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VII. Análise e interpretação das entrevistas a RECLUSOS

2. Impactos da Reclusão

2.2.1. Apresentar queixas

Com a introdução deste tema: predisposição para apresentar queixas pretende-se analisar as representações dos reclusos em relação à forma como se dispõem para apresentar queixas, quer aos guardas, quer à direcção do EP. Queriamos, igualmente, escutar as resistências dos reclusos em relação à forma como se posicionam em relação à lei do bufo. Estão os presos mais soltos em relação à ―mais livre‖ manifestação e reclamação de condições ou mantém-se condicionados aos imperativos dos grupos dominantes e/ou chefias? Este tema tem como sequência um outro que, analisaremos de seguida e que se refere ao tipo de queixas que são apresentadas com maior frequência.

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Na análise deste tema verifica-se que existem três dimensões que são: sentem-se à vontade, queixas sem fundamento e não estão à vontade para apresentar queixas.

Alguns entrevistados referem a liberdade que todos os reclusos sentem para apresentar queixas e essa plena liberdade apenas é ofuscada por alguns reclusos que chamam chibos aos queixosos.

―estou à vontade [para apresentar queixas]…‖ (António, 30 anos)

Quanto a Eduardo, registamos aqui uma divergência no seu discurso. Quando questionado sobre se os reclusos se sentem à vontade para apresentar queixas este diz que aqueles se sentem livres para o fazer. Todavia, verificamos que este recluso nos tinha dito anteriormente que, para além de ele não fazer queixas (mesmo em situações em que foi sujeito a agressões físicas violentas) a maior parte dos incidentes e das lutas que ocorrem no espaço de reclusão se deve exactamente aos bufos. Estas alterações discursivas podem indiciar algum desconforto em relação ao tratamento que as suas informações irão sofrer. Há, de facto, uma tendência para a existência de um sentimento de conspiração, por parte dos reclusos entrevistados, em relação às forças que intervém no palco prisional. Atribuímos, portanto, a essas respostas contraditórias uma oscilação discursiva que navega entre ―a realidade‖ e o ―escondimento‖ da livre transmissão de pensamento acerca da vida na prisão. Esse pressuposto deverá querer dizer, então, que a regra do ―bufo‖ e as consequências para os delatores se fazem sentir em meio prisional quer por represálias dos colegas quer por retaliações da vigilância ao nível dos castigos internos quer pela participação destes na atribuição de licenças de ―dias de liberdade‖ que na linguagem prisional se chama precárias.

“Sinto que é fácil apresentar queixas, tanto aos guardas como à direcção e acho que todos se sentem livres para o fazer.” (Eduardo, 40 anos)

Hugo confirma que ele e também os seus colegas estão à-vontade para fazer queixas: ―Sim, não tem problemas nenhuns, se quiserem podem fazer, ninguém é proibido de fazer queixas.‖ (Hugo, 60 anos).

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Perguntamos também a Ivo se os reclusos, em geral, se sentem à vontade para apresentar queixas. A sua resposta é afirmativa embora hajam algumas limitações em fazê-lo dada a persistência na subcultura prisional da censura ao delator ―Sim, eu penso que sim, aqui sentem-se sempre à vontade…embora haja um ou outro que não veja bem quando uma pessoa faz qualquer informação ou de agressões ou qualquer coisa mas não há problema, o que é começam é a chamar chibos às pessoas que apresentam a queixa.‖ (Ivo, 52 anos).

Outros reclusos dizem que é tanta a liberdade para apresentar queixas que estas são feitas até sem fundamento. David refere que a maioria da população prisional faz queixas por tudo e por nada e poderá estar nesse excesso a razão para a existência de alguns conflitos.

“Eu, alguns, acho que sim, mas há outros que não tem…fundamento, até com os próprios colegas (…)Há uns que por uma coisinha qualquer é logo: pff, dão queixa logo em cima. Eu aqui nunca fiz queixa a ninguém.” (David, 48 anos)

Francisco, foi dizendo ao longo da sua entrevista, ter tido uma relação difícil com as várias instituições e públicos por onde tem passado ultimamente. É por isso que também tem dificuldades em entender as razões e os tipos de queixas que são apresentadas pelos seus colegas reclusos.

“Alguns queixam-se sem queixa, queixam-se de, até de disparates deles porque falam mal para os guardas, etc, etc, e depois criam razões, tentam criar razões, eu ouço e noto porque eu não me vejo neste mundo, neste mundo, é muito esquisito” (Francisco, 68 anos)

Outros reclusos negam esse à-vontade quer porque a maioria dos outros colegas não aprecia a delação quer porque as queixas apresentadas nunca chegam às mãos da direcção geral [Direcção Geral dos Serviços Prisionais] e, por isso, as denuncias a ser feitas terão que ser apresentadas desde fora da prisão. Na opinião de Joaquim os reclusos não estão à vontade para apresentar queixas dado que estas nunca chegam às mãos da direcção geral que, porventura, é o lugar onde este recluso quer que elas cheguem.

66 ―Não eu acho que não (…) Porque quando uma pessoa apresenta uma queixa contra,

aqui ou noutras cadeias, contra o guarda, a queixa nunca chega às mãos da direcção geral, nunca chega e para chegar às mãos da direcção geral tem que ser por fora‖ (Joaquim, 39 anos)

As regras carcerárias ditadas pela hierarquia do poder não são as únicas a imperar na prisão. A prisão também se faz de códigos entre os pares reclusos. O ―bufo‖, o ―chibo‖, o delator, independentemente da razão que assiste à vítima, é um elemento hostil na subcultura prisional. Por isso, o putativo ―bufo‖ pesa as consequências e, por norma, segundo Carlos, o recluso não está à-vontade para apresentar queixas.

―Isto é assim, por exemplo, se eu fizer queixas, se um recluso faz queixa doutro recluso, já não está à vontade porque a maioria é contra [fala baixinho]‖ (Carlos, 39 anos)