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Factores influenciadores do auto-conceito escolar

Capítulo IV – Apresentação, interpretação e análise dos resultados

5. Auto-conceito e rendimento escolar

5.1. Factores influenciadores do auto-conceito escolar

Baseados na nossa experiência profissional, parece-nos que os sucessos ou insucessos escolares anteriores influenciam os resultados futuros, e a nossa convicção é suportada por outros investigadores (Barros, 1988). Mas como será que isso acontece?

Para tentar perceber o fenómeno, focalizámo-nos nas hipóteses do nosso estudo (ver ponto 2 deste capítulo), tendo, para maior facilidade de interpretação dos dados, formulado concomitantemente as seguintes questões:

Será que o insucesso escolar alimenta a crença na auto-incapacidade de obter sucesso e, por essa via, interfere negativamente na formação do auto-conceito escolar;

Será que a um baixo auto-conceito escolar corresponde um aproveitamento escolar igualmente baixo, sendo que o seu contrário também é válido.

Assim, decidimos começar por analisar os níveis de avaliação obtidos pelos alunos no 9.º ano (quadro 12) e a crença destes na sua capacidade de completar o 10.º ano, a Matemática, sem reprovações (quadro 13).

Quadro 12 – Classificações a Matemática no 9.º ano Classificações Frequência Percentagens

Percentagens válidas Percentagens cumulativas 2 22 9,6 9,6 9,6 3 90 39,1 39,1 48,7 4 72 31,3 31,3 80,0 5 46 20,0 20,0 100,0 Total 230 100,0 100,0

Através duma primeira leitura do quadro 12, repara-se que 48,7% dos alunos obtiveram um dos dois níveis de classificação mais baixos (níveis 2 e 3) e que 51,3% obtiveram os dois níveis mais elevados (níveis 4 e 5).

Quadro 13 – Crença na capacidade de completar a disciplina de Matemática sem reprovações

Respostas Frequência Percentagens

Percentagens válidas Percentagens cumulativas Sim 94 40,8 40,9 40,9 Não 51 22,2 22,2 63,0 Talvez 85 37,0 37,0 100,0 Total 230 100,0 100,0

Quanto à crença na capacidade de completar Matemática em três anos, sem reprovações (quadro 13), verifica-se que 40,8% estão convictos na sua auto-capacidade e que 59,2% ou não acredita (22,2%) ou duvida das suas próprias capacidades (37%).

No sentido de esclarecer a terminologia usada nas linhas seguintes, convém dizer que os alunos tinham sido questionados sobre se eles se consideravam capazes de concluir a disciplina de Matemática em três anos (10.º, 11.º e 12.º anos), dando-lhes a possibilidade de responder “sim”, “não” ou “talvez”. Para a leitura das respostas fornecidas vamos considerar, como indiciadora do auto-conceito escolar a Matemática, a seguinte escala: “sim” para auto-conceito elevado, “não” para auto-conceito muito baixo e “talvez” para auto-conceito baixo. A opção por estas correspondências deve-se ao facto de considerarmos que os alunos que respondem “sim” revelam uma convicção forte relativamente às suas capacidades, enquanto que quem responde “talvez” vacila, mostrando incerteza quanto ao que é capaz, e, quem responde “não” está claramente a indiciar falta absoluta de confiança nas suas próprias capacidades para completar Matemática sem reprovações.

Os resultados do cruzamento entre as classificações no 9.º ano e a crença nas capacidades de conclusão sem reprovações encontram-se expressas no gráfico 2.

Gráfico 2 – Correlação da crença na conclusão da Matemática sem reprovações com as classificações no 9.º ano

Duma leitura atenta do cruzamento entre os níveis de avaliação obtidos pelos alunos no 9.º ano, com as respostas dadas pelos mesmos à questão formulada, obtém-se os seguintes resultados:

Alunos com nível dois no 9.º ano – 77,27% destes alunos não acredita na possibilidade de completar o ensino secundário sem reprovações, a Matemática, e 13,64% duvida da própria capacidade de o fazer dentro do prazo previsto;

Alunos com nível três no 9.º ano – 31,11% destes alunos não acredita ser capaz e 47,78% duvida dessa possibilidade;

Alunos com nível quatro no 9.º ano – 8,33% destes julga-se incapaz de atingir o objectivo proposto e 41,67% tem dúvidas sobre essa capacidade;

Alunos com nível cinco – Nenhum aluno admite a possibilidade de não completar o ensino secundário sem reprovações, ao mesmo tempo que apenas 19,57% põe em dúvida a possibilidade de o conseguir.

Sim Não Talvez Acredita 9,09% 77,27% 13,64% Nível 2 Nível 3 Nível 4 Nível 5 21,11% 31,11% 47,78% 50,00% 8,33% 41,67% 80,43% 19,57%

Perante os resultados apresentados e considerando a escala já explicitada, parece poder concluir-se que quanto mais baixa é a classificação dos alunos no 9.º ano, a Matemática, mais baixo é o auto conceito escolar na mesma disciplina.

Se considerarmos, por um lado, os alunos que revelam um baixo ou muito baixo auto-conceito escolar (em conjunto), e, por outro lado, aqueles que detêm um auto- conceito escolar elevado, chegamos a resultados que não negam a hipótese anterior:

Baixo ou muito baixo auto-conceito escolar – revelados por 90,91% dos alunos que tiveram nível 2, por 78,89% dos que tiveram nível 3, por 50% dos que tiveram nível 4 e por 19,57% dos alunos que tiveram nível 5;

Auto-conceito escolar elevado – revelado por 9,09% dos alunos que conseguiram nível 2, por 21,11% dos que conseguiram nível 3, por 50% dos que chegaram ao nível 4 e por 80,43% dos alunos que atingiram o nível 5.

Logo, pelo menos na amostra seleccionada para efeitos do presente estudo, não só se verifica que quanto pior é o rendimento escolar, a Matemática, no 9.º ano, mais baixo é o auto-conceito escolar do aluno no 10.º ano, como também se verifica o efeito contrário (auto-conceito elevado) conforme os alunos vão subindo na classificação do ano anterior à mesma disciplina.

Para despistar possíveis coincidências nos resultados das correlações efectuadas, aplicámos o teste do Qui-Quadrado (quadro 14). A significância (0,000) que resulta da aplicação do teste permite considerar que os resultados do cruzamento entre as duas variáveis (resultados no 9.º ano e auto-conceito) não se devem ao acaso.

Quadro 14 – Teste de independência do Qui-Quadrado

Value df

Asymp. Sig. (2-sided) Pearson Chi-Square 93,190(a) 6 ,000

Likelihood Ratio 95,027 6 ,000

Linear-by-Linear

Association 22,223 1 ,000

N of Valid Cases

230

a 1 cells (8,3%) have expected count less than 5. The minimum expected count is 4,88.

Então, apesar de admitirmos o concurso de outras variáveis para a verificação do fenómeno (não consideradas no presente estudo), parece confirmar-se a hipótese de que tanto o sucesso como o insucesso escolares alimentam as crenças na capacidade ou na

incapacidade de obter sucessos a Matemática, ao mesmo tempo que interferem na formação do auto-conceito escolar.

Os resultados tendem ainda a confirmar as conclusões de Wylie que defende que os resultados escolares anteriores têm maior impacto no rendimento escolar do que as capacidades (Wylie, 1979, cit. por Simões, 2001, p. 43-45). Na mesma linha de pensamento, pode-se dizer que “quanto mais se reprova maior é a probabilidade de se voltar a reprovar” (Maldonado, 1988, p. 117) e, pelos resultados obtidos no nosso estudo, parece que os alunos interiorizam esses resultados fazendo-os reflectir negativamente na formação do auto-conceito escolar.