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Aquilo que sou é aquilo que tenho: o que pesa no corpo?

No documento Masculinidades disponíveis.com (páginas 89-0)

2 Por que eu, por que as masculinidades gays e por que a internet?

3.3 Aquilo que sou é aquilo que tenho: o que pesa no corpo?

A compreensão dos corpos entre os vinte perfis mais “preferidos” do disponível.com só se dá mediante a incorporação, acomodação e expressão de discursos produtores de sexo e gênero capazes de subscrever a excelência dos mesmos corpos – e dos sujeitos encerrados neles. O corpo diz do sujeito ao mesmo tempo que o sujeito diz do seu corpo: publicar partes específicas do corpo, referenciá-las nos textos escritos, fotografá-las e gravá-las são iniciativas que compõem as representações de masculinidade no sítio como forma de o internauta explicar seu corpo (descrever detalhadamente partes específicas, narrar viva e pormenorizadamente suas práticas sexuais, registrá-las e publicá-las), mas também como tentativa de fazer com que seu corpo transforme-se em seu currículo de masculinidade pessoal (ao descrever as partes de seus corpos e as práticas sexuais ligadas a elas, os internautas colocam seu sexo e seu gênero como conhecimentos possíveis e relevantes sobre si mesmo).

Por isso, aqui certas partes dos corpos dizem mais que outras. Neste contexto existe um processo bastante abrupto de hipervisibilidade, de reincidência e de prevalência de uma parte bastante particular do corpo que aparece narrada, registrada e publicada nos perfis.

Comumente, a parte do corpo ligada de maneira mais íntima àquilo que somos, à nossa identidade e à nossa singularidade é o nosso rosto. Quando a autora Susan Sontag se refere às doenças tidas como as mais terríveis justamente por deformarem o rosto, ela diz o seguinte:

Os efeitos da poliomelite eram terríveis – o corpo definhava –, mas a carne não ficava marcada nem apodrecida: não era uma doença repulsiva. Além disso, atacava apenas o corpo, por pior que isso seja, mas não o rosto. A reação relativamente razoável, não metafórica, despertada pela poliomelite deve muito ao status privilegiado do rosto, tão importante para nossa avaliação da beleza ou ruína física. Pois, por mais que a filosofia e a ciência modernas tenham atacado a separação cartesiana entre mente e corpo, não foi nem um pouco afetada a convicção de nossa cultura referente à separação entre rosto e corpo, que influencia todos os aspectos dos costumes, modas, apreciação sexual, sensibilidade estética – praticamente todos os nossos conceitos do que é correto. (SONTAG, 2007, p. 108-109) [grifos da autora]

Essa separação a qual se refere Sontag, entre rosto e corpo, aparece de modo bastante intenso e paradoxal nos vinte perfis mais “preferidos”. Seria o rosto, essa parte mais visível de nós, aquela mais idiossincrática, aquela que nós mais temos e aquela que mais diz de nós;

seria o rosto uma incidência contínua, um personagem recorrente nos perfis mais “preferidos”

do disponível.com? Sim e não. Sim, porque ele é requisitado, apesar de não se fazer público,

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como mostram trechos a seguir do perfil de ‘Sexboyzs’: “EXIJO TROCA DE FOTO DE ROSTO ANTES DO ENCONTRO”; do perfil de ‘duplazsul’: “SOMENTE FODEMOS DEPOIS DE VER FOTOS DE ROSTO... TEMOS FOTOS DE ROSTO NO MSN, SE NÃO POSSUI FOTO, NÃO INSISTA”. Sim, porque o rosto se insinua nas fotografias e nos vídeos, porque sobre ele são impostas tarjas pretas, porque se o rosto é alvo de disfarces e de intervenções, isso é sinal que ele importa, de fato. Sobre essa insinuação do rosto, vemos acontecer em ‘Ctfrj’ em 30 de junho de 2008; em ‘Andrejr’ em 31 de maio de 2008. Sobre as estratégias de dissimulação do rosto, em ‘Somos2safados’ em 30 de junho de 2008; em ‘2rj’

no dia 30 de junho de 2008; em ‘20cmmachoativo’ no dia 31 de maio de 2008.

Sim, o rosto é um personagem recorrente porque se insinua, porque se espreita nos elementos imagéticos dos perfis como quase aparecendo, prestes a se fazer visível e reconhecível. Além disso, não obstante sua espreita e insinuação sem nunca mostrar-se por completo, ele é requisitado, exigido como condição para levar a feito um possível encontro offline entre os internautas. Escondendo-o, dissimulando-o, insinuando-o e, ao mesmo tempo, exigindo sua presença, os usuários do disponível.com constroem suas representações nas suas páginas pessoais.

E a resposta também pode ser não, porque ele é dissociado da maioria dos corpos retratados, porque ele é escondido e dissimulado mediante emprego de técnicas de edição de imagens, porque ele é como que pinçado e deletado dos corpos, de modo que dezessete dos vinte perfis mais “preferidos” prescindem de sua publicação: apenas três usuários fotografam e publicam seus rostos em seus perfis. Dos três, dois ainda fotografam-se nus, não obstante a presença do rosto. É o caso de ‘Turbinadodf’, em junho de 2008; ‘Serjao2’ em maio de 2008;

e ‘Canadense’ em junho de 2008. Portanto, a separação entre rosto e corpo se faz possível mediante emprego de enquadramentos de câmera, edição de imagens e uso de peças de roupa, como vemos nos exemplos acima. Na mesma medida em que o corpo é socializado devido à sua hipervisibilidade, o rosto é sombreado, é escondido. O rosto está indisponível, mas mesmo assim ele é requisitado. Essa possibilidade técnica que as tecnologias digitais oferecem de socialização do corpo desacompanhado do rosto é uma característica marcante entre os usuários mais “preferidos” do disponível.com.

Então, o protagonismo do pênis é comum entre os vinte e dois perfis analisados.

Mesmo para ‘Turbinadodf’ e ‘Serjao2’, que publicam seus rostos em suas fotos, o pênis ereto também aparece em seus álbuns como figura central. Apenas ‘canadense’ não exibe esta parte específica do corpo entre os vinte mais “preferidos” do sítio. Na nossa cultura, o pênis está

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diretamente associado à inscrição de um corpo no domínio sexuado de “homem” e, de forma compulsória, generificando o corpo como sendo “masculino”, o pênis ereto se torna o símbolo central dos atributos das masculinidades em torno do qual os demais convergem. É importante ressaltar que os pênis estão representados eretos, nunca flácidos: sua potência, sua extensão material são fundamentais para seu sexo e seu gênero serem definidos. Ser homem, para os vinte e dois perfis mais “preferidos” do disponivel.com, é saber manejar essa parte específica de seu corpo, é saber administrá-la, é saber gerenciá-la e saber construir em torno dela um aparato de outros sentidos que compõem as masculinidades. Mais uma vez, os usuários aparecem aqui como empresários de seus corpos, agora ocupados na gestão de seus pênis.

Essas múltiplas e sucessivas referências ao pênis como símbolo máximo das masculinidades faz com que as pequenas narrativas de si e os registros audiovisuais produzidos pelos usuários do disponivel.com sejam localizados, recortando os corpos e publicando uma parte específica que lhe dê sentido dentro daquele espaço. Para os internautas usuários dos serviços do sítio parece ser bastante diferente fotografar suas mãos ou gravar um vídeo mostrando suas pernas do que fazer o mesmo usando seu pênis como protagonista.

Mais diferente ainda é mostrar o rosto, embora dois usuários o façam. O que quero sublinhar é que, para meu objeto de pesquisa, nenhuma outra parte do corpo é mais importante para a atribuição de sentido ao corpo e, por conseqüência, para a qualificação do seu sexo e seu gênero. E o sentido dado ao pênis não diz respeito apenas às masculinidades, mas vincula em si as ideias de um corpo legítimo de homem (o pênis cujas dimensões são grandes), de uma prática sexual legítima de homem (ativa ou penetrativa) para, articulando-se com estes pré-requisitos, caracterizar o ‘homem macho’.

(...) supomos que as marcas são dadas e que sua presença (ou ausência) indica a identidade. E, assim, deixamos de problematizar sua inscrição nos corpos, isto é, deixamos de problematizar, exatamente, as tais marcas. Esquecemos de indagar a respeito das razões por que certas características (um pênis ou uma vagina, a cor da pele, o formato dos olhos ou do nariz) são tão especiais; deixamos de perguntar por que esses e não outros elementos (as orelhas, o tamanho das mãos e dos braços, por exemplo) foram escolhidos como definidores de uma identidade sexual, se raça, étnica ou de gênero.

Esquecemos (...) que determinados traços ou características podem ter importância, serem considerados notáveis e, então, se constituírem em

“marcas” definidoras, ou, ao contrário, permanecerem banais, irrelevantes. (LOURO, 2000, p. 62)

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Dizer que o corpo, em sua integralidade, é um construto histórico, político e cultural significa também dizer que todas suas partes – e suas materialidades – podem ser interpretadas da mesma forma. Portanto, se parto do pressuposto de que sua materialidade e sua integralidade são construídas socialmente, de maneiras diferenciadas ao longo do tempo e em diferentes culturas, também assumo que cada uma de suas partes está inserida nesta historicização; o pênis inclusive. Nesse sentido é importante, como aponta Louro, fazer uma problematização desta parte específica do corpo como sendo uma marca importante, uma marca que importa ou uma parte que pesa para a compreensão dos corpos. Ao longo da história do corpo, nem sempre o pênis foi significado com relevância tão importante na definição do sexo dos corpos, nem sua visibilidade tão intensa esteve desde sempre a serviço da validação e consolidação dos sexos e dos gêneros quanto aparece nos perfis dos usuários do disponível.com. A relevância e visibilidade do pênis como parte necessária para a inscrição do sexo no corpo, para a produção do gênero no corpo e para função de ‘base’ de identidade masculina não foram as mesmas em todos os períodos históricos. Thomas Laqueur, nesta direção, escreve o seguinte:

Para os médicos da Renascença havia um sexo único. Por outro lado, havia manifestadamente pelo menos dois sexos sociais com direitos e obrigações radicalmente distintas, de certa forma correspondendo aos graus, mais altos ou mais baixos, da escala corpórea do ser. Nenhum tipo de sexo – social ou biológico – podia ser considerado fundamental ou básico, embora as divisões de gênero – as categorias de sexo social – fossem certamente consideradas naturais. O mais importante é que o sexo biológico, que nós geralmente usamos como base do gênero, era tão existente no domínio da cultura e do significado quanto o gênero. O pênis era, portanto, um símbolo de status e não um sinal de alguma outra essência ontológica profundamente arraigada: o sexo real. Podia ser interpretado como um simples certificado, como o diploma de um médico ou advogado, cujo portador tinha certos direitos e privilégios. (LAQUEUR, 2001, p. 170) [grifos do autor]

O autor nos lembra que o corpo como ‘causa’ das diferenças sexuais, e os órgãos genitais como epicentro destas causas, só foi interpretado dessa forma mediante condições sociais, culturais e políticas que datam do Iluminismo. Anteriormente, pelo menos nas sociedades ocidentais, “acreditou-se que as mulheres tinham a mesma genitália que os homens, só que – como dizia Nemesius, bispo de Emesa, do século IV – ‘a delas fica dentro do corpo e não fora’” (idem, p. 16). O médico e anatomista grego Galeno, ainda no século II d.C., “demonstrava com detalhes que as mulheres eram essencialmente homens, nos quais a

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falta de calor vital – e de perfeição – resultara na retenção interna das estruturas que no homem são visíveis na parte externa”. Laqueur continua: “Nesse mundo, a vagina é vista como um pênis interno, os lábios como prepúcio, o útero como escroto e os ovários como testículos” (idem). Somente no final do século XVIII surgiu “um novo modelo de dimorfismo radical, de divergência biológica” dos sexos, período em que “a nova diferença [entre corpos de homem e mulher] podia ser demonstrada não apenas em corpos visíveis, mas também em seus blocos microscópicos”, momento a partir do qual “a diferença sexual em espécie, não em grau, parecia solidamente baseada na natureza” (idem, p. 17). Sobre esse novo modelo de compreensão dos corpos vou discorrer mais longamente no capítulo quatro.

Portanto, o significado dado à importância do pênis como parte do corpo capaz de explicá-lo não foi sempre o mesmo. Ele foi interpretado, de toda maneira, como algo importante – já que, dentro da lógica de Galeno, não apenas os homens o possuíam, mas também as mulheres –, mas essa importância foi ressignificada ao longo do tempo. Pois

“ideais acerca do pênis variam de cultura para cultura e de época para época”, escreve David Friedman. “É possível identificar os momentos principais da história ocidental em que uma nova ideia de pênis tratou do mistério maior da sua relação com o homem e mudou para sempre a maneira com que esse órgão era concebido e usado” (FRIEDMAN, 2002, p. 13). E não foi apenas a biologia ou a medicina a significá-lo de diferentes formas, em diferentes culturas: se para os sumérios, “o pênis tanto simbolizava a natureza irracional quanto a inteligência divina”; durante a Idade Média o pênis “era a obsessão de todo inquisidor, o

‘astro’ de quase toda confissão de bruxas”, pois era visto como “o pênis do Diabo” ou a “vara do demônio” (idem, p. 10-11). Por isso, a religião também se ocupou em produzir sentido para o pênis: a circuncisão, que era motivo de escárnio entre os romanos e abominação para os gregos, era considerada pelos judeus de séculos atrás como uma maneira que os homens tinham de “colocar seu pênis a serviço de Deus”, enquanto que “outras culturas colocaram os pênis dos deuses a seu serviço” (idem, p. 20).

O pênis do deus hindu Shiva é um ator-chave em tantas obras dessa religião, que um livro sobre a estética hindu declara que Shiva montado em um touro deve ser retratado com uma ereção que atinja seu umbigo. Diziam que Buda tinha um membro que se retraía, assemelhando-se ao de um cavalo. Mas o Velho Testamento não discute o pênis de Deus porque o deus hebreu não tem corpo. Em vez disso, o foco é sobre o pênis humano (...). (idem, p. 20-21)

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Discursos médicos, biológicos, religiosos concorreram na produção de significados para os corpos e suas partes. O pênis foi interpretado de várias maneiras, constituindo sua própria materialidade de formas distintas ora ao ser associado à força e potência de um deus, ora ao ser compreendido como expressão de todo mal diabólico. Essas diferentes formas de interpretação têm efeitos bastante reais, pois num caso o pênis seria cultuado, noutro seria perseguido. A exibição ou desnudamento do pênis tampouco são novidades recentes na história: “o pênis não foi simplesmente exaltado em Atenas – ele foi exposto. Os homens exercitavam-se nus na fábrica de virilidade, o ginásio, uma palavra derivada de gymnos, que significa ‘nu’” (idem, p. 23). Vemos, então, que a exibição do pênis e a importância dadas a ele são cambiantes, porém não são novos. Que outro processo, então, está em andamento em relação aos significados dados ao corpo e ao pênis nos usos dos usuários do disponível.com?

Como recém mostrei, nem sempre partes específicas do corpo foram compreendidas como locus privilegiado de ancoragem ou explicação de uma identidade, tal qual o pênis está para a definição do que seja um homem atualmente. Essa função ‘de âncora’ que o pênis desempenha nos corpos só é possível, como nos diz Laqueur, quando há condições em que

“não só os sexos são diferentes, como são diferentes em todo o aspecto concebível do corpo e da alma, em todo o aspecto físico e moral”, num sentido em que “a relação da mulher para o homem é ‘uma série de oposições e contrastes’” (LAQUEUR, 2001, p. 17). Esse é o primeiro ponto importante: o pênis, nessa lógica de compreensão dos corpos sexuados e generificados, opõe-se diametralmente ao órgão genital feminino, de modo que tudo que o pênis não é está em tudo aquilo que a vagina é. Nenhum continuum linear; total oposição binária. Tal como âncora, aqui o pênis fixa e essencializa o corpo, é tido como uma marca cultural de gênero fossilizada nos corpos. Exibi-lo e visibilizá-lo neste contexto, portanto, seria investir na afirmação identitária de um corpo sexuado – de ‘homem’ – e num corpo generificado –

‘másculo’, ‘masculino’, ‘macho’. Ao mesmo tempo, seria construir um processo de diferença em relação ao outro corpo sexuado – de ‘mulher’ – e generificado – ‘feminino’,

‘feminilizado’, ‘afeminado’.

É por isso que as representações dos corpos nos vinte e dois perfis mais “preferidos”

do disponivel.com estão calcadas na decupagem dos corpos. Do francês decuper, que significa “cortar fora” ou “recortar”, a expressão decupagem dos corpos remete à ideia de que os corpos ali representados estão ‘recortados’: partes específicas dos corpos dos usuários são publicadas através das fotografias, dos vídeos e dos textos ali colocados. O corpo apresentado nos perfis online quase nunca é o corpo integral; ele é sempre recortado em uma parte

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específica cujo objetivo último é subscrever seu sexo e seu gênero, de modo que funcione como marca importante, sinal relevante, um saber a ser conhecido. Esta parte específica é o pênis. Vemos alguns exemplos do seu protagonismo nas fotos de alguns usuários, como em

‘MachoSaradoPraMachinhoMamador’ em maio de 2008; em ‘GrisalhoSacana45’ em maio de 2008; em ‘Turbinadodf’ em junho de 2008; em ‘Versatilkcetudo’ em junho de 2008; em

‘20cmmachoativo’ em junho de 2008.

Esses são apenas cinco dos dezenove perfis em que o pênis aparece como personagem central do corpo e dos elementos imagéticos dos perfis. Nas pequenas narrativas de si e nos elementos imagéticos colocados nas páginas pessoais dos usuários o que se vê é, então, uma decupagem do corpo através da qual sua integralidade dá lugar a uma parte específica. Esse recorte está a serviço de um processo de intensificação dos significados desta parte exata, processo no qual se conjugam de modo simultâneo a hiperexposição do recorte e o sombreamento daquilo que foi recortado. Na mesma medida em que o pênis é mostrado intensamente, sombreia-se o rosto. Internautas engajados neste projeto que chamo de ‘projeto mostrar-sombrear’75 têm como um dos seus efeitos a genitalização das suas representações online, de modo que o pênis é capaz de dar-lhes nomes (‘20cmmachoativo’,

‘Versatilkcetudo’), ser o ator principal das pequenas narrativas de si (“ADORO ENTERRAR MINHA CACETA COM VONTADE”, em ‘20cmmachoativo’; “requisitos indispensáveis:

saber engolir o pau do macho até a garganta”, em ‘AndreJr’; “tenho cacete médio-reto e sacão liso”, em ‘FelipeSafado’; “tenho traços marcantes: um pirocão maneiro, vinte cm, grossura legal e muito leite”, em ‘MachoSaradoPraMachinhoMamador’), e protagonizar as fotografias publicadas. Nesse sentido, há aqui “adensamentos corpóreos – fábrica de uma ‘hiperpresença’

acessada na confluência de estímulos múltiplos” (EUGENIO, 2006, p. 159) em torno do pênis, que dão condições para a genitalização das representações, produzidas pela decupagem corporal.

A hiperpresença do pênis e o adensamento corpóreo em torno desta parte do corpo são produtos parciais do projeto mostrar-sombrear no qual se engajam os internautas do disponível.com. Chamo aqui de ‘projeto’ exatamente porque ele se constitui como sendo um conjunto de estratégias de produção da intensa visibilidade do corpo e de partes do corpo nos registros imagéticos e nos textos das pequenas narrativas de si do sítio de relacionamentos, da qual fazem parte tanto condições técnicas de registro e publicação (posse de câmera digital, celulares com câmera, programas de edição de imagens e vídeos, computadores com acesso à

75 A ideia desta denominação surgiu a partir da leitura do artigo “Corpos voláteis: estética, amor e amizade no universo gay”, de Fernanda Eugenio (2006), no qual a autora cria a expressão “projeto-borrar”.

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internet banda larga), condições sócio-econômicas dos internautas (referindo-me ao fato de os internautas terem condições financeiras de adquirir tais equipamentos e prévio conhecimento técnico para manejá-los, e também por somente poderem publicar vídeos e mais de três fotografias em seus perfis aqueles internautas assinantes, pagantes dos serviços do sítio), investimentos espaço-temporais (referindo-me ao fato de os usuários possuírem locais para realizar os encontros aos quais se propõem, também por disponibilizarem tempo no seu cotidiano para tais encontros e, posteriormente, tempo para o tratamento e edição das imagens e dos vídeos), e adoção de táticas de marketing corpóreo em seus perfis (sobre este aspecto vou discutir no capítulo cinco, mas aqui posso antecipar que alguns internautas donos dos perfis mais “preferidos” anunciam novos vídeos e interpelam os demais usuários a ver fotos e vídeos recém colocados, de modo a transformar seus textos em demandas por audiência dos demais). Esses quatro aspectos associados caracterizam isso a que dou o nome aqui de projeto mostrar-sombrear, em que o pênis é hipervisibilizado em detrimento às outras partes do corpo.

internet banda larga), condições sócio-econômicas dos internautas (referindo-me ao fato de os internautas terem condições financeiras de adquirir tais equipamentos e prévio conhecimento técnico para manejá-los, e também por somente poderem publicar vídeos e mais de três fotografias em seus perfis aqueles internautas assinantes, pagantes dos serviços do sítio), investimentos espaço-temporais (referindo-me ao fato de os usuários possuírem locais para realizar os encontros aos quais se propõem, também por disponibilizarem tempo no seu cotidiano para tais encontros e, posteriormente, tempo para o tratamento e edição das imagens e dos vídeos), e adoção de táticas de marketing corpóreo em seus perfis (sobre este aspecto vou discutir no capítulo cinco, mas aqui posso antecipar que alguns internautas donos dos perfis mais “preferidos” anunciam novos vídeos e interpelam os demais usuários a ver fotos e vídeos recém colocados, de modo a transformar seus textos em demandas por audiência dos demais). Esses quatro aspectos associados caracterizam isso a que dou o nome aqui de projeto mostrar-sombrear, em que o pênis é hipervisibilizado em detrimento às outras partes do corpo.

No documento Masculinidades disponíveis.com (páginas 89-0)