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3. O NEGÓCIO JURÍDICO PROCESSUAL

3.6. O ART. 190 DO CPC/2015: PAPEL E NATUREZA (CLÁUSULA GERAL DE

O art. 190 do CPC/2015, segundo o qual “versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo”, tem papel importante, mas não determinante na celebração de negócios jurídicos processuais atípicos (v. n. 3.3.5, acima).

As partes podem celebrar negócios jurídicos processuais atípicos não exatamente em razão do art. 190 do CPC/2015. A possibilidade de celebrar negócios jurídicos processuais atípicos é extraída dos fundamentos dos negócios jurídicos processuais (v. n. 3.5, acima). Exatamente por isso, atualmente diversos autores admitem, expressamente ou não, que seria possível extrair do art. 158 do CPC/1973 (correspondente ao art. 200 do CPC/2015) cláusula geral de negociabilidade processual atípica.

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Mais ainda, assim como a possibilidade de celebrar negócios jurídicos atípicos não depende da norma jurídica extraída do art. 425 do Código Civil, porque se trata de decorrência da liberdade (preâmbulo e art. 5.º, caput, da Constituição Federal), a

181 Conforme, por exemplo, Antonio do Passo Cabral, Convenções processuais, n. 1.4.6, p. 98; Bruno Garcia Redondo, “Negócios processuais: necessidade...”, n. 2, p. 393; Diogo Assumpção Rezende de Almeida, A contratualização do processo, n. 4.4, p. 215; Jaldemiro Rodrigues de Ataíde Jr., “Negócios jurídicos materiais e processuais...”, n. 1, p. 290; Leonardo Carneiro da Cunha, “Negócios jurídicos processuais no processo civil brasileiro”, n. 5.3, p. 68-69; Comentários ao Código de Processo Civil, vol. III, n. 3 ao art. 190 do CPC/2015, p. 53; Lorena Miranda Santos Barreiros, Convenções processuais e Poder Público, n. 3.1, p. 193.

possibilidade de celebrar negócios jurídicos processuais atípicos não depende do art.

190 do CPC/2015. Os negócios jurídicos processuais atípicos seriam admissíveis, ainda que inexistisse o art. 190 do CPC/2015.

Na França, não há regra processual positiva semelhante ao art. 190 do CPC/2015. Apesar disso e, como visto (v. n. 3.4, acima), a partir do final do século XX se tornou frequente a celebração de negócios jurídicos processuais atípicos.

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Na Itália, também não há regra processual positiva semelhante ao art. 190 do CPC/2015.

Apesar disso e segundo Luca Penasa, admite-se negócios jurídicos processuais atípicos.

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Fredie Didier Jr., nesse sentido, afirma que o poder de autodeterminação dos indivíduos, dimensão do princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1.º, III, da Constituição Federal), confere aos indivíduos, dentre outras liberdades, a liberdade de celebrar negócios jurídicos atípicos.

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Se assim é, o poder de autodeterminação dos indivíduos lhes confere também a liberdade de celebrar negócios jurídicos processuais atípicos.

Mas isso não significa que a previsão legal de negócios jurídicos processuais atípicos (art. 190 do CPC/2015) seja irrelevante. Em primeiro lugar, porque o art. 190 do CPC/2015 encerra qualquer discussão sobre a (in)existência de negócios jurídicos processuais.

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Em segundo lugar, porque o art. 190 do CPC/2015 prevê elementos

182 Loïc Cadiet admite negócios jurídicos processuais atípicos. Confira-se: “Mais quid des autres conventions, innommées, qui n’ont pas pour objet de se substituer au jugement et qui constituent la matière première des accords processuels?” (“La qualification juridique des accords processuels”, n. 7 p. 133-135). Em tradução livre: “Mas e as outras convenções, inominadas, que não substituem a função jurisdicional e que constituem a matéria dos acordos processuais?”.

183 Confira-se: “Dunque nel nostro ordinamento ha per assai lungo tempo ‘vissuto e prosperato’ un accordo processuale non previsto dalla legge, che solo la novella del Codice di Rito del 2006 ha espressamente riconosciuto introducendo nel Codice di Rito l’art. 808-ter. Questa circostanza dovrebbe forse far rimeditare le posizioni di chiusura verso gli accordi processuali atipici e spingere ad abbracciare una posizione più liberale. In tal senso si sono invero mossi gli autori italiani che più di recente si sono occupati ex professo del rapporto tra autonomia privata e processo civile” (Luca Penasa, “Gli accordi processuali in Italia”, n. 5, p. 277).

184 Confira-se: “Pode-se localizar o poder de autorregramento da vontade em quatro zonas de liberdade:

a) liberdade de negociação (zonas de negociações preliminares, antes da consumação do negócio); b) liberdade de criação (possibilidade de criar novos modelos negociais atípicos que mais bem sirvam aos interesses dos indivíduos); c) liberdade de estipulação (faculdade de estabelecer o conteúdo do negócio); d) liberdade de vinculação (faculdade de celebrar ou não o negócio)” (Fredie Didier Jr.,

“Princípio do respeito ao autorregramento da vontade no processo civil”, n. 2, p. 32).

185 Conforme, por exemplo, Eduardo Talamini: “Se alguma dúvida ainda havia quanto à existência de negócios jurídicos processuais, ela foi de todo sepultada pelo art. 190 do Código de Processo Civil de 2015, que autoriza a celebração de convenções entre as partes a respeito do procedimento judicial ou

de existência, requisitos de validade e condições de eficácia de negócios jurídicos processuais atípicos.

Em terceiro lugar, porque o art. 190 do CPC/2015 é o centro do microssistema de negociabilidade processual.

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Segundo Lorena Miranda Santos Barreiros, o microssistema de negociabilidade processual “confere novo ambiente ao processo, regrando-o sob os auspícios da liberdade”. Assim, o microssistema de negociabilidade processual, de acordo com a autora, é “conjunto normativo orgânico de tutela do autorregramento da vontade no processo”.

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O microssistema de negociabilidade processual é composto, entre outros, pelo art. 190 do CPC/2015, que prevê a celebração de negócios jurídicos processuais atípicos e por todos os demais textos legais que preveem a celebração de negócios jurídicos processuais típicos. A relação entre os elementos do microssistema de negociabilidade processual é de reciprocidade.

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das próprias posições jurídicas processuais (direitos, ônus, deveres processuais...). O art. 190 está inserido no livro do Código dedicado aos ‘atos processuais’ – e nele se prevê que a convenção de natureza processual pode celebrar-se ‘antes ou durante o processo’. Assim, há clara tomada de posição do CPC no sentido de afirmar a natureza processual dessas convenções, independentemente de serem celebradas dentro do processo. Sempre existiram negócios processuais em nosso ordenamento. Mas antes eles eram típicos. Constituíam numerus clausus: hipóteses taxativas, sempre a depender de uma específica previsão legal (...). Mas o art. 190 veicula uma cláusula geral autorizadora dos negócios processuais. Permitem-se negócios processuais atípicos. O ajuste de vontade das partes poderá modular o procedimento ou posições jurídicas processuais em outras hipóteses, que não apenas aquelas taxativamente previstas em lei. Assim, atribui-se ampla liberdade às partes para, em comum acordo, modularem o processo judicial, ajustando-o às suas necessidades e expectativas concretas”

(“Um processo pra chamar de seu...”, n. 2, p. 2-3). Confira-se, ainda, em Luiz Rodrigues Wambier e Eduardo Talamini, Curso avançado de processo civil, vol. 1, n. 27.2, p. 514-515.

186 Contra, porém, confira-se Leonardo Greco: “Também não consigo ver no artigo 190 do novo Código, como outros, uma cláusula geral, um superdireito, conceito que por si já entranha um elevado grau de autoritarismo, como se as partes pudessem dizer ao juiz: ‘agora quem manda somos nós; cumpra as nossas ordens, sob pena de desobediência, prevaricação, ato atentatório à dignidade da justiça, multa ou proibição de falar nos autos. Aliás, será que precisamos mesmo do juiz?’” (“Convenções processuais versus poderes do juiz”, p. 136).

187 Lorena Miranda Santos Barreiros, Convenções processuais e Poder Público, n. 3.1, p. 196.

188 Conforme, por exemplo, Antonio do Passo Cabral: “No espaço da atipicidade, instaura-se um

‘diálogo’ de duas vias entre a cláusula geral e os acordos típicos. Ao mesmo tempo em que cada uma das convenções típicas é interpretada e aplicada à luz do permissivo geral, as disposições pontuais de cada acordo típico poderão despertar na doutrina e na jurisprudência sinais de quais seriam os limites pretendidos pelo legislador para as convenções processuais. Assim, os acordos típicos alimentam a concretização do conteúdo da cláusula geral” (Convenções processuais, n. 3.1.6, p. 167).

Em outros termos: por um lado, o art. 190 do CPC/2015 fornece diretrizes interpretativas a todos os textos legais que preveem a celebração de negócios jurídicos processuais típicos; por outro lado, todos os textos legais que preveem a celebração de negócios jurídicos processuais típicos fornecem diretrizes interpretativas ao art. 190 do CPC/2015.

Enfim, destaca-se a natureza de cláusula geral de negociabilidade processual

do art. 190 do CPC/2015.

4. A EXISTÊNCIA, A VALIDADE E A EFICÁCIA DOS NEGÓCIOS JURÍDICOS