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Materializando o sexo e generificando o corpo: uma ‘viagem’

No documento Masculinidades disponíveis.com (páginas 73-89)

2 Por que eu, por que as masculinidades gays e por que a internet?

3.2 Materializando o sexo e generificando o corpo: uma ‘viagem’

A produção e inscrição do sexo em um corpo se tornam fundamentais para que possamos compreendê-lo, para que ele passe a fazer sentido e, em última instância, para que ele exista. A nomeação de um corpo como sendo “homem” ou “mulher” não é desinteressada, ou seja, ela está inserida num processo mais amplo de construção performativa da ‘viagem’

deste corpo: “a declaração ‘é uma menina!’ ou ‘é um menino!’ também começa uma espécie de ‘viagem’, ou melhor, instala um processo que, supostamente, deve seguir um rumo ou direção”, escreve Louro (LOURO, 2004a, p. 15). A inscrição do sexo em um corpo não é toda dada a partir da sua nomeação como “homem”, por exemplo, mas é reiteradamente produzida ao longo da trajetória social, histórica e política deste corpo, exatamente como supõe a metáfora da viagem. Há um projeto de construção cultural do corpo no que diz respeito à produção de seu sexo. Pois “é possível pensar que esse sujeito também se lança numa viagem, ao longo de sua vida, na qual o que importante é o andar e não o chegar”, propõe Louro. Ela continua dizendo que a metáfora da viagem pode ser entendida como um

“processo que, ao invés de cumulativo e linear, caracteriza-se por constantes desvios e retornos sobre si mesmo, um processo que provoca desarranjos e desajustes, de modo tal que só o movimento é capaz de garantir algum equilíbrio ao viajante” (idem, p. 13). Usar a

‘viagem’ como metáfora útil na compreensão do corpo sexuado como construto histórico e político só é possível a partir do momento em que tomamos tanto o corpo quanto seu sexo como inacabados, como construções recorrentemente ‘em obras’. Corpo “sempre redescoberto”, para Sant’Anna, mas “nunca completamente revelado” (SANT’ANNA, 2000, p. 52). Como também sugere Goellner, o corpo “é um sem limite de possibilidades sempre reinventadas e a serem descobertas”, pois é materializado segundo representações que “são sempre temporárias, efêmeras, inconstantes e variam conforme o lugar/tempo onde este corpo circula, vive, se expressa, se produz e é produzido” (GOELLNER, 2005, p. 29).

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O processo de fazer e de construir o sexo é “um processo que é baseado em características físicas que são vistas como diferenças e às quais se atribui significados culturais”, nos diz Louro, sugerindo que “o ato de nomear o corpo acontece no interior da lógica que supõe o sexo como ‘dado’ anterior à cultura e lhe atribui um caráter imutável, a-histórico e binário” (LOURO, 2004a, p. 15). A materialidade corpórea serviria, então, como

‘base’ ou como ‘origem’ da interpretação das características e, simultaneamente, produção das diferenças sociais, sexuais e de gênero. Nesse sentido Dagmar Estermann Meyer ressalta que

(...) é importante registrar que enfatizar o caráter fundamentalmente histórico, social, cultural e lingüístico do gênero não significa negar que ele se constrói com – e através de – corpos que passam a ser reconhecidos e nomeados como corpos sexuados. Não se está, portanto, negando a materialidade do corpo ou dizendo que ela não importa, mas mudando o foco dessas análises: do “corpo em si” para os processos e relações que possibilitam que sua biologia passe a funcionar com causa e explicação de diferenciações e posicionamentos sociais. (MEYER, 2005, p.19)

Portanto, na ‘viagem’ em tornar-se inteligível, a nomeação do sexo dos corpos não está separada da produção do gênero a que seu sexo se vincula, e o gênero é produzido mediante processos e relações de poder – é, portanto, feito a partir e dentro de políticas e culturas. Um corpo nomeado como sendo “homem” precisa fazer-se “masculino”, pois

“supostamente não há outra possibilidade senão seguir a ordem prevista. A afirmação ‘é um menino’ ou ‘é uma menina’ inaugura um processo de masculinização ou de feminização com o qual o sujeito se compromete” (LOURO, 2005, p. 15). E aqui mais uma vez se esboça o que eu chamo de projeto no qual o corpo se engaja, ou no qual é impelido a se inserir, que acaba por produzir constantemente seu sexo e, por conseguinte, seu gênero. Segundo Butler, o gênero pode ser pensado como “como uma identidade instituída através da repetição estilizada de atos” (BUTLER, 2004, p. 154). As construções das feminilidades e das masculinidades, sempre levadas a feito a partir da nomeação do corpo ou como “mulher” ou como “homem” (nunca como “mulher” e “homem”), seriam um conjunto de atitudes, ações, comportamentos que se repetem ao longo de um determinado período histórico obedecendo a orientações construídas e sancionadas culturalmente que dizem como um corpo deve (com)portar-se para ser considerado homem – masculino – ou mulher – feminina. Para Butler, o gênero também pode ser compreendido como a própria estilização do corpo, como uma

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forma cotidiana de constituição corpórea através de gestos, movimentos e ‘encenações’ cujo efeito é a ilusão de uma essência feminina ou masculina (BUTLER, 2004).

Louro, na mesma direção, defende uma perspectiva social, histórica e política para a constituição daquilo que entendemos como os modos de ser homem e os modos de ser mulher, sujeitos estes que serão criados dentro de um contexto cultural que institui posições-de-sujeito aos indivíduos. Louro diz que “o conceito [de gênero] pretende se referir ao modo como as características sexuais são compreendidas e representadas” (LOURO, 2003, p. 22), o que também supõe que as próprias características sexuais corpóreas são descritas e produzidas dentro de uma determinada cultura. “O conceito passa a ser usado com um forte apelo relacional – já que é no âmbito das relações sociais que se constroem os gêneros” (ibidem). A autora sugere:

Ao afirmar que o gênero institui a identidade do sujeito (assim como a etnia, classe ou a nacionalidade, por exemplo) pretende-se referir, portanto, a algo que transcende o mero desempenho de papéis, a ideia é perceber o gênero fazendo parte do sujeito, constituindo-o.

(LOURO, 2003, p. 25) [grifos da autora]

Constituindo e também produzindo esse sujeito. Pois pensar o gênero como constructo cultural significa dizer que as formas de reconhecer-se e reivindicar pertencimento a este ou aquele gênero são eminentemente políticas. Essas tensões se dão num campo de relações de poder e estão sempre mudando, sempre sendo negociadas, mediadas, articuladas por forças contingentes.

[...] eles e elas se fazem, também, através de práticas e relações que instituem gestos, modos de ser e de estar no mundo, formas de falar e de agir, condutas e posturas apropriadas (e, usualmente, diversas). Os gêneros se produzem, portanto, nas e pelas relações de poder.

(LOURO, 2003. p. 41) [grifos da autora]

Meyer ressalta o gênero como “construto social e linguístico, produto e efeito de relações de poder” (MEYER, 2005, p. 16), sublinhando o enfoque pós-estruturalista na abordagem e uso teórico-metodológico do conceito. Mais ainda, ele não se limita a explicar tão-somente os papéis, as funções ou os significados dados à experiência social de ser homem e de ser mulher. O conceito de gênero redimensiona a própria construção dos corpos reconhecidos culturalmente como sendo de homens e de mulheres.

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Nesse contexto, o conceito de gênero passa a englobar todas as formas de construção social, cultural e lingüística implicadas com os processos que diferenciam mulheres de homens, incluindo aqueles processos que produzem seus corpos, distinguindo-os e separando-os como corpos dotados de sexo, gênero e sexualidade. (MEYER, 2005, p. 16)

Vemos, então, que os corpos são investidos de significados dentro da cultura na qual emergem e, como diz Butler, os discursos que ao mesmo tempo explicam os corpos também os habitam e se acomodam neles (BUTLER, 2007). Corpos descritos, reconhecidos e nomeados usando uma linguagem culturalmente construída, a partir de campos de saber que lutam politicamente para reivindicar o direito do dizer verdadeiro sobre os corpos. Por quê?

Louro diz que “o que se enfatiza são os processos e as práticas discursivas que fazem com que aspectos dos corpos se convertam em definidores de gênero e de sexualidade e, como conseqüência, acabem por se converter em definidores dos sujeitos” (LOURO, 2004a, p. 80).

O que está em jogo, portanto, é a produção dos próprios sujeitos encerrados nos corpos e possuidores de um certo sexo, pertencendo a um certo gênero.

Analiso as representações de corpo e gênero publicadas nos perfis mais “preferidos”

do disponível.com entendendo-as como as maneiras com que cada sujeito se posiciona em relação aos acordos culturais sobre os modos de ser homem e ser mulher. Para tanto, uso a ideia de que os corpos, os sexos e os gêneros são construídos socialmente mediante intensas negociações, dentro e pelas relações de poder que se estabelecem em uma cultura. Sobretudo, assumo e acentuo o caráter cultural e político da produção dos corpos e o enfoque relacional das construções de gênero. Esta postura não supõe a ideia de que as masculinidades e as feminilidades se constituam uma em oposição à outra, mas que uma se constitui em dependência da outra. Em um investimento analítico que parta desse pressuposto, “a desconstrução das oposições binárias tornaria manifesta a interdependência e a fragmentação de cada um dos pólos” (LOURO, 2004a, p. 43), nesse caso os pólos feminino-masculino.

Trabalhando para mostrar que cada pólo contém o outro, de forma desviada ou negada, a desconstrução indica que cada pólo carrega vestígios do outro e depende desse outro para adquirir sentido. A operação sugere também o quanto cada pólo é, em si mesmo, fragmentado e plural. (idem)

A materialização do sexo no corpo e a produção do seu gênero, então, estão fortemente ligadas à própria viabilidade cultural e política dos sujeitos para a vida em sociedade. Para alguém ser algo seu sexo e seu gênero precisam ser imediatamente

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reconhecidos. Sexo-gênero, dessa forma, são duas instâncias de produção dos sujeitos e de seus corpos ao mesmo tempo em que propiciam sua inteligibilidade. Todavia, é importante ressaltar que, na nossa cultura, o reconhecimento de existência de apenas dois sexos (“homem” ou “mulher”) e apenas dois gêneros (“masculino” ou “feminino”) impõe como divisão aos termos desse binarismo não um muro instransponível, mas uma membrana permeável: tudo que um é o outro não é, ou não pode ser, pois estão em forte dependência.

Assim como toda identidade carrega suas diferenças, só é possível para alguém afirmar-se como sendo um “homem másculo” se existem “mulheres femininas” para lhe servir como limite, por exemplo. Um “homem másculo”, cujos sexo e gênero estão conformes com certas sanções culturais ditas hegemônicas, precisa inscrever para si as fronteiras de uma “zona de inabitalidade”, de uma região que ele próprio, enquanto “homem másculo”, não pode habitar.

E essa zona, por sua vez, será habitada por “mulheres femininas” – e também por outros homens, como vou mostrar nas seções e capítulos a seguir – que lhe será imprescindível para sua constituição ao ser formada a partir de representações criadas no âmbito da cultura com as quais ele não pode se identificar, com as quais ele precisa manter-se em constante e compulsório processo de manutenção de diferenças. “Essa zona de inabitalidade constitui o limite definidor do domínio do sujeito”, nos diz Judith Butler, “ela constitui aquele local de temida identificação contra o qual – e em virtude do qual – o domínio do sujeito circunscreverá sua própria reivindicação de direito à autonomia e à vida” (BUTLER, 2007, p.

155). Se um depende do outro para existir, como acontece nos casos flagrantes de binarismo, então esse “exterior constitutivo” do “homem másculo” não está fora dele: está dentro dele, fazendo parte dele, porque senão ele próprio não existiria.

Para efeitos de análise, estas proposições são importantes para pensar as narrativas de si que compõem os perfis dos usuários do disponível.com. Aqui escolho trazer nesse primeiro momento trechos dos textos escritos e descrições de imagens dos perfis, em que aparecem os álbuns de foto e vídeo colocados nas páginas pessoais, de modo a mostrar que é em torno do corpo sexuado e generificado que orbitam as significações postas nas páginas pessoais, que é pelo corpo que os usuários ali estão, é no corpo que se inscrevem marcas relevantes neste ambiente. Os usuários se mostram como “empresários de seus corpos”, pois “governar a si mesmo e pilotar o corpo em busca de quantidades crescentes de energia e de informação sobre si mesmo” (SANT’ANNA, 2000, p. 54) faz os internautas gerenciarem seus corpos de modo que o máximo de informação sobre si próprios esteja oferecida e bem visível na superfície

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mesma dos corpos. Nesse gerenciamento, a produção de sexo e gênero está imbricada na própria legibilidade e legitimidade conferida aos corpos.

Empresários de seus corpos, os usuários já os constroem mediante a criação de suas vinhetas pessoais, como referi no primeiro capítulo. ‘20cmmachoativo’, por exemplo, é a vinheta pessoal de um dos usuários do sítio. Como seu próprio apelido nos mostra, ele faz referência ao seu pênis, dando informações sobre sua ‘extensão material’, por assim dizer, acionando uma representação cultural fortemente associada à constituição do corpo de um homem na nossa cultura. Sem dúvida, essa informação não aparece aí como algo neutro, mas associa-se diretamente à expressão ‘ativo’, que também figura em sua vinheta pessoal. Essa expressão indica sua preferência – ou exclusividade, como vou mostrar no próximo capítulo – pela prática sexual anal penetrativa, ou seja, esse usuário se refere a uma parte específica de seu corpo que faz sentido para a descrição de sua preferência sexual em penetrar os seus parceiros sexuais. Sua preferência pela prática anal penetrativa aqui nos é importante para reconhecermos de quem se trata, afinal, o usuário ‘20cmmachoativo’ no contexto de seus registros imagéticos: ele aparece, então, penetrando seus parceiros sexuais. Como ele próprio escreve em sua página: “MEU PERFIL É ESSE AÍ, AS FOTOS FORAM TIRADAS DAS TREPADAS [sic]”. Também o que interessa neste momento da análise é a centralidade das descrições corpóreas da qual o usuário lança mão para construir seu perfil online.

O corpo sexuado está aqui produzido, tanto pela sua vinheta pessoal quanto pelas suas fotos, de modo a não deixar dúvidas sobre sua ‘viabilidade’ neste contexto. A nudez do corpo diz do corpo; a nudez do corpo está a serviço de um convencimento de que existe, de fato, um sexo ali encerrado capaz de tornar este sujeito inteligível dentro deste ambiente. Não pode haver dúvidas sobre a inscrição de ‘sexo’ no corpo publicado nas fotografias, em que se vêem dois indivíduos praticando um ato sexual. Esse é o primeiro apontamento importante: estes só são corpos possíveis porque facilmente se inscrevem no princípio de inteligibilidade do sexo, nesse caso, sexo masculino. Não pode haver dúvidas sobre sua viabilidade como sendo corpos de ‘homens’ neste contexto. Em segundo lugar, aqui o corpo aparece em relação a outro corpo, e nesta relação com outro corpo ele ganha sentido: um homem ativo que penetra outro, um corpo que está sobre outro, um corpo que se acopla a outro – por cima. Aqui também é importante pontuar que há pelo menos três pessoas no cenário da foto. Isso porque ela foi tirada por uma terceira pessoa, além dos dois fotografados, presente na cena: os corpos, mais que em relação, estão inseridos em uma situação, em um cenário, estão num coletivo, num contexto que os possibilita serem lidos de uma maneira própria.

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O usuário ‘20cmmachoativo’ ainda escreve em sua pequena narrativa de si, no campo

“sobre mim”, o seguinte texto:

SOU CARA MÁSCULO/ATIVO/ SOU MORENO/ MALHO UM POUCO/

CAVANHAQUE/ CABELO MÁQUINA.

Descrições de suas características físicas se fazem necessárias não apenas para o usuário dizer de si; sobretudo, são necessárias porque tais descrições se aliam às imagens e aos vídeos efetivamente produzindo o corpo que está ali nomeado e ali exposto. Tais descrições referem-se aos registros audiovisuais, tanto como forma de explicar o corpo, como no caso da expressão “MALHO UM POUCO”, mas também como estratégia de fazê-lo central na construção do perfil online do usuário. Nessa perspectiva, os registros visuais também se referem aos textos, de modo que as pequenas narrativas de si comportam tanto registros textuais como também imagéticos, num movimento circular feito em torno do corpo – para o corpo, pelo corpo. Dizer-se “UM CARA MÁSCULO/ATIVO”, além de informar àqueles outros usuários que visitam sua página pessoal sobre sua preferência pela atividade anal pentrativa, também é uma forma de narrar a si próprio como um sujeito que tem um corpo sexuado e generificado: trata-se este de um homem “másculo”. O corpo sexuado e generificado (co)ordena a tríplice narrativa deste perfil, de modo que o usuário lança mão de estratégias textuais e audiovisuais para comprovar – para produzir e construir neste ambiente – o sexo em seu corpo.

No campo “procuro por”, o usuário escreve:

QUERO MACHO MÁSCULO COM CORPO LEGAL/ QUE CURTA BEIJAR... BEIJAR/

AMAR E FODER/ (...) SE O CARA CURTIR MIJO ESTAREI PRONTO PARA ESQUINCHAR [sic] UMA FARTA MIJADA E ESPORRADA NA CARA E NO CORPO DO MACHO/ SE CURTI BEIJO ESTAREI PRONTO PARA BEIJAR E CUSPI NA CARA [SIC]

Esse longo texto traz várias e sucessivas informações que colocam o corpo como personagem central da pequena narrativa. O texto funciona mesmo como uma pequena narrativa corpórea, na qual as características físicas desejadas são narradas, contadas como histórias e imediatamente associadas a possíveis práticas sexuais, como é o caso do trecho

“SE O CARA CURTIR MIJO ESTAREI PRONTO PARA ESQUINCHAR UMA FARTA

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MIJADA E ESPORRADA NA CARA E NO CORPO DO MACHO/ SE CURTI BEIJO ESTAREI PRONTO PARA BEIJAR E CUSPI NA CARA”. Aqui se vê que a centralidade dos corpos, tanto do próprio usuário dono do perfil quanto do(s) seu(s) possível(eis) parceiro(s), se constitui na medida em que são propostas atividades nos corpos:

“ESQUINCHAR UMA FARTA MIJADA NA CARA E NO CORPO, CUSPI NA CARA”; e pelos corpos: “QUE CURTA BEIJAR... BEIJAR/ AMAR E FODER”. Os personagens destes trechos da pequena narrativa são os corpos, e não apenas os sujeitos ‘encerrados’ neles. Aqui quem faz a ação é exatamente o seu corpo: ele mija, esporra, beija e cospe, o corpo é o lugar de onde emanam fluidos corpóreos; as ações na qual se engaja esse corpo, por sua vez, são feitas por e em um outro corpo: na cara e no corpo do “macho”, corpo que absorve os fluidos do outro. Esse corpo agente está também retratado nos elementos imagéticos publicados pelo usuário em seu perfil; suas atividades pressupõem a existência de outro(s) corpo(s) para fazerem sentido neste contexto. Dessa forma, as ações publicadas nas fotos são narradas no texto, (con)fundindo-se, remetendo-se mutuamente, e têm como personagem central o corpo e suas atividades, tudo aquilo que um corpo pode fazer em outro.

Logo a primeira frase que compõe essa pequena narrativa de si – ou essa pequena narrativa corpórea – estabelece que o corpo desejado pelo usuário não é um qualquer, pois existe uma condição primeira de qualificação deste corpo. Como o internauta escreve,

“QUERO MACHO MÁSCULO COM CORPO LEGAL”, e logo depois ele diz “(...) NO CORPO DO MACHO”. O corpo de um “macho másculo” é aquele que está inscrito no domínio do corpo sexuado, compreendido como sendo corpo de um ‘homem’. Os acréscimos semânticos “macho” e “másculo”, usados aqui para adjetivarem-se mutuamente, já nos indicam uma forte articulação entre o sexo de um corpo e o gênero deste corpo, articulação essa que assume relevância para a viabilidade cultural e política não apenas dos corpos, mas também de seus sujeitos. Daí, lembrando das palavras de Butler e de Louro, o corpo e sujeito produzidos pelo usuário e, ao mesmo tempo, viáveis e inteligíveis para ele, em primeiro lugar, precisam ser de ‘homem’. Esta condição primeira está associada a características mais complexas, uma vez que este corpo sexuado de ‘homem’, como escreve o internauta, precisará ainda ser declinado em “macho” e/ou “másculo”, ou em ambos, como é o caso do usuário ‘20cmmachoativo’. Já de início notamos que o corpo sexuado precisa, imediatamente, ser pertencente de e ter seu gênero definido. O usuário narra a si próprio e ao seu corpo não como sendo qualquer homem, mas como sendo “másculo” a procura de outros homens

“machos”. Isso explicita o importante peso da significação de gênero que pode ser inscrita nos

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corpos, de modo que esses acréscimos adjetivos da ordem do gênero tornam o corpo sexuado

corpos, de modo que esses acréscimos adjetivos da ordem do gênero tornam o corpo sexuado

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