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Capítulo 2 Trajetórias da desigualdade de renda: curvas e embaraços

2.3. Nosso próprio U-invertido?

2.3.5. Onde estão os sociólogos?

A desigualdade de rendimentos pessoais se tornou objeto de estudo sistemático de um grupo de pesquisadores brasileiros interessados especificamente no tema da estratificação social a partir da década de 2000. Embora tenha figurado como tema de investigação eventual, não havia se formado ainda um campo coeso e em diálogo.

Um desses primeiros estudos é Estrutura de posições de classe no Brasil: mapeamento,

mudanças e efeitos na renda, de José Alcides Figueiredo Santos (2002). Nesse trabalho, o

propósito principal é construir e testar a validade de um esquema de classes ocupacionais do tipo neomarxista, como o de Erik Olin Wright. Deste modo, a renda é explicada pela estrutura de classes. Em parte, essa estratégia de abordagem deriva da herança dos estudos de mobilidade social; mas o próprio Wright já havia feito diversas incursões pioneiras e sistemáticas no tema da desigualdade de renda interpessoal. Santos (2002) confirma a utilidade de seu esquema operacional e o testa contra “variáveis de capital humano” – ou seja, sua explicação sofisticada do ponto de vista da estrutura de classes ainda manteve intacta a leitura sobre os mecanismos de atuação da educação, ao ponto de, em seus modelos empíricos, denominar denominá-la capital humano. Ainda que apresente, ao final, algumas possibilidades alternativas de interpretação (Teoria da Fila, Teoria da Reprodução etc.), não lhes dá as mesmas consequências analíticas. Aqui já temos uma das primeiras mostras desta característica que estará muito presente nos estudos posteriores desse nascente subcampo.

A explicação da renda por variáveis ocupacionais se tornará, pouco a pouco, a característica principal desses novos estudos (CARVALHAES, 2008; CARVALHAES et al., 2014; CARVALHAES; SOUZA, 2014; SALATA, 2016; BARBOSA; PRATES, 2016; SANTOS, 2014, 2015; SANTOS; RIBEIRO, 2016). Ao longo das décadas de 2000 e 2010, a referência aos economistas contemporâneos supracitados tornou-se incontornável, tendo em vista o grande impacto e o volume que crescia exponencialmente (ao menos, por um

instante). Mas, para além do fenômeno da queda observada da desigualdade de renda, era clara a influência da produção sociológica americana relativamente recente, que estimulava o estudo do tema (e.g. MORRIS; WESTERN, 1999; WEEDEN, 2002; WEEDEN et al., 2007; DIPRETE, 2007).

Várias das conclusões dessa nova produção convergirão na direção de identificar a estrutura de classes e ocupacional como importante determinante dos patamares de desigualdade e a relevância da educação na explicação das dinâmicas dos indicadores. Souza e Carvalhaes (2014) expressam bem uma característica comum aos trabalhos da época:

No que diz respeito especificamente à queda da desigualdade, uma série de explicações possíveis já foram levantadas, com destaque para aquelas influenciadas pelas características da oferta de trabalho. Nessa linha, o argumento principal ancora-se nas mudanças que aumentaram o nível de escolaridade e deixaram a força de trabalho mais homogênea em termos educacionais, o que acabou por diminuir os altos retornos para os trabalhadores mais qualificados. Sem desconsiderar esse tipo de explicação, o texto procurou investigar a questão a partir de um ponto de vista tipicamente sociológico, qual seja, o da estrutura de classes. Em particular, tratou-se de tentar entender em que medida houve mudanças em outros aspectos estruturais da desigualdade, para além da educação (SOUZA; CARVALHAES, 2014, p. 122 - grifos meus).

Sem negar que a redução da desigualdade associada à educação tivesse operado por meio da “redução dos retornos”, passam à análise de classe –como se nela se localizasse a contribuição sociológica. Ao fim, quando constatam que “as mudanças educacionais

contribuíram de forma muito mais relevante para a queda na desigualdade do que as mudanças na estrutura de classes” (SOUZA; CARVALHAES, 2014, p. 123), já haviam aberto espaço para a

interpretação desses efeitos sob os auspícios do “Efeito-Langoni”:

[...] os diferenciais salariais associados à desigualdade de escolaridade vêm sendo apontados há décadas como um componente estruturante da desigualdade brasileira, tanto pela literatura econômica quanto pela sociológica. O argumento é bem conhecido: dada a alta desigualdade educacional entre a população brasileira, haveria uma remuneração relativamente desproporcional para as credenciais de educação no mercado de trabalho, devido à escassez relativa de trabalhadores mais educados (Langoni, 1973; Ferreira, 2000; Barbosa Filho e Pessoa, 2008; Souza, Ribeiro e Carvalhaes, 2010). Nesse sentido, os avanços educacionais nas últimas duas décadas parecem ter ensejado um processo de erosão dessas

“rendas” [rents] (Sørensen, 2000), aumentando a competição entre os estratos de maior escolaridade. (SOUZA; CARVALHAES, 2014, p. 121).

A menção à Sørensen (2000) não é nada casual. O sociólogo dinamarquês radicado nos Estados Unidos havia elaborado uma sofisticada explicação para as desigualdades de renda baseada em mecanismos de fechamento ocupacional, monopólios de mercado e extração de rents (SØRENSEN, 1994, 2000, 2015). Como vimos, rents seriam uma espécie de “rendimentos em excesso”, em comparação ao preço de equilíbrio do mercado. Sørensen concede que, subjacente às dinâmicas institucionais, poderia haver um mercado razoavelmente parecido àquele do modelo neoclássico – mas não supunha que pudesse predominar: estratégias intencionais de exclusão e manutenção de monopólios com respeito a certas prerrogativas caracterizariam o estado das desigualdades (esse aliás, é o seu conceito de classe). O “equilíbrio”, por assim dizer, operava em sua teoria quase como uma hipótese nula, contra qual podia avaliar a magnitude dos rents. Mas não é esse o uso do conceito de rent que aparentemente fizeram Souza e Carvalhaes (2014) – o que parece estar em jogo, ao menos no trecho acima reproduzido, é apenas a força do ajuste entre oferta e procura. A menção a Langoni é uma pista.

É mais do que importante ressaltar que o exemplo tomado de Souza e Carvalhaes (2014) facilmente seria encontradiço noutros trabalhos do período. A educação não foi reinterpretada pelos sociólogos – o que em parte parece se dever ao diálogo próximo com os economistas, em parte à influência da estratificação social americana. E mesmo em trabalhos onde há clara rejeição à hipótese da SBTC, como em Carvalhaes et al (2014) e Barbosa e Prates (2016), a educação ainda é lida como capital humano nos moldes tradicionais – e as classes ocupacionais assumem o papel de “variável sociológica”.