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5 AUTOR COMO PRODUTOR LO-FI EM RECIFE

5.2 Do outro lado do lodo

Do outro lado do lodo88 é uma faixa classificada sonicamente como lo-fi e

disponibilizada em formato digital MP3 (MPEG-3) 320kbps no blog

www.recifelofi.blogspot.com através da coletânea Recife Lo-Fi Volume I no ano de 2010. A faixa foi inteiramente gravada e produzida pelo músico Matheus Mota em seu home studio, sendo ele autor e produtor da faixa. Iniciaremos com uma breve análise de espectro sonoro em comparação com a faixa de referência padrão.

Figura 19 – Análise de espectro sonoro da faixa Do outro lado do lodo

Fonte: Análise T-Racks Master Match – REAPER / Arquivo pessoal

A faixa Do outro lado do lodo (em cinza) apresenta um desenho bastante aproximado da faixa de referência padrão (em amarelo), revelando um grande empenho na etapa de mixagem e masterização por parte do autor-produtor utilizando os equipamentos que tem à mão. A análise comparativa apresenta algumas divergências na região entre 20Hz e 30Hz (excessos nas regiões graves) e diminuição na região ao redor de 50Hz (ausência de graves), assim como aumento ao redor de 1kHz (excesso nas regiões médio agudas), sendo praticamente estável em todo o restante do gráfico. Sobre o espaço físico do home studio:

A faixa foi gravada em julho de 2009, num quarto de cerca de 5m², onde eu morava em Salgadinho / Olinda / PE. Uma parte dos vocais foi feita, se não me engano, na suíte desse quarto, um banheirinho um pouco menor (MATHEUS MOTA, em entrevista ao autor, 2019).

Notamos nesse trecho da entrevista que as instalações físicas do home studio são mínimas. De fato, nenhum estúdio profissional trabalharia com essas dimensões para gravação.

88 MATHEUS MOTA. Do outro lado do lodo. Coletânea Recife Lo-Fi Volume I, 2010. Disponível em: https://soundcloud.com/wagnerbeethoven/coletanea-recife-lo-fi-faixa-6. Acesso em: 12 jul. 2019.

Notamos também o uso de um banheiro para a gravação das vozes. Sobre os equipamentos de gravação:

Um PC dual core bastante simples, baixo Yamaha Precision com problema no captador (mal possui graves), uma stratocaster da marca Michael e um teclado Casio bem simples, para os rhodes e sintetizador. Bateria programada e microfone branco de haste (provavelmente da marca Multilaser). Instrumentos de linha captados num pré-amplificador barato, provavelmente aqueles Beringher quadrados, prateados, com uma válvula dentro. O dispositivo mais simples que existia na época. (MATHEUS MOTA, em entrevista ao autor, 2019).

Verificamos a utilização de alguns equipamentos considerados amadores. Novamente o pré-amplificador citado é o Tube Ultragain da Beringher e um PC dual core “bastante simples” não são característicos de uma gravação profissional padrão. Também é importante notar as condições do baixo Yamaha Precision com problemas de captação sonora (que mal captava as regiões de frequências graves, o que caracteriza o instrumento), além do uso de um microfone de haste bastante amador. A ausência de equipamentos adequados para a produção musical coloca um problema técnico grave para o músico; deve buscar soluções técnicas através de novas formas de produção. O tratamento amador operativo da produção da faixa é o indicador cultural que utilizaremos como sua classificação. Nesse sentido, Matheus Mota – enquanto autor e produtor – atribui uma nova função aos equipamentos que estão à mão (transformando o PC comum em estúdio, o timbre defasado do baixo e a captação precária do microfone de haste em assinatura estética). Na produção dessa faixa Matheus Mota desempenha o papel de um amador operativo e refuncionaliza tecnicamente esses equipamentos com base na bricolagem e improviso tecnológico. E assim, entrega a gravação de Do outro lado do lodo feita com total autonomia. Nesse sentido, Matheus Mota realiza “a transformação de formas e instrumentos de produção” e cumpre a exigência fundamental do autor como produtor: “não abastecer o aparelho de produção, sem o modificar (...)” (Benjamin, 1985, p.127).

Figura 20 – Matheus Mota e seu home studio na praça do Derby, Recife

O resultado estético dessa operação é uma faixa característica do modo de produção musical lo-fi. Sobre essa estética sonora:

Hoje em dia acho esse termo bastante relativo. Uma gravação de estúdio pode soar Lo-Fi, dependendo das escolhas sonoras, mixagem, instrumentação, má masterização. A produção recente prova isso, e as vezes gera certas surpresas. Acho que convencionou-se associar o Lo-Fi ao tipo de gravação independente e caseira, mas os avanços citados continuam e a tendência é que com o repertório aprendido e as facilidades de softwares e técnicas de microfonação, as gravações comecem a ficar um hi-lo-fi, como gosto de chamar. (MATHEUS MOTA, em entrevista ao autor, 2019).

Interessante notar que, para além do determinismo tecnológico, o produtor evidencia o modo de fazer e operar os equipamentos, ou seja, como se dão as “escolhas sonoras” para soar desta ou daquela forma. Sobre a ética DIY, máxima do faça-você-mesmo:

É um resumo disso tudo… um esforço quase intuitivo e precário de uma série de pessoas que precisam expor algo que têm dentro de si, de alguma maneira. Acho que muito desse espírito parte da impaciência de esperar, esperar e planejar… aguardar o edital aprovar, aguardar o “ok” de alguém. No mundo do DIY, isso basicamente não existe. E é bom que não exista. Mas não associo, também, o conceito a uma relação direta com utilizar um equipamento precário. A precariedade é fruto das condições do momento. Acredito que a inquietação de arranjar completamente uma música deveria existir até se o artista eventualmente tiver acesso a estruturas melhores. Ver a música como um artesanato palpável, isso me interessa mais. (MATHEUS MOTA, em entrevista ao autor, 2019).

Assim, tendo em vista a produção teórica abordada no corpus de pesquisa e a coleta empírica analisada acima – ou seja, o artefato sonoro Do outro lado do lodo – é possível categorizar, no estudo de caso relativo à produção desta faixa, Matheus Mota um amador operativo, ou seja, um autor-produtor contemporâneo.