Mapa 4 Distribuição espacial dos órgãos partidários do PSDB-CE (2008-2015)
1. APRESENTANDO OS PERSONAGENS: PMDB, PT E PSDB NA DISPUTA
1.1 - Sistema bipartidário e a hegemonia da ARENA
Antes de abordar especificamente as eleições do atual ciclo democrático, é necessário fazer uma pequena digressão para observar o ambiente político cearense e o desempenho eleitoral dos partidos no período do regime militar brasileiro.
Isso é relevante porque embora o PMDB tenha sido fundado a partir da LRP (Lei nº 6.767 /1979), que deu início ao multipartidarismo do atual sistema partidário brasileiro, suas origens remontam ao período do bipartidarismo vigente no “regime militar-autoritário brasileiro”. Nesse regime político, o sistema partidário era estruturado a partir da polaridade entre duas agremiações: o partido governista, representado pela ARENA, e o partido de oposição, representado pelo MDB. Com a reforma de 1979, as agremiações partidárias foram obrigadas a inserir a palavra partido em seus nomes, e assim o MDB transformou-se em PMDB. Além disso, no Ceará, os primeiros embates eleitorais no período pós-redemocratização foram influenciados pelo ambiente político herdado do “regime militar-autoritário”, transmitindo os mesmos líderes políticos, como veremos a seguir.
O “regime militar-autoritário brasileiro” (KINZO, 1988) teve início no golpe de Estado que afastou o então presidente João Goulart (PTB) do governo, em 31 de março de 1964. Esse golpe foi guiado por uma ideologia técnico-militar que buscava “purificar” a política brasileira tanto dos políticos de esquerda — que queriam alterar o status quo —, quanto dos “políticos tradicionais” — que dificultavam a modernização e a ramificação do aparato estatal nos rincões do país, visto que apresentavam longa carreira política eleitoral pautada em vínculos tradicionais com o eleitor. Como ressalta Carvalho (1999, p. 66),
A revolução de 64 proclamava a subversão e a corrupção como chagas da política a serem extirpadas a qualquer custo. A imagem do político profissional carregava o estigma desses dois males e, portanto, constituía-se o alvo natural de execração pública naqueles tempos de “ardor revolucionário[...]”.
O presidente marechal Castelo Branco, eleito indiretamente em 11 de abril de 1964, inicialmente manteve o aparato democrático representativo, coma a realização de eleições periódicas; manutenção dos partidos políticos e do Parlamento. No entanto, em 1965, foi
16 As informações sobre a política cearense que compõem esse capítulo foram coletadas nas obras de Montenegro
(1980), Mota (1985; 1992), Lemenhe (1995), Carvalho (1999) e Parente (2000). Além disso, foram colhidas informações sobre integrantes da elite política cearense, destacando-se as pesquisas no Dicionário Histórico- Biográfico Brasileiro do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (DHBB/CPDOC), portal da Câmara dos Deputados e publicações do Memorial da Assembleia Legislativa do Ceará (MALCE) sobre o perfil dos deputados estaduais da 13ª a 25ª legislaturas (1951-2002).
implementada imposições legais para “moralizar” a disputa eleitoral e garantir que elementos “corruptos e subversivos” não retornassem ao poder. Em 15 de julho, foram estabelecidos dois marcos legais para controlar os resultados não esperados da disputa eleitoral de 1965: o Código Eleitoral (Lei nº 4.737) e a LOPP (Lei nº 4.740). Esta última tinha por objetivo regular a atividade intrapartidária, por meio de um estatuto orgânico comum a todos os partidos, e limitar o número de agremiações por meio de restrições ao seu funcionamento. O artigo abaixo da LOPP mostra que houve redução imediata do número de agremiações que podiam existir legalmente, ao estabelecer rigorosa representação legislativa:
Art. 47. Ainda se cancelará o registro do partido que não satisfizer seguintes condições:
I - apresentação de provas ao Tribunal Superior Eleitoral, no prazo improrrogável de 12 (doze) meses, contados da data do seu registro, de que constituiu legalmente Diretórios regionais em, pelo menos 11 (onze) Estados. II - eleição de 12 (doze) deputados federais, distribuídos por 7 (sete) Estados, pelo menos;
III - votação de legenda, em eleições gerais para a Câmara dos Deputados, correspondente, no mínimo a 3% (três por cento) do eleitorado no País (BRASIL, 1965).
Com a imposição dessa regra, apenas quatro agremiações partidárias — Partido Social Democrático (PSD), União Democrática Nacional (UDN), Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e Partido Social Progressista (PSP) — cumpriam os requisitos legais exigidos pela nova legislação. O sistema partidário existente desde a democratização de 1945 era composto por treze partidos, sendo três dominantes: o PSD, composto pela facção que controlava as máquinas administrativas estaduais durante a ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945); a UDN, fundada por facções oligárquicas que faziam oposição a Getúlio Vargas; o PTB, controlado pelo Ministério do Trabalho e que buscava cooptar as massas urbanas emergentes com base no sistema sindical (KINZO, 1988).
Nas eleições estaduais de outubro de 1965, que elegeriam os governadores de onze estados, os candidatos apoiados pelo governo militar foram derrotados pela aliança oposicionista, liderada pelo PSD-PTB, em dois importantes estados: Guanabara e Minas Gerais. Com isso, houve endurecimento do regime, sendo publicado em 27 de outubro de 1965 o AI- 2, que em seu Artigo 18 extinguia todos os partidos existentes, submetendo a organização de novas agremiações às normas da LOPP (Lei nº 4.740). Como foi dito anteriormente, a LOPP não estabelecia obrigatoriamente sistema de dois partidos, apenas restringia a criação de muitas agremiações. Posteriormente, em 20 de novembro de 1965, foi publicado o Ato Complementar nº 4 (AC-4) que possibilitou a base legal para um sistema bipartidário. Este novo AC definiu as
novas regras a serem seguidas para criação e registro de organizações com atribuições de partido político, conforme percebemos abaixo:
Art. 1º Aos membros efetivos do Congresso Nacional, em número não inferior a 120 deputados e 20 senadores, caberá a iniciativa de promover a criação, dentro do prazo de 45 dias, de organizações que terão, nos termos do presente Ato, atribuições de partidos políticos enquanto estes não se constituírem (BRASIL, 1965).
Aritmeticamente, seria possível a criação de três agremiações, visto que o Congresso contava, à época, com 409 deputados federais e 66 senadores. Porém, o objetivo era montar uma estrutura partidária que garantisse apoio ao governo, congregando os membros que apoiavam a “revolução”, e um fraco partido de oposição que aglutinava as forças políticas remanescentes. A adesão dos parlamentares ao partido governista, a ARENA, foi tão massiva que a criação de uma segunda agremiação se tornou tarefa árdua para “regime militar- autoritário brasileiro”, que não queria ser caracterizada como ditadura de partido único. Foi necessário o então presidente Castelo Branco persuadir um senador a se filiar ao partido da oposição para viabilizar sua fundação. Na nova reconfiguração do sistema partidário, a ARENA foi composta, na sua grande parte por parlamentares udenistas e pessedistas. O MDB, por sua vez, era integrado por parlamentares oriundos dos partidos trabalhistas e pela ala progressista do PSD (KINZO, 1988).
No Ceará, a montagem de uma estrutura partidária que garantisse apoio ao governo militar foi facilitada pela existência da “União pelo Ceará”, uma aliança entre UDN e PSD para as eleições de 1962. Nessas eleições, a coligação UDN, PSD e Partido Trabalhista Nacional (PTN) elegeu o governador, Virgílio Távora (UDN), o vice-governador, Figueiredo Correia (PSD), e um senador, Wilson Gonçalves (PSD). Já a oposição, estabelecida na coligação PTB e Partido Democrata Cristão (PDC), elegeu um senador, Carlos Jereissati (PTB). Nesse período, duas lideranças polarizavam o sistema partidário cearense: Virgílio Távora e Carlos Jereissati.
Virgílio Távora, capitão militar formado pela Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), era filho de tradicional político cearense, Manuel do Nascimento Fernandes Távora. Seu pai foi interventor no Ceará (1930-1931), deputado federal pelo Partido Social Democrático do Ceará (PSD) (1934-1937) e pela UDN (1946-1947) e senador pelo PTB (1947-1951; 1955-1963). A carreira política eleitoral de Virgílio Távora se iniciou em 1950, quando foi eleito deputado federal pela UDN. Permaneceu duas legislaturas como deputado federal (1951-1959), ocupando importantes postos na hierarquia da UDN, tais como: secretário- geral (1953-1955) e vice-presidente do Diretório Nacional (1957-1959).
Ele é caracterizado por Carvalho (1999) e Parente (2000) como estrategista que conhecia de perto a “política de bastidores”, sendo responsável por articular a composição de chapas eleitorais majoritárias, como a candidatura vitoriosa de Paulo Sarasate a governador em 1954 em aliança intitulada “As Oposições Coligadas”, a qual estabelecia coalizão entre UDN, PTB e Partido Republicano (PR). Após ser derrotado para o cargo de governador nas eleições de 1958 e sem mandato parlamentar, foi compensado com a ocupação de cargos federais pela UDN, como diretor da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (NOVACAP), em 1959; coordenador da campanha presidencial de Jânio Quadros, em 1960; e Ministro de Viação e Obras Públicas (1961-1962). A projeção nacional como ministro possibilitou que ele articulasse a aliança de 1962, “União pelo Ceará”, sendo eleito governador.
Carlos Jereissati, empresário e importador de tecidos, era aliado de Getúlio Vargas e João Goulart, sendo a principal liderança do PTB no estado. Foi deputado federal por dois mandatos consecutivos (1955-1963). Foi eleito senador em 1962, mas após assumir a vaga no Senado Federal em 1963, morreu sem deixar herdeiro político.
Com a estruturação do sistema bipartidário no estado, a ARENA foi constituída por parlamentares que integravam a Aliança Pelo Ceará, com exceção de parte do PSD. A ARENA foi inicialmente liderada por Virgílio Távora e Paulo Sarasate — este último foi eleito deputado federal pela UDN (1946-1955; 1959-1967) e governador (1955-1958). Já o MDB foi criado com o apoio de grupo dissidente do PSD chefiado pelo deputado federal José Martins Rodrigues, pelos parlamentares do PTB órfãos da morte repentina do senador Carlos Jereissati e por lideranças mais à esquerda.
A influência política de Virgílio Távora foi abalada no início do “regime militar- autoritário” pelo fato deste ter relações pessoais com João Goulart (PTB). Apesar disso, permaneceu no cargo de governador até o final do seu mandato, em 1966. A patente de coronel, o caráter conservador da “União pelo Ceará” e o legado dos Távoras como revolucionários históricos17 o preservaram de ser arremessado na vala comum dos políticos profissionais.
No entanto, dois episódios fizeram com que Virgílio Távora experimentasse o isolamento político: a resistência à pressão dos militares do Grupo de Obuses, que queriam que
17 Podemos citar a atuação de parentes de Virgílio Távora nos processos revolucionários na história política do
Brasil. Como seu pai, Manuel do Nascimento Fernandes Távora — revolucionário em 1930 —; seu tio, o militar Joaquim do Nascimento Fernandes Távora — participante do levante tenentista de Mato Grosso em 1922 e morto em combate na Revolta Paulista de 1924 —; seu outro tio, Juarez do Nascimento Fernandes Távora — também integrante Revolta Paulista de 1924, da Coluna Prestes (1925-1927) e da Revolução de 1930; nessa último movimento político-militar comandou as forças nordestinas que apoiavam Getúlio Vargas, recebendo o apelido de “Vice-Rei do Norte”; foi o segundo colocado na eleição indireta para presidente da República do Congresso Nacional em abril 1964; e indicado por Castelo Branco para ocupar o Ministério de Viação e Obras Públicas, cargo que ocupou de 1964 a 1967.
este assinasse documento acusando o ex-presidente João Goulart; a referência ao ex-presidente João Goulart como responsável pela realização da transmissão de energia da hidrelétrica de Paulo Afonso para o Ceará — no discurso de inauguração da obra, em 1965, em que estava presente o então presidente Castelo Branco.
Com isso, Virgílio Távora foi afastado do processo eleitoral de 1966, não participando das articulações políticas que escolheriam seu sucessor e não obtendo legenda para concorrer ao Senado. O cargo do Executivo estadual era indicado pelo presidente da República e “empossado” pela respectiva Assembleia Legislativa Estadual. Nessa eleição, o então presidente Castelo Branco, por ligações pessoais com o deputado federal Paulo Sarasate, indicou o então deputado estadual Plácido Aderaldo Castelo (ARENA), um desconhecido na política do estado. O fortalecimento de Paulo Sarasate na ARENA, que inclusive foi eleito senador em 1966, coincidiu com o ostracismo de Virgílio Távora, que passou a ocupar o cargo de deputado federal (1967-1971).
Nas eleições de 1970 para o Executivo estadual do Ceará, o comando militar do IV Exército, sediado em Recife, impôs a candidatura de um engenheiro eletricista formado pela Escola Técnica do Exército, o coronel César Cals Filho. Este era defensor da ideologia técnico- militar do governo, e sua indicação tinha por objetivo o desmonte da aparelhagem de poder estabelecida pelos políticos tradicionais. Embora tivesse relação com a política tradicional do Ceará18, não possuía vínculos com a política eleitoral ou com grupos políticos locais — sua filiação a ARENA, por exemplo, ocorreu apenas quando foi nomeado governador em 1971.
César Cals Filho era militar de carreira com know-how técnico-administrativo demonstrado nos cargos que ocupou na burocracia estatal, tais como: diretor do departamento de energia elétrica do Piauí (1961); presidente da Companhia Nordeste de Eletrificação de Fortaleza (CONEFOR) (1962-1963); e presidente da Companhia Hidrelétrica de Boa Esperança (COHEBE) (1963-1970).
Apesar da imposição do nome de César Cals a governador ser motivada por uma escolha técnica da alta cúpula dos militares para desarticular as bases de sustentação da política tradicional no estado, a ditadura militar não descartou o controle de votos que a política tradicional dos chefes políticos possibilitava. O “regime militar-autoritário brasileiro” (KINZO, 1988) instalou, assim, uma situação de certa forma contraditória, pois embora o governo fosse uma ditadura, ainda conservava as instituições democráticas, como as eleições para o Parlamento e para as prefeituras das cidades interioranas. O regime, então, carecia de votos
18 Seu pai, o médico César Cals, foi deputado estadual (1925-1928; Liga Eleitoral Católica (LEC) 1934) e prefeito
como mecanismo de legitimação do poder, sobretudo após a crise econômica de 1973, que pôs fim ao “milagre econômico” que até então legitimava a ditadura. Com isso, os donos de “currais eleitorais” viram seu prestígio novamente reforçado — como estratégia de contrabalançar a tendência ao voto oposicionista dos centros urbanos. O governo federal passou a encorajar as oligarquias nos estados e estas fortaleceram as oligarquias nos municípios.
Nesse cenário, uma velha “raposa”19 da política cearense se fortaleceu como articulador de chapas majoritárias: Virgílio Távora, que exercia o mandato de deputado federal (1967-1971). Político virtuoso, ele conseguiu reconquistar o prestígio junto à cúpula do regime militar, galgando importantes cargos na hierarquia do partido governista, como 2º secretário da Executiva Nacional da ARENA em 1969 e presidente da Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional em 1970.
A montagem da chapa majoritária de 1970 iniciou um arranjo entre as elites estaduais do Ceará que ficou conhecido como “Política dos Coronéis” (MOTA, 1985). Esse grande acordo perdurou durante todo o “regime militar-autoritário” e teve por objetivo a concentração do poder nas mãos da ARENA, não deixando espaço para o surgimento de novas lideranças no partido de oposição. Assim, a divisão da chapa governamental ficou composta por: coronel César Cals Filho como governador; coronel e então deputado federal Humberto Bezerra, irmão gêmeo do militar e deputado estadual Adauto Bezerra, como vice; e coronel Virgílio Távora como senador.
O “Pacto dos Coronéis” tinha dois preceitos: “união na cúpula e divisão na base” (MOTA, 1985, p. 178). Embora na disputa para o Executivo estadual houvesse a aliança entre as três lideranças que se revezaram no cargo nomeado pelo regime militar — César Cals Filho (1971-1975), Adauto Bezerra (1975-1978) e Virgílio Távora (1979-1982) —, na base, elas estabeleciam implacável disputa para estruturar suas facções dentro da ARENA, buscando a adesão do maior número possível de deputados e prefeitos.
Assim, no Ceará, a ARENA era fragmentada em facções lideradas por esses três chefes políticos que disputavam internamente por meio do mecanismo de sublegendas20. Pela Lei das Sublegendas (Lei nº 5.453), cada partido podia apresentar até três candidatos para um
19 O uso do termo “raposa” remonta à metáfora elaborada por Maquiavel [1513]. O autor alerta que o príncipe,
entendido aqui como liderança política, precisa combater usando a força e recorrendo a sua natureza animal, sendo necessário empregar a habilidade feroz do leão (que não tem defesa contra os acordos, mas aterroriza os lobos) e astuciosa da raposa (que tem defesa contra os acordos e reconhece os lobos).
20 Como vimos, a ditadura militar instituiu variados “casuísmos eleitorais” para montar uma engrenagem político-
institucional de apoio ao novo regime. Entre esses casuísmos podemos citar a regulamentação de sublegendas dentro dos partidos, previstas no Código Eleitoral de 1965 (Lei nº 4.737) e instituída pela Lei das Sublegendas em 1968 (Lei nº 5.453). Essa adaptação foi necessária para acomodar as diferentes facções dentro da ARENA e do MDB oriundas dos partidos do antigo sistema partidário de 1945-1964.
mesmo cargo nas eleições para prefeito e senador. Conforme o chefe político fosse galgando postos de comando, ele ia montando sua base eleitoral, sendo que o ápice do poder político da sua facção ocorria quando ocupava o posto de governador, pois assim distribuía incentivos seletivos para sua rede de apoiadores, fincando suas raízes políticas21.
A facção “cesista” foi estruturada quando César Cals Filho ocupou o posto de governador (1971-1975), cargo privilegiado que lhe possibilitou realizar “recrutamento compulsório e ostensivo de políticos do interior” (CARVALHO, 2002), multiplicando adesões a seu grupo. O objetivo era criar, efetivamente, uma facção política própria, assim como desarticular a facção “virgilista”, usando inclusive a força para dizimar os correligionários de Virgílio Távora. No momento em que ocupava o Executivo estadual, sua facção chegou a ser a maior em número de deputados, superando a facção do seu principal oponente, como percebemos no seguinte depoimento de um ex-deputado22 que acompanhou essa disputa.
No interior derrubou todo mundo que era do Virgílio [Távora]. Andavam em uma camioneta do Serviço de Informação do Exército (SEI) que parava nas cidades, entrava ostensivamente para causar impacto... sabe como é no interior. Ia nas prefeituras com a ficha para os políticos preencherem e os que estavam sendo aliciados passavam a obedecer ao bastão do governador César Cals. [...] Dos deputados federais somente um ficou com Virgílio [Távora], o Marcelo Linhares, e dos deputados estaduais o Aquiles Peres Mota”. (CARVALHO, 1999, p. 71).
Porém, quando César Cals Filho deixou o governo, sua facção desidratou, obtendo apoio apenas de um deputado federal e cinco deputados estaduais23. Isso se refletiu nas eleições de 1974, quando seu indicado a vaga ao Senado, o então deputado federal antivirgilista Edilson Távora, não foi eleito. Após o frustrado embate eleitoral, as relações de César Cals Filho com a alta cúpula militar o conduziram ao cargo de diretor de coordenação das Centrais Elétricas Brasileiras (ELETROBRÁS) (1975-1979).
Em 1974, César Cals Filho articulou seu retorno ao posto de governador do Ceará, contando com uma base de apoio formada por cinco deputados federais, sete estaduais e pelo senador Wilson Gonçalves (DHBB/CPDOC, VERBETE BIOGRÁFICO CESAR CALS DE OLIVEIRA FILHO, 2010). Prevendo que sua articulação política não teria êxito, desistiu da candidatura. Para compensá-lo, foi indicado pela cúpula militar ao posto de senador biônico. Ocupou o cargo de senador, mas, com a posse do general João Figueiredo a presidente em 1979,
21 Seria necessária uma pesquisa que analisasse a capilaridade de cada facção dentro da ARENA, demonstrando a
montagem da rede de apoio entre deputados e prefeitos.
22 Depoimento de Liberato Moacir de Aguiar, ex-deputado da UDN (1951-1962), em entrevista a Carvalho (1999). 23 O deputado federal era Mauro Sampaio, que tinha sua base eleitoral na região do Cariri; os deputados estaduais
deixou o Senado para assumir o Ministério das Minas e Energia (1979-1985), retornando em seguida ao cargo de senador (1985-1987).
César Cals Filho era considerado pouco habilidoso na arte da chefia da política tradicional, configurando-se como chefe político imposto pela cúpula militar devido a sua capacidade técnico-administrativa. Carvalho (2002) cita, por exemplo, que o primeiro episódio de uma série de ações inábeis de César Cals Filho foi afastar Waldemar Alcântara da presidência do Diretório Estadual da ARENA. Este era antigo líder do PSD no estado, deputado federal (1954-1955), senador suplente (1963) e protagonista na coligação “União pelo Ceará” de 1962. Ocupava o cargo de senador pela ARENA desde 1968 e na política intrapartidária cumpria a função de unificar o partido. Essa exoneração foi interpretada como insulta aos “políticos tradicionais” que acompanhavam Waldemar Alcântara e Virgílio Távora.
A facção político-familiar “bezerrista”24 foi estruturada por meio do domínio da política local no município de Juazeiro do Norte. A família Bezerra de Meneses conseguiu acumular poder econômico e político por meio da posição privilegiada de financiadores e corretores na cotonicultura. Transformaram os pequenos e médios produtores de algodão, de quem financiava a plantação e comprava a produção, em extensa e capilarizada rede de cabos eleitorais. No início de 1970, os Bezerras se configuravam como os mais importantes compradores e beneficiadores de algodão do Cariri e do estado (LEMENHE, 1995).
A atuação da família Bezerra de Meneses na política eleitoral teve início em 1947,