Capítulo 1 A Sociologia e a desigualdade de renda
1.5. As classes sociais e as desigualdades interpessoais de renda
Por muito tempo, a falta de centralidade dos rendimentos na Sociologia decorreu, antes de mais nada, da relativa irrelevância da distribuição de rendimentos pessoais frente àquilo que parecia ser a clivagem fundamental de qualquer sociedade: a estrutura de classes. Depois de Marx e seu impacto, não houve quem estivesse isento de prestar contas ao conceito de classe.
A desigualdade de interesse não seria entre indivíduos, mas aquela entre capital e trabalho, chamada desigualdade funcional da renda. A configuração antagônica e imensa assimetria de poderes entre essas partes configuraria o cenário de exploração do lado mais fraco, o dos trabalhadores, pelo mais forte, o dos empregadores. Nesse jogo estrutural, a força e o bem-estar dos exploradores dependeriam diretamente da privação e exclusão dos explorados com respeito aos recursos produtivos e, ao cabo, da apropriação desproporcional dos frutos de seus trabalhos (cf. WRIGHT, 2015, p. 38). Classe pode ser compreendida como um conjunto de indivíduos localizados nas mesmas posições nas relações sociais de produção – estruturalmente dotados das mesmas prerrogativas, na acepção aqui adotada31. Neste caso, o controle do capital é o direito crucial que define as
fronteiras entre os grupos. Nessa agenda ambiciosa, o estudo das classes é muito mais do que um estudo das desigualdades. As preocupações são, entre outras coisas, com as
31 Erik Olin Wright tem apresenta uma leitura que converge com a aqui apresenta sobre desigualdades sociais,
porém baseando-se na análise de classes marxista. Afirma a desigualdade pode ser entendida em termos de “diferentes tipos de direitos e poderes sobre os recursos e resultados de sua utilização” (2015, p. 24) – o que aqui chamaríamos de prerrogativas. Em seguida, acrescenta que “direitos e poderes sobre os recursos são atributos das
relações sociais, não descrições propriamente do relacionamento das pessoas com as coisas: ter direitos e poderes quanto à terra, por exemplo, define os relacionamento sociais de uma pessoa com outras quanto ao uso da terra e a apropriação dos frutos do seu uso produtivo” (2015, p. 24–25). Essa é exatamente a perspectiva relacional que julgo fundamental para o conceito
de desigualdades sociais. Do ponto de vista sociológico, faz pouco sentido pensar na distribuição de recursos “em si”, como se algo da natureza se convertesse em fonte de valor independentemente da consideração social. Desigualdades sociais são, pois, assimetrias relacionais, definidas em termos de prerrogativas (“direitos e poderes”, na acepção de Wright).
mudanças históricas; com a emergência, difusão e refração do modelo capitalista de produção; com o desenvolvimento de certos tipos de relação de produção e, por fim, com a formação efetiva das coletividades. Desigualdades entre trabalhadores não parecem objeto relevante.
Mas as classes, enquanto conceito, sofreram diversos golpes e reformulações dentro da própria Sociologia. Uma das primeiras e talvez mais importantes críticas, empunhadas por Max Weber, consistiu em deslocar o fundamento conceitual das relações de produção para a situação no mercado (WEBER, 1999, 2000). Esse movimento retirava a polarização binária do primeiro plano e preenchia as relações de classe com figuras de estatuto intermediário. Além disso, a distinção entre classe e partido vinha exatamente desentrelaçar a
situação de classe da necessidade da ação coletiva. As classes não engendrariam
necessariamente ação coletiva. Os agentes políticos coletivos são os partidos e suas relações com as classes não são mecânicas e pré-determinadas.
A evolução das formas de propriedade e a emergência de uma série de classes intermediárias no interior do próprio sistema de produção pareceram também contradizer a expectativa sobre o avanço da polarização. De um lado, o advento da propriedade por ações e da financeirização tornava crescentemente difusa a oposição entre capitalistas e trabalhadores (DAHRENDORF, 1959). De outro, observava-se grande desenvolvimento das posições gerenciais – não proprietárias, porém munidas de autoridade burocrática e executiva para controlar as relações de produção. Partindo de um quadro completamente diferente, a História Social – principalmente inglesa – mostrava cada vez mais as diversidades e a heterogeneidade das classes. E assim, tornava-se cada vez menos sustentável a ideia de que a desigualdade de renda relevante era apenas a desigualdade funcional e que poderíamos desconsiderar toda diferenciação social emergente.
No campo de estudos sobre a estratificação social, o problema de pesquisa fundamental, de início, foi a mobilidade (e.g. SOROKIN, 1998; LIPSET; BENDIX, 1959);
concebida como mudança de classes ou estratos. De forma geral, a renda poderia até ser considerada como consequência ou produto de uma estrutura fundada na posição de classe. Seria algo a ser explicado pela hierarquia social, e não dela um fator explicativo. Esse seria um dos fatores a justificar a ausência de um programa de pesquisa específico sobre desigualdades de renda (cf. DIPRETE, 2007).
É importante pontuar, no entanto, que, na Estratificação Social, principalmente aquela desenvolvida nos Estados Unidos, absorveu-se os desdobramentos europeus de forma refratada e com algum grau de independência. Os conceitos de classe, estrato, posição e status social tornaram-se mais abrangentes, multidimensionais e menos determinísticos32. Essa abertura possibilitou que fossem concedidos graus de liberdade à
renda, para que pudesse variar de forma relativamente independente de outras características consideradas centrais no sistema de estratificação. Nesse sentido, foram fundamentais os estudos sobre inconsistência de status, avançados primeiramente por Gerard Lenski (1954). Essa agenda, contudo, não fomentou o desenvolvimento de um campo de estudos especializado sobre desigualdades de renda tout court.
O argumento em prol de um enfoque específico na renda funda-se no fato de que há nuanças e aspectos das hierarquias sociais que foram sistematicamente desconsiderados. Há uma parcela expressiva da variância da renda que permanece mesmo quando comparamos indivíduos que, a princípio, ocupariam as mesmas posições estruturais. Como Weeden et al (2007) e Myles (2003) argumentam, nenhuma das formas típicas de operacionalizar os conceitos de classe ou de estrato (nem as escalas contínuas, nem categorias discretas) dão a antever de modo simples e direto o comportamento da desigualdade de renda – nem renda do trabalho, à qual diretamente se refeririam, tampouco
32 Críticos afirmação que o conceito de “classe” nessa tradição se tornará cada vez mais apenas descritivo e
nominalista; confundindo-se com uma ideia vaga de “camadas sociais”. A partir do final dos 1970 até os anos 2000 um conjunto de releituras do conceito de classe se desenvolverá dentro do campo da Estratificação, em diálogo com seus críticos; na expectativa de estabelecer uma agenda “forte” – isto é, explicativa, não apenas descritiva – de análise de classe (WRIGHT, 1997; GRUSKY; SØRENSEN, 1998; SANTOS, 2002; GOLDTHORPE, 2007; GRUSKY; GALESCU, 2005).
a renda individual total, que considera as demais fontes e muito menos ainda a renda domiciliar per capita disponível.
O estudo da renda não coloca as classes em questão. Classes são uma forma de pensar fechamentos e prerrogativas diferenciais. Aliás, diversos esquemas de classe formulam-se segundo a gramática das prerrogativas e do fechamento social (PARKIN, 1979; GRUSKY; SØRENSEN, 1998; WEEDEN, 2002); ainda que nem sempre nesses exatos termos (e.g. WRIGHT, 2015). A desigualdade de rendimentos pode ser em parte sintoma do sistema de relações de classe. Mas assumir que nele se encerram todos os determinantes é conceitualmente simplificador e empiricamente implausível.