2007; RIVOLTELLA, 2013; SANTAELLA, 2013) Um ponto de par- tida para tal endendimento pode ser a relação entre conhecimento, experiência e aprendizgem: “O conhecimento é uma mistura fluida de experiência emoldu- rada, valores, informação contextual e insight experto que fornece uma moldu- ra para avaliar e incorporar novas experiências e informações”. (DAVENPORT; PRUSAK, 1998 apud LIAW; HATALA; HUANG, 2010, p. 447) E se considerarmos que não existe conhecimento sem aprendizagem, na cultura digital este processo envolve encontrar, recuperar, produzir, compartilhar conhecimentos. (FANTIN, 2017) Afinal, a interação com diversos espaços e ambientes de aprendizagem intensificam a reelaboração de conhecimentos propiciados pelas redes digitais, como diz Barker (2005 apud LIAW; HATALA; HUANG, 2010, p. 449).

Nesse contexto da cultura digital e das novas experiências e vivências, ganha destaque o sentido de aprendizagem móvel e ubíqua. Os estudos no campo da m-learning apresentam diversos entendimentos teóricos e conceituais do que se entende por aprendizagem móvel, e com o avanço de pesquisas, as redefini- ções que se limitavam aos aspectos tecnológicos e pedagógicos vão ampliando tal entendimento. Assim, ao conceber a relação entre indivíduo, tecnologia e sociedade na cultura digital, o sentido de aprendizagem móvel vai sendo rede- finido e o foco não reside mais na tecnologia, e sim nas relações com o contexto e a diversidade de situações de aprendizagem que promovem um estilo de vida cada vez mais móvel. (KRESS; PACHLER, 2007)

Ao assumir que a aprendizagem ocorre em diversos espaços e tempos me- diada por fatores sociais, econômicos e culturais, Pachler, Bachmair e Cook (2010) argumentam que o objetivo de m-learning é muito mais do que apenas viabilizar usos pedagógicos de dispositivos móveis. Para eles, os desafios da aprendizagem móvel envolvem a análise da capacidade de agir de forma sig- nificativa com em novos cenários, contextos e espaços de aprendizagem que mudam constantemente.

Desse modo, pretende-se entender como o uso de tais espaços da vida cotidia- na se constroem em espaços de aprendizagem, como sugere Pachler, Bachmair e Cook (2010), reforçando uma visão que o foco do m-learning não é a tecnologia em si e sim as práticas culturais realizas com elas e a partir delas. No entanto, considerando que no contemporâneo tais práticas estão cada vez mais media- das pelos artefatos digitais, tal aspecto assume certo destaque na educação de crianças e jovens e nos processos formativos.

Diante de diferentes perspectivas e conceituações, na definição de Sharples e colaboradores (2009 apud BATISTA, 2012), m-learning é entendido como uma área que estuda como a mobilidade dos indivíduos – favorecida pela tecnologia – pode contribuir com o processo de aquisição e construção de novos conhecimentos, habilidades e experiências, e que tal aprendizagem também ocorre por meio de dispositivos móveis Assim, o m-learning é atra- vessado por diversos fatores e múltiplos contextos que ressignificam os sen- tidos da aprendizagem.

Diante da enorme lista de prefixos, sufixos e adjetivos que qualificam a pala- vra “aprendizagem” – como por exemplo, e-, m-, on-line, em toda a vida, ao lon- go da vida, ubíqua, pessoal, virtual etc. –, Kress e Pachler (2007, p. 16) constatam que muitos desses termos apontam para a tecnologia, e diante disso perguntam se de fato “[...] algum deles aponta para diferentes tipos de aprendizado?”. Para eles, a expressão “aprendizagem em toda vida” e(ou) “aprendizagem ao longo da vida” indica locais, extensão temporal e ubiquidade que sinaliza a ideia de que as condições e oportunidades para aprender são ilimitadas. Assim, eles ar- gumentam que “a questão não é a diferença nos tipos de aprendizado, mas em condições e ambientes de aprendizagem”. (KRESS; PACHLER, 2007, p. 16)

Desse modo, os autores continuam a refletir sobre as formas de “aprendiza- gem eletrônicas e digitais” perguntando quais seriam as diferenças entre on-line e e-learning? E o que seria exatamente o “virtual” e a “aprendizagem virtual”? São perguntas que remetem às condições e aos ambientes que envolvem a apren- dizagem. Assim, lugar e/ou ambientes distintos seriam suficientes para sugerir uma diferença significativa na experiência de aprender, mesmo que não seja uma diferença relacionada aos tipos de aprendizagem? Em síntese, o que é aprender? Ao responder tais questões, os autores esclarecem que sua abordagem é semióti- ca, e destacam a conexão entre construção de significado, aprendizagem, signos e conceitos e como eles atuam nas diferentes experiências e práticas culturais contemporâneas.

Relacionado a tal abordagem, Santaella (2013, p. 278) destaca que a mobili- dade das tecnologias digitais e a conexão contínua através da internet possibilita diversas formas de presença em diferentes tempos e lugares, e que esta caracte- rística de ubiquidade “[...] se refere principalmente a sistemas computacionais de pequeno porte, e até mesmo invisíveis, que se fazem presentes nos ambientes e que podem ser transportados de um lugar a outro”. Esses sistemas permitem também desenvolver diversas práticas transmídias, que para Scolari (2015) par- tem de uma perspectiva que integra as diferentes narrativas no contexto do es- tudo das mídias e suas interconexões. Nesse sentido, ainda que Santaella (2015) alerte para a “transmídia mania”, Nesteriuk (2015) destaca que na convergência das mídias – potencializada pelas tecnologias digitais pela cultura participativa, e pela inteligência coletiva – a transmídia também cria uma espécie de “ubiqui- dade narrativa”.

A tecnologia ubíqua é uma “[...] expressão que se refere à progressiva inte- gração dos meios informáticos nos diferentes contextos de desenvolvimento dos seres humanos, de maneira que não são percebidos como objetos diferenciados.”, dizem Coll e Nonereo (2010, p. 46). Nesta perspectiva as tecnologias digitais que favorecem a ubiquidade estão fortemente presentes no cotidiano da sociedade atual, em que crianças, jovens e adultos fazem uso constante de dispositivos móveis para interações sociais e comunicativas. Como é crescente sua presença nos processos de ensinar e aprender na escola e fora dela, é importante pensar

também nas desejáveis relações entre aprendizagens formais e informais que tais contextos possibilitam.

Para Santaella (2013), a aprendizagem mediada por dispositivos móveis é denominada aprendizagem ubíqua, e nessa mediação, a autora destaca os usos dos dispositivos móveis: smartphones, tablets, notebooks, netbooks, smartwatch, que permitem acessar informação em qualquer momento e lugar, que para ela é característica fundamental da ubiquidade. Com tais dispositivos, o acesso a informação pode gerar novos conhecimentos, estimulando a aprendizagem de forma personalizada, de acordo com os interesses de cada indivíduo. Em síntese, [...] a aprendizagem ubíqua, espontânea, contingente, caótica e fragmentária é totalmente informal. [...] Equipada com um dispositivo móvel de conexão contínua, a pessoa pode saciar a sua curiosidade sobre qualquer assunto a qualquer momento e em qualquer lugar que esteja. O que emerge, portanto, é um novo processo de aprendizagem que prescinde de quaisquer sistemáticas de ensino. (SANTAELLA, 2013, p. 303)

Entre diversos aspectos da aprendizagem ubíqua, Churchill e Churchill (2008), citados por Santaella (2013, p. 292), mencionam cinco potenciais benefícios dos dispositivos móveis para a aprendizagem:

a) Portabilidade: podem ser levados para locais diferenciados.

b) Interatividade social: podem ser usados para colaborar com outros. c) Sensibilidade contextual: podem ser usados para encontrar e juntar dados reais ou simulados.

d) Conectividade: permitem conexão a recursos de coleção de dados e às redes. e) Individualidade: fornecem andaimes para as aproximações à investigação do aprendiz.

Vale destacar a importância da intencionalidade da mediação junto a tais po- tencialidades no sentido de assegurar uma postura crítica e investigativa, pois sem esta postura, a aprendizagem dificilmente ocorrerá de forma significativa. Desse modo, se a possibilidade de acessar informações no momento em que se deseja – a qualquer tempo, lugar e quantas vezes for necessário – pode proporcionar significativos processos de construção e compartilhamento de conhecimentos.

“Quando a informação é ubíqua, ela auxilia e fortalece a aquisição de conheci- mento, de certo modo, naturalizando sua absorção”. (SANTAELLA, 2013, p. 293) Assim, ao refletir sobre os processos de aprendizagem com dispositivos móveis, podemos nos perguntar sobre a distinção entre o m-learning e apren- dizagem ubíqua. Ao situar como modalidade do e-learning,1 Coll e Nonereo

(2010, p. 46) esclarece que o m-learning “[...] refere-se às modalidades de ensino e aprendizagem que se utilizam de dispositivos móveis [...] e da conectividade sem fio para estabelecer comunicações entre os diversos agentes educacionais com uma finalidade instrucional”.

A aprendizagem ubíqua permeia o m-learning, mas possui especificidades. O m-learning é uma modalidade de ensino e aprendizagem, elaborada, planejada e desenvolvida em instituições de ensino, com propósitos claros, resultado de um espaço formal de aprendizagem. Já a aprendizagem ubíqua normalmente surge em ambientes e situações informais.

A m-learning é vista como uma extensão da sala de aula e é executável a partir de um sistema de ensino-aprendizagem previamente estabelecido. É óbvio que a m-learning recorre à comunicação ubíqua, mas a aprendizagem, que se desenvolve graças aos procedimentos, está relativamente prevista e incorporada às expectativas do planejamento educacional, já a aprendizagem ubíqua, espontânea, contingente, caótica e fragmentária é totalmente infor- mal. [...] Equipada com um dispositivo móvel de conexão contínua, a pessoa pode saciar a sua curiosidade sobre qualquer assunto a qualquer momento e em qualquer lugar que esteja. O que emerge, portanto, é um novo processo de aprendizagem que prescinde de quaisquer sistemáticas de ensino. (SAN- TAELLA, 2013, p. 303)

A esse respeito, a ideia de deslocalizar os lugares dos saberes na escola e fora dela só tem sentido dentro de práticas que possam transformar a cultura escolar de modo “[...] a assegurar tanto os conhecimentos práticos como as perspectivas de análise crítica, fundamentais para uma participação responsável na cultura

1 Resenberg (2001) y Colvin y Meyer (2008) definem o e-learning como um sistema de formação em que a internet e os computadores servem como ferramentas nos contextos de ensino e de aprendizagem com caráter não presencial. (OLMEDO, 2013, p. 178)

digital e para uma compreensão cultural das possibilidades da mídia-educação”. (FANTIN, 2016, p. 608)

É importante reconhecer que as práticas midiáticas com os dispositivos móveis, intencionalmente ou não, representam possibilidades de aprendizagens tanto para as crianças e jovens quanto para os sujeitos que estão a frente do processo de ensino e aprendizagem – educadores em geral –, uma vez que reconhecer as diferentes e possíveis aprendizagens pode gerar mudanças na forma de fazer e pensar o processo educativo.