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Arquitetura, ambientes e cores na Antroposofia

5 RESULTADOS DA PESQUISA E ANÁLISES

5.1 Resultados preliminares

5.1.2. Arquitetura, ambientes e cores na Antroposofia

Apresentam-se a seguir imagens externas e de ambientes internos de duas construções de instituições antroposóficas do Brasil que não estão ligadas à educação. Percebem-se nelas características formais que as alinham visualmente apesar de serem estabelecimentos com finalidades distintas. No capítulo de conceitos teóricos da Antroposofia, apresentou-se o Goetheanum, sede da

Sociedade Antroposófica Universal em Dornach, Suíca, e se comentou acerca das características visuais da sua arquitetura.

A B

Figura 96 - (A) fachada do prédio da SAB, e (B) varanda do primeiro andar da SAB. Fontes: o autor (mar. 2014).

Algumas escolas Waldorf também reproduzem estas características visuais em suas construções, como se verá em resultados específicos. Estes resultados preliminares, no entanto, trouxeram a compreensão que estas características visuais não fazem parte do repertório específico da pedagogia Waldorf, mas do repertório de características visuais da Antroposofia.

Na pesquisa de campo no prédio da SAB, tomou-se contato direto com as características formais da sua arquitetura. Como se pode verificar, a fachada do prédio (figura 96, imagem A) apresenta linhas não ortogonais, a abertura das janelas têm ângulos inclinados (imagem B), a escadaria apresenta um traçado irregular, com quebras propositais na linearidade dos guarda-corpos, o corrimão tem madeira, principalmente na parte que tem contato com as mãos, apesar da estrutura metálica (figura 97, imagem A), e o salão de reuniões (figura 97, imagem B) apresenta linhas não ortogonais com planos inclinados nas paredes e no teto, que criam uma

configuração de volumes instigantes. Existe o uso de concreto e de metais, mas existe muito uso de madeira nos ambientes internos.

A B

Figura 97 - Ambientes internos da SAB: (A) escadaria, e (B) salão de reuinões. Fontes: o autor (mar. 2014).

Na entrevista realizada no interior do edifício da SAB, com seu presidente, o arquiteto Michael Emil Mösch, ao lhe ser perguntado se os edifícios das instituições antroposóficas apresentavam sempre linhas não ortogonais, os planos inclinados e os chanfros, respondeu:

Muitas vezes sim, mas isso depende um pouco dos arquitetos. Esse espaço aqui (referindo-se à sede da SAB), por exemplo, a gente vê esses gestos, essas formas arredondadas, tem aqui, tem ali. O ângulo reto também está presente, né? Tem ângulo reto aqui, mas em outros pontos, não. Isso tem a ver, outra vez, com essa tentativa do arquiteto se expressar num movimento. A arquitetura é uma arte curiosa, na verdade. A arquitetura, do meu ponto de vista, é pegar a essência da arquitetura... eu gosto de falar isso assim - os outros arquitetos muitas vezes não concordam -, mas a arquitetura, na minha visão, na verdade, é uma arte que convida, que apela ao movimentar-se (informação verbal)151.

Mösch continuou sua explicação, relacionando o projeto dos edifícios com a movimentação das pessoas nos espaços interiores, que lhe é, particularmente, importante. Nesse sentido, mencionou os espaços das escolas:

Na cidade, no urbanismo... que a gente faz? A gente se movimenta de acordo com a estrutura, de acordo com a configuração da cidade... não é verdade? E a mesma coisa acontece dentro da arquitetura, como a gente se movimenta de um espaço para o outro, de acordo com o que o arquiteto nos colocou à disposição de se deslocar de um espaço para o outro... por uma escada, por um corredor. E agora se você, como criança, circula num corredor que tem formas vivas, orgânicas... dá para você imaginar que, nesse movimentar-se, essa sensação, essa vivência, esse sentimento... a relação de sentimento com o espaço é diferente do que aquele corredor que é reto e ortogonal. Então, outra vez, esse apelo ao movimentar-se de forma viva e orgânica (informação verbal)152.

Nos resultados específicos, encontraram-se escolas, como o caso do Colégio Waldorf Micael, cujos corredores formam espaços interessantes em função do seu projeto, como argumentou o arquiteto Mösch. Mas também se encontraram escolas cujos corredores são comuns, porque ocupam prédios que não foram projetados especificamente para estas escolas, como é o caso da Escola Waldorf Francisco de Assis.

Com relação ao uso do concreto, presente no edifício da SAB, mas que já existia nas construções antroposóficas desde os primórdios, com o segundo Goetheanum, Mösch comentou que não é só a madeira que permite trabalhar formas fora da ortogonalidade:

É.... de transformar o concreto, por exemplo. O concreto não precisa ser um material que só... que está condicionado à forma ortogonal. Esse concreto pode ser dinâmico, pode ter expressões de formas com muito movimento (informação verbal)153.

Apresentam-se, a seguir, imagens obtidas da pesquisa pelos meios

eletrônicos da Clínica Tobias em São Paulo, em que se notam as quebras das linhas ortogonais (figuras 98 e 99) e a presença de tijolo aparente e de madeira nos pisos, nos móveis, nos corrimãos, entre outros usos (figura 100).

152 Informação fornecida por Mösch em entrevista, em 19 mar. 2014.

A Clínica Tobias foi fundada em 1969 como o primeiro centro médico de tratamento antroposófico do Brasil e da América do Sul pela médica brasileira

Gudrun Burkhard e do industrial Pedro Schmidt. A clínica voltou-se para a expansão do movimento médico antroposófico, formando novos médicos e profissionais da área de saúde, dando origem à Associação Brasileira de Medicina Antroposófica (ABMA).

Figura 98 - Fachada da Clínica Tobias. Fonte: <www.clinicatobias.com.br>. Acesso em 1 dez. 2014

Figura 99 - Detalhes internos. Fonte:<www.clinicatobias.com.br>. Acesso em 1 dez. 2014.

Figura 100 - Detalhes internos. Fonte:<www.clinicatobias.com.br>. Acesso em 1 dez. 2014.

Em relação às escolas Waldorf, no Brasil e no mundo, existe uma variedade grande da arquitetura com características muito diferentes entre si, desde as escolas alinhadas com essas características visuais da Antroposofia, com ângulos não

ortogonais e planos inclinados, até aquelas com características comuns, seja porque o projeto não seguiu estes preceitos antroposóficos, seja porque se adaptaram a

construções pré-existentes. A pesquisa não se aprofunda na arquitetura das

instituições antroposóficas, porque o interesse está relacionado com seus aspectos visuais que contribuiriam para a construção da identidade visual das escolas

Waldorf. A pesquisa também não se aprofunda no que se chama de arquitetura antroposófica, mas se utiliza deste termo porque ele é largamente utilizado pelas pessoas entrevistadas.

Figura 101 - Planta e maquete da Vancouver Waldorf School, da H. S. Chase Architect Inc. Fonte: < http://hschase.com>. Acesso em 15 dez. 2014.

Para a compreensão de determinadas características visuais que aparecem nos espaços das escolas, apresenta-se uma planta e maquete de um projeto de uma escola Waldorf em Vancouver, no Canadá (figura 101).

Pela planta e maquete da Vancouver Waldorf School, pode-se perceber a malha não ortogonal da sua planta e a presença dos planos inclinados, inclusive da cobertura que apresenta um desenho peculiar com quebras e cortes. Estas

características visuais foram encontradas em prédios de algumas escolas

pesquisadas, principalmente no prédio do auditório e do jardim de infância da Escola Waldorf Rudolf Steiner - projeto do arquiteto entrevistado, Michael Emil Mösch -, e do prédio do ensino fundamental do Colégio Waldorf Micael.

Mösch, ao ser perguntado acerca da importância da estética desses prédios, respondeu:

Sim, tudo é importante. Tudo é importante! Sempre também considerando essa questão da beleza, que, na verdade, todo arquiteto considera. Isso não é uma característica exclusiva da arquitetura antroposófica orgânica. Mas a harmonia das formas, as proporções entre o que, por exemplo, é fechado e aberto, e assim

por diante. Essa harmonia é extremamente motivadora e incentivador do desenvolvimento da alma (informação verbal)154.

Mösch prosseguiu, fazendo conexões entre o desenho das salas de aulas e os aspectos pedagógicos:

Mas a mesma coisa, a gente poderia falar do professor. Que

ambiente o professor precisa para realizar de forma boa, favorável, o seu trabalho pedagógico de ensino e educação? É uma pergunta que podemos considerar na arquitetura. Daí se a gente entrar, só... rapidamente, no último aspecto, que eu gostaria de colocar, que é o quarto - é o mais difícil, que é o significado da forma arquitetônica. E aí, existe pouca pesquisa, mas aí eu já falei uma vez pra você, na nossa primeira conversa... nas escolas Waldorf, se você abrir

projetos, você, em geral, vai se deparar com a forma da sala de aula. Na forma de um trapézio que se abre em direção ao professor... tá? (informação verbal)155.

Mösch explicou porque a pedagogia Waldorf preconiza salas de aulas em formatos não retangulares:

Então, esse trapézio, ele é variado de acordo com a idade da criança. Então, no 1º ano de uma escola Waldorf, esse trapézio tem uma característica mais arredondada. E, no 12º ano, esse trapézio tem mais uma característica mais fragmentada. Você tem espaços onde pequenos grupos podem trabalhar... e depois, um espaço maior onde se junta esses trabalhos dos grupos menores. E porque o trapézio? Essa é uma grande pergunta dessa arquitetura de escolas Waldorf. Porque o trapézio, diferentemente do retângulo que a escola pública do estado de São Paulo, na verdade, tem uma planta

quadrada, de 7,20 m x 7,20 m. Todas as escolas públicas têm essa medida para as salas.... E o que significa esse ambiente de 7,20 m x 7,20 m para o desenvolvimento da alma da criança? Ou do “eu” desse ser que está por vir? (informação verbal)156.

Mösch relacionou o formato das salas de aula com a pedagogia Waldorf e a pedagogia com seus aspectos espirituais, que estão ligados à Antroposofia:

E, esse trapézio que se abre em direção ao professor, ele dá condições do desenvolvimento da vontade da criança, do aluno, do adolescente, nesse espaço que se abre para o mundo, e não se fecha, e nem tem essa indiferença do retângulo ou do quadrado. E, ao mesmo tempo, agora, do ponto de vista do professor, que sempre olha, quando se dirige para as crianças, nesse trapézio, que se fecha em direção aos alunos. E esse fechar é um apelo para o professor de atingir, alcançar o aspecto singular, individual, de cada aluno

presente na sala de aula. O trapézio, uma forma arquitetônica para a

154 Informação fornecida por Mösch em entrevista, em 19 mar. 2014.

155 Idem. 156 Idem.

sala de aula que traz, na consciência, a liberdade e essa qualidade singular de cada ser presente nesse espaço (informação verbal)157.