2. ATUALIZANDO UM FENÔMENO EM TRANSFORMAÇÃO
2.5 Arte pública e graffiti
Para ilustrar suscintamente as formas pelas quais o graffiti é um dos elementos da cultura urbana com maior valor em relação a outras manifestações urbanas no processo de criação de uma imagem de cidade na atualidade, é preciso revisar o diálogo que esta arte urbana estabelece com a arte pública. Partimos assim do pressuposto que algumas práticas artísticas da cidade contemporânea colocam em questão a noção primária de arte pública como suporte imagético de valores identitários homogêneos, permanentes e universais que têm como função principal comemorar e educar através dos monumentos e esculturas (ARGAN, 1992).
Depois de um complexo percurso durante boa parte do século XX marcado por importantes disputas políticas e de sentido sobre seu papel na cidade e suas formas de representação81, a arte pública de hoje está emoldurada nos processos de fragmentação e hibridação culturais que caracterizam as práticas urbanas e definem formas diferentes de apropriação dos espaços públicos. Levando em conta isso, pensamos na imagem da cidade como palimpsesto (ARANTES, 2000) e como reflexo dos processos pelos quais se dá a construção social dos lugares:
Por esse processo, ruas, praças e monumentos
transformam-se em suportes físicos de
significações e lembranças compartilhadas, que passam a fazer parte da experiência ao se transformarem em balizas reconhecidas de identidades, fronteiras de diferença cultural e
marcos de “pertencimento”.82
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Para marcar o caráter processual de constituição da arte pública, lembramos com César Floriano (2012) que “Toda uma geração de artistas tem buscado um reencontro da arte com a cidade, desde ações técnicas do micro-urbanismo, dedicadas ao acondicionamento de praças, ruas e equipamentos públicos, até as ações que podemos denominar de site-specifity e arte relacional”.
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ARANTES, A. Antônio. A guerra dos lugares. Mapeando zonas de turbulência. In: Antônio Arantes, Paisagens paulistanas. Transformações do espaço público. Campinas: editora da Unicamp, 2000.
Figura – 28 Templete del Libertador com graffiti e pichações. Parque de los Periodistas, Bogotá.
Fonte: N. Pérez, 2013.
Interessa-nos analisar, sob várias óticas, os objetivos da arte pública. Para Siah Armajanin (apud SILVA, 2013), o sentido cívico, a mediação e a predisposição política estruturam o conceito de arte pública. O sentido cívico refere-se, segundo a interpretação de Armando Silva, a que a arte pública não deve estar dirigida ao público especializado (ou seja, a arte pública não deve se confundir com o artista), mas aos cidadãos. Por sua vez, a mediação supõe considerar que a arte pública não se reduz à noção de arte nos espaços públicos, mas que funciona como ponte entre essas esferas (arte e espaço público) na medida em que “convierte al espacio en algo sociable” chamando a atenção dos cidadãos para outros aspectos da vida, da gente, da rua e da cidade. Por fim, a predisposição política significa que, dado que o espaço público é fundamentalmente um espaço político (SILVA, 2013), a arte pública sempre tem a função de representar o desejo de mudança sobre algumas condições do contexto.
Não muito distante dessa primeira concepção sobre os objetivos da arte pública, encontra-se a proposta de Néstor García Canclini (2008), que entende que uma das tarefas da arte pública é fazer
pontuações, criar lugares significativos para que a cidade tenha mais sentido. Entretanto, a tarefa dos artistas seria “buscar los interstícios”, procurar os modos de fazer ver aquilo que no trânsito fica oculto, ou seja, colocar-se em lugares interculturais que amplifiquem a nossa experiência de cidade. Para ele, “estamos no momento antropológico da arte” e essa situação faz com que seja necessário desconstruir os museus, os locais de consagração, de solenidade da cultura e abrir o olhar para novas experiências.
Complementando essas visões sobre os objetivos ou tarefas da arte pública na contemporaneidade, César Floriano (2012) argumenta que são três as principais funções a cumprir: “revelar o espaço público enquanto lugar privilegiado para a vivência da arte, como um ‘museu aberto’, criando uma relação mais direta entre arte e público; conferir aos espaços públicos um caráter de lugar urbano; e, por terceiro, utilizar a arte como dispositivo político”.
Marcando as diferenças com o papel da arte pública nos períodos históricos precedentes, entendemos junto com esses autores que o significado da arte pública tem variado em função das mudanças que a contemporaneidade traz. Portanto, dá-se uma reelaboração do conceito para caracterizar
[...] ciertas práticas artísticas em sítios concretos com história local [que] involucra a los vecinos o visitantes del sitio, genera una demanda pública, se dirige a todos y se preocupa más bien por dar una nueva interpretación política a um hecho, usando claras estratégias estéticas para involucrar a los demás. 83
E é ali, mais nas suas possibilidades políticas do que nas suas falências conceituais e técnicas a respeito ao que se considera como arte pública tradicional, que o graffiti vem conseguindo um lugar principal na cidade integrando progressivamente a arte pública. Ora que ele é por natureza contestatório, ora porque é muito mais interativo e certamente mais público do que a arte que fica presa em museus e galerias, sua condição de arte pública está dada em função da combinação dos objetivos analisados: estabelecimento de uma nova relação com público
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SILVA, Armando, Atmósferas ciudadanas: grafiti, arte público, nichos estéticos. Bogotá, Universidad Externado de Colombia, 2013.
não especializado, criação de lugares significativos que amplificam a experiência de cidade e promoção do sentido político do espaço através das intervenções.
Em termos dos fatores de inter-relação específica entre a arte pública e o graffiti, ainda aproveitamos a proposta de Silva (2013) que, retomando alguns dos objetivos apresentados antes, expõe os principais motivos que fazem desta linguagem visual uma prática com potência para produzir e fazer convergir lugares. Estes últimos são tratados aqui nos termos que Rogério Proença reelabora da proposta de Félix Guattari (1985), isto é, como “espaços de representação cuja singularidade é construída pela territorialidade subjetivada”:
- Intervenção sobre uma comunidade local;
- A cidade como objeto material da intervenção em oposição a museus ou galerias;
- Busca de novas formas de expressão dentro do ambiente urbano;
- Desvalorização dos meios tradicionais da arte; - Alta conotação política de uma ação, e
- Maior valoração do significado da ação sobre seus aspectos formais.
Considerando esses elementos, acreditamos que a relação entre arte pública e graffiti é dialógica, favorecendo os processos atuais de criação de imagem de cidade. Isto porque, ao ser tido como mais um elemento da arte pública, o graffiti é qualificado como arte urbana e, ao tempo, ele próprio, nas suas versões esteticamente aceitas, é qualificador de espaços urbanos. Outro aspecto importante dentro desta relação supõe não perdermos de vista o fato que tanto a arte pública quanto o graffiti respondem a processos conflitivos de criação permeados por disputas políticas e ideológicas diante dos mecanismos sociais de representação. Nesse sentido, os dois, em uma relação de complementariedade, têm a função de ativar o público do espaço enquanto lidam com as demandas institucionais de enfeite e criação de uma imagem de cidade diversa e convidativa.
3. O LUGAR DO GRAFFITI NO CENTRO DA BOGOTÁ