CAPÍTULO IV – A CAMINHO DA CRISE
1.3. Aprofundando os dados auditados: mídia impressa e online
Fazendo um recorte, assim como realizamos para o episódio anterior, de setembro de 2010, e observando as matérias publicadas em veículos impressos e em internet, num total de 731 ocorrências, verificamos que o resgate da crise do Looping Star esteve presente em 17% do total das matérias publicadas. Um número pouco expressivo, se considerarmos a proximidade dos fatos, e preocupante, pois pode sinalizar a baixa qualidade crítica das reportagens produzidas pela imprensa de uma maneira geral, sem aprofundamento e resgate de fatos passados, sem averiguação de ajustes em processos que comprometam a integridade dos cidadãos.
Há de se pensar também em outra possibilidade. Como a maioria dessas matérias são decorrentes de internet (84,54%), muitas delas falaram dos desdobramentos da crise (perícia, depoimentos das vítimas, estado de saúde das vítimas) e fizeram uma menção apenas pontual ao episódio do Looping, que não foi resgatado em todos os momentos de exposição do tema
na Web. Essa é, aliás, uma característica das notícias veiculadas na internet: são mais objetivas.
Aliás, em relação a essa característica mais fragmentada das matérias da internet, pudemos observar que os flashs de notícias publicados hora a hora são depois transformados em matérias em maior profundidade nos veículos impressos de um mesmo grupo jornalístico. Hoje, há uma tendência de integração das redações, que operam geralmente com um mesmo editor geral, que tem, abaixo dele, editores específicos para portal e impresso. É o caso, por exemplo, dos jornais Valor Econômico e Folha de S.Paulo. Há, dessa forma, certa otimização das atividades, dentro das características editoriais de cada mídia.
A favor da cobertura feita pela internet, embora muitas vezes fragmentada, podemos observar as possibilidades que esses veículos dão aos internautas. Ao ler um determinado texto, eles podem se expressar sobre a notícia (há muitos veículos que abrem esse espaço para o leitor Web), reproduzir a notícia (via Facebook, Twitter) ou agregar informações que tenham obtido de outras fontes, ou, até mesmo, experiências pessoais sobre o assunto.
Além disso, muitas dessas matérias oferecem links remissivos para quem tem interesse em aprofundar os fatos (confira depoimento, reveja o acidente passado), como a matéria veículada no Portal Terra e exemplificada a seguir. Sob essa perspectiva, parece-nos importante observar que cada tipo de meio de comunicação tem sua função junto à sociedade, sendo que a Web incorpora características mais democráticas e interativas, como bem observamos no capítulo teórico da presente dissertação.
FIGURA 26: EXEMPLO DE NOTÍCIA COM LINKS REMISSIVOS
Fonte: Portal Terra88.
88VÍTIMA de acidente no Playcenter em SP volta ao hospital. Portal Terra. Disponível em:
<http://noticias.terra.com.br/brasil/noticias/O15049027-E15030,00-
Avançando no detalhamento das matérias auditadas, cabe ressaltar que 73% das notícias não continham fotos do parque, do brinquedo, ou outras imagens. Talvez pelo fato de as imagens terem ficado mais restritas aos impressos ou aos portais nos primeiros dias após a ocorrência. Após esse período, a notícia foi retomada de forma pontual, com fatos complementares, os quais não mereceram imagens, apenas o registro jornalístico (como, por exemplo, os textos que notificaram o estado de saúde das vítimas). Os grandes veículos da capital, como Folha de S.Paulo, Agora São Paulo, Jornal da Tarde, O Estado de S.Paulo e Diário de São Paulo foram os que mais exploraram imagens na composição das matérias, especialmente nos dias 04 e 05 de abril. Entre os sites de notícias, o G1 foi destaque na reprodução de matérias com imagens.
As chamadas de capa também não foram representativas no universo amostral auditado. Entretanto, os veículos da capital deram destaque ao episódio, especialmente nas edições de 04 e 05 de abril Na internet, essa auditoria, entretanto, é difícil de ser realizada, pois há muita mobilidade na home page. Porém, o que pudemos comprovar foi que, os principais veículos impressos da capital paulista deram atenção ao fato na capa no dia 04, conforme demonstra a tabela a seguir. Além disso, os jornais que realizam cobertura de fatos cotidianos da cidade, como Metrô News, Jornal Metro, Jornal Destak, também destacaram o episódio, fazendo com que a notícia ganhasse visibilidade.
Veículo Data Chamada de Parque no Foto Teor da Título
TABELA 5 – EXPOSIÇÃO DA IMAGEM DO PARQUE NA MÍDIA Veículo Capa Menção ao Matéria Referência ao Looping
Agora São Paulo 04.04 sim Sim sim negativa sim Diário de São Paulo 04.04 sim Sim sim negativa Não Folha de S.Paulo 04.04 Sim Sim sim negativa sim
Jornal da Tarde 04.04 sim Sim sim negativa Sim O Estado de S.
Paulo 04.04 sim Sim sim negativa Sim Fonte: Elaboração própria.
Embora as chamadas de capa tenham ficado mais restritas aos veículos da capital, houve, entretanto, grande número de matérias, inclusive em veículos impressos de várias partes do Brasil, que trouxeram a marca Playcenter em destaque no título, num total de 78,11% dos resultados auditados, conforme demonstra o gráfico 7. Curiosamente, esse percentual é similar ao apurado para as matérias impressas e de internet do episódio do Looping (77%).
GRÁFICO 7: MATÉRIAS QUE MENCIONARAM A MARCA NO TÍTULO
Fonte: Elaboração própria.
Novamente, a exemplo da metodologia utilizada na análise da crise do Looping Star, observamos as matérias sob a seguinte perspectiva: negativas, as que realmente continham manifestações críticas e mensagens subliminares contra o Parque e informativas, as que continham um teor de esclarecimento da ocorrência. Foram auditadas 309 matérias negativas, ou 42,27% do total (base 731 notícias) e 422 informativas ou 57,72% da amostragem. É importante observar que o número de matérias informativas do primeiro episódio caiu de 94,14% do total (considerando impresso e online) para 57,72%. Em contrapartida, o montante de reportagens negativas deu um salto considerável de 5,85% para 42,27%, também se considerando apenas a contagem de onlines e impressos.
Nota-se, assim, uma demonstração de que os veículos de comunicação que estavam dando um “crédito” ao Parque, noticiando apenas os fatos no caso anterior, dessa vez, não tiveram a mesma tolerância com a organização. Pudemos observar que a imprensa foi mais crítica, realizando matérias mais abrangentes, mais investigativas, com novos porta-vozes participando do debate.
GRÁFICO 8: MATÉRIAS POR CONTEÚDO – NEGATIVAS x INFORMATIVAS
Fonte: Elaboração própria.
Em termos de atores sociais que estiveram envolvidos no processo, tivemos a participação, neste episódio, de novos protagonistas como porta-vozes, conforme demonstra a tabela 6, a seguir:
TABELA 6: INCIDENTES E PORTA-VOZES
Looping Star (setembro 2010) Double Shock (abril de 2011)
Assessoria de imprensa Assessoria de imprensa Hospital Metropolitano Hospital Metropolitano Polícia Militar Polícia Militar
Bombeiros Bombeiros
Delegado Marco Aurélio Batista Delegado Marco Aurélio Batista
Vítimas Vítimas
Familiares Familiares Visitantes Visitantes
Instituto de Criminalística (IC) Instituto de Criminalística (IC)
Outros (Prefeitura / ADIBRA / Sindepat / etc) Outros(Prefeitura/ADIBRA, Sindepat, IPEM, Contru/etc)
Matérias sem Manifestações Matérias sem Manifestação Ministério Público
PROCON
Secretaria de Segurança Pública SAMU
Funcionários
Fonte: Elaboração própria.
Pela amplitude do fato, em função da reincidência de acidentes na mesma organização em um período inferior a um ano, percebemos que o Ministério Público, Procon, Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, CREA, a Secretaria de Segurança Pública, SSP, além de representantes da Associação Brasileira de Normas Técnicas, ABNT, ganharam voz na
repercussão dos fatos. Isso sinaliza um aprofundamento no debate em função dos prejuízos causados pela tragédia aos cidadãos e dos riscos que o Parque poderia representar para a sociedade, no entendimento da imprensa, caso medidas enérgicas não fossem tomadas no sentido de apurar os fatos e reforçar a segurança de futuros visitantes.
Observamos nos dois episódios que as entidades reguladoras do setor não são tão procuradas para repercutir os fatos, o que nos orienta a refletir sobre a possível falta de reconhecimento por parte da imprensa do Sistema Integrado de Parques e Atrações Turísticas, Sindepat89, e da Associação das Empresas de Parques de Diversão do Brasil, ADIBRA90, como fonte confiável de informações, com capacidade de apoiar os veículos de comunicação com informações qualificadas em momentos críticos. Outra possibilidade é a falta de conhecimento sobre o setor e sobre as suas entidades representativas, em função da falta de estreitamento de relações dessas entidades com a imprensa.