CAPÍTULO 3 ATORES EM CENA: SUJEITOS EM MOVIMENTO
3.3 CARACTERÍSTICAS DA POPULAÇÃO ESTUDADA
3.3.3 Divisão de responsabilidades e cuidados domésticos
A chamada “revolução da longevidade” contribui não só para a convivência de diferentes gerações, como também para uma superposição de papéis, trazendo como conseqüência a redefinição das relações e responsabilidades no âmbito familiar (GOLDANI, 1992 apud GOLDANI, 1994). Essa redefinição ocorreria não só em termos dos papéis simultâneos de mães e avós, como foi visto no item anterior, mas considerando os casais que, já aposentados, permanecem mais tempo dentro de casa.
Neste estudo, a divisão de responsabilidades na realização das tarefas domésticas revela-se de modo diferenciado entre as famílias embora, em todas elas, as mulheres sejam as principais responsáveis pela administração da casa no sentido de encaminhamento e/ou desempenho de tarefas domésticas. Focalizo, aqui, a divisão de responsabilidades de tarefas entre marido e mulher, já que muitos casais moram sós e, quando abrigam os filhos, esses estão fora de casa a maior parte do tempo, estudando ou trabalhando.
Seis casais não utilizam o serviço de empregada doméstica ou diarista, dividindo entre si as responsabilidades pela sua realização. Nessa condição encontram-se três casais mais
jovens e três com idades acima dos 70. Nove casais adotam o esquema de contratação de diarista, indicando uma opção que parece ser cada vez mais freqüente na atualidade e que funciona como solução para as famílias que não podem ou que não querem assumir a contratação de uma empregada permanente. Nesse grupo, há pessoas em todas as faixas de idade abrangidas pelo estudo.
Apenas seis dos 21 casais estudados possuem empregada doméstica mensalista. Nesse grupo, somente um homem e duas mulheres não têm formação de nível superior; cinco das seis mulheres tiveram uma profissão e já estão aposentadas; em seus desenvolvimentos profissionais homens e mulheres ocuparam ou ocupam posições diferenciadas (assessoria, gerência, direção), supostamente tendo alcançado uma renda familiar mais alta do que os demais casais. Esses casais sempre tiveram empregada doméstica e atualmente os integrantes desse grupo possuem idades entre 62-83 anos.
Lançando o olhar para o primeiro grupo descrito, em não existe empregada mensalista e nem diarista, percebe-se a naturalização do papel feminino com relação ao cuidado e à administração da casa, especialmente na geração dos homens mais jovens (Pedro, 51; Daniel, 52; Adão, 58), ainda que entre os mais velhos (Samuel, 81) essa condição também esteja presente.
Em casa, eu... quando eu posso eu ajudo, mas eu não sei fazer nada e não gosto. Só faço se for muito necessário, quando fulana [esposa] não pode, as meninas não estão em casa, mas senão eu não faço nada de casa. Só por necessidade (Pedro, 51 anos) Ah, a mulher é que faz as coisa de casa. Eu não sei fazer e não gosto que me cobrem. Eu não gosto de fazer esse serviço, não. Mulher tem mais jeito. Mas eu também faço, se precisar. Barro, passo o pano na casa, lavo prato... Mas se ficar me pedindo, pedindo, aí é que eu não faço (Adão, 58 anos)
Se me pedir eu ajudo. Mas eu nunca fiz certas coisas porque não aprendi a fazer. Fui criado de um jeito que homem não ia na cozinha. Só mulher é que aprendia a cozinhar. Até hoje eu não me meto. Eu acostumei sentar na mesa só quando me chamavam pra comer (Samuel, 81 anos)
Fazendo uma análise da formação escolar desses homens, observo que eles possuem escolaridade de, no máximo, segundo grau, o que me leva a supor que o capital cultural21
21
Utilizo aqui a noção de capital cultural formulada por Bourdieu (1979), segundo o qual o capital cultural constitui um elemento da herança familiar. A posse desse capital favorece o desempenho escolar, uma vez que facilita a aprendizagem de conteúdos e códigos que a escola veicula e sanciona. Para precisar essa noção o autor aponta três formas de capital cultural: incorporado (uma disposição adquirida, os gostos, o domínio da língua, o habitus); objetivado (sob a forma de bem cultural: livros, obras de arte) e institucionalizado (certificação da competência cultural, em geral sancionada na forma de diploma). Do mesmo modo que o capital econômico, o capital cultural possui a propriedade de acumulação relativa ao tempo necessário para que esta ocorra. Para apropriar-se dos bens relativos ao capital objetivado é necessário possuir os instrumentos dessa apropriação e os
pode significar um elemento importante no desenvolvimento de atitudes mais igualitárias entre homens e mulheres, ao lado de outros fatores, é claro. Ressalto que as esposas dos três primeiros homens possuem uma atividade profissional, dando suporte familiar dentro e fora de casa e, portanto, assumindo dupla jornada de trabalho.
A divisão do trabalho doméstico entre os casais que possuem diarista é percebida como resultado de negociações dos cônjuges. Em geral, eles encontram-se na mesma condição, ou seja, ambos são aposentados (Ângelo e Diva; João e Denise; Lázaro e Leda), ou ambos trabalham (Jorge e Iraci; Nilton e Clara), sendo menos freqüente a situação em que um trabalha e o outro é aposentado (Clóvis e Norma). Essa negociação, no entanto, segue o padrão adotado por todos os casais que defendem sua participação na divisão de responsabilidades. Neste caso, são as mulheres que preparam as refeições e lavam a roupa de todos. Sem serem interrogados sobre os detalhes das tarefas, os homens que participam das tarefas domésticas dizem: “lavo prato, lavo banheiro, lavo minha cueca...” (Clóvis, 64; Nilton, 65; João, 68; Lázaro, 68) ou “lavo e passo minha roupa” (Jorge, 54), explicitando que o trabalho de diarista envolve, sobretudo, a faxina da casa e a lavagem de roupas de cama. Nessas atitudes colaborativas, sobressai o aspecto individual revelado pela preocupação consigo próprio, ainda que a ação possa ter um efeito coletivo. Não houve declarações masculinas do tipo: faço a comida, passo a roupa, arrumo a casa, indicando que a participação dos homens nas atividades domésticas é apenas parcelar, representando uma “ajuda” diante do universo de tarefas a serem executadas.
Ao analisar a distribuição de tarefas entre as parcerias homo e entre as heterossexuais, Matos (2000, p. 169) argumenta que, enquanto nas parcerias homo esta divisão é quase sempre negociada, mesmo quando estão presentes as posições „masculinas‟ ou „femininas‟, nas parcerias heterossexuais, “tal experiência é mais dificultada [havendo] a presença muito atuante dos estereótipos de gênero que atribuem papéis distintos a homens e mulheres [...].”
Conforme já assinalado antes, a mulher brasileira aumentou sua participação no mercado de trabalho que, nos anos 60, representava cerca de 16%, passando para 39% entre essa década e a década de 90, o que veio mudar seu status marital (GOLDANI, 1994), abrindo perspectivas de reformulação das práticas no âmbito doméstico. O que as pesquisas mostram, no entanto, é que as transformações promovidas com o desenvolvimento do capitalismo, favorecendo a incorporação das mulheres no mercado de trabalho, além dos reconhecidos
códigos necessários para decifrá-los, ou seja, é preciso possuir capital cultural incorporado. Além dessa apropriação simbólica, a apropriação concreta do capital objetivado requer a utilização de capital econômico, por exemplo, despendendo dinheiro na compra de livros.
avanços nas relações de gênero, não foram suficientes para transformar os padrões no âmbito doméstico.
Nesse sentido, Glaude e Singly (1986), referindo-se à experiência francesa relatam que, depois dos anos 70, as mulheres mostraram-se interessadas em obter uma divisão mais igualitária entre os cônjuges em termos de autoridade e da participação nas tarefas domésticas. No entanto, ressaltam os autores, a participação do homem no trabalho doméstico não é significativa, na opinião de suas parceiras, pois eles se dedicam a tarefas como lavar o carro e realizar pequenos reparos em casa, sendo a maior parte das tarefas efetuadas pela mulher, sobretudo o serviço de limpeza, a compra de vestimentas para os filhos e a preparação das refeições. O que esses autores constataram foi que a mulher que trabalha fora de casa tende a buscar uma posição de igualdade em relação ao marido, enquanto que na situação em que ela é apenas dona de casa, ela tem mais chance de ser uma mulher „dominada‟.
A divisão do trabalho doméstico inscreve-se numa tradição característica do modelo de família nuclear na qual existe a separação emblemática das esferas pública e privada. Como observa Heinen (2001), os estudos realizados na maior parte dos países ocidentais revelam que a divisão das tarefas domésticas entre os cônjuges quase não alterou o quadro de 15 anos antes. Na França, por exemplo, as mulheres continuam assumindo 80% do serviço doméstico (compras, preparo das refeições, lavar e passar roupa), além de dedicar duas vezes mais tempo do que o marido para cuidar dos filhos. Nesse sentido, alerta a autora, no nível simbólico como na prática, o status do pai e o da mãe são distintos na maior parte dos casos, em que um e outro continuam a ocupar posições assimétricas.
O descompasso nessa divisão de tarefas domésticas foi relatado por Wagner, Predebon, Mosmann e Verza (2005) com base em estudos realizados no Brasil e em outros países. Segundo essas autoras, quando existe divisão dessas tarefas, homens e mulheres as realizam de forma separada, reservando-se às mulheres tarefas como: cozinhar, lavar e passar, enquanto os homens desempenham tarefas de carpintaria e pequenos consertos. Voltarei a esse assunto mais adiante ao tratar das inserções profissionais dos casais.
No próximo tópico, informarei sobre a auto-referência relativa à cor dos participantes.