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Expurgos para o mundo Efson Lima

Você, leitor, estará diante de uma cidade interiorana. Mas não tão pacata como imagina. Nem tão pequena como muitos associam. Confesso que a cidade perdeu toda a calma com a chegada de milhares de trabalhadores ru- rais que passaram a morar aqui após a crise do cacau. Eram peões que ficavam a maior parte do tempo dentro das roças. Colhiam bravamente cabaça por cabaça do fruto e retiravam com as mãos caroço por caroço. Era um tem- po pródigo para a região.

Na safra temporã que passa exatamente pelo outono tro- pical, os fazendeiros complementavam os lucros e colhiam vaidades e poderio. Os trabalhadores ganhavam um tostãozinho. Estes enfrentavam as cobras e as fortes chuvas do período com uma boa e velha pinga. A cachaça é tão forte que queima tudo por dentro. Serve para encorajar a jornada. Tudo isso passou! O fruto de ouro desapareceu. A vassoura de bruxa chegou colocando medo. Impondo res- peito! A praga empurrou como enxurrada muitas pesso- as das fazendas de cacau e das cidadezinhas para Ilhéus, Itabuna. Estas cidades incharam de gente. Gente simples das roças de cacau. Pessoas que mal conseguem balbuciar algumas palavras. Gente que luta, agora, para vender seus picolés nas praias do verão ilheenses. Gente que trabalha na Central de Abastecimento. Gente que retira carangue- jo das profundezas da lama de mangue para seu sustento diário. Gente que os vende.

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Essa gente foi cultivada na brabice. Homem é homem e mulher tem que ser de respeito. Não existe meio termo. Ainda é o povo do sim, sim e não, não! Os valores fami- liares são preservados como se preserva Deus.

Seu Zé Galindo quando viu a situação arruinar ficou preocupado. Esperava pelo pior e chegou a má notícia que tanto preocupava: o patrão percebeu a produção de- clinar, convocou seu Zé e deu o aviso de despedida.

Seu Zé, então, reuniu a família e partiu das bandas de Itaúna para Ilhéus. Era o inverno de 1987.

Convido-o para apresentar Dona Chiquinha, esposa de seu Zé Galindo, velha frequentadora dos sermões do Padre Filon. Aos domingos, logo cedo, acordava os filhos para arrumar e levá-los à capela da fazenda. Lá ouvia os mais duros sermões. O padre defendia a família. Para ele era uma instituição perfeita. E recomendava sempre que as mães tomassem cuidadosamente conta dos filhos, es- pecialmente das filhas mulheres. Dona Chiquinha, certa vez, reclamou do desleixo de Dona Carmélia com sua fi- lha de 16 anos. Para ela, quem já viu moça ir para escola sozinha. Escola era coisa que ensinava pouca coisa boa. Deixava as moças experientes. Dona Chiquinha ainda contava para sua filha que era o anjo que trazia pela noi- te o bebê para a mulher.

Os tempos mudaram. E ela teve que ir com Seu Zé Galindo para a periferia de Ilhéus. Foram morar em uma favela. Lá, observa que não somente eles estavam naque- la situação. Muita gente tinha saído das mais distintas cidades. Muita gente tinha ido de Aurelino Leal, Uruçuca,

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Una para Ilhéus. A vassoura de bruxa havia aplicado um duro golpe nos valores daquela gente. Era gente cor- rendo atrás de trabalho. Atrás de comida! Na comuni- dade, Dona Chiquinha procurou logo ir para igreja. En- controu uma líder comunitária. Por sinal, esta havia morado um bom tempo no Rio de Janeiro. Lá, estudou e entrou em contato com os mais diversos pensamentos. Na igreja sempre caminhou ao lado da ala progressista. Confessava-se quase que diariamente para o padre. Di- vergia muito das opiniões do vigário. Ficava com medo de morrer e ir para o inferno. Sabia que teria que passar pelo Fogo do Purgatório. Protestava muito dos sermões. Só não mudou de crença porque não queria abandonar as irmãs, não queria deixar de rezar para São Jorge. E gosta- va de frequentar o Terreiro de Odé. E momento outros gostava de falar com os mortos. Era polirreligiosa. E indo para a Lei dos Crentes tinha que ceder tudo isso. Ela amava cantar no coral das senhoras. Era uma senhora avança- da. Já havia defendido várias mulheres solteiras. Nunca se casou! Isso causava certo mal estar, mas a comunida- de nunca soube nada que abalasse a idoneidade moral. Algumas pessoas perguntavam os porquês. Outras apressadinhas e quase donas da verdade respondiam os porquês.

Assim que a família chegou a Ilhéus, Dona Chiquinha aplicou um sermão nos filhos. Alertou para os perigos da violência e determinou que sua filha só poderia sair com ela ou acompanhada do irmão caçula. Era uma velha con- servadora, mas atenta como águia.

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A filha ao descer do caminhão com a bagagem depa- rou com uma figura engraçadinha. Foi Jorge, um moleque vivido. Passava sempre pela porta de bicicleta. Não que- ria perder Flora. Claro, quem ficasse com a novata da rua! Desse os primeiros beijos. Era mais uma que ia para a contabilidade. O passar constante do menino por sua porta é coisa de gente treiteira. Inferiu Dona Chiquinha. E isso, não posso dizer que ela não sabe. Ela conhece muito bem! E como! Aí, tratou logo de falar para Seu Zé Galindo. Ele nem esperou a mulher terminar de falar. Apanhou Flora e desceu o rabo de boi nas costas da moça. Fez vári- as marcas. Disse que estava batendo para prevenir. Era um aviso. A filha tinha que casar virgem.

No domingo, Dona Chiquinha foi à igreja e ao sair falou das constantes voltas do rapaz em frente da casa para a líder comunitária. Experiente! Ela rapidamente perguntou se Dona Chiquinha já havia falado de gravidez e do uso de camisinha. Dona Chiquinha quase foi ao in- ferno, voltou e suspirou profundamente e disse que isso é coisa do diabo. A sua filha não nasceu para essa vida. Moça é moça. Além do mais a camisinha era coisa para homens desonestos e mulheres safadas. Ela só conheceu um homem até aquele dia. E mulher só pode amar ho- mem depois de casada para ter seus filhos.

A líder retrucou dizendo que ela não estava mais em Itaúna. E naquela terra as coisas estavam mudando rapi- damente. Os jornais já falam de uma doença mortal. E os rapazes já não pensavam mais em se casar. As meninas estão ficando grávidas mais cedo e muitas morando nas

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casas dos pais. Dona Chiquinha saiu do salto, protestou e disse que a líder estava possuída. Era uma mulher que não tinha marido e que ela, Dona Chiquinha – mulher de respeito estava correndo risco de ser difamada pelas ou- tras mulheres. Rapidamente se benzeu. Partiu em dire- ção a sua casa e começou a rezar o terço.

Flora continuava a despertar a atenção de Jorge. Flo- ra já não era tão menina assim. Já tinha completado os seus 16 anos. Sua mãe havia se casado aos 15 anos. Ela pensava que estava ficando para titia. Tenho que confes- sar para vocês que ela ao ver Jorge se encantou pelo ra- paz. Era um jovem bonito mesmo. Dona Chiquinha vaci- lou e Jô moço entregou um bilhete para Flora. Marcava um encontro no sítiozinho. Ela aproveitou o vacilo nova- mente da mãe e foi ao encontro de Jorge.

Lá, o espírito de menina de roça foi embrulhado pelo espírito do jovem que soube lançar as palavras. Conven- cer uma menina virgem. Flora não aguentou, foi do beijo ao bom sexo no pé. Os cacauais sempre testemunharam fatos pitorescos na região. Cada um mais suculento. Com bastante mel. Flora não iria aguentar mesmo aquele fres- cor. Jorge beijava muito. Lançava toda a saliva no pesco- ço dela. Já escorria como mel.

Jorge era um menino vivido. Estava feliz. Iria falar para seus amigos a proeza. Os colegas não iriam acredi- tar e não acreditaram mesmo. De primeira, quem já se viu? Questionou o famoso namorador da área.

Dois meses depois, movimentos estranhos são perce- bidos por Flora em sua barriga. Ela começa a ficar deses-

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perada. Observa que o sangue que desce todo mês, no anterior não havia descido. Fica preocupada. Já havia percebido que o bebê não era enviado como contava sua mãe. Pressentia que alguma coisa estava errada.

E errado para sua mãe estava. Dona Chiquinha perce- beu o volume na barriga. Flora não conseguia mais esconder o crescimento. Ela amarrava com um pedaço de pano a bar- riga. Imaginava que o truque ia passar despercebido aos olhos de sua mãe e quando nascer o menino. Iria deixar no sítio. Dona Chiquinha certo dia, angustiada, chamou Flo- ra no quarto e pediu para ela retirar toda a roupa. Flora ficou nervosa. Começou a chorar! Disse que não iria fa- zer aquilo. Dona Chiquinha partiu para cima e retirou à força. Percebeu a barriga toda redondinha. Não aguen- tou. Deu um grito que a rua toda ouviu.

Gritou ao vento como ficaria a reputação dela frente ao seu pai e a sociedade. Como ela iria visitar seus paren- tes em Itaúna. Como ela iria encarar a líder comunitária. Como ela suportaria as vozes de Zé Galindo gritando aos seus ouvidos a educação oferecida. Certamente, iria dizer que ao chegar à cidade havia perdido a vergonha.

Não sabia o que fazer. Abortar. Pensou, ela. E os ensinamentos do Padre Filon? Não! Não podia fazer aqui- lo. Aceitar uma filha puta dentro de casa. Não! É uma ofensa à família. Disse: – Menina arruma as coisas e sai de dentro de minha casa. Comportava-se agora como um homem. Tinha que mostrar força.

Seu Zé chega e percebe que está muito estranho. Per- gunta e Dona Chiquinha responde – estou mandando Flo- ra pra rua.

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– Por quê?

Sua mulher disse: – Olha que essa sujeita aprontou! Me colocou na lama.

– O que foi mulher?

Dona Chiquinha responde: – Está grávida! Seu Zé galindo se desespera: – O quê? Como isso? Profundas palavras são pronunciadas por Zé Galindo: – E você Chiquinha? Chiquinha do inferno! Não aprendeu criar filho diaba velha!

– Sai da minha frente. Ponha essa mocinha porta fora. O mundo que acolhe mulher safada. Lá ele oferece casa. É uma grande casa! Tem de tudo!

Seu Zé tentou filosofar, mas se via que o ódio estava no rosto dele. Ele sabia que não havia errado na educa- ção. Não é o papel de homem educar moças. Ele apren- deu que os homens aprendem com os homens. E as mu- lheres com as mulheres.

Digo a vocês que a líder comunitária ao perceber aque- les gritos, correu para a porta e ficou observando. Matutou várias possibilidades. Não imaginava a da gravidez, ape- sar de já ter visto histórias parecidas no Rio de Janeiro e ali mesmo também. Observou Flora sair à porta com uma trouxa na mão. Tinha poucas roupas. E o choro no ros- to. Flora não teve tempo nem de conversar com Jorge, não teve tempo também de fazer a segunda noite de amor. A líder comunitária correu e recomendou a Flora um abrigo para mulheres. Para lá que Flora partiu.

Hoje, tenho algumas notícias. Darei em partes: Flora tornou-se mãe. O rapaz está terminando a Faculdade de

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Medicina. Jorge reencontrou Flora em Salvador. E estão juntos. Dona Chiquinha tem 73 anos, continua nas pas- torais da igreja. Agora alerta aos jovens para a necessida- de do uso de camisinha. Antes era só a gravidez e agora, alerta-os dos riscos da Aids! É uma doutora nesse assun- to. Mas continua a defender a família como elemento a ser preservado. Antes que esqueça, ela mudou tanto que é considerada uma mulher avançada pelas colegas.

Seu Zé não suportou a vergonha e a tristeza de ter perdido a filha para o mundo e se suicidou na mesma noite. O espírito circula nas fazendas de cacau. Quem se suicida, não entra no céu. Diziam os velhos mais sábios da região, nas longas noites depois do trabalho. Pensei o seguinte: os pais sempre falam com os filhos certas coi- sas, mas lá no fundo, eles querem mesmo é o melhor para os seus pupilinhos.

A líder comunitária só anda viajando aos 80 anos. A cidade de Ilhéus mudou muito. Os fazendeiros querem esquecer-se do dia que tiveram dinheiro e no outro que perderam tudo. Eles não sabem se foi sonho ou pesadelo.

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Graduando em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Federal da Bahia. Membro do Centro de Estudos e Pesquisas Jurídicas (CEPEJ) e do Servi- ço de Apoio Jurídico (SAJU) e morador da Residên- cia Universitária II da UFBA. Nasceu em Itapé (BA) e aos 11 anos, foi morar em Ilhéus (BA)

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As Aventuras de Sapa Girl