CAPÍTULO II – O CONCÍLIO VATICANO
3. As ações da Igreja no Brasil Pós-Guerra( 1945-1964)
Nos anos seguintes ao término da II Grande Guerra, desenha-se em âmbito mundial, um desmedido paradoxo: para evitar o avanço socialista, os países capitalistas vencedores na guerra empreenderam grande esforço para reconstrução
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Ao anunciar seu nome , João XXIII observou com ironia perante os cardeais que haviam existido mais papas chamados João de que qualquer outro nome e a maioria deles tiveram reinados breves ( Accettazione Del Supremo mandato, 28 de ottobre 1958, Giovani XXIII).
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Documento enviado à comissão ante-preparatória do Concílio com as “solicitações”dos padres conciliares.
dos países derrotados, os quais passaram a sofrer sua influência após as conferências de Yalta e de Potsdam31
. Tal influência levou o american way of life às áreas de interesse dos norte-americanos - incluíram-se aí não só os países europeus afetados diretamente pela guerra, mas também os países latino- americanos que seriam potenciais consumidores das empresas estadunidenses: era o caso do Brasil.
Em pleno processo de expansão urbana, na década de 50, nosso país mostrou-se um cliente promissor, pois havia crescente expansão da classe média urbana, então, bastante ávida pelas novidades tecnológicas introduzidas na política de aproximação originária do pós-guerra.32
No estilo de vida brasileiro, as atividades religiosas das grandes cidades foram bastante afetadas: as missas de domingo, até a primeira metade do século XX, eram vistas pelas classes sociais mais elevadas como um evento social e não como obrigação religiosa. Assim, acabaram perdendo espaço para outras formas de convivência social que poderiam, igualmente, servir para a ostentação. Proliferavam-se pelo país os clubes sociais, os quais passaram a ser concorrentes diretos das atividades religiosas tradicionais - nos clubes eram promovidos os bailes, principalmente nas noites de sábado, onde os membros das famílias mais ricas, bem como os da emergente classe média, se esbaldavam.33
Aos domingos, as tradicionais missas perdem espaço para as sessões de cinema, cada vez mais populares na época, incorporando novas culturas no imaginário das pessoas, novos estilos de vida, desconhecidos da maioria da população brasileira. O protestantismo clássico, até então conhecido mais pelos embates teológicos e pelo proselitismo protestante, passa a ser mostrado no cinema como fato incorporado ao cotidiano do norte-americano e essencial para o
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Nestas conferências a URSS, os EUA e a Grã-Bretanha, decidiram pela divisão do mundo a partir de áreas de influência após o término da Guerra. A divisão do mundo entre os dois blocos hegemônicos ( americano e soviético) , gerou contínuas tensões políticas e militares levando a uma corrida armamentista nuclear entre as duas superpotências.
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Sobre este tópico vale a pena ler o texto Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna ( Novais e Schwartcz, 2000).
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Esta, é uma das questões levantadas por Rodeghero (1998) em suas pesquisas sobre a “descatolização no Rio Grande do Sul”, estes fenômenos se repetiram em outras regiões do país, observamos nos livros de Atas da Congregação Mariana de algumas paróquias da Diocese de Jacarezinho grande preocupação com este tema no mesmo período histórico.
desenvolvimento daquela nação. Torna-se, por isso, mais uma alternativa religiosa para os católicos que não se enquadravam nos padrões oficiais da igreja: os desquitados, os filhos fora do casamento, as pessoas que não conseguiam se inserir nos grupos católicos ligados às classes mais elevadas economicamente, aqueles que, simplesmente, discordavam das práticas de alguns grupos ou de lideranças da Igreja, ou mesmo, os que buscavam outras respostas para seus problemas existenciais e espirituais.34
Podemos comprovar quase a mesma postura face ao espiritismo: num primeiro momento, apresentando-se como a ciência que buscava entender o que era inexplicável pela religião, ganhou adeptos, dia após dia, no seio do catolicismo, aproximando-se dele em muitos aspectos como a caridade e o assistencialismo. Sob a influência de Chico Xavier, identifica-se com o catolicismo popular, buscando a interpretação do evangelho de forma a evitar o antagonismo entre a doutrina espírita e as demais religiões.35
Se, num país economicamente atrasado, era esse o contexto, em termos mundiais a conjuntura se fazia ainda mais complexa, pois os países dominados pelo neocolonialismo do século XIX passam a reinvindicar sua independência e a valorizar cada vez mais as tradições locais refutando tudo o que tivesse sido imposto pelos dominadores estrangeiros, incluindo-se as religiões cristãs impostas pelas potências europeias.36
À Cúria Romana, não era mais possível manter-se numa postura imutável diante de um mundo que se transformava a cada dia. Era necessário repensar as práticas da Igreja. Pio XII, já politicamente desgastado pelo seu “silêncio prudente” em relação ao genocídio dos judeus pelos nazistas e também por sua formação neo- tomista, hesitou, em tomar qualquer atitude mais ousada, deixando este encargo para o seu sucessor.
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O crescimento vertiginoso do Protestantismo e do Espiritismo de 1940 a 1964 é apontado por Mainwaring (2004) como o fruto da incapacidade da hierarquia eclesial em modificar as práticas pastorais junto aos setores populares, preocupando-se tão somente com as elites.
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Lewgoy (2004), procura demonstrar que o espiritismo brasileiro teve uma grande transformação a partir dos ensinamentos de Chico Xavier, aproximando-se enormemente do catolicismo popular.
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Hobsbawm(1994), aponta as religiões locais como meio de mobilizar as massas contra a modernização capitalista ou socialista e contra os “forasteiros” que as defendiam.
No Brasil, a situação também era desalentadora, o Cardeal D. Leme falece em 17 de outubro de 1942 , após 3 décadas de liderança frente ao clero nacional, sem deixar um sucessor que conseguisse exercer liderança a sua altura e, tampouco, um projeto pastoral viável para a Igreja brasileira .
Na primeira metade do século XX, a Igreja destacou-se, por seu assistencialismo, como parte do processo de romanização e, consequentemente, pelo enfrentamento ao laicismo e protestantismo que avançavam após a Proclamação da República. Era necessário aumentar a influência da instituição junto à sociedade e política . Despontam assim, as tentativas de uma Igreja voltada para o povo como dizia Pe. Júlio Maria ( apud VILLAÇA, p. 75) : “Diante da separação entre o Altar e o Trono, propôs como fórmula salvadora e urgente: a união entre a Igreja e o povo.” E ainda emendava : “O clero brasileiro não tem nenhum valor político e social. Nem ele pesa, como devia acontecer, na balança da opinião. Nem a Igreja brasileira é ouvida em nenhum dos grandes interesses da Pátria” (op.cit. p. 73).
Após o fim do padroado régio37
, mormente no período pós I Guerra Mundial, a gama dos desafios a serem enfrentados, sob o do ponto de vista institucional, tornaram-se relevantes. Referimo-nos, aqui à maior complexidade da sociedade brasileira que se deu motivada pela acentuação do processo de industrialização, de urbanização e, consequentemente, do esvaziamento demográfico gradativo, porém constante, das zonas rurais. Tais mudanças, próprias de um país que se esforçava para fazer parte da dinâmica econômica dos países capitalistas desenvolvidos, acentuaram as desigualdades sociais de tal forma que diversos setores da Igreja perceberam a necessidade de ir além do assistencialismo e passaram a incorporar, gradualmente, reflexões sobre a justiça social. É importante frisar que, de um lado, a Igreja havia ocupado um papel de destaque nas organizações assistencialistas, em parte devido à incapacidade do Estado Brasileiro em suprir as necessidades básicas da população, tais como assistência social, saúde e educação; de outro lado, à
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Embora a Proclamação da República tenha significado o fim da união Estado Igreja em termos oficiais, o catolicismo conseguiu manter relações com a República Liberal que se instaurou no Brasil, ao contrário do que acontecia na maioria dos países europeus, sobre este tema, vide VILLAÇA, 1975, p. 57.
medida que a presença do Estado se fortalece, sobretudo na área social e educacional, as atenções da Eclésia voltam-se para outras situações, então prioritárias, concernentes às transformações do mundo moderno - a questão social era uma delas.
Tal situação agrava-se, cada vez mais, em face da crise mundial oriunda da II Grande Guerra, de forma que se esboça, em alguns documentos eclesiásticos, a partir do final dos anos 40, a utopia de uma solução cristã para os problemas sociais, ao mesmo tempo em que são apontadas as mazelas do sistema capitalista burguês e a questão agrária. Esta última, reunindo a cada dia mais adeptos à medida que se propagam as tensões no campo e as ligas camponesas no nordeste, vão ganhando força já no final da década de 1950. Diante disso, parte dos bispos vê a necessidade de se discutir a questão agrária ou, ao menos, de propor projetos que ajudem a amenizar, ou mesmo solucionar os problemas do homem do campo.
Assim, buscando minimizar os “efeitos nocivos” das questões sociais, os documentos oficiais se distinguem por uma linguagem que buscava o discernimento e acalmar que acalmariam os ânimos das partes envolvidas; enquanto outros, elaborados pelos radicais extremistas, tanto de direita como de esquerda, pregavam a radicalização.
Contribuiu, para o desenvolvimento de reflexões sobre a necessidade de justiça social, o viés ideológico do pós-guerra que, de uma forma ou de outra, permeou as organizações católicas. Se, por um lado, o comunismo era sempre lembrado nas celebrações litúrgicas como uma das grandes aflições da humanidade, por outro, as causas materiais que levaram à revolução russa também assustavam os católicos. Tal preocupação toma corpo no contexto latino-americano com a criação do Conselho Episcopal Latino Americano – CELAM, em 1955, e também com a publicação dos documentos-síntese dos encontros de Medellín (1968), e Puebla (1979). Nesta conjuntura, a Igreja do Brasil, liderada pela CNBB, assume um importante papel na luta por uma ordem política e social mais justa. O engajamento do clero e dos fiéis neste contexto, era, no entanto, bastante díspar, o que “gerava uma forte tensão interna”. Sobre a Ação Católica no período 1945-1964, LUSTOSA (1991) aponta três correntes que teriam se formado em busca de soluções:
a primeira corrente é representada pelo maciço contingente dos católicos neocapitalistas. Apelam para reajustes superficiais do sistema econômico vigente e julgam que, através de paliativos mais ou menos eficientes, conseguem alinhar os capitalistas com a doutrina social católica ( reforma moral );
a segunda corrente se infiltra, com segurança, nos meios mais lúcidos e críticos da igreja e seus adeptos sustentam a necessidade de reestruturação ( nem sempre bem definida! ) social e econômicamente. Parte deles caminha para a defesa pura e simples da reforma social de base. Nessa segunda corrente, é ventilado sempre o assunto da terceira via, uma espécie de modelo que escapa aos dois extremos,capitalismo e comunismo;
na terceira corrente se agrupam os católicos revolucionários. Não basta a reforma estrutural. É preciso que se faça nos esquemas de uma revolução, mesmo, se for o caso, rápida, violenta e armada. Falar em reformas, lentas e de caráter moral, é ilusão e engodo.
Embora se trate de apenas uma das organizações leigas da Igreja, as divergências dentro da Ação Católica mostram-nos, de certa forma, a ebulição ideológica da época.
4. “REVOLUCIONARISMO SOCIAL” OU “CONTRA-REVOLUÇÃO”,