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5 AUTOR COMO PRODUTOR LO-FI EM RECIFE

5.4 O Arruda

O Arruda90 é uma faixa classificada sonicamente como lo-fi e disponibilizada em formato digital MP3 (MPEG-3) 320kbps no blog www.recifelofi.blogspot.com através da coletânea Recife Lo-Fi Volume IV no ano de 2014. A faixa foi inteiramente gravada e produzida pelo músico de nome artístico Yanna Lee (o músico preferiu usar apenas o pseudônimo) em seu home studio, sendo ele autor – também em parceria com o poeta e letrista pernambucano Henrique Viana Brandão – e produtor da faixa. Iniciaremos com uma breve análise de espectro sonoro em comparação com a faixa de referência padrão.

90 YANNA LEE. O Arruda. Coletânea Recife Lo-Fi Volume IV, 2014. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=wwXpf1UKj0I. Acesso em: 12 jul. 2019.

Figura 23 – Análise de espectro sonoro da faixa O Arruda

Fonte: Análise T-Racks Master Match – REAPER / Arquivo pessoal

A faixa O Arruda (em cinza) apresenta um desenho masterizado bem acima (cerca de 10 decibéis) da faixa de referência padrão (em amarelo) em todas as zonas de frequência, convergindo parcialmente apenas na região em torno de 100Hz (região de graves), evidenciando uma clipagem91 por conta do volume de decibéis tanto nas altas frequências – entre 1kHz e 15kHz – quanto em subgraves – entre 50Hz até 20Hz, evidenciando a ausência de trabalho de mixagem e masterização. Sobre o espaço físico do home studio onde a faixa foi gravada:

Utilizei o quarto em que guardo meus livros. E fazia isto, no mais das vezes, junto dos meus bichos e, para completar, bebericando vinho. Era divertido. Tudo que gravei foi extremamente divertido. Considero-me uma excelente companhia para mim mesmo e, vejo hoje em dia que Yanna Lee era uma “festa” que eu me dava pelas madrugadas. Como costumava trocar o dia pela noite, o isolamento acústico foi a própria atmosfera da madrugada. Estive sempre viciado por essa atmosfera que atravessa a noite. Inclusive, o “ar” e a “temperatura” da madrugada também eram de meu interesse. Não me refiro à temperatura e à atmosfera desfrutada pela boemia, nos bares e na vida noturna, mas sim, a temperatura que encontramos na divagação e na perambulação. Meu isolamento acústico era esse e apenas esse. Por vezes um barulho ou outro atravessava, mas eu não me importava porque, no fundo, nunca achei realmente que alguém – salvo os amigos e conhecidos – fosse ouvir as tralhas que sempre gravei. Tinha lá um vizinho que insistia em fazer barulho, mas percebi que tal empecilho ocorria mais nos fins de semanas. Por isso, as gravações eram em dia de semana. Ocorriam após às 2:00h, não apenas do “Arruda”, música que me diverti muito gravando, como de todas as outras que eventualmente gravei. Curiosamente, não usava a madrugada apenas para gravar, mas também, para ensaiar. Hoje em dia, muito do que escrevi foi reinterpretado por um amigo que possui uma banda mais “formal”. É engraçado ver minhas tralhas resinificadas numa estrutura pop. (YANNA LEE, em entrevista ao autor, 2019).

91 O termo “clipar” é bastante difundido na produção de áudio e se refere, grosso modo, à um som que satura ou distorce com o alto ganho (ou volume). “Se o ruído de fundo estabelece um patamar mínimo para o nível de sinal que o equipamento pode manejar, por outro lado há também um limite máximo para o sinal de áudio, limite este que ultrapassado trará consequências muito ruins, como a distorção e, em alguns casos, até a queima de componentes do sistema de áudio”. BERSAN, Fernando. Estrutura de Ganho – Parte 1 – Conceitos. Somaovivo.org Disponível em: https://www.somaovivo.org/artigos/estrutura-de-ganho-parte-1-conceitos/. Acesso em: 19 jul. 2019.

Notamos aqui as instalações físicas do home studio em um quarto onde eram guardados livros e circulavam animais domésticos. De fato, nenhum estúdio profissional teria essas configurações como sala acústica para gravação. Sobre os equipamentos de gravação:

Na época que gravei O Arruda eu já usava um Fantom-X da Roland, por sinal, um excelente workstation. E também, um pequeno gravador portátil da Roland chamado “microbr”. Gravei muitas coisas assim. Mas antes, antes de usar esses fabulosos apetrechos, utilizei teclados vagabundos (de marcas duvidosas) e aparelhos de som vendidos com propósitos totalmente distintos de gravação. Houve uma época, e isso é importante dizer, que eu me dirigia até um estúdio dum sujeito muito engraçado chamado Proclo. Uma espécie de figura “típica” da vida em Recife. Desses caras que acreditam ser música a singela e explícita boa execução do instrumento. Eu, como de costume, avacalhava nos arranjos e, por isso, Proclo se divertia horrores me vendo gravar. Porém, a maior parte das coisas foram feitas num quarto onde eu guardei livros e revistas. Nunca usei notebook ou computadores para mixar e masterizar. Sempre tive enorme preguiça de perceber pormenores da engenharia de som. Meu interesse era deixar “confessa” uma experiência espiritual e emotiva. Jamais comprei um microfone para captar minha voz. Sempre utilizei a captação dos próprios aparelhos de gravação. (YANNA LEE, em entrevista ao autor, 2019).

Verificamos a completa ausência de mixagem e masterização da faixa O Arruda, algo impensável para qualquer produção musical profissional, e característica única em relação à todas as faixas analisadas nesse estudo. Neste caso temos a ausência completa de uma DAW profissional, notebook ou PC para a produção musical, impossibilitando a execução de etapas chave da produção musical como a mixagem por canal e a masterização respeitando a clipagem sonora. Verificamos a utilização de alguns equipamentos considerados semiprofissionais e outros classificados como “vagabundos”. De fato, como verificamos na análise de frequência acima, os padrões de clipagem estão acima do padrão, saturando a faixa em alguns momentos. Estes elementos não são característicos de uma gravação profissional. Também é importante notar a não utilização de microfones para a captação de voz. A ausência de equipamentos adequados para a produção musical coloca um problema técnico grave para o músico; deve buscar soluções técnicas através de novas formas de produção. O tratamento amador operativo da produção da faixa é o indicador cultural que utilizaremos como sua classificação. Nesse sentido, Yanna Lee – enquanto autor e produtor – atribui uma nova função aos equipamentos que estão à mão (transformando o próprio teclado em estúdio, utilizando timbres pré- programados, bateria digital, sala de livros como sala acústica e a captação precária do microfone como assinatura estética). Na produção dessa faixa Yanna Lee desempenha o papel de um amador operativo e refuncionaliza tecnicamente esses equipamentos com base na bricolagem e improviso tecnológico. E assim, entrega a gravação de O Arruda feita com total autonomia. Nesse sentido, Yanna Lee realiza “a transformação de formas e instrumentos de

produção” e cumpre a exigência fundamental do autor como produtor: “não abastecer o aparelho de produção, sem o modificar (...)” (Benjamin, 1985, p.127).

Figura 24 – Home studio de Yanna Lee

Fonte: Yanna Lee

O resultado estético dessa operação é uma faixa característica do modo de produção musical lo-fi. Sobre essa estética sonora:

Fiz Lo-Fi sem saber que fazia Lo-Fi e, depois que muita gente me disse “isto é Lo- Fi”, passei a ouvir o tal do “Lo-Fi”. Foi então que identifiquei artistas como Stephen Jones (Babybird) e outros como John Maus. Hoje, se eu fosse dizer o que seria Lo-Fi, diria que se trata de psicanálise sonora. Ouço tulhas de Lo-Fi hoje em dia. (YANNA LEE, em entrevista ao autor, 2019).

Interessante notar que no caso de Yanna Lee, o produtor gravava suas faixas de uma forma amadora operativa, mas não tinha conhecimento de uma sigla que abarcasse este modo de produção, sendo alertado por várias pessoas que diziam que sua música era “Lo-Fi”, sendo este o gatilho para buscar informações sobre essa estética de produção identificada como uma “psicanálise sonora”. Sobre a ética DIY, máxima do faça-você-mesmo:

Tenho curiosidade de saber se as pessoas que fazem este tipo de produção são assim também em outras áreas. Porque, no meu caso, não sou Lo-Fi apenas na música. Sempre fui um bocado assim em tudo. É importante o “faça-você-mesmo” em muitas esferas da vida. Algo entre o Henry Thoreau e Santo Antão – esta coisa de tentar bastar-se a si mesmo. Experiência que era bastante comum no mundo antigo – basta se lembrar das muitas comunidades gnósticas e dos regimes de exílio que os próprios Santos se davam, vide São Jerônimo e os muitos sábios de toda parte – desde o extremo oriente, como Lao-Tse, ou Sidartha, mas também figuras curiosas como Diógenes, o cínico. No Mundo Antigo Existia isso, acho eu, de encarar a própria tragédia de maneira resignada – encarar a vida como uma jornada no deserto. Dizia o Pierre Hadot que a Filosofia, no Mundo Antigo, era um exercício espiritual – algo bastante “pessoal”. O que é produzir por conta própria? É também bastar-se a si mesmo. (YANNA LEE, em entrevista ao autor, 2019).

Assim, tendo em vista a produção teórica abordada no corpus de pesquisa e a coleta empírica analisada acima – O Arruda – é possível categorizar Yanna Lee como um autor- produtor contemporâneo.