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Reflexos da teoria das expectativas na actualidade

Capítulo II – Expectativas e sucesso escolar

5. Reflexos da teoria das expectativas na actualidade

O fenómeno das expectativas interpessoais, induzidas e naturais, repercutiu-se largamente nas investigações educacionais que se realizaram ao longo das duas décadas que se seguiram à publicação de Pigmalião na Sala de Aula (Rosenthal et al, 1968), tendo abrandado nos anos seguintes. Apesar de envolto em polémicas, o fenómeno não deixou de marcar as investigações da época e da actualidade, aparecendo muitas vezes ligado com a problemática da motivação.

Motivar é, antes de tudo, fazer os alunos acreditarem nas suas próprias capacidades, é criar nestes a vontade de fazer o esforço necessário para aprender, parecendo certo que ninguém está disposto a fazer um esforço se não tiver objectivos, expectativas, esperança. Então as expectativas de sucesso futuro em função do esforço despendido no presente podem funcionar como um factor muito motivador e gerador de

dizendo que “embora as expectativas interpessoais não sejam panaceia para todos os males escolares e educativos, podem constituir um adjutório válido para o sucesso, se os educadores souberem alimentar expectativas positivas, embora sem se alienarem da realidade” (Oliveira, 1992, p. 143).

Dificilmente se encontra actualmente, quer na literatura nacional quer internacional, um estudo sobre a motivação, o insucesso ou o abandono escolar que não refira a possibilidade de as expectativas, quer próprias quer alheias, influenciarem os resultados alcançados pelos alunos. As empresas, os técnicos de marketing, os autores dos famosos livros de auto-ajuda (embora por vezes usando técnicas duvidosas), enfim, a chamada psicologia positiva (Oliveira, 2004), recorrem ao princípio de que a expectativa positiva ou a esperança são capazes de motivar para o esforço e contribuir para atingir o sucesso nas várias áreas da actividade humana.

Barros Oliveira, estabelece uma ponte entre as expectativas positivas e o optimismo, enfatizando a importância deste. É mesmo peremptório ao afirmar que “ninguém duvida da importância do optimismo para a felicidade da pessoa (…) para o seu sucesso profissional (pense-se, por exemplo, nas vantagens de ter um professor optimista ou nos malefícios de um professor pessimista)” (Oliveira, 2004, p. 98). O optimismo pode constituir-se como um poderoso antídoto da desmotivação, da descrença e do efeito Golem, tornando-se um aliado fiel daqueles que querem vencer. Na confrontação de alguns construtos, como o optimismo, com diversas teorias da motivação, num grupo de adolescentes, Pajares (Pajares, 2001, cit. por Oliveira, 2004) concluiu que uma maior positividade pode ajudar na motivação e na realização académicas. Há ainda outros estudos que confirmam a importância do optimismo para o sucesso escolar (Boman, 2001; Gibson, 2000).

São comuns as definições de optimismo em ligação com os conceitos de expectativa positiva e de motivação. O antropólogo L. Tiger (Tiger, 1979, p. 18) define optimismo como “uma disposição ou atitude associada a uma expectativa sobre o futuro material ou social que o avaliador olha como socialmente desejável para seu proveito ou prazer”, sendo o optimismo encarado como uma característica cognitiva, como uma expectativa ou uma crença em relação ao futuro. Para Carver e Scheier o optimismo tem uma grande componente emocional e motivacional (Carver et al, 1990) e para Oliveira é “uma característica ou tendência mais ou menos estável da pessoa, em circunstâncias normais de vida, e que tende a prevalecer mesmo em circunstâncias adversas” (Oliveira, 2004, p. 101).

Os conceitos de expectativa, optimismo, esperança e motivação aparecem frequentemente entrelaçados e confundidos. Barros Oliveira, estabelecendo uma sinonímia entre expectativa e esperança, faz notar que “o efeito Pigmalião (expectativa de realização automática), muito estudado particularmente nas suas implicações terapêuticas e educativas, bem poderia ser chamado efeito esperança” (Oliveira, 2004, p. 117). Snyder (Snyder, 1995) define a esperança como um processo para atingir objectivos ao mesmo tempo que é acompanhado pela motivação para actuar nesse sentido, logo, introduzindo a ideia de motivação à de esperança. Analisando e interpretando várias definições, Oliveira encontra semelhanças entre os conceitos de expectativa, esperança e optimismo, fazendo-os convergir: “Esperança significa uma expectativa quanto ao futuro, mais ou menos justificada, atendendo um acontecimento agradável e favorável. É uma atitude optimista, ao menos do ponto de vista subjectivo” (Oliveira, 2004, p. 119).

Se recuarmos mais no tempo poderemos encontrar, em Kant, uma referência à esperança como elemento essencial da existência humana. Afirma este filósofo que “para compensar a miséria humana, o Céu providenciou em dar ao homem três dons, a saber: o sono, o sorriso, a esperança” (Kant, cit. por Oliveira, 2004, p. 111). E é também de esperança e de crença na capacidade de realização humana que trata a Mensagem do nosso poeta, Fernando Pessoa: “És melhor do que tu; não digas nada: Sê!”

Os crentes de qualquer religião vivem na esperança, ou na expectativa, de atingirem um paraíso como resultado das acções que praticam no presente. Grande parte da vida das pessoas é ocupada em acções que pretendem e acreditam ver realizadas num sonho que alimentam para um futuro próximo ou distante.

A esperança está tão enraizada na natureza humana que a simples crença de que algo se vai realizar poderá despertar emoções, motivações e realização de acções capazes de provocar o cumprimento do que se deseja. Assim, e passando para o campo pedagógico, a expectativa optimista de que se é capaz de ter bons resultados a Matemática, apesar das dificuldades que se sinta, parece ser capaz de gerar motivação para o dispêndio do esforço e trabalho necessários para atingir o sucesso.

Pelo que referimos e reflectimos ao longo deste texto, poderemos afirmar que a teoria das expectativas, na forma como foi formulada por Rosenthal e Jacobson em 1968, não será propriamente objecto de grandes estudos na actualidade. Apesar disso, vários factores moderadores do efeito das expectativas, nos professores e nos alunos,

psicologia da educação. Se considerarmos as expectativas apenas na sua componente positiva, na sua ligação com a esperança e com o optimismo, na sua capacidade de motivar para o esforço e para a obtenção de objectivos, então elas continuam a ser objecto de estudo, de investigação e de discussão, mantendo, portanto, a sua actualidade.