CAPÍTULO II – PLAYCENTER: HISTÓRIA, CONTEXTUALIZAÇÃO E
1.4. Histórico de acidentes e crises de imagem
Mas, nem só de glórias viveu o Playcenter. Houve momentos de dificuldades, desajustes entre os sócios, divergências com locadores do imóvel, com autoridades e problemas decorrentes da própria atividade e, até mesmo, da conjuntura econômica do País. Apesar de todas as turbulências enfrentadas pelo Parque, os acidentes com vítimas não foram recorrentes na história do empreendimento. Um documento oficial liberado pelo Playcenter aponta os seguintes episódios com vítimas nos 39 anos de sua história:
14PLAYCENTER fecha aos 39 anos porque a vida começa aos 40. Disponível em: <www.playcenter.com.br>.
TABELA 1: HISTÓRICO DE ACIDENTES DO PLAYCENTER
Ano Ocorrência Consequências
1988 Houve um incêndio no Castelo Mal Assombrado Sem vítimas, porém o Parque foi interditado para averiguaçõe s da
causa da ocorrência.
1992 D ois carrinhos do Tornado se chocaram Três pessoas ficaram levemente feridas.
1995 U ma criança de 11 anos escorregou pel a trava do Space Loop.
Garoto ficou gravemente fe rido, porém o Parque custeou todo o tratamento da crianç a e hoje ele está restabelecido. Foram feitas
adaptações de segurança no equipamento pelo fabricante,em
nível mundial.
1996 Estudante de 16 anos sofre parada cardiorrespiratória após andar na Montanha Russa Tornado.
Faleceu, porém nenhuma irregularidade foi aponta da no equipamento por meio de laudos
técnicos.
1998 Funcionário que faz ia manutençã o do Boomera ng foi a tingido pelo brinquedo.
Faleceu. Foi constatada negligência do funcionário com
relação à atenção às normas de segurança estabelecidas pela
empresa.
2003
Jovem que estava no Looping Star, ao passar a o lado da fila, em tom de brincadeira, simulou um desmaio.
Ficou com a mão presa e ntre o trem e a plataforma (comprometimento em um tendão da mão). Houve ato inseguro do jovem. Recebeu
toda assistência do Parque e ficou restabelecido.
2004
Criança estava com o tio, no Looping Sta r, quis sair antes da parada do carrinho.
Ficou com o pé preso e se feriu (houve ato inseguro da criança).
Recebeu assistência e fic ou restabelecida.
2010 Dois carrinhos do Looping Star se chocaram 16 pessoas ficaram feridas.
Laudo pericial Inconclusivo.
2011 A cide nte no Double Shock
8 pessoas ficara m gravemente feridas ao caírem do brinquedo em movimento. Laudo pericial
apontou falha humana
Fonte: Dados forne cidos pela direção do Playcente r.
Mas os problemas de imagem do Parque não estiveram restritos a acidentes com vítimas. Em 2010, por exemplo, a Operação Urbana Água Branca, conduzida pela Prefeitura de São Paulo, ganhou espaço na mídia (previa uma série de intervenções nos bairros da Barra Funda e Perdizes, incluindo a área do Parque) e afetou o Playcenter. O projeto exigiria a
desapropriação de casas e galpões da região, com o objetivo de mudar o perfil do bairro e possibilitar a chegada de 60 mil novos moradores. Além disso, previa a construção de uma avenida de interligação entre a Avenida Marquês de São Vicente e a Marginal Tietê, que atravessaria o Playcenter, dividindo o Parque em duas partes. Os boatos de fechamento do Parque, que já sondavam o empreendimento com as especulações imobiliárias na região, agravaram-se.
O jornal Folha de S. Paulo publicou, em 26 de agosto de 2010, uma matéria sobre o projeto em que destacou a possibilidade de retirada do Parque do terreno que ocupava desde 197315. O repórter José Benedito da Silva, do caderno Cotidiano, concluiu a matéria sem ouvir a diretoria do Playcenter, que teve que se mobilizar, o que resultou numa segunda matéria16, publicada no dia 27 de agosto do mesmo ano, em que o Playcenter esclareceu aos leitores o conhecimento do projeto e que as mudanças não afetariam o funcionamento do centro de diversões. A partir disso, foram replicadas várias notícias em torno das especulações.
Outro momento crítico foram os dois primeiros anos após a retomada do Playcenter por seu antigo controlador, Marcelo Gutglas. Na ânsia de atrair público, o negócio ampliou o número de excursões de escolas públicas, de ações promocionais e parcerias para venda de ingressos, que atrairiam frequentadores das classes C, D e ocorrências de pequenos furtos e roubos dentro do estabelecimento. Foi o que aconteceu com 50 menores da antiga Fundação Estadual para o Bem Estar do Menor (Febem)17, todos infratores, que realizaram, em novembro de 2003, um arrastão no local, após receber, de uma associação que realizava trabalhos de ressocialização, os ingressos para ir ao Playcenter. Acompanhados de apenas duas assistentes sociais, os menores, quando chegaram ao Parque, começaram a roubar e agredir os outros visitantes que lá estavam. Foram roubados relógios, tênis, bonés, dinheiro e outros objetos. A situação foi controlada pelos seguranças do próprio empreendimento.
15SILVA, José Benedito. Área do Playcenter terá parque e avenida. Folha de S. Paulo. 26 ago 2010. Disponível
em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2608201002.htm>. Acesso em 12 fev2012.
16SILVA, José Benedito. Playcenter diz que vai se adaptar a plano de desapropriação em SP. Folha de S. Paulo.
27 ago 2010.Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/789783-playcenter-diz-que-vai-se- adaptar-a-plano-de-desapropriacao-em-sp.shtml>. Acesso em 12 fev2012.
17MENORES infratores fazem arrastão no Playcenter em SP. Estadão.com.br. Disponível em
As festas noturnas18 também foram motivo de arranhões na imagem da marca. Um arrastão ocorrido na madrugada de maio de 2002, nas proximidades do Playcenter, onde acontecia uma festa rave, terminou com pelo menos dez pessoas detidas, segundo dados publicados na imprensa. O bando rendeu pelo menos 20 pessoas que se preparavam para entrar no Parque. Foram levados celulares, talões de cheques, dinheiro e até sapatos. Muitas vítimas foram agredidas, segundo a polícia, e a imagem do Parque arranhada.
Também desgastante para a imagem do Parque foi o episódio decorrente de evento noturno realizado em parceria com a Rádio Tropical, em outubro de 200419, quando foram colocados 12 mil ingressos à venda, que se esgotaram, gerando grande tumulto na porta do Playcenter. Arrastão, furto, ocorrências policiais e exposição negativa na mídia foi o saldo do evento. O Parque teve, inclusive, que devolver o dinheiro para parte do público que não conseguiu ter acesso ao show, tamanha a confusão. Notícia divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo20 de 26 de outubro de 2004 trazia a seguinte informação:
O Playcenter vai devolver, entre hoje e o próximo dia 30, o valor dos ingressos de quem não conseguiu entrar na festa promovida para a comemoração do aniversário da rádio Tropical, na noite de sábado, segundo nota divulgada ontem. Para retirar o dinheiro é necessário comparecer às portarias do Parque (Rua José Gomes Falcão, 20), das 12h às 18h, com a entrada em mãos.
Os eventos noturnos inicialmente utilizados como posicionamento estratégico para atrair o público jovem, especialmente durante a gestão em conjunto com a GP Investments, após a retomada do negócio por Marcelo Gutglas e seu sócio foram fundamentais para a recuperação do fôlego financeiro do empreendimento. Entretanto, o custo à imagem do Parque seria muito alto. Com parcerias com rádios ligadas a um público mais popular, como as feitas com a Tropical FM (107,9), o Parque conseguiria atrair para o estabelecimento problemas de imagem superiores às próprias receitas decorrentes desses eventos. Assim, após a reestruturação do negócio, a partir da segunda metade dos anos 2000, com a devolução de parte do terreno e novas medidas de gestão administrativa e estratégia de comunicação, esses eventos foram sendo abandonados. Decisão inteligente, que pouparia a marca de muitos desgastes e contratempos.
18DEZ são detidos acusados de fazer "arrastão" no Playcenter. Folha.com. Disponível em
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u50274.shtml>. Acesso em 29 dez 2012.
19PLAYCENTER funciona normalmente após tumulto em SP. Folha.com. Disponível em
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u101085.shtml>. Acesso em 29 dez 2012.
20PARQUE vai devolver o dinheiro dos ingressos. Folha.com. Disponível em
Os eventos noturnos, como veremos mais adiante, ainda nesse capítulo, só seriam contemplados no planejamento estratégico do Playcenter, a partir de então, pontualmente, em ocasiões esporádicas em que o empreendimento terceirizava o espaço para que outras marcas realizassem shows no local, como o caso do Planeta Terra. Entretanto, a estrutura de montagem, organização e segurança ficavam sempre a cargo dessas empresas.