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As Aventuras de Sapa Girl Andréia Moro Maranho

Trinta e seis meses, três dias, duas horas, dezoito minutos, e os segundos se passando, eis que finalmente o sonho se realizava.

Depois de aguentar, mau humor de patrão pra pagar a prestação, televisão como diversão, e muita viagem de lotação, chego à conclusão, que nada foi em vão.

Insegura, mas feliz, subi na pequena moto azul com toda minha altura de 1,56m, fiquei apoiada apenas nas pontinhas dos pés, com os quais se fizeram presentes mostrando toda sua importância que muitas vezes não se é notada.

O vento frio de outono não me desanimou, ao contrá- rio, tornou o mundo ao meu redor aconchegante, pois no meu interior um vulcão acabara de entrar em erupção.

Realizada, porém, suando frio, capacete azul pra com- binar, engatei a primeira e prossegui com cara de quem dominava totalmente a situação.

Engano bem - Pensava, enquanto guiava a pequena gran- de máquina pelas ruas movimentadas de Diadema/SP.

Só eu sei, o esforço que fiz para demonstrar tama- nho domínio, no fundo pensava:

Sou uma fraude, mas quem não é? Reflexões à parte, o mundo me esperava.

Na moto envenenada de apenas cem cilindradas, segui com muita habilidade de segunda marcha até minha casa.

A mochila vermelha de viagem, aguardava minha chegada.

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Diversidade e Convivência

Um beijo carinhoso na compreensível mãe, que fez festa ao me ver chegar motorizada, outro em cada um dos também sonhadores irmãos que felizes pela minha conquista se mostraram vitoriosos, elos eternos, um gole rápido de chá de camomila, um aperto no coração, a ba- tida forte no portão, gritos de boa viagem e acenos da janela, ganhei o asfalto danificado pela força do tempo.

Guiada pela intuição, felicidade e pela tensão absur- da que é pilotar a 40 km/h em Sampa em pleno horário de pico, nos corredores apertados, deixados pelos carros, chego finalmente, sem nenhum arranhão aparente, cin- qüenta e sete minutos depois em mais um destino, rua da Consolação.

A minha espera, a mais bela das sapas, a minha. Depois da dificuldade notória para retirar o capace- te comprado com a numeração errada que não se cansa- va de apertar minhas bochechas e tornar um pouco inco- modo um dos meus maiores momentos, arrumei os cabelos, e ao levantar os olhos tranqüilizei meu coração ao avistar minha Japa-sapa por inteira.

Com seus olhos pequenos, porém com um sorriso enorme, aproximou-se, e na maior espontaneidade bei- jou-me na boca de língua.

Beijo quente, ardente, que me encheu de tesão, avermelhando em seguida meu rosto, e esquentando meu corpo.

No ponto de ônibus do outro lado da avenida, fize- ram festa os adolescentes que lá estavam com seus típi- cos uniformes escolares, em tons de azul e branco, nada originais, ao ver a cena do beijo, uns gritavam: sapatão,

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No tom da palavra

ou apenas assobiavam, outros insistiam no: mulher com mulher da jacaré e com tal algazarra, outros olhares fo- ram também despertados e lançados em nossa direção.

Os carros que passavam pela avenida também fazi- am questão de se manifestar, quanto ao ato visto ainda ao entardecer, verdadeira afronta diziam uns, pouca ver- gonha, gritavam outros.

Sem manifestar importância, Japa-sapa com sua rou- pa preta de couro paraguaio e sua bota Luiz XV compra- da em um, dos muitos brechós espalhados pela cidade, subiu na garupa apertando-me pela cintura e empinando a bundinha ajeitou-se, e coaxou em meus ouvidos, frases gostosas, maliciosas, enlouquecedoras.

Senti-me a tal, delírios.

No cavalo alado de duas rodas partimos em direção a lua de prata que graciosamente nos aguardava envolta, por estrelas cintilantes, seguimos então, pela rodovia dos Imigrantes e logo avistamos a placa de sinalização do lado direito da pista que indicava: Baixada Santista.

Praia Grande, nosso destino, parada obrigatória antes da descida no posto de gasolina estrategicamente construído antes do pedágio para um xixizinho, tudo pronto para uma nova partida,continuamos nossa viagem.

A satisfação sentida ao ver no velocímetro 80 km/h marcado, foi algo inexplicável, fez lembrar o beijo que roubei da professora de história na biblioteca, que per- plexa com a situação vivenciada, apenas olhava-me com seus olhos de azeitona tentando se esconder atrás de seus óculos redondos de armação preta.

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Diversidade e Convivência

De volta ao presente, o cavalo alado voava alto, com ele, novos sonhos.

Na saída de um túnel para o outro, o vento trazia pelas frestas do nada amigo capacete o ar salgado do mar, estávamos próximas.

No quiosque combinado, a sapaiada, (é assim que na gíria de alguns grupos, se denominam as meninas que gostam de meninas “sapas”), nos aguardavam com seus hormônios enlouquecidos pela noite ofertada.

Enquanto umas se deixavam seduzir pelas loiras ge- ladas que eram servidas as dúzias, outras caçavam com os olhos, aguardando o melhor momento de se aproxi- mar de suas presas, e devorá-las.

Enquanto o brejo ia lotando, eu e minha Japa-sapa, sentadas na areia fofa e quente em frente ao quiosque, brindamos felizes com suco de laranja à conquista da li- berdade proporcionada pela moto de cem cilindradas.

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Estudante do BI de Artes, desenvolve trabalhos nas áreas de literatura, música e artes visuais. Participa de projeto de pesquisa com o qual busca elaborar um roteiro cênico sobre a vida e obra de Milton Santos com a orientação da Prof.ª Elisa Mendes. Desde 2007, desenvolve trabalhos artísticos com foco na temática: homoafetividade feminina, dentre esses trabalhos, esta a exposição: Amor no Feminino - Ga- leria Jayme Figura – Teatro Gamboa, realizada no período de: 01/03/2008 à 02/04/2008, posterior- mente seguiu para o Instituto Anísio Teixeira (IAT) parte integrante da I Conferência Estadual GLBT de

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No tom da palavra

A arte de conviver