3 ANTROPOSOFIA, PEDAGOGIA E AS ESCOLAS WALDORF
3.1 Rudolf Steiner
A pedagogia Waldorf é uma aplicação prática da Antroposofia. Para se compreender os seus fundamentos teóricos, é necessário abordar os preceitos teóricos da Antroposofia porque a pedagogia Waldorf está intimamente relacionada à Antroposofia.
A pedagogia Waldorf resulta da visão da Antroposofia acerca do desenvolvimento infantil. Entretanto, isso não significa que se lecione Antroposofia nas escolas Waldorf; pelo contrário, é respeitada a liberdade espiritual de alunos e pais. A pedagogia Waldorf apenas empresta os valores antroposóficos do homem como indivíduo e do homem como grupo; e, em primeiro lugar, no encontro entre aluno e professor (CARVALHO, 2012, p.83).
Antecedendo-se aos conceitos teóricos, no entanto, faz-se a seguir uma breve apresentação do seu fundador e o contexto em que ele viveu. Sua biografia, sua atuação e o momento histórico vivido por ele ajudam a compreender os parâmetros principais da Antroposofia.
3.1 Rudolf Steiner
Rudolf Steiner (figura 73) viveu entre 1861 e 1925, e sua primeira atividade profissional foi como editor da obra científica do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe, em 1882. Mas Steiner teve atuação variada em áreas distintas – ele foi filósofo, jornalista, pedagogo, entre outras atuações.
Segundo Wenceslau et al (2014), o contexto no mundo acadêmico deste período vivido por Steiner era de vigorosa atividade intelectual, artística e social. A intelectualidade da época vivia um debate epistemológico clássico entre posições materialistas e idealistas.
Enquanto materialistas defendiam que o conhecimento deveria advir apenas da pesquisa dos fenômenos captados pelos sentidos físicos, idealistas afirmavam que o conhecimento e realidade são
experiências do espírito humano e que sua compreensão autêntica só seria possível por um estudo não empírico, reflexivo e filosófico deste universo subjetivo humano, visto não se tratar de algo verificável com os sentidos físicos (WENCESLAU et al, 2014).
Steiner postulou acerca da possibilidade de se obter o conhecimento ao mesmo tempo espiritual e objetivo dos fenômenos, embora reconhecesse ser impossível o estudo da dimensão espiritual apenas pelos sentidos físicos. Sua
posição, como um idealista, mas objetivo, foi baseada na metodologia de estudos de Goethe que consistia na observação disciplinada, rigorosa e sem julgamento do mundo físico, através da qual, também seria possível por meio da intuição
reconhecer os fundamentos espirituais dessa realidade. Steiner ampliou o método de Goethe, levando esta metodologia também para os campos da arte, da filosofia, da psicologia, da história, da antropologia, elaborando uma abordagem própria, com traços particulares: a Antroposofia (WENCESLAU et al, 2014)
Dessa forma, a partir do início do século XX, essa ampla atividade cultural e social de Steiner culminou na fundação da Antroposofia. Sua vasta obra abrange textos e dissertações, anotações e cartas, esboços e modelos artísticos, além do conteúdo de alguns milhares de palestras registradas através das transcrições dos ouvintes.
3.2 Antroposofia
Segundo escreveu Bach (2010) em seu artigo, Steiner nunca foi unanimidade no meio acadêmico; sua reputação está mais associada às atividades que se
basearam em suas ideias, como a pedagogia Waldorf, a agricultura biodinâmica, a medicina antroposófica, entre outros.
Uma afirmação de Steiner e de seus seguidores, que chegou à atualidade, quase cem anos após a sua fundação, é a de que a Antroposofia se trata de uma ciência espiritual:
A Antroposofia é ciência! Mas é uma ciência que ultrapassa os limites com os quais até agora esbarrou a ciência “comum”. Ela procede cientificamente pela observação, descrição e interpretação dos fatos (LANZ, 1997, p.16).
Afirmação esta que causou polêmica, principalmente nos meios acadêmicos, da qual este estudo não vai se aprofundar porque não tem relevância para o objeto desta pesquisa.
Para Lanz (1997), não se trata de uma teoria, ou de “um edifício de afirmações”, porque ela admite e reconhece todas as descobertas das ciências naturais comuns, mas as completa e as interpreta, sobretudo com efeito nos
domínios da vida prática, trazendo contribuições e inovações. Seus princípios estão presentes em áreas tão distintas como na medicina, na farmacologia, na pedagogia, nas artes, nas ciências naturais e na agricultura, onde fez contribuições de grande importância, havendo literatura abundante. A Antroposofia não exige fé das pessoas, porque não se limita a afirmar e expor resultados, mas indica o método e o caminho cognitivo a se seguir para se alcançar o conhecimento dos fatos expostos.
Segundo Lanz (1997, p.16), Antroposofia significa “sabedoria do homem”, mas que não se trata apenas de antropologia, mas de uma “ciência do Cosmo”, tendo como centro e ponto de apoio, o homem.
A pedagogia Waldorf é uma aplicação prática da Antroposofia. Além de filosofia, embora não seja religião, a Antroposofia se apresenta como ciência espiritual e traz conceitos acerca da espiritualidade que estão presentes nesta pedagogia e nestas escolas. São peculiares seus conceitos de alma e de
reencarnação, conceitos existentes em muitas religiões. Segundo Lanz (1998, p.28):
Todos os seres humanos, inclusive o homem, encontram-se num contínuo processo de evolução. No que se refere ao homem, dependerá de cada indivíduo a conquista, graças ao seu livre-
arbítrio, dos estados de moralidade e de desenvolvimento mental que constituem a “meta” de sua existência humana. Para esse
desenvolvimento, uma vida terrestre é, sem dúvida, insuficiente. A pesquisa espiritual da Antroposofia confirma o fato de haver, para cada eu humano, uma sequência de vidas terrestres que lhe permitem encarnar-se em muitas fases da evolução terrestre.
Com relação ao conceito de alma, a Antroposofia oferece a seguinte
explicação: “Os seres orgânicos possuem, além de seu corpo mineral ou físico, um segundo corpo não físico que permeia o corpo físico. Esse segundo corpo é o conjunto das forças que dão vida ao ser e impedem a matéria de seguir suas leis químicas e físicas normais” (STEINER, 2000, p.23). Esse segundo corpo foi chamado de “corpo etérico”, que não existe nos minerais, mas existe nas plantas, nos animais e no homem.
Devemos perguntar se o homem é apenas um animal mais evoluído – com certas faculdades já existentes neste último, porém mais aperfeiçoadas e desenvolvidas -, ou se o homem é
fundamentalmente diferente de qualquer animal, possuindo algo mais que o distinga dele (STEINER, 2000, p.23).
Para a Antroposofia, somente o homem tem consciência de si próprio, e cada homem é diferente dos demais, sendo um ser único e singular (STEINER, 2000, p.23). É contrário à teoria evolucionista, segundo a qual, o homem descenderia em linha reta do animal - teoria proposta por Charles Robert Darwin (1809-1882), naturalista britânico, que alcançou fama ao convencer a comunidade científica da ocorrência da evolução e propor uma teoria para explicar como ela se dá através da seleção natural.
Todo o sentido da existência humana é, portanto, espiritual e moral: somos chamados a atingir, conscientemente e em plena liberdade, um estado superior de harmonia espiritual. Todas as constelações de nossa vida – nacionalidade, religião, doenças, encontros,
problemas, busca de felicidade etc. – são apenas uma “encenação” de primeiro plano; o desenvolvimento espiritual e moral é a única meta que realmente conta. Cabe-nos fazer um esforço para
aproximar-nos cada vez mais, através de vidas sucessivas, de uma imagem prototípica divina do ser “homem” (STEINER, 2000, p.29).
Segundo Lanz (1998), as escolas Waldorf não são centros divulgadores da Antroposofia. No entanto, elas estão diretamente ligadas porque a pedagogia Waldorf é uma das suas aplicações práticas assim como existe a aplicação prática em outras áreas como na medicina, na agronomia, na administração, entre outras áreas. Os preceitos da Antroposofia que inclui a sua visão acerca da espiritualidade do homem estão presentes no cotidiano da escola, não se podendo dissociá-los. Não se compreende os preceitos filosóficos da pedagogia Waldorf sem se
3.3 Goethe
Segundo o artigo de Sant’Ana et al (2010, p.122), a pedagogia Waldorf é inspirada principalmente por pensadores românticos como Goethe e Schiller. Em relação ao primeiro, pelo seu método de análise da fenomenologia, que está acima de qualquer lógica racionalista: “Esse pensador e literato compreendeu com
brilhante poesia a indissolúvel relação do homem com a natureza e, sobretudo, com sua própria natureza (suas emoções e sentimentos)”.
Johann Wolfgang von Goethe (1749 – 1832) é considerado o mais importante escritor alemão, cuja obra influenciou a literatura de todo o mundo – Fausto é sua obra mais conhecida. Além de escritor e pensador, fez incursões no campo da ciência. A Antroposofia é inspirada no método de observação dos fenômenos desenvolvido por Goethe, no qual a parte subjetiva do observador é também considerada.
Rudolf Steiner elege Fausto de Goethe como um dos temas centrais para divulgação da Antroposofia, por ele elaborada para satisfazer a busca de conhecimento do homem moderno a respeito de si mesmo e de suas relações com todo o Universo, respondendo de forma adequada ao seu nível de consciência, às antigas e recorrentes perguntas do ser humano: Quem sou eu? De onde venho? Aonde vou? Qual é o sentido de minha existência? (BRAGA, 1999, p.10).
Possebon, (2009, p.30) escreve que Goethe desenvolveu, juntamente com sua obra literária, tão reconhecida mundialmente, uma extensa pesquisa científica abrangendo domínios tão distintos como a botânica, a zoologia, a mineralogia, a meteorologia, e principalmente, a teoria das cores. Ele também escreveu textos com caráter de investigação filosófica e sobre o método científico.
Quem terá compreendido a Arte como Goethe, com tanta
profundidade? Ninguém soube provê-la com tanta dignidade quanto ele, ao dizer: ”As obras elevadas de arte foram produzidas por seres humanos, como as supremas obras da Natureza, de acordo com leis verdadeiras e naturais”. Todas as arbitrariedades e falsas ilusões desmoronam – pois aqui só existem Necessidade e Deus (Steiner, 1988, p.35).
A Antroposofia tem relação direta com a vida, com todos os organismos, desde os seres unicelulares, vegetais, animais, até o ser humano. Ter vida significa ter movimento, estar em processo de transformação, em metamorfose. Segundo o site da SAB, as formas de um vegetal, em vez de planos retos, são compostas de
convexidades e concavidades, unidas e emendadas por curvas. Em relação às formas, seus preceitos se relacionam com o natural, evitando-se os planos ortogonais porque na natureza os planos são não ortogonais.
A Antroposofia, além dos profundos conceitos filosóficos e espirituais, tem ligação com o design e a arquitetura (figura 74). Em outubro de 2011, em
comemoração aos 150 anos do nascimento de Steiner, a Vitra Design Museum, localizado em Weil am Rhein, na Alemanha, organizou uma exposição da sua obra chamada “Rudolf Steiner – Alchemy of the Everyday”. A exposição reconheceu Steiner como um dos designers mais originais e fascinantes do século XX, tendo inspirado artistas como Mondrian, Kandinsky e Joseph Beuys.
Figura 74 - Exposição das obras de Steiner no Vitra Design Museum.
Fonte: <http://www.vitra.com/en-br/magazine/details/alchemy-of-the-everyday>. Acesso em 18 jan. 2015.
A exposição demonstrou Goethe como fonte de ideias para as teorias de Steiner sobre o simbolismo da cor e da metamorfose, a partir do qual ele
desenvolveu uma nova estética orgânica em arquitetura e design, posicionando Steiner como um dos fundadores-chave da arquitetura orgânica. Estas influências se reuniram em móveis e edifícios com formas cristalinas e curvas características, muitas vezes exibindo notáveis paralelos para as criações dos designers atuais.
Os pensamentos de Goethe estão presentes nos preceitos filosóficos da pedagogia Waldorf, principalmente com relação ao seu método de análise e de produção de conhecimento pela observação da fenomenologia.