Capítulo II – Expectativas e sucesso escolar
4. Implicações teóricas e práticas das teorias de Rosenthal e Jacobson
4.3 As auto-expectativas e o efeito dos alunos sobre o professor
A maior parte dos estudos sobre o fenómeno das expectativas baseou-se nas percepções dos professores e na forma como estes influenciariam os alunos a partir das
expectativas que tinham percepcionado naturalmente ou de forma induzida. Todavia, como já referimos no ponto anterior, sendo as realizações humanas dependentes duma complexa teia de interacções, não poderá ignorar-se o papel dos alunos quando se pretende entender a importância das expectativas no processo de ensino/aprendizagem. Como afirma Burón Orejas, “todos somos profetas, visto que todos formamos na nossa mente expectativas que influenciam os outros” (Burón Orejas, 1990, p. 276). Consequentemente, e comungando das conclusões de vários autores (Christensen, 1982; Feldman, 1979), neste ponto vamos considerar os alunos como “profetas” que, com as suas próprias expectativas, não só podem condicionar o seu auto-desempenho como também podem influenciar os professores.
Como se encontra amplamente divulgado na literatura científica, nenhum fenómeno social pode ser considerado ignorando o papel dos vários actores. Considerar que as expectativas dos professores se realizam é admitir que, de alguma forma, os alunos as percepcionam, as interpretam e as assumem. Isto não quer dizer que à intencionalidade do professor corresponda a mesma percepção por parte do aluno pois, se as esperanças do professor são utópicas, perdem credibilidade (Brophy, 1985), agindo o aluno em função das suas próprias características e da percepção que tem de si mesmo e das suas capacidades. Antes de mais, poderíamos dizer que as percepções que os alunos têm do comportamento do professor são mediadoras entre as expectativas deste e o sucesso escolar daqueles (Brattesani, 1984), sendo que, nessa situação, os alunos já teriam formado as suas próprias expectativas e estas estariam prontas para interagir com as dos professores.
Se é verdade que o professor, no início do ano, forma as suas expectativas baseado nos elementos que observa (como algumas características dos alunos) também os alunos formam as suas expectativas a partir das suas percepções. Uma das variáveis que mais parece influenciar a motivação e a realização escolar é a percepção que os alunos têm das capacidades do professor (Ware, 1975; Manni, 1975), tratando-se, por isso, duma variável que não deve ser ignorada em nenhum estudo desta natureza. A crença de que estão a ser ensinados por um professor competente motiva mais e, por essa via, conduz a realizações escolares mais positivas.
De entre os estudos realizados nesta área, em nossa opinião, dois autores merecem um destaque especial: Dov Éden e Joseph Kinnar (Eden et al, 1991). Partindo das conclusões de Brockner (Brockner, 1988, p. 13-15), o qual defendia que os
investigadores decidiram fazer uma pesquisa em que operacionalizavam as expectativas em termos de auto-eficácia. Distinguiram os conceitos de auto-eficácia específica (percepção que alguém tem de si próprio, por exemplo a Matemática) e os de auto- eficácia geral (em vários domínios), e tentaram compreender como é que as diferentes percepções de si próprio afectam a formação de expectativas e os resultados. A amostra envolvida no seu estudo era constituída por 556 jovens de 17 e 18 anos, com alto potencial em aptidões médicas e pretendia-se testar e determinar a fiabilidade e efectividade da aplicação da teoria da auto-eficácia na criação dum efeito Galateia duma maneira significativa e importante no domínio do esforço (Eden et al, 1991, p. 772).
Feita a experiência e comparados os resultados obtidos pelo grupo experimental e pelo grupo de controlo, Eden e Kinnar concluem que estamos perante “uma diferença estatisticamente significativa que confirma a hipótese de que o reforço da auto-eficácia aumenta a motivação para a realização. Estes oito por cento de aumento são o efeito Galateia” (idem, 776). Assim, um aluno detentor duma percepção de auto-eficácia elevada terá, naturalmente, expectativas de sucesso na mesma proporção, sendo que o contrário (efeito Golem) também será válido.
A ideia de auto-eficácia como mediador das expectativas e do sucesso escolar é um dado que consideramos provado e adquirido, estando amplamente documentado na literatura da especialidade (Eden, 1988, 1990; Locke, 1990). Encarando o ensino/aprendizagem nesta perspectiva, ao mesmo tempo que se deseja que os alunos sejam eficazes na obtenção do sucesso escolar, ao professor compete passar a mensagem de Eden e Kinnar, com todas as suas energias: “Tu consegues fazer isso” (Eden, 1991, p. 777).
Quase não restam dúvidas que a ideia que um aluno tem da sua auto-eficácia ou auto-conceito, assim como a sua auto-estima, têm uma enorme importância na permeabilidade às expectativas do professor e na formação de auto-expectativas. Estes factores podem funcionar como mediadores das expectativas dos professores, sendo os mesmos alunos também influenciados pela avaliação dos professores, especialmente as crianças (Harter, 1984). Convém não esquecer, em nenhum momento, esta complexidade interacional pois “os alunos com uma auto-estima elevada aproveitam mais as expectativas positivas e defendem-se melhor das negativas” (Oliveira, 1992, p. 107), o que, inevitavelmente, terá consequências na realização escolar. O desânimo aprendido (Bandura, 1977) pode conduzir a situações de aprendizagem de difícil resolução mas, por outro lado, um sentido de auto-eficácia elevada motiva, dá forças
para desenvolver o esforço necessário para aprendizagem e para atingir o sucesso. Há investigações que provam que as expectativas que os alunos têm da sua própria realização influenciam o sucesso escolar (Zanna, 1975). A reciprocidade no processo de mediação de expectativas funciona também para os professores, sendo por isso de admitir que os alunos com um sentido de auto-eficácia elevada alimentam igualmente altas expectativas relativamente aos resultados e influenciam positivamente os seus professores, criando-se, por essa via, um positivo efeito Galateia. Infelizmente, o efeito Golem também pode acontecer pelas razões inversas.
Embora as influências das expectativas dos alunos sobre os seus professores não tenham sido ainda devidamente aprofundadas, é certo que não podem ser desprezadas. Como já referimos, a personalidade duma criança ou adolescente vai-se construindo num complexo processo de interacções e com influências variadas, em que o sujeito (aluno) não pode, em momento algum, ser considerado um ser passivo que se limita a sofrer as influências dos outros. Para nós, o problema que urge resolver é o de saber-se como é que o aluno forma as suas próprias expectativas e como é que estas servem para criar efeitos Galateia ou Golem. Se se descobrir isto, é bem provável que se dê um passo em frente na compreensão das causas do insucesso escolar e na aquisição de instrumentos que permitam combatê-lo.