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CAPÍTULO 1 O ENVELHECIMENTO COMO PROCESSO: TEMPO, IDADE, GERAÇÃO E EXPERIÊNCIA

1.5 ARTICULANDO A EXPERÊNCIA A DIMENSÕES SOCIAIS

As reflexões anteriores revelam que o fenômeno do envelhecimento constitui-se em uma experiência diversificada, repercutindo nas diferentes esferas da estrutura social, política, econômica e cultural. De uma perspectiva sociocultural, o envelhecimento é concebido dialeticamente como resultado de dimensões fisiológicas, simbólicas e estruturais, articuladas pelos atores sociais em meio a condições contextuais vigentes (SIQUEIRA, 2002).

Portanto, o envelhecimento consiste em uma pluralidade de experiências individuais perpassadas por dimensões sociais como: gênero, idade e geração. A importância de pensar as articulações dessas dimensões com o processo de envelhecimento de homens e mulheres com idade acima dos cinqüenta anos torna relevante o uso da noção “experiência”. Compreender as experiências plurais constitui um desafio que busca legitimidade nas próprias falas das pessoas.

A idéia de experiência formulada por Thompson (1987) mostra a compreensão de que a experiência é vivenciada por um indivíduo ou grupo não só como idéia, mas também como sentimento, tendo como base as normas, obrigações familiares e de parentesco, aprendidas na família, no trabalho e nos grupos mais próximos 22, aspectos da definição com os quais eu concordo. No entanto, a compreensão de experiência explicitada por Lauretis (1994), Scott (1999) e Costa (2002) traz outras facetas desse conceito que complementam a noção de Thompson (1987) e harmonizam-se com a proposta epistemológica deste trabalho.

Ao discutir sobre a noção de experiência, Scott (1999, p. 25) critica o projeto de torná-la visível, atribuindo-lhe uma noção de referencialidade, de algo que poderia ser mais verdadeiro. Para a autora, tal estratégia enfraquece a crítica das histórias da diferença, deixando de lado o exame de práticas que excluem considerações sobre a diferença. Segundo ela, os (as) teóricos (as) “tomam como evidentes as identidades daqueles (as) cujas experiências estão sendo documentadas e, assim, naturalizam suas diferenças”, impedindo a análise da historicidade da experiência.

A evidência da experiência, então, torna-se evidência do fato da diferença, ao invés de uma maneira de explorar como se estabelece a diferença, como ela opera, como e de que forma ela constitui sujeitos que vêem e agem no mundo. Colocando de outra forma, a evidência da experiência, seja concebida através de uma metáfora de visibilidade ou de qualquer outra maneira que considere o significado como transparente, reproduz, ao invés de contestar, sistemas ideológicos estabelecidos – aqueles que supõem que os fatos da história falam por si e, no caso das histórias de gênero, aqueles que se baseiam em noções de uma oposição natural ou estabelecida entre práticas sexuais e convenções sociais, e entre homossexualidade e heterossexualidade (SCOTT, 1999, p. 26).

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Thompson (1987) documenta as experiências dos trabalhadores, tornando evidentes suas identidades estabelecidas a partir das relações de produção. Tais relações, compartilhadas entre trabalhadores de diferentes etnias, regiões e atividades fornecem uma referência comum que sobressai em relação às demais posições de sujeito, culminando na percepção de uma identidade de classe. Na obra citada, o autor narra a transformação de grupos heterogêneos de trabalhadores em uma classe operária com identidade própria e com consciência de classe, enfatizando o papel dos atores sociais na construção de suas identidades, seus interesses e suas ações coletivas.

Para a autora em tela, visibilizar a experiência de um grupo expõe a existência de mecanismos repressores, mas não sua lógica interna, pois falta a compreensão de como essa diferença foi constituída relacionalmente. Assim, a autora propõe pensar a experiência a partir dos processos históricos, situando os sujeitos através do discurso e captando sua lógica para entender como esses sujeitos constroem suas experiências e suas identidades. Com esse argumento, ela remete ao sentido discursivo da experiência, cujo caráter complexo e contraditório compreende diferentes aspectos da identidade e não apenas os relativos ao âmbito das relações de produção, nem detendo-se na experiência de classe. Destarte, os “sujeitos são constituídos discursivamente [...]. Já que o discurso é [...] compartilhado, a experiência é coletiva assim como individual [...].” (SCOTT, 1999, p. 42).

Nessa ótica, a experiência é vista como “o resultado de um conjunto complexo de determinações e lutas, um processo de renegociações contínuas das pressões externas e resistências internas” (COSTA, 2002, p. 67), sucedido no curso de vida de homens e de mulheres e desenhado pelas diferenças etárias, geracionais e de gênero. A experiência constitui “um complexo de efeitos, hábitos, disposições, associações e percepções significantes que resultam da interação semiótica23 do eu com o mundo exterior” (LAURETIS, 1994, p. 228), reformulando-se continuamente mediante o engajamento de cada pessoa na realidade social.

Ao recorrer ao termo “experiência”, compreendo que as idéias e os sentimentos (THOMPSON, 1987), assim como as percepções, disposições e hábitos (LAURETIS, 1994) ou as memórias são faces da experiência. Pensando no meu objeto de estudo, compreendo ainda que, tanto a vivência do envelhecimento quanto a percepção e o reconhecimento de aspectos dessa vivência em outras pessoas constituem experiências, quebrando a dicotomia entre elementos objetivos e subjetivos que separa a “objetividade dos acontecimentos da subjetividade em que são vividos” (SOUZA-LOBO, 1991, p. 74).

O pressuposto da diversidade nas formas de envelhecer é um estímulo que tem orientado muitas pesquisas no intuito de desenvolver análises capazes de avaliar essas distinções no curso de vida de pessoas idosas. Tais preocupações trazem novas sensibilidades em relação ao envelhecimento, tendendo a considerá-lo distinto para homens e para mulheres, ainda que, conforme defende Britto da Motta (2002a), a experiência de envelhecimento seja

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Como ciência dos signos e dos processos significativos, a semiótica tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis (artes visuais, música, fotografia, cinema, culinária, vestuário, gestos, religião, ciência), e tem por objetivo o exame de constituição de todo e qualquer fenômeno de produção de significação e de sentido (SANTAELLA, 1983).

vivida, em parte, de forma homogênea por homens e mulheres em determinado “estágio geracional” e, em parte, diferentemente segundo o gênero, a raça/etnia e a classe social.

Considerando a estratégia metodológica fundamentada nas pesquisas de gênero, nessa perspectiva a análise transcende a dimensão das diferenças individuais, incluindo os níveis interpessoal, social e cultural da experiência humana e buscando investigar o interjogo dinâmico entre fatores individuais e contextuais (COELHO; DINIZ, 2005). Para ilustrar tais experiências, trago alguns relatos de pesquisas realizadas por antropólogas e sociólogas, em que são evidenciadas diferentes possibilidades de experiências de mulheres e de homens, ressaltando as vivências no envelhecimento.

Ao narrar as experiências de envelhecimento de idosos dos dois sexos, a partir da perspectiva de gênero, Britto da Motta (1999b; 2002a) relata que, em suas pesquisas, as trajetórias sociais de gênero têm demonstrado ser determinantes na situação real e nos sentimentos de pessoas idosas, ultrapassando a situação de classe. Segundo ela, homens e mulheres diferem quanto a possibilidades e sentimentos de liberdade e auto-realização na velhice. No entanto, ela acrescenta:

Há experiências comuns aos dois (ou todos...) (os) sexos na velhice, que vêm de vivências culturais e sociais de ordem geracional, inclusive pelo preconceito e desassistência sociais, mas há também „pontos de chegada‟ , atualmente bem diferenciados, que se explicam por essa diversidade de trajetórias de vida segundo o gênero, e pelo que a vida social está propiciando de novo, em termos de autonomia e bem-estar, e que em grande parte é conseqüência das idéias e lutas feministas (BRITTO DA MOTTA, 2002a, p. 44 ).

Segundo essa autora, as mulheres sentem a perda da condição de reprodutora, mas, ao mesmo tempo, mostram-se compensadas afetivamente através dos filhos (embora às vezes esse sentimento seja de uma “carga”). Além disso, elas libertam-se de certos controles que as tolheram na juventude, de modo que “essa libertação vem, surpreendentemente, entusiasmando as mulheres idosas, a ponto de, por vezes, obscurecer-lhes a percepção de toda uma gama de preconceitos” que vigoram na nossa sociedade (BRITTO DA MOTTA, 2002a, p. 45). A autora acrescenta que muitas dessas mulheres não tiveram vida profissional ativa e sua vida social passada era menos dinâmica do que a dos homens da mesma geração. Assim, uma vez tendo se libertado do peso dos encargos familiares, é na velhice que elas encontram a chance de obter maior satisfação, o que a autora caracteriza como sendo uma “liberdade de gênero”.

Os homens, por sua vez, também falam em liberdade, mas de modo menos acentuado do que as mulheres. Para eles, a liberdade reflete o sentimento de independência ou

tranqüilidade econômica. Para os mais pobres, a liberdade nesta etapa da vida está relacionada à classe social, o que faz com que eles se expressem como ex-trabalhadores, livres das obrigações com o trabalho e aproveitando mais o tempo com o lazer (BRITTO DA MOTTA, 1999b; 2002a).

No estudo realizado por Lins de Barros (1998) com mulheres integrantes de um movimento da igreja católica e de camadas médias do Rio de Janeiro, a experiência dessas mulheres traduz-se como um projeto político-religioso, já que inclui não apenas ações religiosas, mas também trabalhos assistenciais e até mesmo atividades burocráticas desenvolvidas a partir da ligação delas com a igreja. Assim como as mulheres do estudo relatado por Britto da Motta (1999b; 2002a), essas mulheres também se viram liberadas de suas atividades profissionais e, estando algumas delas viúvas, outras solteiras, puderam dedicar-se a outros projetos.

As experiências de envelhecimento sob o aspecto de geração mostram que a noção geracional é imprescindível para a interpretação da velhice, surgindo como possibilidade que marca diferentes gerações de mulheres e de homens. São inúmeras as possibilidades que existem para dar conta de preencher os espaços dos atuais idosos, dando ao envelhecimento novas configurações.

No trabalho realizado por Alves (2006), a experiência feminina na velhice é mostrada através da participação de mulheres velhas e homens mais jovens na dança de salão. A dança surge como uma possibilidade de valorização do próprio corpo e da condição feminina na velhice. A autora esclarece que o que as mulheres procuram na dança é uma oportunidade de exercício da sedução e para isso elas procuram manter a habilidade do corpo, significando o controle do estigma da velhice na situação do baile. Nesse sentido, como nesses espaços a presença de mulheres jovens é exígua e as mulheres idosas preferem dançar com homens mais jovens, quando os homens velhos aparecem no baile, eles “ficam quase que despercebidos no salão, recolhidos a um canto, bebendo e olhando o baile passar” (ALVES, 2006, p. 78).

Segundo Lins de Barros (2006), a participação de mulheres idosas em atividades dirigidas para a “terceira idade” expressa a adesão a um estilo de vida na velhice que coloca em cheque o lugar da mulher mais velha na família, já que

Há agora opções para a vida. Embora estejam lidando com alternativas de interpretação da realidade criadas socialmente para a velhice, a receita de “terceira idade” que instituições e especialistas querem transmitir é incorporada às já existentes e, de forma sincrética, formam-se possibilidades mais diversificadas de ser velha e velho nessa sociedade (LINS DE BARROS, 2006, p. 33).

Referindo-se, ainda, às diferenças nas experiências do envelhecimento e com base em Boltanski, Britto da Motta (2002b) analisa as percepções e práticas assumidas pelos idosos em relação ao corpo no envelhecimento. Tais percepções e usos do corpo refletem a situação de classe e de gênero, mostrando que a relação do indivíduo com o corpo é modificada a depender da hierarquia social e do nível de instrução, além do sexo a que pertence. Ela destaca a análise desse autor acerca da maior prevalência de dores, consumo de medicamentos e atenção voltada para si por parte das mulheres e dos indivíduos integrantes de classes sociais mais altas quando comparados com os homens em geral e os integrantes das classes menos favorecidas.

Considerando dados de suas pesquisas, a autora observa que a experiência de envelhecimento é tratada, em geral, como desgaste e limitação, dificilmente aludindo-se a algum bem. As perdas são vistas como problemas de saúde, havendo uma percepção clara do que acontece com o corpo na velhice e a reação da sociedade a tudo isso. Essa relação com o próprio corpo no envelhecimento, em que as doenças e as dores são vistas como parte desse processo ocorre de modo um tanto „natural “e não apenas nas classes populares, entre os menos assistidos” (BRITTO DA MOTTA, 2002b, p. 41).

Segundo essa autora, além da posição social e do gênero, as dimensões de idade e geração não podem ser analisadas senão como relações e socializações ligadas ao poder social. Em torno dessas categorias são construídos preconceitos e estabelecidas disputas entre as idades visando, de um lado, postos de trabalho e, de outro, revelando aversão aos mais velhos que, eventualmente, não teriam as mesmas condições corporais e, quiçá, estariam mais perto da morte.

Ao reconstruir as memórias de homens e de mulheres acerca de suas experiências em uma fábrica têxtil baiana, Sardenberg (1998) observa que essa memória revela-se distintamente para homens e mulheres de diferentes gerações de ex-trabalhadores. Ao reconstruir as lembranças acerca do bairro, da fábrica e da participação nos movimentos grevistas, há um contraste do ponto de vista das gerações e do gênero. Diversos aspectos dessa memória são abordados na pesquisa, mas vou restringir-me apenas a alguns.

Segundo a autora, os homens guardam a memória “heróica” das lutas, enquanto as mulheres revelam uma memória fragmentada e até mesmo contraditória e “anti-heróica”, registrando as imagens de violência contra a comunidade durante as greves, especialmente a violência contra as mulheres. Já os homens ressaltam os aspectos positivos das greves que, na sua visão, levaram a conquistas trabalhistas. Eles lembram as datas e os propósitos dos movimentos e revelam que suas ações dirigiam-se tanto para a manutenção da dominação

paternalista quanto para a cisão em relação ao discurso hegemônico que atribuía aos comunistas a perpetuação da desordem.

A natureza dessas lembranças corresponde às memórias relacionadas à fábrica, em que as mulheres guardam detalhes das situações de trabalho em termos ambientais e dos atos das chefias em relação aos subordinados. Por outro lado, os homens ressaltam o sentido de “comunidade” e “prosperidade” gerado pela presença da fábrica no bairro.

Considerando o que foi exposto neste capítulo, assinalo que a referência básica de compreensão das experiências de envelhecimento é a consideração do seu aspecto interacional e discursivo. Com efeito, embora a análise do trabalho registre momentos particulares de cada pessoa relacionados às suas percepções acerca do envelhecimento e conjugados aos estilos de vida e às especificidades na construção de projetos, esses momentos são compreendidos dentro de um todo que inclui a bagagem histórica e as relações que produzem a existência de cada sujeito. Entendo que, assim como outras formas de experiência, a experiência de envelhecimento é orquestrada num constante diálogo do presente com o passado de cada um, assim como através das interações estabelecidas com outros sujeitos e das articulações com as dimensões sociais aqui discutidas. Tais relações e articulações contribuem para imprimir significados às formas de pensar, sentir e viver o envelhecimento, compondo as diferentes identidades.