CAPÍTULO 3 ATORES EM CENA: SUJEITOS EM MOVIMENTO
3.3 CARACTERÍSTICAS DA POPULAÇÃO ESTUDADA
3.3.2 Aspectos de moradia e da convivência familiar
Os dados colhidos mediante as entrevistas sinalizam a homogeneidade do grupo quanto à condição de propriedade do imóvel onde os casais residem. Todos eles moram em apartamento ou casa própria, embora a qualidade da moradia seja diferenciada pelas respectivas condições financeiras dos mesmos. Em três das residências, a estrutura do imóvel inclui mais de um andar com o objetivo de abrigar filhos casados em andares separados. Em uma delas, a mulher exerce sua atividade de costureira, mediante a qual ela contribui com o sustento da família. Desse modo, a casa constitui “muito mais do que o espaço de residência, vida cotidiana familiar e trabalho doméstico. Ela pode ser também um espaço de trabalho remunerado, no qual se realizam atividades econômicas que [...] representam ganhos adicionais e mesmo vitais para o grupo” (BRUSCHINI; RIDENTI, 1994, p. 35).
Os casais participantes deste estudo pertencem às camadas médias20 urbanas (FÉRES- CARNEIRO, 2003b; GOLDENBERG, 2003; 2005; LINS DE BARROS, 1987; VELHO,
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Apesar de fazer referência a esse grupo como pertencente às „camadas médias‟, compreendo que, dada a amplitude e heterogeneidade desse conceito, uma multiplicidade de elementos distingue suas existências nesse âmbito, tanto em termos financeiros como simbólicos. De acordo com Guerra, Pochmann, Amorim e Silva (2006) a „nova classe média brasileira‟ (expressão usada pelos autores para distinguir de outras modalidades descritas por eles) é fruto da industrialização e urbanização do Brasil, tendo sido o assalariamento o principal criador e sustentáculo dessa classe. Para eles, esse segmento continua integrando-se, ampliando e diversificando- se e sua ascensão indicou uma mudança no eixo de estratificação social baseada no emprego e no contrato de trabalho. Uma descrição pormenorizada acerca do desenvolvimento, retração e mudança no perfil desse segmento encontra-se no Atlas da Nova Estratificação Social no Brasil, v. 1 (GUERRA et al., op. cit.)
1989), sendo que a consolidação dessa posição envolveu a mobilidade espacial, ou seja, a vinda para Salvador propiciou a manutenção ou a melhoria das condições de vida, via oportunidades de estudo e/ou trabalho, ou ainda, pelo casamento, já que, nesse último caso, as mulheres que chegaram aqui desempregadas, tiveram os maridos como suporte das finanças da família.
A heterogeneidade na composição dos segmentos médios brasileiros que é descrita por Guerra, Pochmann, Amorim e Silva (2006) também aparece aqui. Primeiro, constitui-se pela origem familiar dos (as) participantes: há filhos de trabalhadores rurais, de funcionários públicos, educadores, políticos, comerciantes, engenheiros e de outras profissões não registradas, já que esse dado foi obtido espontaneamente, sem ter havido uma pergunta específica. Segundo, caracteriza-se pelas próprias áreas de atuação dessas pessoas: serviços gerais, vendas, comercial, industrial, contábil, educação, médica, farmacêutica, funcionalismo público. Terceiro: a heterogeneidade é exposta pelos bairros onde residem: Barra, Brotas, Campo Grande, Canela, Federação, Garcia, Itapuã, Ondina, São Caetano, Vitória, além de dois casais de Lauro de Freitas. Embora as pesquisas indiquem alguns desses bairros como sendo de classe média alta e alta, essa distinção não é utilizada aqui, sendo eleita a denominação de: “camadas médias”, “segmentos médios” ou “classes médias urbanas” ao falar dos moradores desses bairros sem ignorar, no entanto, a diversidade existente no interior desses segmentos.
Considerando a organização da convivência doméstica, nove casais compartilham o espaço residencial somente com a parceria, por não terem filhos ou porque os filhos são casados e moram em outro bairro ou andar da própria residência; nove casais abrigam pelo menos um filho ou filha solteira, num total de 19 filhos abrigados, sendo 13 mulheres. Três casais acolhem netos, além de filhas separadas e solteiras; um casal hospeda a mãe da mulher. Em algumas das residências existe, portanto, a convivência de três gerações. Os casais que abrigam filhos em casa estão em faixas de idade variadas: 50-52; 60-66; 72-83 anos, sendo que nessa última faixa de idade, existem nove filhos e uma mulher idosa abrigados pelos casais.
Dentre os 19 filhos que moram com os pais, apenas quatro (mulheres) são menores de 21 anos e estudam. Os demais são maiores, havendo filhos com mais de 40 anos (homens e mulheres) que nunca saíram da casa dos pais, mesmo tendo formação escolar de terceiro grau. A maioria dos filhos que moram com os pais trabalha, ainda que alguns deles estejam inseridos em empregos provisórios. Outros estão desempregados. Nessas duas últimas categorias, alguns estudam ou fazem cursos de aprimoramento profissional na tentativa de
melhorar sua posição no mercado de trabalho. Apenas um filho (maior de 40 anos) encontra- se na dependência dos familiares por problemas psiquiátricos, fato que veio a ocorrer depois dele já estar casado e trabalhando.
Esse panorama constituído pela “geração canguru” (ATTIAS-DONFUT, 1995) em que filhos adultos pertencentes às camadas médias e médias altas da população continuam morando com os pais encontra correspondência na literatura, surgindo como uma situação freqüente, de acordo com as constatações de Féres-Carneiro e Magalhães (2005) em seus atendimentos psicoterápicos. As autoras propõem a realização de pesquisas que investiguem as relações entre a conjugalidade dos pais e as concepções, motivações e expectativas desses filhos em relação ao casamento. Para essas autoras, no estudo dessa questão deve-se levar em conta a função, a idealização e o adiamento do casamento, as influências do individualismo, as transformações da intimidade e as questões de gênero.
Em relação às mulheres que são avós, há uma expansão desse papel (não foi evidenciado o mesmo em relação ao avô) para englobar funções de cuidados maternos, responsabilizando-se pelos netos conforme a necessidade da mãe da criança. Nos três casos presentes neste estudo, em que as crianças coabitam com as avós (Norma, Ruth e Diana) e avôs, há poucas diferenças em relação ao perfil das mães das crianças. Todas são mulheres separadas, indicando a guarda feminina das crianças e o retorno das filhas à família de origem. Todas trabalham na profissão escolhida, sendo que duas delas possuem nível superior completo, com especializações, incluindo o mestrado.
Esse tipo de arranjo familiar incluindo três gerações aumentou de modo considerável a partir da década de 80, em função de um dos pais da criança ou ambos viverem com seus filhos na casa dos pais. Por outro lado, a partir da década de 90 a ausência dos pais por motivo de trabalho obrigou os (as) avós a assumirem os netos enquanto os pais trabalham (LOPES; NERI; PARK, 2005), conforme assinalado neste depoimento:
Acordo às cinco da manhã porque tenho um neto de 9 anos que mora comigo. Então eu acordo para preparar o café dele, que a aula começa às 7 [...] A mãe é professora, ensina no interior. Só vem no final da semana. A semana toda ele fica comigo. Eu resolvo tudo. É como se fosse mais um filho meu (Ruth, 72 anos)
A convivência de avós com os netos faz parte de um cenário resultante das transformações sociais a que as famílias estão sujeitas na atualidade, em virtude não apenas do que foi colocado anteriormente relativo às separações conjugais, mas também da maior longevidade humana e da maior expectativa de vida (PEIXOTO, 2000), sobretudo das mulheres, propiciando um tempo de convivência maior entre as gerações. Nesse sentido,
como ressalta Lins de Barros (1987), a família pertencente às camadas médias constitui um exemplo que permite visualizar os espaços abertos pelas mudanças sociais. A convivência entre gerações, diz a autora, pode estimular a lembrança das experiências anteriores de criação dos próprios filhos, permitindo uma aceitação ou revisão e a partir daí, traçar o contorno da relação com os netos, resgatando por meio deles as formas de relação que não foram possíveis de ser vividas anteriormente. Essa condição é ilustrada abaixo:
Pela tarde, eu cuido de meu neto [...]. Eu pego ele na escola, dou o almoço... No dia que ele tem natação, sou eu que levo e pego de volta, porque minha filha trabalha. Eu estou me re-treinando na educação de criança, porque faz tanto tempo que eu não lido com criança... Mas eu gosto. Dá trabalho, mas é bom porque o neto faz a gente reviver o tempo que cuidava dos filhos. Às vezes eu me pego fazendo pra ele o gosto que eu não fazia pra minhas filhas [...]. Minha filha que é pedagoga, toda hora reclama comigo. Ela acha que eu boto ele a perder fazendo os gostos dele. Ela é mais dura do que eu. Eu também acho que eu sou mais maneira com ele do que ela (Norma, 60 anos)
Nos casos em que as avós “olham” os netos esporadicamente para “quebrar o galho” dos filhos, o papel de avó é visto com leveza, já que elas não se sentem responsáveis em socializar as crianças.
É mais fácil ser avó do que mãe. Porque a gente já aprendeu com os filhos, então quando os netos chegam a gente já não tem as mesmas preocupações que tinha com os filhos. E depois não fica direto com eles. Eles vêm e vão (risos). Eu só fico com meu neto quando minha nora está sem babá ou a babá é nova. Aí ela deixa aqui durante o dia e quando sai do trabalho, ela pega ele. Mas é raro isso acontecer (Elisa, 62 anos)
Alguns avôs e avós moram longe de seus netos, falando com eles por telefone e aguardando com ansiedade os encontros em períodos de férias, o que nem sempre acontece como esperado, já que os netos também crescem e tal crescimento pode gerar distanciamento afetivo na relação com os avôs e avós.
Eu tenho sete netos, o mais velho com 19 anos de idade, estuda engenharia e mora com a mãe [...]. Eu adoro meu neto. Quando ele está de férias, fico ansioso pra ele vir aqui. Quando era pequeno ele vinha com mais freqüência. Agora tá um homem, já é mais difícil. Mas eu sempre falo com ele por telefone (Tiago, 75 anos)
Outros avôs e avós vêem os netos como extensão de si mesmos, mostrando-se satisfeitos por vê-los crescer e compartilhar da vida adulta, talvez por corresponderem às próprias expectativas:
Pra mim, meus netos são a continuação da família. Eu só tive dois filhos, homens, mas já tive quatro netos. Gostaria de ter mais, mas acho que minhas noras não vão mais parir (risos). Meus netos são muito apegados a mim. O mais velho mais ainda. Tem 14 anos. Conversa comigo como gente grande, só vendo (Lázaro, 68 anos)
Assim como no estudo realizado por Peixoto (2000), constato nesta pesquisa que quem cuida ou cria os netos são as avós. Os avôs falam sobre os netos como amigos, pessoas a quem visitam ou que lhes visitam, dando um caráter de amizade ao relacionamento, enquanto as avós estão mais afeitas ao cuidado (alimentação, saúde, higiene), o que marca a posição de gênero nesta relação. Mas, apesar dessa condição, nenhuma avó registrou descontentamento em executar tais tarefas, embora tenha havido alusão a cansaço. Com efeito, a presença dessas mulheres dentro da família na condição de avós cria a possibilidade de ajuda mútua, mas, sobretudo, fortalece o esquema de “cuidadora” dos filhos, do marido, dos netos e de outros parentes.
Ainda que as noções de avô e avó sejam relativamente recentes e até o século XVIII, sua imagem estivesse relacionada à velhice, à decadência e à morte (PEIXOTO, 2000), as avós e os avôs representam elementos intermediários entre o “passado, reelaborado nas lembranças de sua infância, o presente e o futuro, personificados pelas gerações dos filhos e netos e nos projetos e expectativas em relação a eles” (LINS DE BARROS, 1987, p. 21).
A seguir, apresento os modelos adotados pelas famílias na divisão de responsabilidades domésticas.