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ARMAMENTO DEFENSIVO

2.2.3.1 ARMAS PESADAS

Nas Tapeçarias de Pastrana vemos representadas sete bocas-de-fogo somente colocadas na tapeçaria O cerco a Arzila, desaparecendo depois na tapeçaria que representa a entrada na cidade, O assalto a Arzila. Parecem, portanto, ser peças apenas de bater, isto é, destruir muros da fortaleza, de forma a permitir a entrada na cidade450.

Na orla esquerda da tapeçaria O cerco a Arzila, quadrícula de localização B3, vemos uma boca-de-fogo montada sobre um reparo de duas rodas, pormenor que não deve ser descartado já que confere maior mobilidade à peça e maior leveza, devido às rodas constituídas por raios em detrimento das rodas compactas, pesadas e difíceis de movimentar. Este tipo de carretas era utilizada mais em contexto de campo aberto de batalha – pode ser, então, considerada artilharia de campanha451 – devido à necessidade de velocidade e manobra necessária numa batalha campal, do que propriamente de assédio, mais estanque e preciso. O reparo podia permitir alguma inclinação de forma a obter melhor alcance ao alvo, embora não possamos comprovar através da imagem representada na tapeçaria. A peça está colocada directamente sobre o berço sendo depois fixada por ferragens.

Neste caso específico, esta boca-de-fogo deslocável serve como um apoio móvel às bombardas estanques também representadas, protegendo o exército dos disparos inimigos com armas ligeiras. Esta peça possuía um alcance maior do que as armas inimigas ficando assim fora do seu alcance, além do mais o facto de ter um reparo com rodas, possibilitava-lhe mudar de posição rapidamente. Devido a esta movimentação constante, dispensava-se a utilização de manteletes. Dava-se preferência ao apoio de paveses, transportados por soldados auxiliares.

É considerado, portanto, um «trom encarrado» em ferro fundido, peça datado não antes de meados do século XV, carregado com pelouros do mesmo material, ou chumbo, através de retrocarga. A peça era, então, constituída por duas partes principais:

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Para o estudo da artilharia por propulsão de pólvora, seguimos de perto o trabalho do Tenente-Coronel Nuno Varela Rubim, publicado na Revista de Artilharia em 1987, e que trata especificamente das bocas- de-fogo representadas nas Tapeçarias de Pastrana. Veja-se RUBIM, Nuno Varela, op. cit., 1987.

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SANTOS, João Marinho dos, A Guerra e as Guerras na Expansão Portuguesa (séculos XV e XVI), [s.l.], Grupo de Trabalho do Ministério da Educação para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1998, p. 179.

165 o tubo e a culatra ou câmara móvel. Estas armas tinham uma cadência de tiro maior, já que podiam ter várias câmaras, geralmente três, devidamente carregadas e preparadas. Assim, podiam ser sucessivamente colocadas no cano para a arma ser disparada452. No entanto, o calor dos constantes disparos poderia provocar uma dilatação da garganta da peça, o que impedia o recolhimento da câmara até ao arrefecimento da arma453. Devido ao tamanho que apresenta, quando comparada com os homens à sua volta, deve ser considerada de reduzido calibre, até porque não faria sentido colocar uma peça de grandes dimensões sobre rodas pois a sua movimentação seria muito mais complicada.

Mais abaixo, vemos outra boca-de-fogo (quadrículas B/C 2/3), mais antiga que a anterior, de retrocarga, protegida por um mantelete e colocada sobre um banco ou reparo estático. Por estas características, tal como acontece na grande maioria das peças representadas, deve ser enquadrada entre a artilharia de sítio454. Pelo seu aspecto geral pode ser considerada uma bombarda. Apenas o seu pequeno calibre e os pelouros em tons de negro representados por debaixo do reparo, que indicam que são constituídos em ferro fundido, põe em causa esta identificação455. A intencional representação destes projécteis poderá estar ligada com o facto de o ferro fundido ser, neste período cronológico, o material preferido, em detrimento da pedra. O ferro fundido permitia peças de um calibre mais reduzido mas que disparavam pelouros com o mesmo peso que as de maior calibre.

Esta boca-de-fogo encontra-se com alguma elevação, através de um barrote de madeira colocado no próprio mantelete. Está presa ao banco apenas na frente e a parte dianteira é apoiada por um bloco de madeira que suporta o coice do disparo. Devido ao baixo raio de alcance, as peças estáticas tinham de se aproximar mais das muralhas e por isso necessitavam de uma protecção extra aos seus homens.

À esquerda da fortificação, está desenhada uma peça geminada, isto é, com duas bocas-de-fogo no mesmo reparo (quadrículas de localização C/D3). Tipologicamente devem ser consideradas bombardas e são mais antigas do que as peças apresentadas anteriormente. A opção por este tipo de arma tem a ver com a cadência de tiro, já que

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DUARTE, Luís Miguel, op. cit., 2003 (a), p. 352.

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MONTEIRO, João Gouveia, op. cit, 2003, pp. 181-182.

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SANTOS, João Marinho dos, op. cit., p. 179.

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Alguns autores defendem que os pelouros feitos de ferro fundido eram pouco utilizados devido à sua fraca qualidade. Assim, era usada a pedra, mais barata e fácil de moldar, para as peças de grande calibre e o chumbo, de fácil fundição, para as de reduzido calibre. O emprego do chumbo apenas para as peças de pequeno calibre tem, sobretudo, a ver com o preço elevado deste material. Veja-se MCLACHLAN, Sean,

166 duas bocas permitiam um tiro duplo, ainda que fosse difícil dispará-las em simultâneo. No entanto, quando alinhadas com eixos muito semelhantes, podiam bater quase no mesmo local da muralha, o que trazia grandes benefícios para o tiro de brecha. São, tal como as anteriores, de retrocarga e têm as câmaras colocadas e prontas a disparar. Um barrote de madeira evitava o movimento do disparo. Neste caso, não foram representadas ferragens para suportar a peça, o que indica que o próprio reparo foi adaptado para as colocar.

A acção dos artilheiros é bem visível nas peças geminadas. Vemos o combatente da retaguarda com o dedo indicador a tapar o ouvido da boca-de-fogo, para impedir que alguma fagulha ou outro tipo de material inflamado entre no tubo, o que podia provocar um disparo indesejado. O artilheiro da vanguarda, junto ao mantelete, poderá estar a verificar a colocação das câmaras. Ambos se apresentam completamente armados, não destoando do restante exército, com excepção dos braçais e das manoplas, evitando, assim, a criação de fagulhas.

No centro da composição (quadrícula C/D/E 6) surge a boca-de-fogo mais pormenorizada das Tapeçarias de Pastrana, sendo identificada como uma «bombarda grossa», e enquadra-se nas peças mais antigas da tapeçaria, provavelmente do segundo quartel do século XV. Ao contrário das anteriores, é de antecarga, possuíndo uma câmara já incorporada. A alma é constituída por barras longitudinais abraçadas por várias aduelas que as mantêm juntas sendo, a última delas, mais maciça. Na zona da câmara, isto é, na parte traseira da peça, o aro principal é apoiado por um de menor dimensão, de forma a reforçar esta fracção da peça. A sua alma é mais estreita na zona da câmara e vai-se alargando até à boca evidenciando, portanto, um formato troncocónico. Nesta não encontramos cavilhas de suporte, o que implicava que o reparo se adaptasse ao tubo da peça. Vemos que as paredes do tubo são ainda grossas, indicação de que a arma é mais antiga, pois esta característica tem o objectivo de evitar a explosão do tubo devido à sobre-pressão, algo bastante vulgar aquando da introdução da artilharia456.

À esquerda da bombarda grossa, surge um artilheiro que segura um ferro incandescente, com a ponta dobrada, que servia para ser inserida no ouvido da boca-de- fogo e provocar o disparo do pelouro457. A necessidade de manter este ferro ao rubro

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RUBIM, Nuno José Varela, op. cit., 2000, pp. 231-232.

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167 obrigava a existência de uma forja acesa, que tinha de ser manejada cuidadosamente, já que poderia provocar a explosão da própria peça. Infelizmente, estas forjas não foram representadas junto a nenhuma das peças.

A quinta boca-de-fogo aqui observada (quadrículas D/E 7/8) é a mais moderna de todas, pois pela coloração que apresenta, bem diferente das restantes, será uma peça em bronze, conhecido na época, simplesmente, como «metal».

A utilização do bronze nas armas pirobalísticas apresentava várias vantagens, quando comparado com o ferro forjado. Tinha uma conservação mais simples e duradoura, um fabrico fácil e rápido, já que a fundição deste material podia ser realizada em vários moldes em simultâneo, tendo uma maior resistência a pressões elevadas, dando lugar a uma abertura no local em vez de provocar uma explosão. Este comportamento era muito vantajoso para a pólvora granulada, que tinha uma pressão mais elevada que a tradicional, mas com uma combustão progressiva, evitando a explosão da peça e lançando o pelouro com uma velocidade mais elevada458. O bronze utilizado na artilharia tinha uma proporção maior de cobre e menor de estanho, como acontecia no fabrico de sinos, podendo-se, assim, transformar os fabricantes responsáveis pelos sinos em fabricantes de bocas-de-fogo. Permitia ainda, em caso de necessidade, derreter os sinos para conceber a artilharia459. O bronze era, no entanto, mais caro do que o ferro, devido à utilização do cobre na sua composição460.

A peça tem um formato oitavado, característica distintiva das peças oriundas de França e do Ducado da Borgonha no século XV. É de pequeno calibre e de retrocarga, sendo identificada como uma colubreta. Tinha um alcance superior às bombardas e, por isso, podia estar mais afastada das muralhas, longe do alcance do tiro inimigo e sem necessitar da protecção do mantelete. O reparo é muito simples, o que poderia antever a movimentação da peça em campo de batalha.

As últimas duas bocas-de-fogo representadas (quadrículas C8 e B/C 8) são semelhantes às bombardas anteriormente descritas. Uma delas não tem protecção de mantelete (quadrícula C8) o que pode ter a ver com problemáticas compositivas da tapeçaria, ou com o facto de o artista querer apresentar outra forma de protecção da artilharia – os paveses –, que vemos do lado direito da peça. A outra é administrada por dois artilheiros e protegida por um mantelete. Nenhuma mostra cavilhas de sustentação.

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IDEM, ibidem, pp. 237-238.

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CONTAMINE, Philippe, op. cit., 1984, pp. 181-182.

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168 Dentro da cidade de Arzila não existe qualquer peça de artilharia. Este facto, pouco provável, vai ao encontro do que dizem, ou omitem, as crónicas que relatam a conquista de Arzila, que não fazem qualquer menção à artilharia moura. No entanto, durante a centúria de quatrocentos era pouco provável que uma cidade com esta importância não possuísse permanentemente bocas-de-fogo para proteger a fortificação. O número de peças que cada uma teria, tinha a ver com a riqueza da cidade e/ou com a importância estratégica da mesma461. Sendo uma cidade costeira e vizinha de Ceuta e Alcácer Ceguer, e com alguma importância comercial, não faria sentido possuírem apenas armas de fogo portáteis, que garantiam uma defesa muito limitada. Para além disso, a presença de troneiras e canhoneiras na base da muralha, ainda que sem nenhuma delas apresente uma boca-de-fogo, denuncia a provável existência de peças de artilharia.

Já no que diz respeito à cidade de Tânger, a ausência de bocas-de-fogo também se verifica. Nas campanhas portuguesas em África, pelos menos entre 1415 e 1464, foi variado o armamento capturado aos mouros: adargas, armas, bestas, dardos, escudos, espadas, freios, pez, pólvora, selas, terçados, virotões e bombardas. O que comprova a existência de todas estas armas entre os muçulmanos e, especificamente, de artilharia. Neste caso, tratando-se de uma cidade abandonada, este facto fará bem mais sentido. Através da cronística sabemos que foram deixadas duas bombardas na cidade que caíram nas mãos dos portugueses:

«E ao outro dia o dito D. João, sem alguma contradição entrou na cidade, em que achou certas bombardas grossas, e muita outra artilharia e polvora, a que os mouros por desacordo e cegueira, ou por causa mais seu damno não poseram o fogo, e o punham andando ás palhas e cousas pequenas das casas.»462

Apesar de condicionadas por variados factores, como o vento, a quantidade e qualidade da pólvora utilizada, o peso dos pelouros, o calibre e comprimento de tubo das armas, o alcance genérico das peças apresentadas deveria rondar os 700 a 1300 metros463. As tapeçarias são um exemplo perfeito da renúncia ao gigantismo das peças de artilharia, preferindo-se armas robustas mas de fácil transporte e manobra, com uma

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CONTAMINE, Philippe, op. cit., 1984, p. 255.

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PINA, Ruy de, Chronica de El-Rei D. Affonso V, cap. CLXVII, p. 66.

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169 cadência de tiro razoável, disparando, assim, pelouros proporcionais ao calibre da peça e propulsados por uma quantidade maior de pólvora464.

2.2.3.2.